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Falar sobre suicídio pode salvar e ressignificar vidas

Talita e Yara tiveram suas vidas mudadas para sempre. Encarar o assunto de frente tira a culpa e faz refletir sobre 
a sociedade que construímos

Talita viu o pai enforcado um mês antes de completar 10 anos

Talita não se lembra de ter ido à missa com o pai naquela manhã de domingo de 4 de outubro de 1992. Faltava um mês e seis dias para seu aniversário de 10 anos. Era um dia ensolarado, dia de eleições municipais, dia de carreata em Camboriú. Ela se lembra de brincar no gramado, da mãe pegar sol, de ter abraçado o pai, seu Silvino Barth, um carpinteiro de pouco mais de 40 anos, católico fervoroso que havia ido à missa naquela manhã. “Claro que te amo, pai!”, lembra dizer em resposta à pergunta de seu Silvino.
Na tarde deste mesmo domingo, o Brasil ficava sabendo sobre o Massacre do Carandiru que terminou com a morte de 111 detentos e elegia seus prefeitos municipais dois dias depois de Fernando Collor de Melo ter sido afastado da presidência da República em consequência da abertura do processo de impeachment.
Depois do almoço, as coisas em casa pareciam correr dentro da rotina para aquela menina. A família morava em um grande terreno no bairro Tabuleiro, na avenida Santa Catarina, em Camboriú, onde também havia as casas de mais dois tios e da avó, mãe de seu Silvino. Os tios saíram com os carros para votar e acompanhar as eleições.

Eu abriria mão de todas as lembranças que tenho para apagar ter visto meu pai enforcado”, Talita

O pai de Talita foi para o pequeno rancho que tinha para cortar e martelar as portas e janelas que fazia. Era hora do café da tarde e a menina se lembra de estar dentro de casa, esquentando café no bule, quando ouviu a mãe gritar em desespero na rua em frente de casa.
“Pensei que algo tivesse acontecido ali na frente e fui chamar o pai”. No rancho, Talita o encontrou sem vida. “Na hora achei que fosse brincadeira dele, comecei a chamá-lo e pedir para que parasse de brincar porque a mãe estava gritando lá fora. Ele estava dependurado na corda e quando eu entendi, saí correndo e chorando”. Uma tia e a avó de Talita, irmã e mãe de seu Silvino, chegaram em seguida e tentaram tirá-lo das cordas. Um vizinho também chegou para ajudar no socorro, mas já era tarde. “Eu acho que foi premeditado porque ele esperou meus tios saírem com os carros para que não tivéssemos como socorrê-lo”, imagina.
Daquele dia em diante, a vida de Talita, de sua mãe, de seus dois irmãos e do restante da família mudou para sempre. Como o terreno onde moravam já estava vendido e a casa que seu Silvino estava construindo ainda não estava pronta, a mãe de Talita e as crianças foram morar com dona Irene.
Quatro meses depois, elas foram para Balneário, em uma casa alugada. O irmão mais novo de Talita preferiu ficar com a avó. Os tios de Talita se afastaram. A irmã mais velha, já com 14 anos, foi para um balcão de padaria trabalhar e ajudar no sustento da família. Talita cuidava das tarefas de casa. Só voltaram para Camboriú dois anos depois da morte de Silvino, onde vivem até hoje. A matriarca Irene, mãe de 14 filhos, morreu cinco anos depois.
Dos 10 aos 15 anos de idade, Talita escondeu dos amigos, principalmente da escola, o suicídio do pai. Dizia que havia morrido em decorrência de um infarto. “Eu tinha vergonha, ficava constrangida. Quando era início do ano letivo que todo mundo se apresentava e falava dos pais, eu falava sobre a minha mãe e que meu pai tinha falecido de um infarto. Só fui conseguir contar a verdade, depois dos 15 anos, quando comecei a ter amizades mais verdadeiras. Antes disso, passei quase seis anos negando o que ele tinha feito”, conta.
Nem Talita, nem a mãe buscaram ajuda profissional para enfrentar a dor e as dúvidas que cercam o suicídio de Silvino até hoje. “A gente não conhecia direito, não sabia que precisava de terapia e também não tínhamos dinheiro, as coisas era muito mais difíceis e menos conversadas do que são hoje”, explica.
Reviver em voz alta a história do suicídio do pai é um processo ainda muito dolorido para Talita que não segura as lágrimas ao dizer que todos os dias se lembra do pai e que inevitavelmente ainda se questiona se poderia ter feito alguma coisa para evitar que ele tirasse a própria vida. “Eu abriria mão de todas as lembranças que tenho para apagar ter visto meu pai enforcado. Saber que a pessoa escolheu isso é muito difícil. Quando é uma doença você tem um tempo para se preparar para a morte. Mas como encarar um cara que de manhã foi pra missa e à noite está no caixão porque escolheu botar a corda no pescoço?”, questiona.
A menina Talita, que hoje está com 33 anos, diz que sobrevive a dor pensando no futuro, amando os dois sobrinhos e contando com a rede de apoio de grandes amigos e da família. “Eu vi a mãe do meu pai, uma velhinha segurando ele pelas pernas, chorando, incrédula. Se a minha dor foi grande, imagina a dela? Eu não quero causar essa dor nas pessoas. Prefiro viver com a minha dor, mas eu sei que vai passar. É a fé que no fim o bem sempre prevalece. Amar, ser amor, dar amor, ver os sobrinhos crescerem. Eu aprendo todo dia. Todo dia é um pouquinho. Às vezes dá uma crise, uma ansiedade, mas aí vem uma coisa boa e você se fortalece. Vem meu sobrinho, os amigos, a mãe. É assim que a gente volta para o rumo da vida e se fortalece”, finaliza.

Yara tentou o suicídio mesmo fazendo tratamento psicológico e psiquiátrico

Não, não é uma tempestade em copo d´água

Yara tentou se matar numa segunda-feira. Era fevereiro de 2014. Mês onde os brasileiros se chocaram com a morte de um cinegrafista atingido por um rojão em protestos no Rio de Janeiro contra o aumento da passagem de ônibus. O Ebola apavorava o mundo com a maior epidemia já registrada. Era ano de eleições, um ano onde as tensões políticas aumentariam no mesmo passo das prisões e revelações da Lava Jato.
Yara tinha 18 anos na época e estava em tratamento psiquiátrico e psicológico. Desde pequena enfrentou a depressão na marra, meio sem entender a “agonia” que sentia dentro de si. Não se achava bonita, não se achava legal para os amigos. Acreditava ser um peso para seus pais, um peso para o mundo. Enquanto foi crescendo, aquelas agonias de Yara cresceram junto. No ensino médio enfrentou episódios de automutilação acreditando que era uma fase da adolescência. No início da faculdade vieram os distúrbios alimentares, a bulimia. No segundo semestre de 2013, o primeiro namoro acabou e o isolamento social de Yara virou rotina. As mutilações voltaram, as crises bulímicas aumentaram. Sofrendo ao lado da filha, os pais de Yara a convenceram de que o tratamento seria a única solução.
“O psiquiatra podia ter mudado a minha história, mas foi bem traumático. Ele não olhava no meu rosto nas consultas. Me escutava cinco minutos e aumentava a dose do meu remédio. O tratamento não estava fazendo efeito e eu já pensava no suicídio”, conta. Em janeiro de 2014, Yara percebeu que não conseguiria mais, procurou sua psicóloga pedindo ajuda porque pensava em se matar. “Ela ligou para meu psiquiatra e pediu meu internamento. Depois eu soube que ele negou, disse que eu estava fazendo tempestade em copo d´água e que adolescente não se matava”. Uma semana depois, em uma segunda-feira de fevereiro, Yara tentou o envenenamento com remédios. Os pais haviam saído para caminhar e quando voltaram, Yara ainda não dava sinais da intoxicação. “Jantamos, eles foram dormir e eu também. Em algum momento eu levantei da cama para pegar algo na penteadeira do meu quarto, mas caí no chão já em convulsão. Como nosso piso é de madeira, eles ouviram, me socorreram e levaram para o hospital”. Yara não se lembra de muita coisa, reconta o que os pais e a irmã narraram do momento. No hospital, ela ficou internada 24 horas até que pudesse ser liberada. Lá, recebeu a visita da psicóloga que mais uma vez ligou para o psiquiatra insistindo na internação. “Ela conversou comigo e eu não via outra saída, sabia que seria minha única chance. Tive alta, dormi em casa e na manhã seguinte acordei, fiz uma pequena mala e meus pais me levaram para a clínica em Camboriú”.

A depressão e a ansiedade são coisas que te acompanham para a vida toda. Por mais que a gente queira arrancá-las de dentro, precisamos aprender a conviver”, Yara

Yara ficou internada dois meses em tratamento. Sem acesso à internet, com visita duas vezes por semana, consultas com uma nova psiquiatra e com a psicóloga da clínica, medicações, atividades e rotina. “Foi a melhor e a pior coisa que me aconteceu”. Dois meses depois, Yara estava melhor, mais leve e pronta para voltar para o mundo exterior, para sua casa, pais e amigos. “Lá eu conheci outros pacientes, cada um com suas história e seus problemas, cuidei de mim, cuidei de outras pessoas, fiz amizade e finalmente conheci o amor próprio e a autoestima. Saí de lá outra pessoa, sentindo coisas que eu nunca tinha sentido antes. Porém, a história não termina tão linda assim”. Yara conta que saiu da clínica com a certeza de que a depressão não a afetaria novamente. “Mas não é bem assim que a coisa funciona. A depressão e a ansiedade são coisas que te acompanham para a vida toda. Por mais que a gente queira arrancá-las de dentro, precisamos aprender a conviver”.
Cinco anos e meio depois de ter deixado a clínica, Yara continua sua luta contra a doença. No ano passado, durante as eleições, teve uma recaída. Trancou a segunda faculdade que fazia. Voltou para os remédios que tinha parado por conta própria e se mantém na terapia. Tem uma namorada há um ano e meio que divide os momentos bons e ruins. É DJ requisitada em casas noturnas de Balneário, Blumenau e Joinville. Está aprendendo a tocar violão. “Não vejo minha aparência de forma doentia como antes, mas ainda me incomodo com algumas coisas. Duvido da minha capacidade todos os dias, acho que as coisas não vão dar certo, às vezes duvido do que as pessoas sentem por mim. Mas no fundo eu sei que vou conseguir de novo, mesmo que a minha cabeça insista em me convencer do contrário. Quem sofre de depressão precisa de ajuda. Não podemos deixar que continue sendo um tabu. Você não precisa sofrer disso ou perder alguém para ajudar. Precisamos falar sobre depressão e sobre suicídio, em todos os meses do ano”.

Psicóloga clínica e professora universitária Marina Corbetta Benedet

A cultura da culpa
Impeachment do Collor, epidemia do Ebola, eleições municipais, protestos violentos, o massacre do Carandiru. O que esses episódios que aconteciam no Brasil de 92 que o pai da Talita vivia e no Brasil de 2014 de Yara tem a ver com suicídio?
Durante muito tempo, silenciamos um problema de saúde pública que hoje já é a terceira maior causa de morte no país ficando atrás apenas dos homicídios e acidentes de trânsito. No Brasil, cerca de 30 pessoas se matam por dia. Em Santa Catarina, duas por dia. O estado catarinense tem um dos melhores IDHs do país, em contrapartida, tem uma das taxas mais altas de suicídio per capita. Então por que uma boa qualidade de vida não faz os índices deste tipo de morte baixarem?
Segundo a doutora em psicologia, psicóloga clínica e professora universitária Marina Corbetta Benedet, transtornos mentais como a depressão, por exemplo, não são as únicas causas que levam uma pessoa a tirar a própria vida. “Ele é um fenômeno de múltiplas causas, do sujeito e do externo que o afeta. Não podemos enxergar o suicídio com um único olhar”, explica. Por isso, fatores como dificuldades financeiras, uma separação amorosa, decepção podem não ser gatilhos, mas também causas sem que o sujeito tenha necessariamente um histórico depressivo anterior. Mais que isso. A doutora explica que a cultura da sociedade tem influência direta nos casos de suicídio. “O que é ter sucesso? É se formar numa faculdade, se casar, ter independência financeira? Essa sobrecarga cultural gera uma série de exigências no ser humano, gera vergonha, culpa. Uma sensação de não dar conta de tudo que é natural faz a pessoa não se sentir capaz de gerenciar os sentimentos, as obrigações impostas. Por isso o IDH, o acesso a bens e serviços, não pode ser relacionado ao número de suicídios obrigatoriamente. Temos que olhar para a nossa cultura e o que nos é imposto. O que nos é exigido que é sobre humano?”, orienta.
A cultura do “resolver tudo sozinho” também é outro fator que pesa nos ombros das civilizações ocidentais. “Uma sociedade autoritária e individualista onde as pessoas aprendem desde crianças que não devem compartilhar seus problemas, que devem dar conta de tudo sozinhas, que devem ser felizes e compartilhar apenas a felicidade. É uma outra exigência que não é humana. Faz parte sentir tristeza em alguns momentos e precisamos falar sobre isso”, diz.
É fato comprovado pelos números que as mulheres são as que mais tentam o suicídio em Santa Catarina, mas são os homens os que mais levam a cabo por usarem meios mais letais. Esses dados também podem ser avaliados pela lupa da cultura.
“Os homens aprenderam a resolver suas questões de forma mais agressiva. Eles se acidentam mais por imprudência e agressividade. Eles resolvem suas questões com mais violência. As mulheres foram educadas a resolver suas questões de maneira menos violenta. É uma questão cultural de gênero e que sim faz com que eles aprendam a lidar com formas mais agressivas e violentas e assim usarem meios mais letais para o suicídio”, explica Marina.
Por isso, falar de suicídio é ainda tão difícil para a sociedade como um todo. Olhar para este fenômeno, obriga a todos um olhar atento e crítico para a nossa cultura. No silêncio do tabu, os culpados eram os indivíduos. Ao abrir o debate, enxerga-se a causa para além deles. “É preciso discutir os assuntos difíceis”, fecha a especialista.

O Mustang de Mike e o Setembro Amarelo


Era 8 de setembro de 1994, quando o adolescente americano Mike Emme foi encontrado morto pelos pais dentro do seu Mustang amarelo, na garagem de casa, no Colorado. Mesmo antes de completar idade para dirigir, ele havia restaurado o carro, um modelo 1968, e o pintado de amarelo brilhante. Inspirados pela cor do Mustang de Mike, os pais iniciaram uma campanha de prevenção ao suicídio, voltada para jovens, distribuindo cartões com mensagens de apoio com uma fita amarela. A partir da tragédia, nasceu a Fundação Yellow Ribbon.
No Brasil, a campanha Setembro Amarelo começou em 2015, graças a uma iniciativa do Centro de Valorização à Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Durante o mês, Ongs, entidades da sociedade civil organizada e administrações públicas intensificam as ações de promoção à saúde mental e conscientização para a prevenção do suicídio.

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O CVV – Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias.
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Em Balneário Camboriú há o projeto Abraço à Vida que também atende os moradores da cidade 24 horas por dia, sete dias da semana. Quem precisar de ajuda é só ligar ou enviar uma mensagem de whatsapp para o número (47) 99982-2322.

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