Home Notícias Especial RELAÇÃO DELICADA | Acindina e Cida: encontro de vidas passadas

RELAÇÃO DELICADA | Acindina e Cida: encontro de vidas passadas

Dona Acindina achava que podia fazer tudo sozinha até conhecer Cida em 2017

Sabe aquele filme “Nunca te vi sempre te amei”? É esta a impressão que dá quando se conhece um pouco do relacionamento entre a dona Acindina Siemann Ferracioli, 86 anos, e sua cuidadora, Maria Aparecida Trindade Day, 53. Elas se conhecem há apenas um ano, depois que a idosa, sempre muito ativa, sofreu um revés ao ser internada na UTI por conta de uma pneumonia. Mesmo a contragosto, aceitou a recomendação dos filhos de ter uma cuidadora, e qual não foi a surpresa ao descobrir que nunca é tarde para fazer amizades verdadeiras.

“Ela é mais do que uma pessoa especial. Ela cozinha tudo que eu gosto, cuida de mim, até demais, viu. Parece que nos conhecemos há mil anos!”, elogia a professora aposentada. “Depois que eu a conheci, posso dizer que sou uma pessoa mais feliz porque a dona Acindina tem um abraço, juro por Deus, que dá uma força na gente, eu chego a ficar arrepiada. Sou muito fã desta mulher!”, se desmancha Cida. Ela se refere, particularmente, ao dia em que descobriu o diagnóstico de câncer na próstata de seu pai. “Eu cheguei desesperada, angustiada. Ela me abraçou, me confortou e disse para eu ser forte. Dito e feito: ele nem vai precisar fazer quimioterapia”, revela.

Dona Acindina sabe o que é passar por tragédias pessoais e seguir em frente. Um de seus filhos, o ginecologista Maurício, faleceu com apenas 59 anos, em decorrência de complicações da diabete. Seu marido, Romeu, sofreu as sequelas de um AVC por 18 anos, vindo a falecer em 2012, depois de passar um ano e meio na cama. “Eu cansei de contar quantas vezes tive que levantar meu marido do chão. Quando ele se foi eu só conseguia rir, parecia que tinha ficado louca. Eu sabia que tinha feito tudo por ele e estava na hora de partir”, conta.

Depois que Romeu faleceu, Acindina ficou quatro anos sozinha, mas sua irmã Erotides, um ano mais nova, morava ao lado, então, a solidão não pesava. Ano passado, Erotides também adoeceu e uma filha veio viver com ela. Era hora de encontrar alguém que fizesse o mesmo pela irmã mais velha. “Cheguei a morar com um filho no Rio do Meio, mas estou há 56 anos nesta casa, quando ainda tinha a estrada de ferro aqui na Fazenda, não queria abandonar o meu cantinho, onde a família se reúne nos fins de semana”. Cida conta que, dependendo do evento, a casa chega a receber 45 pessoas entre filhos, filhas, noras, netos, netas e bisnetos. “E pra cada um ela faz um mimo, como na Páscoa, quando fez cones de chocolates cheios de lacinhos, coisa mais linda!”, lembra Cida.

Rede Ferroviária Federal S/A virou “Romeu Ferracioli fugiu sem Acindina”

Essa era a piada recorrente dentro da casa dos Ferracioli, cuja história começou dentro do Vapor Blumenau, pelo menos, do lado de dona Acindina, que tem uma memória como poucos. “Eu tinha dois anos e lembro quando minha mãe me colocou em cima de uma plataforma e minhas pernas encostavam numa parte aquecida e elas queimaram”, relata. Ela conta que a família veio de Blumenau na década de 1930.

No quadro que ostenta no corredor há quase 20 anos, ela aparece aos 11 anos ao lado de figuras como Abraão João Francisco (dá nome à avenida Contorno Sul) e Joaquim Uriate, pai de Mario Uriarte, outro personagem que batiza uma das ruas conhecidas do bairro Cordeiros. Além do pequeno Manoel Rodrigues da Conceição, o Nelinho, e o mestre Moacir Mourisco, que depois abriu a própria escola na rua Anita Garibaldi, no centro.

Na época do quadro de dona Acindina, nos anos 1940, todos estudavam e lecionavam na Escola Brasil, onde hoje fica o Colégio Salesiano, e onde se fazia teste de admissão para o ginásio. “O ensino médio só tinha em Florianópolis e Blumenau”, lembra a idosa. A foto foi um presente do irmão Nivaldo, que também aparece na foto e faleceu no ano passado. “Ele tirou de um livro sobre a vida do Genésio Miranda Lins”, complementa. Depois de casar e passar 20 anos cuidando dos cinco filhos, Acindina voltou a ativa como professora de datilografia e, depois, como secretaria do Colégio Nereu Ramos, onde conseguiu terminar os estudos através de supletivos.

Aliás, é esse conhecimento da trajetória de Itajaí e seus personagens históricos que impressiona sua cuidadora, a quem emprestou o livro “Itajaí em chamas”, do jornalista Magru Floriano. “Quando eu terminei o livro e disse o quanto havia gostado da história do Odílio Garcia, ela me disse que não só conhecia ele, como já tinha dado aula de matemática pra ele e até abrigou pessoas que sobreviveram ao incêndio. Ela é a história viva de Itajaí, gente! Não podia faltar neste caderno em comemoração ao aniversário da cidade ”, acredita. 

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Um comentário em “RELAÇÃO DELICADA | Acindina e Cida: encontro de vidas passadas

  • 15/06/2018 em 09:49
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    MInha mãe é um orgulho para todos nós. Força, sabedoria, lucidez e amor pela vida é o que faz ela ser tão especial. Te amams maezinha

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