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Casas ribeirinhas são demolidas

As 24 moradias começaram a ir pro chão em outubro; na sexta-feira a prefeitura terminou a limpeza da área

Olhar para o terreno onde morou por quase 20 anos e ver um descampado de terra aperta o coração de Evaldo dos Santos Melo, 63 anos, o Tito. Ele e mais 23 famílias tiveram que sair dos casebres às margens do ribeirão da Murta, no loteamento Bertoldo Michels, em Itajaí, para atender uma decisão judicial.
As famílias estavam vivendo numa área de preservação permanente. As moradias não respeitavam o recuo mínimo de 15 metros das margens do ribeirão. A última casa foi demolida na sexta-feira passada, quando já tinha mais gente querendo invadir o local.
Tito é natural do Rio Grande do Sul, mas vive em Itajaí há 31 anos. Há 18 anos, ele comprou um pedaço de terra no final da rua José Francisco Matheus, onde construiu a casa e morou desde então com a mulher e um neto. No início do mês, ele viu a antiga moradia ser demolida por máquinas da prefeitura. “Foi muito triste. Eu nem fiquei aqui, fui trabalhar”, conta.
Ele e a esposa, de 64 anos, vivem em uma casa em frente ao antigo endereço. O aluguel de R$ 830 é custeado pela prefeitura, através do auxílio-moradia, pois a aposentadoria da esposa e o que ele ganha como pedreiro não bancam as despesas da família. “O nosso medo é que já tão falando que a prefeitura só vai pagar por um ano e depois vamos ficar a ver navios. Eu ganho pouco, como vou conseguir pagar aluguel?”, calcula.
Sem ajuda
A agente de serviços gerais Valdete Maçaneiro Custódio, 37, a Galega, não conseguiu o auxílio moradia. A renda familiar ultrapassou em R$ 150 o valor máximo de três salários mínimos para requerer o benefício. Hoje ela está pagando aluguel.
A agente de serviços gerais conta que a casa, onde morou por 17 anos, era uma das mais bonitas, feita de material e com dois pisos. “Eu comprei o terreno, tenho o contrato de compra e veda, na época paguei R$ 5 mil. Tinha área ampla, era tão bonita”, relembra.
A casa está agora só nas lembranças e nas fotografias da família. “Não é fácil você ter uma casa e de repente ver ela no chão e ter que pagar aluguel,” lamenta Valdete.
A vizinha Margarete Freitas, 55, não precisou sair de casa, pois mora num terreno regularizado. Ela acompanhou o desespero dos vizinhos.“Os coitados saíram às pressas, muita gente não tinha nem tirado todos os móveis e perdeu muita coisa. Foi uma tristeza”, conta. 

Plano é um loteamento para 400 famílias

Das 24 famílias que tiveram que deixar suas casas às margens do ribeirão, 20 estão recebendo o auxílio-moradia da prefeitura. Julcemar Martinho Ferreira, secretário de Habitação, explica que uma família não compareceu para fazer o cadastro e três não se enquadraram na lei, ou seja, a renda familiar ultrapassava os três salários mínimos.
Julcemar garante que o aluguel será pago até que a prefeitura consiga construir novas unidades habitacionais.
Segundo o secretário, já existe um projeto para construir o loteamento Tibério, com 400 unidades habitacionais, em um terreno atrás da escola Melvin Jones, no mesmo bairro. A prefeitura aguarda resposta do Ministério das Cidades para saber o valor do repasse do governo federal.
A obra, que deverá custar mais de R$ 20 milhões, será financiada pelo programa Minha Casa, Minha Vida. “A nossa intenção é começar as obras ainda este ano e entregar as casas no final do próximo ano”, diz.

Prefeitura monitora área para evitar novas invasões
A maioria das casas foi demolida no dia 4 de outubro, mas na semana passada alguma casas ainda foram para o chão. Depois aconteceu a retirada dos entulhos. O serviço foi finalizado na sexta-feira.
As casas derrubadas foram o motivo de uma ação civil pública de autoria do Ministério Público, que começou em 2015, porque estavam em área de preservação.
O município conseguiu uma liminar para impedir o despejo. Porém, em julho deste ano, o Tribunal de Justiça derrubou a liminar e definiu que os moradores deveriam deixar suas casas em até 90 dias. As famílias foram notificadas na época e tinham até outubro para sair.
Rodrigo Lamim, secretário de Urbanismo, conta que as famílias saíram voluntariamente. Segundo ele, na sexta-feira, uma família de fora tentava ocupar a última casinha que ainda estava em pé. “Mas ela já foi demolida e estamos monitorando a área para evitar novas invasões”, diz.
No lugar das casas, a prefeitura pretende recuperar a vegetação ribeirinha e construir um espaço de lazer para a comunidade, com praça e parquinho.

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