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91% dos pacientes têm sintomas

Dados devem ajudar a entender melhor a proliferação da doença, que tem contágio dobrado na população mais pobre

 

A taxa das pessoas que relataram ter se isolado em casa na fase mais recente da pesquisa caiu de 23% pra 18,9%

Resultados do maior estudo sobre a covid-19 feito até agora no Brasil poderão mudar a compreensão sobre a doença e as medidas de enfrentamento à proliferação do coronavírus. Além de dados sobre os sintomas e perfil dos infectados, a pesquisa traz como novidade que 91% dos pacientes entrevistados apresentaram sintomas. O percentual é diferente do que indicavam outras pesquisas, de que a maioria dos infectados seria assintomática.

O estudo do ministério da Saúde feito pela universidade Federal de Pelotas (UFPel) envolveu quase 90 mil pessoas em 133 cidades de todas as regiões do país que passaram pela testagem rápida. Em Santa Catarina foram pesquisados moradores de Florianópolis, Criciúma, Lages, Chapecó, Caçador, Joinville e Blumenau. A escolha das pessoas para os testes foi feita por sorteio e as cidades foram selecionadas conforme critérios do IBGE. Segundo o estudo, das duas mil pessoas que testaram positivo, a maioria teve alteração no olfato e paladar, sofreram com dor de cabeça e febre e relataram tosse e dores no corpo. Também houve relatos de dor de garganta, diarreia, dificuldade pra respirar, tremedeira, palpitação e vômito. “Preciso parar de dizer que a maioria dos casos são assintomáticos”, disse o coordenador da pesquisa e reitor da UFPel, Pedro Hallal, durante a divulgação do resultado.

Ele lembrou que já se chegou a dizer que 86% dos pacientes não tinham sintomas. “Estamos dizendo que os sintomas da covid-19 aparecem e isso é bom para as autoridades locais desenvolverem protocolos para identificar os sintomas. Mas não quer dizer que cada uma delas necessitará de atendimento hospitalar,” completou.

A taxa média de letalidade foi de 1,5% nas cidades pesquisadas. A pesquisa ocorreu em três fases, uma no fim de maio e duas em junho, mostrando um avanço maior da doença no último mês. Os dados apontam que crianças pegam o vírus tanto quanto os idosos, embora nos mais velhos haja mais risco de a situação se agravar. Sobre a transmissão do vírus dentro das famílias, a taxa de positivos foi de 39%. Outros estudos mostravam média de 20% de contágio familiar.

Contágio afeta os mais pobres

Durante a pesquisa ainda foi verificado queda no isolamento social. Da primeira até a terceira fase da análise, o número de pessoas que relataram ter saído de casa diariamente passou de 20% pra 26%. Já a taxa das que relataram ter ficado em casa caiu de 23% pra 18,9%.

Também aumentou o percentual de casos de contágio. Na primeira fase da pesquisa, em maio, o índice de infecção era de 1,9%, chegando à média de 3,8% na última etapa. Na análise socioeconômica, a pesquisa mostra que o coronavírus atinge duas vezes mais os pobres do que os ricos no Brasil.

“Uma explicação que pode ser dada é a questão da aglomeração, de habitações com menos cômodos, mas vamos explorar isso nos próximos meses”, observou o reitor, sobre a continuidade dos estudos. O ministério da Saúde prometeu medidas de proteção voltadas às populações mais vulneráveis que vivem em casas que não permitem o isolamento adequado.

Secundo o secretário executivo do ministério da Saúde, Élcio Franco, os números ainda precisam ser analisados e confrontados com outros estudos pra se compreender a dinâmica da doença no Brasil. “Mas certamente é a contribuição do Brasil para comunidade científica internacional”, frisa.

Ampliação de testagem pra reduzir subnotificação

Para o epidemiologista Oscar Bruna-Romero, coordenador dos cursos de Ciências Biológicas da UFSC, é preciso refletir sobre os resultados da pesquisa, considerando que a testagem das pessoas sem sintomas no país ainda é baixa em relação a outros países. “Aqui no Brasil os que nem tiveram sintomas provavelmente nem serão testados”, observa. “Isso aumenta muito a chance de que os positivos tenham sintomas”, completou, sobre a maioria dos sintomáticos da pesquisa.

Ele destaca que os estudos da UFPel precisam continuar pra entender melhor a abrangência da doença. O ministério da Saúde ainda discute sobre novas fases da pesquisa. De acordo com o governo federal, a meta é ampliar a testagem para todos os pacientes com sintomas leves da doença. Unidades estratégicas, inclusive em regiões do interior do país, passarão a fazer o teste do tipo PCR (molecular) em todos os pacientes com sinais gripais.

Antes, esse monitoramento era feito por amostras e casos graves tinham prioridade. A previsão é alcançar 22% da população pela testagem molecular. O ministério da Saúde também prevê ampliar os testes de pessoas assintomáticas, priorizando profissionais de saúde e da segurança, e aumentar a oferta de testes rápidos pra população em geral.

As medidas devem ajudar a diminuir a subnotificação de coronavírus no Brasil. Conforme a pesquisa da UFPel, a estimativa é que o número de casos seja até sete vezes maior que o mostrado nas estatísticas oficiais, de mais de 1,5 milhão de infectados até agora. 

 

Subnotificação de casos pode ser até sete vezes maior que números oficiais

Dados da pesquisa

133 cidades em todas as regiões

89.397 pessoas entrevistadas e testadas

2064 pessoas testaram positivo

91% com sintomas

9% assintomáticas

1,5% de letalidade

Sintomas mais frequentes

– Alteração no olfato/paladar (62,9%)

– Dor de cabeça (62,2%)

– Febre (56,2%)

– Dor no corpo (52,3%)

– Tosse (53,1%)

– Dor de garganta (35,1%)

– Diarreia (29,3%)

– Dificuldade para respirar (26,9%)

– Tremedeira no corpo (26,2%)

– Palpitação (23,1%)

– Vômitos (10,3%)

Testes positivos

Por nível socioeconômico:

Mais pobres – 3,3%

Mais ricos – 1,5%

Por cor da pele Parda – 3,1%

Preta – 2,5%

Amarela – 2,1%

Branca – 1,1%

Indígenas (não aldeados) – 5,4%

 

 

 
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