Home Notícias Geral O que dizem os moradores antigos sobre os prédios em Armação

O que dizem os moradores antigos sobre os prédios em Armação

O DIARINHO ouviu um pescador, um escritor, um empresário e uma especialista sobre a proposta de verticalizar a Armação

Na segunda-feira, às 19h, no salão paroquial da igreja São João Batista, moradores e lideranças da Armação e da Praia Grande, vão discutir a mudança no plano diretor de Penha. A proposta, solicitada por empresários, é que se permita a construção de prédios altos, com até 20 andares, na região das duas comunidades.
O assunto vem gerando polêmica e dividindo opiniões, já que as construções, se autorizadas, vão alterar a paisagem da enseada de Itapocorói, cuja colonização remonta aos anos 1730. A capela São João Batista, construída em 1759, é símbolo dessa história.
O DIARINHO procurou alguns moradores antigos e conhecidos de Armação, cuja identidade está ligada diretamente ao crescimento e à história da região, para comentar sobre a proposta que vai ser colocada em discussão. A intenção foi saber o que eles acham sobre os possíveis impactos na vida de moradores e turistas.
O escritor, historiador e colunista do DIARINHO, Cláudio Bersi, 82 anos, a engenheira florestal Rosimeri Marenzi, 57, que coordenou o projeto Orla de Penha, o empresário Paulo Hering, o Puc, 67, e o pescador Teodoro João de Souza, o Doro, 90 anos, foram os ouvidos pelo DIARINHO.

Tá na contramão do projeto Orla, avisa Meri Marenzi
A engenheira florestal Meri Marenzi é doutora em conservação da natureza, criou os filhos em Armação e hoje, mesmo morando em Itajaí, mantém uma casa na praia Grande para onde vai com muita frequência. Professora da Univali, ela coordenou os estudos do comitê gestor do projeto Orla de Penha, entre 2014 e 2015.
Por isso, tem cancha pra falar: a permissão de edifícios altos traz impactos negativos para o meio ambiente e à identidade histórica da região.
“Dentro do cenário desejado, o que se idealizou no projeto foi manter a orla de acordo com o que o plano diretor estabelece, ou seja, ficar no mínimo com dois pavimentos as edificações ao longo da orla”, completa.
Conforme Meri, a vocação história e cultural da área pode conviver na boa com o turismo, mas se for sustentável. “Nós reconhecemos esse potencial turístico, mas isso não significa que pousadas e hotéis não possam, de repente, se instalar lá, mas dentro desse padrão urbanístico de dois pavimentos”, reforça.
De acordo com Meri, além de descaracterizar a paisagem, a verticalização gera um sombreamento que leva a uma perda de qualidade das praias, tanto para os banhistas quanto para os microorganismos que dependem do sol pra viver e que servem de alimentos pros peixes, contribuindo para a manutenção da pesca.
“A gente tem em Penha o diferencial de praias com a ocupação horizontal”, frisa. “Tá na hora de revisar o plano, mas não no sentido de atender só os interesses econômicos e dos empresários”, conclui.

Para Cláudio Bersi, tem que preservar o canto da Armação
Cláudio Bersi adiantou que vai se manifestar na audiência fazendo sugestões e discutindo alternativas. “Não sou contra o progresso. Mas se tem que ser, que seja mais para cima, que não seja na orla”, destaca.
Para o escritor, a situação ideal seria que os prédios fossem liberados apenas a partir da rua Itajaí (onde fica a agropecuária Loremi), em direção ao centro de penha, onde já existem construções maiores. Com isso, as praias do canto da Armação, reduto de pescadores, com valor histórico e ambiental, ficariam intocáveis.
“Não há necessidade de mudar o plano diretor nessa área que é tradicional”, avalia. Apesar de não ter uma posição radical, o morador que toca uma pousada de frente pra Armação, observa que os prédios trarão impactos que a região ainda não tem condições de absorver. “Vai descaracterizar a paisagem histórica. Ainda não temos uma infraestrutura pra receber essas construções”, completa, avaliando que o saneamento será um dos desafios.
Caso não seja possível conter a chegada dos prédios, pondera, que os empreendimentos fiquem para além da avenida São João, afastados das praias. “Da avenida para cima não teria problema nenhum”, observa.
Pelas conversas que já teve com outros moradores, Cláudio acredita que a proposta não vai passar porque na maioria não deve aceitar.

Se for longe da praia, tudo bem
Pescador mais antigo de Armação, seu Doro é do tempo que Penha ainda era uma intendência de Itajaí. Ele trabalhou na construção da igreja nova, no antigo trapiche e por 17 anos esteve ligado à diretoria na paróquia, sete deles como presidente.
Seu Doro diz ser a favor das novas construções. “Estou com 90 anos e daqui a pouco estou indo embora. O senhor acha que isso vai me estorvar”, brinca.
Para o pescador, tudo faz parte do processo de crescimento, lembrando que, antigamente, não havia nem estradas para o canto da Armação. “Isso aqui cresceu e tá crescendo. Quando mais gente, mais movimento pra cidade”, avalia.
O que seu Doro não concorda é com as grandes obras na orla da praia, devido ao avanço do mar. Ele defende que os prédios sejam liberados na parte alta, pra cima da avenida São João. “Na beira do mar não adianta. O mar tá vindo. Em outras cidades fizeram casas perto da maré e o mar levou”, observa.

Puc: nada de construções faraônicas
A família do empresário Puc Hering foi a primeira a ter uma casa de veraneio na hoje conhecida praia do Trapiche. A casa dele é famosa por abrigar festas animadas, recebendo políticos, empresários e pescadores. Esta semana, conta, o tema da audiência pública acabou predominando nas conversas.
Para Puc, é preciso pensar num crescimento ordenado para Armação. “Tem que ser um crescimento condizente com o valor histórico da área. Tem que ser em comum acordo com a comunidade. Não pode chegar aqui e construir um negócio faraônico”, dispara.
Puc acredita que é possível aliar história, turismo e desenvolvimento, preservando as características da região e fazendo com que os empreendimentos se comprometam com as contrapartidas em infraestrutura ao município.
A pesca, diz o empresário, está se acabando em Armação e por isso é preciso pensar em outras formas de movimentar a economia.


Sandro Silva
Tem 31 anos de jornalismo, formado em pedagogia pela Udesc e com MBA em Gestão Editorial. geral@diarinho.com.br
Compartilhe:

Deixe uma resposta

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com