Home Notícias Geral Rosana Sebold, Socióloga e Sérgio Baggio, Arquiteto

Rosana Sebold, Socióloga e Sérgio Baggio, Arquiteto

“As pessoas apresentam as suas necessidades e nós vamos ao local para dar orientação, para conversar, para ver como é que a gente pode estar contribuindo para que não seja simplesmente uma obra física” (Rosana Sebold)

“A prioridade é a integração do projeto Cidade Caminhável a um projeto social, voltado para a população, proporcionando qualidade de vida!” (Rosana Sebold)

“Os pilares do urbanismo caminhável são a segurança e o conforto” (Sérgio Baggio)

“O automóvel é visto como um equipamento. Um equipamento que é necessário, obviamente, dentro de um conceito de economia moderna, tal, mas que a gente tem que privilegiar o ser humano.” (Sérgio Baggio)

Eles não fazem alarde nem propõem uma ação radical ou megalomaníaca. Mas estão mudando, aos poucos, a cara de Balneário Camboriú e em favor das pessoas. A socióloga Rosana Sebold e o arquiteto urbanista Sérgio Baggio, servidores efetivos da prefeitura, são os executores do projeto Cidade Caminhável, uma intervenção em calçadas e passeios públicos que prioriza o pedestre e, na prática, melhora o caminhar na cidade. Neste Entrevistão, Rosana e Sérgio explicam o conceito do chamado ‘urbanismo caminhável’ e dão detalhes sobre o projeto que já está sendo colocado em prática. Os cliques são da jornalista Franciele Marcon.

DIARINHO – Cidade Caminhável, quais são os conceitos principais dessa ideia?
Sérgio Baggio – Nós começamos a desenvolver esse projeto em 2017, dentro do conceito mais amplo que é o ‘urbanismo caminhar’. O nome do projeto é Cidade Caminhável, mas o conceito maior é o de ‘urbanismo caminhável’. E esse conceito tá sendo discutido, começou a ser discutido, há muito pouco tempo. Começou a ser discutido numa conferência em Melbourne [Austrália], em 2006, a Walk 21, em que só se discutia essa questão do pedestre, dos modais de deslocamentos. E a partir daí se começou a definir parâmetros técnicos para poder trabalhar esse conceito no ambiente urbano. Começamos a desenvolver esse projeto e encontramos esses conceitos definidos no ‘walkability’, que é “caminhabilidade”. São nove parâmetros a serem avaliados em determinado espaço urbano. [Quais seriam?] Os principais são a atratividade, o conforto e a segurança. Os pilares principais do urbanismo caminhável são a segurança e o conforto. São os dois. A segurança com iluminação no ambiente urbano, com a questão do monitoramento, que hoje em dia com as novas tecnologias isso pode ser muito implementado. E na questão do conforto, o que você tem no ambiente urbano: aparência do ambiente como um todo, o próprio mobiliário urbano e o conforte técnico-acústico. Então, dentro desses conceitos é que a gente tenta avaliar o espaço urbano. O conceito do urbanismo ele preconiza o seguinte, que você defina um perímetro inicial de estudo, geralmente na área central do município, e faça a avaliação desses critérios. [Seria um piloto?] É um piloto. Um projeto piloto que foi ao longo de 2017 sendo construído por mim e pela Rosana Sebold e que agora a gente começa a implantar. Porque é um projeto que inicia, mas não termina. Não tem prazo de término. Porque o ambiente urbano tá sempre se renovando e tá sempre se ampliando. Então, nesse sentido, é que esse projeto faz parte de um novo conceito de planejamento do espaço urbano, voltado para o pedestre, para o ciclista. E o automóvel é visto como um equipamento. Um equipamento que é necessário, obviamente, dentro de um conceito de economia moderna, mas que a gente tem que privilegiar o ser humano.

DIARINHO – Como nasceu essa ideia, de dois servidores efetivos dedicarem tempo para estudar, criar e apresentar o projeto Cidade Caminhável?
Rosana Sebold – Este projeto tá dentro de um plano de governo, dessa atual administração, onde o nosso secretário, o engenheiro Edson Kratz, nos delegou a tarefa de acharmos uma forma de melhorar as condições de Balneário Camboriú para a população. Então nós saímos a campo, fizemos observações. Havia a necessidade de nós termos um ponto de partida. Seria um espaço ideal para que depois nós pudéssemos estar avaliando as demais áreas. Diante desse fato, nós passamos alguns dias observando um espaço pequeno, que é o da rua 1200 [centro]. Então, assim, ele se tornou quase perfeito para que nós, dali, partíssemos para estender ao município alguma coisa que seja mais voltada mesmo para a população. Mais atraente. Uma integração social, voltada para a população de Balneário Camboriú [Por que a escolha da rua 1200 como “paciente zero” para se entender o problema?] Não seria problema, não. E sim um modelo. Ali é o modelo para nós tentarmos ao máximo chegar naquela situação de conforto.
Sérgio – É o calçadão do lado do edifício Dalcelis. A gente parametrizou. Seria um parâmetro de qualidade do entorno, de qualidade do ambiente urbano, para que a gente pudesse partir de uma realidade, de um conceito real de ambiente urbano já implantado em Balneário Camboriú e começar a mensurar os demais ambientes ou ruas ou perímetros que a gente começou a estudar em função desta qualidade ambiental encontrada.

DIARINHO – Vocês partiram então de uma solução e não de um problema, é isso?
Sérgio – Justamente. Uma solução que foi feita na urbanização de um trecho da rua 1200 e os parâmetros do projeto Cidade Caminhável são avaliados em função desse limite que seria a nota 5 nesse espaço todo.
Rosana – A metodologia utilizada tem essa finalidade. Nós partimos de avaliações dos nove itens. E nós tínhamos que ter uma referência no nosso município. Não adianta uma outra realidade. E pra quê? Pra que a gente pudesse avaliar os outros. Tanto é que nós temos ruas com nota, hoje, de 1,33. Muito baixa para um total de 5. Então é muito interessante que a gente saiba que o nosso 5, quase 5, está ali. Está dentro da nossa cidade. Mas, se nós chegarmos de um 1,33 e passarmos para 3 ou para 2,80, tá ótimo! A prioridade é essa integração do projeto Cidade Caminhável como um projeto social, voltado para a população, proporcionando o quê? Qualidade de vida!
Sérgio – São intervenções de caráter urgente, imediato, e outras também que podem ser executadas de médio e longo prazo. E a partir daí começamos a trabalhar a questão da viabilização. A princípio, a gente conseguiu executar algumas intervenções. Apesar do projeto ser relativamente recente, novo. E fizemos através de parcerias público-privadas. Então o município geralmente entra com a parte de drenagem, entra com a parte de paisagismo. As questões mais urgentes do imóvel e nas intervenções seriam o quê? A questão da vegetação sobre passeio público, onde o passeio, que às vezes tem dois metros, um metro e meio de largura, e inviabiliza a passagem de uma pessoa e até de um cadeirante ou de alguém com necessidades especiais. Então, esse projeto vem pra quê? Pra tentar resolver aquele ponto, aquele local. É pontual. Aí a gente trabalha essa questão com os proprietários dos imóveis e o município também entra com a parte dele. [Então tem um custo?] Custo baixíssimo, né!? A pavimentação do passeio geralmente fica por conta do proprietário do imóvel, dentro da norma da ABNT [Associação Brasileira de Normas Técnicas], a 9050, e nós, o município, geralmente entramos com a realocação da boca de lobo, execução de uma drenagem, porque às vezes são ruas que têm um pouco de deficiência na parte de drenagem. Aí tem que realocar, mudar a posição de boca de lobo. E também na questão de jardinagem, porque daí nós temos um setor específico que cuida dessa área. Então existe, na verdade, uma parceria. Uma parceria público-privada pra intervir naquele ponto, naquele local. E tem dado certo, né Rosana? Nós temos experiências que foram bem sucedidas na avenida Central com a rua 600, na rua 910, na rua 1528 e agora estamos com esse projeto na Terceira avenida também.

DIARINHO – O que é que muda de fato nessas intervenções?
Sérgio – Concretamente, existindo obstáculos, nós temos que achar uma solução técnica que vá dar condições ao pedestre, ao cadeirante transitar com fluidez e com segurança. Então, geralmente, o que é que acontece? A gente suprime uma vaga ou duas de estacionamento e faz o avanço do passeio sobre aquela área de estacionamento. Certo? Como existe a proibição de corte de árvores, nós não podemos suprimir essa vegetação, mesmo porque a cidade é carente de áreas verdes e a questão ambiental tem que ser preservada, a gente adota essa solução para resolver pontualmente aquele local. Nós já temos algumas experiências bem sucedidas. E a tendência é que, conforme a população vai conhecendo e tomando conhecimento do projeto, isso vai se multiplicando. Mas é um trabalho meio formiguinha, né Rosana? É um trabalho, como eu disse, que inicia mas não termina.
Rosana – O interessante desse trabalho é que as pessoas apresentam as suas necessidades e nós vamos ao local para dar orientação, para conversar, para ver como é que a gente pode estar contribuindo para que não seja simplesmente uma obra física, sabe!? Mas sim que a pessoa entenda que, com isso, ela está ajudando um todo. E daí há uma satisfação de todos os lados com relação a isso. “Poxa, eu resolvi um problema!”.

DIARINHO Quem será preciso convencer para que esse projeto de Cidade Caminhável não fique apenas na aplicação do plano piloto em Balneário Camboriú? Gestores públicos e políticos; empresários da construção civil; proprietários de imóveis?
Rosana – Eu acredito que todos. Como esse foi um projeto construído de uma forma muito carinhosa pela equipe da secretaria de Planejamento, eu penso assim que é automático a questão do absorver isso. Quando se viu uma melhora num determinado espaço, houve já a necessidade de nós irmos no vizinho porque ele também queria melhorar. Não há a necessidade de se impor alguma coisa. Não há necessidade de se convencer e sim tornar isso uma coisa positiva. Isso é bom pra mim, para o meu vizinho, para todos. Abraçar esse projeto, a comunidade abraçar o projeto já é tudo. Ele não é uma imposição, não há necessidade de regras rígidas. Mas sim nós levarmos a questão da sensibilização.

DIARINHO – Leitores procuraram o DIARINHO para reclamar da intervenção em uma calçada. Eles achavam que estava sendo beneficiado o proprietário do imóvel em frente, em detrimento de vagas de estacionamento. Será que faltou divulgação desse projeto ou a proposta é essa mesma, devagarinho ganhando as pessoas para a ideia?
Rosana – Talvez esse caso específico ainda não esteja concluído. Por quê? Quando a gente pensa num avanço, quando nós passamos a observar um determinado trecho, a gente leva em consideração a questão clima, o conforto térmico, e se há um espaço onde há um deslocamento muito grande de um ponto a outro e o público-alvo daquela região. Pessoas com mais idade, os idosos, o que é que a gente pensa? Numa parada, num ‘estar’. Há alguns avanços que têm a parte de jardim e vão ser plantadas árvores e vão ter um banco. Pra quê? Pra que haja um estar, um ambiente fresco próximo às travessias. Às vezes a pessoa precisa. Atravessou uma avenida de um lado a outro, se for uma pessoa de idade, ela precisa dar uma parada. A intenção é justamente essa. É um trabalho demorado? É! Às vezes o avançar, eliminar uma vaga de estacionamento, se pensa: “Poxa, mas têm tão poucas vagas!”. Mas o que a gente quer é mostrar que, às vezes, nós precisamos de um espaço que é pro cidadão, para que as pessoas sintam o conforto do caminhar e a segurança para poder sentar. Esse é o objetivo. A divulgação é mais nesse trabalho formiguinha. Você vê, ali, num determinado espaço que tá mudando, tá modificando. Divulgar é muito complexo.
Sérgio – Só complementando essa questão de vagas, no perímetro inicial estudado, nós levantamos 626 vagas de estacionamento e com todas as intervenções implementadas naquela área do perímetro, nós suprimiríamos em torno de 32 vagas. Então, 5% de vagas de estacionamento. Acho que a cidade merece isso. Merece você qualificar, criar espaços de conforto em detrimento de 32 vagas de estacionamento num universo de 626.

DIARINHO – Em Balneário Camboriú, tanto no centro quanto nos bairros, as concentrações urbanas se desenvolveram sem qualquer planejamento que priorize o pedestre: não se pensou a proximidade de comércios, de serviços ou mesmo de equipamentos públicos como postos de saúde ou praças, por exemplo. Como vencer os desafios de desmanchar o que já se tem e construir um outro ambiente que possibilite uma fluidez e um conforto no caminhar?
Sérgio – A cidade é dinâmica. Então ela vai se renovando. A comunidade, as pessoas que vivem nela vão interagindo e vão discutindo o que deve ser melhorado, o que está bom. A gente tá começando a avançar nessa questão de discutir, realmente, o que é que a gente quer do espaço público. Pra quem tem que ser interessante o espaço público? Pra um equipamento? Não que eu seja contra o automóvel. Também faço uso do automóvel. O espaço público tem que ser interessante para o ser humano. Em primeiro lugar a gente entende que é o ser humano. Então, nesse sentido é que as cidades vão se reinventando e, hoje, a grande discussão no mundo é essa: como as cidades vão se tornar mais sustentáveis, mais feitas e construídas para o próprio ser humano? Nós meio que deixamos um pouquinho essa questão nas últimas décadas. Porque não discutimos muito. Aí realmente faltou planejamento, visão de futuro. Brasília foi construída na década de 50 e inaugurada em 60, e aquele modernismo, que era difundido na época, ao longo dos anos, se mostrou ineficiente. Não resolveu os problemas do coletivo. Porque Brasília, hoje, pra você se deslocar, só de carro. É a cidade do automóvel. Nada contra o projeto em si e a grandiosidade de uma capital federal. Mas, enfim, é um conceito que há que tirar as coisas boas e avançar na discussão do que é que nós queremos para uma cidade sustentável.

DIARINHO – Os chamados calçadões são espaços clássicos para caminhar. Mas em muitas cidades há quem questione a existência de calçadões em ruas de comércio. Há, inclusive, comerciantes que pedem a volta do tráfego de veículos alegando que a proibição do trânsito de carros afeta as vendas. Afinal, o que mais dá vitalidade ao comércio, gente andando a pé ou carros circulando?
Rosana – Hoje é complexa essa questão do uso lindeiro desses espaços direcionados para pedestres. A gente entende que a cidade tem que ser para todos. Ela tem que atender a necessidade de todos. Tem que ter os espaços de embarque e desembarque, tem que ter espaços de carga e descarga, tem que ter as pistas de rolamento para o trânsito, tem que ter o espaço para o ciclista. Diante da situação econômica que o Brasil enfrenta, nós ainda temos pessoas que dependem de pegar material para reciclar e essas pessoas também têm que ter respeito no espaço, dentro desse espaço têm que ser respeitadas. Então a nossa preocupação é macro. Não é só com a questão do pedestre, né!? No município, a economia, principalmente Balneário Camboriú, é turismo e serviços, comércios. Nós necessitamos que haja uma harmonia entre comerciantes, entre a população. A melhor forma possível que a gente conseguir ter um centro da cidade moderno e que consiga fluir o trânsito, consiga circular pessoas, mercadorias, é o ideal. [Então cada caso é um caso?] Sim.
Sérgio – Eu diria que a gente tem que estudar com muito cuidado a questão dos calçadões, principalmente em relação das atividades que acontecem ao longo do calçadão. Acho que por aí deve ser discutida essa questão. Que atividades vão contribuir para dar vida aquele calçadão, aquele espaço de pedestres? Tem realmente atividades que não fecham muito com aquele espaço. Então, acho que o poder público deveria, quando vai implantar um calçadão em determinada via, definir também que tipo de atividade vai incentivar para aquela região. Para que ocorram atividades que estejam ligadas com o interesse do pedestre. Aí acho que você teria uma condição de maior sucesso.

PERFIL

Nome completo: Sérgio Luiz Baggio
Idade: 53 anos
Nascido em: Sananduba/ RS
Estado civil: Casado
Filhos: Dois
Formação: Arquitetura e Urbanismo, com especialização em Urbanismo e História da Cidade
Experiências: Servidor público há 30 anos, arquiteto lotado na secretaria de Planejamento da prefeitura de Balneário Camboriú, já atuou como secretário adjunto da pasta e diretor do setor de análise e aprovação de projetos.

Nome completo: Rosana Sebold
Idade: 52 anos
Natural: Rio do Sul/ SC
Estado civil: Divorciada
Filhos: Uma
Formação: Ciências Sociais; especializações na área de estudos urbanos
Experiências: Servidora pública há 28 anos. Socióloga lotada na secretaria de Planejamento da prefeitura de Balneário Camboriú, com experiência em projetos habitacionais. Já atuou como chefe de gabinete da superintendência da extinta fundação Catarinense de Desenvolvimento Comunitário (Fucadesc)

Compartilhe: