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Na beira do mar todo mundo é craque

Campeonato de beach soccer (o popular Areião) faz a alegria do povão e reúne gente de todas as tribos

Renata Rosa
Especial para o DIARINHO

Dizem que não existe lugar mais democrático do que a praia, e esta máxima não poderia estar melhor representada em Itajaí do que nos fins de tarde nas areias do Atalaia. Até 18 de março, uma galera animada e diversa se reúne em times para disputar o campeonato de beach soccer (futebol de praia, na língua dos gringos) mas, principalmente, para confraternizar e compartilhar a paixão pelo futebol num cenário exuberante e com a deliciosa atmosfera festiva do verão. A reportagem do DIARINHO esteve no sábado para conhecer alguns desses personagens, que trocam a batalha pelo pão de cada dia pela descontração praieira, mesmo que seja a milanesa!
Um dos pioneiros no futebol de areia de Itajaí é o barnabé Nilmar Gonzaga, 54 anos. Ele bate bola no Atalaia há 25 anos e acompanhou todas as mudanças de regulamento e a evolução do beach soccer, que não copia mais o futebol de campo, e tem regras próprias.
O número de jogadores por time caiu de 11 para oito e agora são cinco. A razão seria as desavenças constantes sob o sol de rachar. O tempo de bola rolando também mudou. Agora são três tempos de 12 minutos, e três de intervalo para não fritar os miolos.
“A prefeitura deveria rever esse horário. Às 17h, no horário de verão, é quente demais! Poderia começar às 19h”, sugere o funcionário público, já com a pele tostada, e olha que o campeonato acabou de começar!
Nilmar treina os amigos na categoria master e joga com os veteranos pelo Calamares. Ele conta que voltou este ano depois de dois anos suspenso, quando o time ainda se chamava Caramujo. “Eu tive que levar a mulher no hospital e acabamos atrasando, daí perdemos por WO. Eu justifiquei, mas não teve jeito”, lastima.
Apesar da pena pesada, ele não desistiu e reuniu os amigos de novo. “O futebol tá no sangue. Desde os oito anos, quando morava no Imaruí e jogava bola na rua com os coleguinhas, minha diversão é o futebol”, relembra.
O Calamares reúne os craques de fim de semana dos arredores da Univali, dos bairros Nossa Senhora das Graças, Fazenda e Centro, onde Nilmar mora hoje. E quando não pode estar em campo, nas horas de folga, torce para o Fluminense pela TV. “Já sofri muito pelo tricolor, ainda bem que agora são os torcedores do Vasco que estão penando”, dá risada.

A casa de Vital é repleta de troféus
Quando era adolescente, Vital Pereira Martins, hoje com 41 anos, teve a chance de treinar para jogar profissionalmente, mas a situação financeira da família não permitiu realizar o sonho. Ele teve que encarar o batente muito cedo para ajudar no sustento da casa. “Sou de família de pescador, então meu pai me colocou para descarregar barco, depois vendi picolé, fui servente de pedreiro, vixe, fiz tanta coisa! Ainda por cima, casei com 19 anos, daí o futebol acabou virando hobby mesmo”, relata.
Os tempos difíceis ficaram pra trás, hoje Vital trabalha como vendedor autônomo, mas o amor pela bola continua intacto. Para dar vazão à vocação interrompida e reunir os amigos, ele criou o time Traíras, e diz, com orgulho, que ganhou campeonatos em todas as categorias que disputou, desde 2004, quando os times do futebol de areia contavam com 11 jogadores. “Minha sala é repleta de troféus. Este ano eu até quis desistir, tava cansado de correr atrás de patrocínio, mas quem disse que me deixaram?”
O time de Cordeiros tem o apoio de vários comerciantes locais, como supermercado, transportadora, rádio-táxi, afinal, também disputam o campeonato de futebol suíço no inverno. “Somos os únicos que mantém 80% dos jogadores desde que o time foi criado porque também nos reunimos no ferinos, fazemos churrasco depois do jogo, estamos sempre juntos”, diz.
Para a segunda rodada do beach soccer, a turma de Vital trouxe12 kg de carne, vodca, energético e seis engradados de cerveja. Pena que o gosto pelo futebol não se manteve na geração seguinte. “Meu filho me acompanhava até os 15 anos, depois, só quis saber de videogame. “No meu tempo a gente tava sempre na rua, agora, eles não querem mais sair da frente do computador”, lamenta.

Gana de vencer é a marca da categoria de novos
Enquanto a reportagem do DIARINHO conversava com as meninas que fariam o segundo jogo da tarde, uma treta rolava na arena do Atalaia entre os jogadores dos times Espada e Carpa. O que não chega a ser nenhuma novidade, já que a categoria dos novos é formada pela gurizada que não gosta de levar desaforo pra casa, e tenta resolver dentro da areia suas diferenças.
“Temos muita rivalidade com o time do Espada. Sempre estamos competindo, e de vez em quando rola uma confusão, mas depois fica tudo bem, estamos aqui para nos divertir”, garante Diego Dalçóquio Schneider, 25. Na peleja do último sábado, o Espada ganhou do Carpa por 4 x 2.
Ele conta que trabalha como vendedor autônomo e joga futebol desde os oito anos, quando a mãe o colocou na escolinha do Marcílio e do Barroso para controlar o peso, que hoje é de fazer inveja.
Sua função no time do beach soccer é a mesma do futsal e futebol society, a zaga, mas revela que na praia o bicho pega. “Jogar na areia fofa é muito mais cansativo, é preciso estar mais preparado”, acredita, mas confessa que o grupo, formado pela galera de Cordeiros, São Viça e Cidade Nova, não costuma treinar. “Eu faço a minha parte treinando na academia”, justifica.
Ao contrário dos veteranos, os novos não costumam fazer confraternização, com direito a churrasco e cervejada, a cada jogo. “É muito gasto e não é sempre que dá pra gastar R$ 100, então a gente deixa para o final do campeonato”. Mas como todas as demais categorias, o Carpa é patrocinado pelos comerciantes locais, que põem fé no time que representa a comunidade. E num esporte que conquista cada vez mais adepto justamente pela ênfase no lazer. “É muito gostoso jogar na praia. A gente se reúne com os amigos, relaxa a tensão da semana, toma banho de mar, bebe uma cervejinha, paquera, é muito mais diversão do que qualquer outra coisa”, enfatiza.

Sem essa de sexo frágil!
Não é de hoje que as mulheres lutam pela igualdade de oportunidades em setores da sociedade antes restritos aos homens, e no futebol não podia ser diferente. E com um grande diferencial: elas não são atletas de fim de semana, mas treinam de duas a três vezes por semana, às noites, depois de um dia duro de trabalho. Tudo por amor ao esporte. “O futebol ainda é um esporte muito machista, então treinamos muito para fazer bonito no campeonato”, afirma Marisa Ferreira, 40 anos, jogadora do Beira-Rio, de Navegantes.
Ela trabalha como empregada doméstica e participa de torneios de futebol há cerca de 10 anos, até porque o gosto pelo esporte contagiou a família toda. “Meu marido joga no Bagre, dos veteranos, meus três filhos também jogam e a caçula, aos 13 estreou ano passado como a mais nova do campeonato. Ela é a goleira do nosso time”, se orgulha. Ao contrário das categorias masculinas, não há divisão por idade, mesmo que as mais maduras não tenham o fôlego de outrora. “Hoje eu fico mais nos bastidores, mas estou sempre pronta a entrar se precisar”, garante Marisa. O time do coração é o Mengão do Rio de Janeiro.
Outra entusiasta pelo esporte é a fisioterapeuta Mayara Menezes, 25, que joga como atacante no time Divas, que reúne atletas de Itajaí (principalmente dos Cordeiros), Balneário Camboriú, Navegantes e Gaspar. Natural de Joinville, ela viu no futebol uma forma de fazer amizades e se integrar a nova realidade, quando chegou há três anos. “Aqui é muito mais fácil de fazer amigos. O pessoal do litoral é mais aberto e aceita gente de fora. Sempre gostei de esporte e fazia parte do time da fundação de Joinville, mas não foi nada fácil ser admitida lá”, afirma.
No jogo das Divas contra o Beira Rio, as Divas, que conta com um elenco de 18 atletas, de todas as idades, levaram a melhor: 3 x 2. Elas treinam sempre à noite na arena do Atalaia no verão, e no inverno, para o campeonato de futsal. O público assistiu com entusiasmo ao jogo movimentado, com muitos gols e sem brigas, apesar do espírito aguerrido das jogadoras. Prova de que lugar de mulher é onde ela quiser.

Resultados do findê
SÁBADO
• Praia da Atalaia Categoria Novos
17h – Espada 4×2 Carpa
18h30 – Sereia 12×3 Trilha
Categoria Feminino
17h45 – Divas 3×2 Beira-Rio

• Praia do Molhe
Categoria Veteranos
17h –Calamares 2×7 Traíras
Categoria Master
17h45 –Marisco 2×1 Calamares

DOMINGO
• Praia da Atalaia
Categoria Novos
17h – Merlim 2×6 Robalo
18h30 – Meca 2×4 Piranha – Categoria Novos

• Praia do Molhe
Categoria Veteranos
17h – Esponja do Mar 10×4 Leão Marinho
Categoria Master
17h45 – Corrupto 0x7 Traíras

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