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Prefeitura de Balneário Camboriú censura exposição que tem imagem do ânus

Obra Buraco faz parte da exposição Ruína

A exposição Ruína, que reúne obras de 12 artistas plásticos, a maioria de Balneário Camboriú, foi fechada pela prefeitura um dia após a abertura da exposição na Galeria Municipal de Artes. Luciana Siebert, curadora da Exposição e representante da Câmara Setorial de Artes Visuais, diz que a prefeitura municipal fechou a exposição por conta da obra que retrata imagens de ânus.
A exposição foi aberta no 5 dia de fevereiro, como resultado da contrapartida do projeto cultural Experiência Lote 84 patrocinado pela Lei de Incentivo à Cultura de Balneário. No dia seguinte, houve o cancelamento pela fundação Cultural de Balneário “alegando questões técnicas que inviabilizavam a sua manutenção”.
Entre os questionamentos da fundação aos proponentes estava à falta de comunicação sobre a exposição e a classificação etária para 18 anos. “Considerando que o conteúdo era fator gerador de polêmica, onde utilizam cenas de genitálias e partes íntimas, explícito ou não – com viés experimental e/ou puramente estético, agravado pelo fato de exposição descontextualizada em redes sociais em razão de que, os avanços ora postos, circulam sem privacidade ou controle e geralmente são deturpados pelos maus usuários que embora valendo-se de meios lícitos a utilizam para difamar ou denegrir a ação. (…) Solicito a suspensão da realização da exposição Experiência Lote 84 considerando que não houve respeito aos procedimentos legais de exposição em local público e cumprimento das normas de acompanhamento dos projetos executados pela Lei de Incentivo à Cultura”, informava o documento enviado aos artistas.
Os proponentes responderam todos os questionamentos da fundação em um ofício enviado no dia 8 de fevereiro, inclusive reforçando que havia classificação para 18 anos. Não houve resposta do município e a exposição continua fechada. “A exposição encontra-se fechada há mais de 16 dias, causando um enorme prejuízo aos artistas e toda a comunidade de Balneário Camboriú que está impedida de ter acesso ao equipamento cultural da Galeria de Arte Municipal e a exposição Ruína”, afirmaram os artistas.
Obra Buraco
A censura à exposição teria sido motivada pela obra Buraco, da produtora executiva Luluca L, que mostra imagens de ânus. “A obra Buraco é um alerta e está cumprindo seu papel. A ideia do projeto e da exposição é necessária para o momento. Estamos vendo, está acontecendo e bem perto de nós. É horrível e maravilhoso ao mesmo tempo. Eu não gostaria de estar em outro lugar. Ainda prefiro sofrer a censura do que não expor minha visão sobre as coisas. O problema com a obra diz muito mais sobre quem se incomoda com ela do que propriamente sobre a obra em si, que está exposta metaforicamente, como qualquer outra parte do corpo humano. Importante salientar que do ponto de vista técnico e burocrático o projeto é pleno, inclusive no processo de prestação de contas”, diz.
A advogada Nanashara Piazentin, membro da Comissão de Direito às Artes e a Cultura da OAB/BC e responsável pela assessoria jurídica do projeto, alega que a liberdade de expressão é um dos mais preciosos direitos dos cidadãos e pilar de uma República que está fundada em bases democráticas. “Quando se pede a manutenção da exposição em conjunto com todas as obras que a compõe, sejam elas com conteúdo que apresentam ou não nudez e genitálias, é pelo fato de que todo conteúdo artístico, toda mensagem artística externada é, em princípio protegido pela Constituição, principalmente aquelas que desagradam a maioria. Ideias impopulares são justamente aquelas que mais precisam ser protegidas pela liberdade de expressão, pois correm o risco de sofrerem limitações e censura”, pontua.
Os artistas que participaram da exposição estarão no dia 28 de fevereiro, às 18 horas, em frente da Municipal de Arte, para entregar a contrapartida do projeto cultural. Eles vão conversar com o público sobre a exposição, e principalmente, sobre a liberdade de expressão.


Projeto Lote 84
O projeto Experiência Lote 84 é uma formação que realiza oficinas, imersões e experiências criativas com a finalidade de potencializar a criação de artistas de diversas vertentes. 
Os artistas Daniel Viecili, Fá Centena, Fillipe Rogerio, Guilherme Trautmann, Junior Koche, Luluca L, Luciana Siebert, Mariana Sais e Matheus Tafas participaram de uma imersão dividida em três partes, com três artistas convidados diferentes: Carina Sehn, Leo Bardo e Giorgio Ronna que trabalharam diferentes espectros da criação pessoal, artística e política.
Cerca de 30 artistas participaram do projeto e puderam se colocar em sintonia com as concepções artísticas contemporâneas, assumir os desafios do experimentalismo, passar por um processo coletivo de criação, incentivar e promover a pesquisa através da arte, e principalmente evoluir as capacidades enquanto artistas e retomar novas propostas com mais força e saber.
Após essa imersão 10 artistas prepararam obras que compõe a Exposição Coletiva Ruína. “Os artistas se prepararam durante meses para exposição, e para alguns era a primeira oportunidade de estar em uma Galeria de Arte. Se propondo a mostrar trabalhos tão íntimos e autorais. O cancelamento da exposição é um desrespeito aos artistas e também ao interesse público, pois a exposição é a contrapartida para sociedade do dinheiro público investido no projeto cultural Experiência Lote84, que merece retornar à cidade de Balneário Camboriú com a possibilidade de apresentação pública de seus trabalhos. Espero que isso possa ser o início de um diálogo que nos faça perceber o quanto estamos doentes”, argumenta a curadora Luciana.

 

Falhas nos procedimentos, diz Bia Mattar
A superintendente da Fundação Cultural de Balneário, Bia Mattar, diz que os responsáveis pela exposição fizeram os procedimentos de solicitação com diversas falhas.

Entre elas, não advertiram que era imprópria para menores nos materiais gráficos, obrigatório por lei. “Não tinham carta de anuência da Fundação Cultural. Quando eles estavam montando alertamos sobre as inconsistências entre o que foi apresentado no plano de trabalho, que previa um espaço privado, na Galeria do Lote 84. Na montagem constatamos o risco de alguém achar que o conteúdo era classificável e passível de reclamações por parte dos usuários do equipamento público”, diz Bia. 

A superintendente alega que se a exposição fosse no local privado seria de responsabilidade do proponente Guilherme Trautmann. “Mas na galeria deve preceder de processos burocráticos, justamente por ser público tem que atender a um regramento”, explica.

A superintendente diz que o proponente aceitou o fechamento e que dois expositores já retiraram as obras da galeria. 

Sobre a falta de retorno ao ofício enviado à fundação, Bia diz que não são enviadas explicações após o caso ser resolvido. 

Fran Marcon
Formada em Jornalismo pela Univali, com MBA em Gestão Editorial. fran@diarinho.com.br
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