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Karina Groch

Bióloga, diretora de pesquisas do Instituto Australis, ONG que atua na APA Baleia-franca

Nome completo: Karina Rejane Groch
Idade: 47 anos
Local de Nascimento: Erechim/RS
Estado Civil: Solteira
Filhos: Sem filhos
Formação: Graduação em Biologia, mestrado em Biologia Animal e doutorado em Biologia animal.
Experiências profissionais e científicas: Estágios no projeto Tamar em Espírito Santo e no Atol das Rocas, no projeto Baleia Jubarte na Bahia, no projeto Golfinho Rotador em Fernando de Noronha. Estagiária, pesquisadora e coordenadora do programa de Pesquisa e Conservação da Baleia-franca, hoje mantido pelo instituto Australis. Também foi pesquisadora de outros projetos ligados à fauna marinha e fez estágios em instituições fora do país ligadas a estudos da baleia-franca e durante oito anos integrou o comitê científico da comissão Internacional da Baleia, participando da delegação de cientistas e pesquisadores brasileiros. Autora de artigos científicos com publicações internacionais.

Elas são gigantes, exuberantes e dóceis. E o mais interessante: escolheram o litoral de Santa Catarina para parir os filhotes e ainda frequentam a nossa costa, bem pertinho das praias. Dá pra apreciá-las a olho nu. As baleias-francas fornecem um daqueles espetáculos incríveis da natureza. A bióloga marinha Karina Groch, coordenadora e diretora de pesquisa do instituto Australis, conta ao DIARINHO tudo sobre essas lindas rainhas dos mares que, depois de caçadas quase à extinção, começam a voltar ao litoral. Os cliques são de Fabrício Pitella.

DIARINHO – Vamos começar essa entrevista com uma pergunta básica: Por que as baleias-francas gostam tanto do litoral de Santa Catarina?
Karina Groch – Essa é uma pergunta bem básica e é uma pergunta que venho tentando responder desde que comecei a pesquisar as baleias-francas. Por que isso? A gente sabe que as baleias vêm para cá durante o período reprodutivo, no inverno, especialmente para o nascimento dos filhotes. Também alguns indivíduos vêm para o acasalamento e para socializar. Elas vêm pra cá porque procuram águas mais quentes. Então essa é uma resposta. E alguém vai perguntar: “Como assim, águas mais quentes, se elas vêm pra cá no inverno, na época mais fria do ano?”. No entanto, elas migram entre áreas de alimentação e reprodução. As áreas de alimentação, onde elas passam o verão, é na Antártida, onde é muito mais frio do que aqui durante o inverno. Então aqui a água é mais quente e isso acaba gerando um local propício para o nascimento dos filhotes. Elas procuram também enseadas protegidas, justamente para proteção do filhote recém-nascido, contra predadores. Os predadores naturais da espécie são orcas e tubarões. Então essas são as explicações gerais pelas quais elas procuram o sul do Brasil, o nosso litoral. Elas não vêm só pra Santa Catarina. Elas também vão para lugares que não têm enseadas protegidas, como a região mais ao sul, como a costa do Rio Grande do Sul, e às vezes também um pouquinho mais para o norte, que a água é mais quentinha e tem locais protegidos. (…)

DIARINHO – E a maior concentração de baleias-francas no Brasil se dá onde?
Karina– A maior concentração se dá no litoral centro-sul do estado. Naquela região entre o sul de Florianópolis, especialmente entre Garopaba, Imbituba e Laguna e um pouquinho mais ao sul, também. Que é a onde a gente, inclusive, propôs, a partir do nosso trabalho de pesquisa, que fosse uma área protegida. Aqui, então, foi criada a Área de Proteção Ambiental (APA) da baleia-franca. É um trecho de cerca de 130 quilômetros de costa e que protege a maior área reprodutiva no país, onde as baleias-francas permanecem por mais tempo e onde a gente sempre tem o maior número de baleias por aqui.

DIARINHO – Quando é que começaram as pesquisas no estado sobre a baleia-franca e que tipo de informações são apuradas sobre esses animais? Como são coletadas essas informações?
Karina– A pesquisa, aqui no nosso litoral, começou na verdade quando a gente constatou o retorno da espécie para o nosso litoral. [Elas haviam sumido daqui?] Elas tinham sumido, porque a baleia-franca foi alvo de caça durante quase quatro séculos. Desde 1602, quando foi outorgada a primeira concessão de caça às baleias aqui no Brasil, a espécie foi caçada e foi caçada intensamente. (…) A última baleia caçada aqui no Brasil foi em Santa Catarina. A última baleia-franca caçada foi em 1973, em Santa Catarina, na armação de Imbituba. Depois desse período a caça terminou porque não tinha mais baleias e não fazia sentido o esforço de captura. (…). A partir da década de 70, as baleias praticamente desapareceram da costa e na década de 80 começaram a haver alguns relatos de que essa espécie estaria retornando para o nosso litoral. Então, quando um grupo de voluntários, de estudantes de biologia, recebeu essa informação de que essa baleia estaria retornando ao nosso litoral aí começou a fazer um levantamento. Em 14 de agosto de 1982, no litoral norte do estado, foi constatada a presença de uma mãe, de uma fêmea com o filhote. E aí foi o marco inicial do programa de pesquisa da baleia-franca, que era chamado de projeto baleia-franca. A partir de então se começou um trabalho de monitoramento da espécie, um trabalho de conscientização. [Foi a partir de alguma universidade, algum instituto de pesquisa?] Não! Era um trabalho voluntário. Todos os que participavam naquela época eram estudantes. Eu não tava engajada ainda. Aí começaram a se mobilizar, começaram a buscar apoio, tentar buscar recursos. Durante muito tempo foi à base de “paitrocínio” todo o levantamento feito aqui. É muito difícil a gente manter um trabalho nessa área no Brasil. Ao longo dos anos algumas conquistas foram surgindo, alguns apoios para começar a pesquisa de fato e o monitoramento da espécie, que tem sido contínuo desde o final da década de 80.

As fêmeas vêm pra cá para o nascimento dos filhotes, que é um momento no ciclo de vida dessa espécie, que é dar continuidade à espécie e permitir a recuperação populacional”

DIARINHO – E que tipo de informações são levantadas sobre esses animais, além da localização e do tamanho e peso, por exemplo?
Karina– Tamanho e peso é meio padrão da espécie. As baleias-francas são animais grandes, bastante gordos e pesados. Os adultos podem chegar a 18 metros de comprimento. A média é entre 14 e 15 metros nos animais que a gente tem hoje aqui. Inclusive a própria caça acabou fazendo uma espécie de pressão e e foi reduzindo o tamanho desses animais. Eles chegam a pesar até 60 toneladas, que são os registros de maior peso da baleia-franca no hemisfério Sul. E os filhotes já nascem com quatro, cinco metros de comprimento, pesando de quatro a seis toneladas. São animais muito pesados, porque são gordos, que é a característica dessa espécie. Essas são informações já consolidadas e já se observava a partir da própria caça, nas medidas que eram feitas. As nossas pesquisas sempre foram focadas, especialmente, para identificar os hábitos dessa espécie e os hábitos que são mais importantes. Lembrando que as fêmeas vêm pra cá para o nascimento dos filhotes, que é um momento no ciclo de vida dessa espécie, que é dar continuidade à espécie e permitir a recuperação populacional. Então era muito importante desde o início e até hoje que a gente analise, avalie, acompanhe e determine essas áreas que são importantes e faça propostas para medidas de gestão e proteção. E foi, inclusive, o que resultou na criação da APA da baleia-franca. As nossas pesquisas focaram, durante muitos anos, na definição dessas áreas, para indentificar as áreas que são importantes, identificar o comportamento das baleias nessa região. E isso a gente faz a partir de sobrevoos e a partir de terra. A partir de terra a gente faz o monitoramento mais diário. A baleia-franca é uma espécie costeira. É muito fácil pesquisar a partir da costa, avistar a partir da costa. Através dos sobrevoos a gente faz os monitoramentos mais amplos, em área maior, em torno de 300 a 400 quilômetros de costa, dependendo da época do ano. Aí a gente consegue fazer o reconhecimento individual da espécie, já que elas têm aquelas calosidades que identificam, que são uma espécie de impressão digital. Fazendo fotografia aérea a gente consegue reconhecer. A partir disso consegue realizar estimativas populacionais, consegue acompanhar o crescimento, a quantidade de filhotes e a taxa de retorno das baleias para a região. A gente sabe que elas têm filhotes a cada três anos. Não são as mesmas baleias que vêm pra cá todos os anos. (…). Aí, também, tem outros estudos que foram surgindo ao longo dos anos, como necessidade de preenchimento de lacunas de informação. Por exemplo, os estudos de bioacústica, entender como as baleias se comunicam, se o som aqui do meio ambiente interfere no comportamento delas, como está essa relação. (…). Há o estudo sobre o estado de saúde desses animais. Quando encalha, morto, por exemplo, se tenta entender o por que morreu, o que é que aconteceu. A gente monitora o número de animais encalhados até para avaliar se tem algum tipo de alteração. É natural imaginar que uma porcentagem de baleias podem nascer com algum problema, até decorrente do nascimento, e morrer. Mas, se essa morte aconteceu por um fator externo, causado pelo homem, a gente tem que identificar e aí fazer as medidas de gestão para miniminzar esse tipo de problema, né?

DIARINHO – No santuário da baleia-franca em Santa Catarina, o que pode e o que não pode nesse espaço?
Karina – A APA da baleia-franca é uma unidade de conservação de uso sustentável. O que é que significa? Significa que as atividades humanas podem ocorrer nesse território. No entanto, elas têm que ser reguladas. Têm atividades que podem e têm atividades que não podem e têm atividades que são ordenadas, que têm regras para serem executadas. [A pesca artesanal, por exemplo, pode?] Ela pode ser realizada, dentro das regras da pesca artesanal, dentro dos limites que pode ser realizada. [Com rede, inclusive?] Com rede, inclusive! Tem um ordenamento, tem todo um trabalho que é de responsabilidade da APA, de um órgão federal. Ela é administrada pelo instituto Chico Mendes, o ICMBio. Isso é uma atribuição deles, de entrar em acordo com os pescadores. Inclusive, o plano de manejo da APA, que foi publicado no final do ano passado e que está em vigor, determina normas que foram, inclusive, acordadas com os pescadores. Tem uma série de normas que estabelecem regras. O plano de manejo está disponível no site do ICMBio, na página da APA da Baleia-franca [www.icmbio.gov.br/apabaleiafranca] e qualquer pessoa pode consultar. (…).

DIARINHO – O instituto Australis coordena os trabalhos de pesquisa na APA da Baleia Franca. Além de entender os hábitos desse animal incrível, o que mais faz a instituição?
Karina – A gente tem um trabalho de educação ambiental, bem importante na região. Não adianta pesquisar, entender tudo sobre as baleias, se a gente não transmite esse conhecimento adiante, né? Nós temos um centro de visitantes, uma base operacional no município de Imbituba, na praia de Itapirubá. Um centro que está aberto à visitação e tem tido muita visitação. As pessoas sempre querem saber muita informação sobre a baleia e ainda têm a oportunidade de ver as baleias ali da frente. Por esses dias, agora, a gente tem baleias que estão por ali. E acaba também por oferecer ao turista essa oportunidade de estar ali acompanhando o nosso trabalho. Mas não só isso. Há um trabalho com as escolas. A gente recebe muitos grupos escolares. Fornece um atendimento mais técnico. Todo esse trabalho de pesquisa a gente faz, traduz em conhecimento para o público. Desenvolve trabalhos específicos, trabalhos nas escolas. [Tem cobrança de ingresso para conhecer a sede do instituto Australis?] Não. A entrada é gratuita. (…). [Onde fica examente a sede do Australis?] Fica na beira-mar norte da praia do Itapirubá, em Imbituba. Itapirubá é divisa com Laguna. (…).

Costumo brincar que as baleias-francas disputam ondas com os surfistas”

DIARINHO – Quantas baleias-francas foram vistas este ano em Santa Catarina? Esse número é maior ou menor que os anos anteriores?
Karina– O principal sobrevoo da temporada, onde a gente tem essa análise do número de baleias a cada ano, ele ainda não foi realizado. Ele vai ser realizado agora em setembro, que é o auge da temporada reprodutiva da espécie. Mas nós já fizemos um voo no início da temporada, que foi em julho, e comparado com o ano passado a gente teve um número bem menor de baleias. Foram 15 baleias avistadas este ano. No ano passado foram mais baleias. Foram 30 e alguma coisa aqui, na temporada. Mas no total do ano passado, nós avistamos quase 300 baleias no nosso litoral [De passagem]. Foram, na verdade, exatamente 273 avistamentos. Inicialmente a gente tinha divulgado um número um pouquinho maior, mas a gente viu que tinha algumas baleias repetidas e acabou consolidando como 273. Foi um recorde absoluto desde o início do nosso trabalho. É muita baleia e é ótimo. É um resultado positivo. Foi um número que chamou atenção. E qual a explicação? A gente vinha com uma série de três anos com poucas baleias aqui na região, tinha até gente dizendo que estava diminuindo a população e, de repente, teve esse boom. A gente considerou um boom reprodutivo, um número muito alto de baleias que talvez nos anos anteriores tenham feito uma espécie de pausa reprodutiva e aí vieram todas a se reproduzir no ano passado. [A média de baleias passando por aqui era de quanto?] A média era de 100 a 120 baleias. Isso a gente atribui possivelmente a uma questão de alimentação. A gente já viu que a alimentação lá na Antártida interfere na quantidade de baleias que vem pa cá para ter os filhotes. Menos comida por lá, menos baleias se reproduzem por aqui, menos filhotes nascem aqui. Ou elas não engravidam ou elas vão ter filhotes lá na Argentina, que é mais próximo. (…).

DIARINHO – Qual a melhor forma de ver as baleias-franca em Santa Catarina? É possível e realmente vale a pena ir para a costa tentar ver esses animais?
Karina– Uma das características da baleia-franca é o hábito costeiro e o fato de ser a única espécie de baleia que se reproduz no litoral brasileiro. A gente pode ver, sim, a partir da costa, bem pertinho. As baleias-francas ficam logo após a arrebentação das ondas. Costumo brincar que elas disputam onda com os surfistas. Eles inclusive acabam tendo encontros com elas. A gente recomenda se manter afastado porque são animais muito grandes. São dóceis, mas são animais muito grandes. É muito fácil avistar da costa, das praias, dos costões. A única coisa que o turista, enfim, a pessoa que quer contemplar esses animais tem que cuidar e prestar atenção na condição climática. Por quê? Porque quando tem muito vento e o mar está muito agitado, é mais difícil de vê-las. As baleias estão ali, estão na praia, elas não saem, não vão embora com tempo ruim, mas é mais difícil de a gente ver porque a ondulação acaba mascarando, escondendo os animais. A gente pode ver a partir das praias, dos costões. Têm praias que são melhores, têm praias que são piores. Têm praias que elas gostam mais de ficar e isso a gente conseguiu identificar ao longo dos anos. A gente fornece essa informação lá na nossa sede, no nosso site (baleiafranca.org.br), nas redes sociais, onde as baleias estão. (…).

A gente sabe que as baleias vêm durante o período reprodutivo, no inverno, especialmente para o nascimento dos filhotes”

DIARINHO – Essa semana uma jornalista narrou que foi intoxicada ao cobrir o encalhamento e morte de uma baleia no nordeste do país. Apesar de não ter se aproximado do animal morto na areia, após estar na praia ela passou mal e foi parar no hospital com sintomas de intoxicação. Houve também quem fez um “churrasco” com a carne da mesma baleia. Muitas pessoas tiram selfies e mexem nos animais mortos na praia. Esse risco de intoxicação existe?
Karina– Quando uma baleia encalha viva, por exemplo, como foi esse caso, que foi uma baleia jubarte no nordeste, ela não tá bem, ela tá doente. Tem casos de encalhe em bancos de areia, que o animal se perdeu, se desorientou. Mas os encalhes na beira da praia, como aconteceu nesse caso, é possivelmente de uma baleia que está doente. Então a gente não sabe a doença que ela tem. Por isso, não é recomendável comer a carne da baleia, porque corre o risco, sim, de intoxicação. Se conseguir fazer a necropsia do animal, é possível descobrir qual é o problema, mas até lá não tem como saber. Por mais que possa parecer um desperdício toda aquela carne disponível indo para o lixo, a lei brasileira proíbe a caça e o molestamento das baleias. Então de certa forma é um crime fazer consumo dessa carne.

DIARINHO – Se a pessoa estiver no mar com um pequeno barco ou mesmo se estiver surfando ou remando com um stand up, qual é a orientação ao se avistar uma baleia?
Karina– A orientação é manter distância. Existe uma legislação, a portaria 117 do Ibama, publicada em 96 e alterada em 2002, que regulamenta a observação de baleia para qualquer parte do litoral brasileiro. Na APA da baleia-franca tem outras restrições, tem normas um pouco maiores e mais restritivas, mas, de modo geral, a portaria 117 determina que a gente não pode nadar perto das baleias a uma distância inferior a 50 metros. Ela também regula a aproximação embarcada, a aproximação aérea. Nesse caso não pode se aproximar a menos de 100 metros de distância. E por que essas distâncias? Pra respeitar esse momento dos animais, evitar que a gente interfira no comportamento natural. No caso do stand up, do surfe, especialmente essas atividades, é muito importante respeitar a distância porque são animais muito grandes. A baleia-franca não é agressiva. Ela é um animal extremamente dócil. A maior ocorrência que a gente tem aqui são de mães que estão com seus filhotes recém-nascidos. Elas vieram aqui para parir esses filhotes e vão cuidar deles nesses primeiros meses de vida. E como toda mãe zelosa, a baleia-franca vai proteger o seu filhote se sentir que ele está correndo algum tipo de risco, sob algum tipo de ameaça. (…). Por isso, a gente sugere, pede que as pessoas mantenham distância, contemplem à distância. É muito melhor, porque aí a gente vai estar vendo o comportamento natural dos animais sem interferir. (…). Ela escolheu o nosso litoral para vir aqui nesse período do ciclo reprodutivo, que é o mais importante para a continuidade da espécie e para a recuperação populacional dessa espécie que ainda é considerada ameaçada de extinção no Brasil. Apesar da gente ter um crescimento populacional, apesar do número de baleias-francas estar aumentando, elas ainda estão em risco de extinção e temos que protegê-las.

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