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Coronavírus chegou em 2019

Estudo da UFSC aponta a presença do vírus no esgoto de Floripa desde novembro de 2019. É a primeira ocorrência nas Américas

Dauro Veras
Especial para o DIARINHO

Partículas do novo coronavírus estão no esgoto de Florianópolis desde novembro de 2019. É o que aponta um estudo divulgado nesta quinta-feira por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Esta é a presença mais precoce do vírus confirmada até o momento nas Américas.

O artigo científico, feito em parceria com a Universidade de Burgos (Espanha) e a startup BiomeHub, contribui para um melhor conhecimento sobre a evolução do vírus. Também reforça a importância da cooperação entre universidades públicas e empresas de biotecnologia.

“Encontramos o SARS-CoV-2 em duas amostras congeladas de esgoto bruto coletadas em 27 de novembro na região central da cidade”, conta uma das autoras, a professora Gislaine Fongaro, da UFSC. O artigo, distribuído pelo site MedRxiv, ainda não passou pela revisão da comunidade científica, mas ela assegura que não há dúvidas: “Tivemos o cuidado de fazer ensaios independentes envolvendo outros laboratórios que usaram quatro marcadores virais e confirmaram nossa conclusão”.

Os pesquisadores empregaram a técnica RT-PCR (da sigla em inglês para transcrição reversa seguida de reação em cadeia polimerase), que verifica a presença de material genético do vírus. Na primeira coleta, contaram 100 mil cópias do genoma por litro de esgoto. No dia 4 março já havia um milhão de cópias por litro. Estudos semelhantes encontraram o vírus em outubro no esgoto de Wuhan, na China, e em dezembro na Itália. Somente no final de dezembro as autoridades chinesas fizeram o alerta à Organização Mundial da Saúde (OMS).

Gislaine destaca a importância do trabalho colaborativo que envolveu, além da uma empresa catarinense de biotecnologia e uma universidade espanhola, a equipe de vários laboratórios da UFSC: Virologia Aplicada; Protozoologia; Biologia Molecular, Microbiologia e Sorologia; e Bioinformática.

Também assinam o artigo Patrícia Hermes Stoco, Dóris Sobral Marques Souza, Edmundo Carlos Grisard, Maria Elisa Magri, Paula Rogovski, Marcos André Schörner, Fernando Hartmann Barazzetti, Maria Luiza Bazzo e Glauber Wagner, da UFSC; Marta Hernández e David Rodriguez-Lázaro, da Universidade de Burgos; Ana Paula Christoff e Luiz Felipe Valter de Oliveira, da BiomeHub.

Destaque em biotecnologia

Parceira da UFSC em diversos projetos relacionados ao enfrentamento da covid-19, a BiomeHub é um dos principais exemplos nacionais do desenvolvimento de tecnologias de ponta na área da saúde. A startup foi criada em 2019 e é uma spin-off da Neoprospecta, empresa de biotecnologia com sede em Florianópolis. Seu trabalho é focado na aplicação da tecnologia NGS (sequenciamento de nova geração, na sigla em inglês), que fornece apoio à investigação de doenças complexas como diabetes e distúrbios metabólicos.

“Vamos usar análise computacional para comparar a cepa coletada no esgoto com as encontradas em pessoas diagnosticadas com covid-19 e com os bancos de dados públicos”, explica o diretor-presidente da Neoprospecta, Luiz Fernando Valter de Oliveira. Ele estima que no prazo de 10 dias já é possível obter informações preliminares que ajudem a desvendar a trajetória do vírus. Na sua avaliação, o estudo evidencia que, muito antes da criação de barreiras sanitárias, o novo coronavírus já estava disseminado em vários estados brasileiros.

Estudo ajuda a entender como o vírus se propagou

A análise do esgoto das cidades é uma importante ferramenta epidemiológica no enfrentamento da covid-19, pois abre porta para outros estudos que vão ajudar a entender a história evolutiva do vírus, explica a pesquisadora Gislaine Fongaro. “Ela permite, por exemplo, verificar as mutações do novo coronavírus e comparar esta cepa com outras coletadas em diferentes cidades e no esgoto de hospitais”.

Gislaine lembra que o SARS-CoV-2 é excretado pelas fezes, mas como é um vírus “envelopado” por uma capa de gordura, o risco de contaminação via esgoto é muito reduzido, pois ele tende a ser degradado por enzimas, detergentes e radiação ultravioleta. Também é pequeno o risco de contaminação da fauna marinha. Entretanto, acrescenta, a falta de saneamento básico é uma das principais causas de doenças gastrointestinais, que provocam milhões de mortes no mundo.

Sua colega Maria Elisa Magri, do departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFSC, espera que os resultados levem ao aumento da parceria entre cientistas e autoridades. “Queremos formalizar um termo de cooperação com a companhia de saneamento, prefeitura e vigilância Epidemiológica para ter acesso a mais amostras, de modo que esses dados sejam usados para apoiar a gestão”, diz.

O risco de contaminação no esgoto é reduzido, dizem especialistas

Ciência contribui com a qualidade dos alimentos

Diante do quadro de recessão econômica agravada pela pandemia, a biotecnologia ganha importância ainda maior para o Brasil. Uma de suas aplicações práticas é monitorar a qualidade dos alimentos vendidos pelo agronegócio, um dos poucos setores da economia que garantem a entrada de dólares do comércio exterior. A Neoprospecta atua nessa área, atendendo clientes do porte de BRF, Nestlé, Danone e JBS.

“Somos o único laboratório do país que faz a análise de alimentos para a exportação, um setor que vai ser muito importante para a retomada da economia”, diz  Oliveira. Ele lembra que a China, principal parceiro comercial do Brasil, tornou-se muito mais exigente do ponto de vista sanitário. “A Marfrig está nos contratando para monitorar preventivamente os alimentos produzidos pela empresa”, revela.

 
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