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Carroças podem ter substitutos mais eficientes e sustentáveis

Carrinho é capaz de carregar até duas toneladas de recicláveis; veículo elétrico ainda precisa de regulamentação

Uma alternativa não poluente, de baixo custo e sem uso animal, pode ser a solução para catadores e profissionais que trabalham com a coleta de lixo em Itajaí: um carrinho de metal batizado com o simpático nome de Cavalo de Lata.
Na disputa entre defensores dos carroceiros e protetores de animais, a proposta busca apresentar um sistema que oferece vantagens para todos os lados.
O Cavalo de Lata nasceu em dezembro de 2012, em Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul. Era um projeto com objetivo de extinguir as carroças com cavalos com o sistema de tração. Fundada por dois defensores da causa animal: o engenheiro de produção Jason Duani Vargas e a publicitária Ana Paula Knak, o Cavalo de Lata chamou a atenção de organizações e de governos como uma alternativa rentável e sustentável que ainda facilita e otimiza o trabalho de catadores e recicladores.
Segundo Ana Paula, mais de 50 gestores já conheceram a rotina do projeto com interesse de levar o “transporte” para suas cidades. No entanto, o Brasil ainda não possui uma legislação que regulamente a circulação de carrinhos elétricos], o que implica em conseguir uma autorização junto ao Denatran para o tráfego.
Atualmente, a circulação do veículo em vias públicas ainda não é autorizada (exceto para testes) e o órgão solicitou a inclusão de freios ABS, airbags e vários testes para repensar essa liberação. Segundo Ana Paula, os testes e adaptações pedidos pelo Denatran têm valor muito alto para a realidade da ONG, mas a equipe segue em busca das adaptações. O veículo circula com permissão por feiras, eventos, ilhas, fábricas e estádios.

Golfe e bike
O Cavalo de Lata funciona como uma mistura de carrinho de golfe e bicicleta. Uma estrutura metálica com carroceria para armazenagem de até duas toneladas de lixo foi acoplada a uma espécie de bicicleta no veículo que tem suspensão, banco com dois lugares, volante e todo o aparato de segurança como cinto, luz e faixas refletivas. Talvez o mais bacana do Cavalo de lata seja seu potencial híbrido: o veículo funciona tanto de forma elétrica (movido a uma bateria com autonomia de 50 quilômetros), quanto no pedal.
As peças para fabricação do veículo foram retiradas de motocicletas obsoletas. Por essa origem de peças simples, o Cavalo de Lata possui ainda uma manutenção fácil e barata, que pode ser feita em oficinas de veículos e até de bicicletas, o que conta mais um ponto a seu favor no dia a dia dos trabalhadores.
Além de ser um apoio aos catadores, o carrinho pode ainda ser usado como sistema de coleta de resíduos; como transporte em feiras e eventos, indústrias, parte da coleta seletiva dos municípios ou até como suporte em propriedades rurais. Por todas as suas especificidades e a base de lata, ele é capaz de diminuir o tempo de serviço, custos e otimizar processos de trabalho.
Com a autonomia de bateria atual, se o condutor fizer 12 quilômetros por dia, andará de segunda a sexta sem precisar recarregá-lo. O custo por quilômetro percorrido deve girar em torno de R$ 0,02 a R$ 0,05.

Veio para somar
O projeto não pretende questionar o trabalho de catadores e recicladores, mas sim apresentar uma estratégia mais sustentável e segura para todos: carroceiros, motoristas e pedestres, e, também, aos cavalos, que muitas vezes acabam sacrificados pela exaustão causada pelo trabalho.
O veículo ainda permite maior comodidade aos profissionais, que passam a ser capazes de trabalhar com menos esforço físico e maior aproveitamento. Eles são capazes de carregar cerca de duas vezes mais do que com a carroça conduzida por cavalos. “Estamos já com um novo projeto, onde o carrinho é quase um mini caminhão, mas ainda com velocidade reduzida, tudo pensando na qualidade de vida dos catadores e no fim dos maus tratos a animais” anuncia Vargas.
Os criadores dizem acreditar que muito em breve o Cavalo de Lata conseguirá sua liberação e reforçam a necessidade de diálogo com administradores públicos e empresários para, junto do trabalho já realizado pela ONG, pensar em formas de viabilizar o projeto e a adaptação dos veículos sem tração animal no dia a dia das cidades.
A dupla ainda se coloca à disposição para pensar em soluções personalizadas para a realidade de diferentes cidades e empresas. “Já há carrinhos do Cavalo de Lata circulando por pátios fabris e indústrias, e eles se mostram extremamente estáveis e úteis,” completa a fundadora.

ONG trabalha na reabilitação de animais de grande porte

Em 2017 o projeto Cavalo de Lata ganhou a certificação de Ong e, com isso, Ana Paula conta que o grupo passou a atuar em uma frente de libertação dos animais em todas as esferas.
“Criamos a Ong dia 13 de maio, dia da abolição da escravatura, e escolhemos essa data justamente para pensar em libertar os nossos escravos atuais que são os animais”, conta.
A Ong trabalha com resgate e reabilitação de animais de grande porte e já atendeu mais de 100 animais. Os fundadores buscam patrocínios e parcerias do setor empresarial.
O trabalho, que é todo voluntário, é mantido com bingos, ações sociais, venda de produtos, doações de mensalistas e outras formas de monetização. Pessoas que que querem contribuir com a causa podem encontrar o projeto em sua página no Facebook e inteirar-se das formas de doação.
Ana conta que a atuação do Cavalo de Lata é ampla e vai além da causa animal, preocupando-se também com questões ambientais e sociais. Ela conta que a ONG realiza um trabalho nos bairros das cidades em que atua, atendendo principalmente catadores e recicladores que ainda usam carroças puxadas por cavalos.
Os idealizadores apresentam outras oportunidades de trabalho formal e auxiliam as famílias em suas necessidades primárias. Depois, indenizam o valor do cavalo que está sob o poder do catador e auxiliam a família na transição para uma nova vida.
O trabalho da ONG objetiva, a longo prazo, garantir às famílias uma vida profissional com outras formas de subsistência que não a carroça.

Outras cidades 
da região
No ano de 2017, o Cavalo de lata foi sugerido pelas entidades de proteção animal como alternativa à tração animal em Joinville. A sugestão foi apresentada pela presidente da frente de Ação pelos Direitos dos Animais (Frada), Ana Rita Hermes, durante audiência pública na Câmara de Vereadores. O projeto de Lei 294/2015 é de autoria do vereador Lioilson Corrêa (PSC) e prevê a proibição gradativa de veículos de tração animal na zona urbana da cidade.
Apesar de não ter sido possível adquirir nenhuma unidade do veículo, em fevereiro de 2019, entrou em vigor na cidade uma Lei Complementar que proíbe a condução de Veículos de Tração Animal (VTAs) com a finalidade de reciclagem, mudança ou outras atividades que impliquem esforço excessivo aos animais. A lei excetua casos de uso dos veículos em locais privados, zonas rurais e casos de passeios turísticos ou atividades agropastoris.

A fundadora do projeto, Ana Paula Knak

DIARINHO – Vocês já criaram o projeto imaginando que ganharia essa dimensão internacional, visto que já foram case para ações em países como Alemanha?
Ana Paula Knak: O Cavalo de Lata nasceu como uma brincadeira Jason e eu. Ele, como engenheiro, viajava muito pro exterior buscando máquinas para indústrias de outros ramos. Um dia ele me disse que na Europa e nos EUA são muito usadas as máquinas elétricas, e aí eu disse: ‘ah, porque você não faz uma carroça elétrica então?’. E a partir daí a história foi passando entre um e outro, fomos adaptando o modelo inicial e chegamos ao que temos hoje. Então depois disso pensamos apenas no veículo como uma ferramenta para substituir a tração animal, e não em todos os outros usos e possibilidades que teria. Não imaginávamos essa repercussão.

DIARINHO – Vocês já têm uma ideia de preço de venda do carrinho?
Ana Paula Knak: Como o Cavalo de Lata ainda não tem a liberação para circular em qualquer rua, ele ainda não é um produto pronto, por isso não falamos em preço de venda e nem em possibilidade de compra. Tomamos esse cuidado para não criar uma falsa ilusão desse produto ou dar a entender sobre alguma liberação. Não é possível hoje um administrador público dizer que vai substituir carroças por Cavalos de Lata. Mas nosso desejo é que em breve já possamos ter todas as liberações e comercializar o Cavalo de Lata como um produto.

Proposta apresentada em audiência em Itajaí
O cavalo de lata foi apresentado como uma das propostas ambientais para substituir as carroças de traçao animal em Itajaí, no final de abril, em uma audiência pública que discutiu o projeto de lei que proíbe o uso de cavalos para puxar carroças na cidade.
O projeto de lei 35/2019 é da vereadora Renata Narcizo. Vale lembrar que, no começo de seu mandato, a vereadora do Solidariedade já apresentou um projeto com o mesmo fim que teve pedido negado e foi retirado da pauta.
Os veículos produzidos pelo projeto Cavalo de Lata apresentam-se então como uma alternativa aos trabalhadores itajaienses. Pela proposta debatida na audiência, o equipamento seria patrocinado por empresários, que poderiam estampar suas marcas nas laterais do veículo como contrapartida.
A substituição das carroças atuais pelos novos carrinhos seria gradativa e acompanhada pela comissão do projeto. Não há data para votação na câmara de vereadores.

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