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“Memória Navegante” tenta ocupar lacuna de uma bibliografia sobre o município

Para Sofia, o bairro São Pedro é vivo, com um forte senso de comunidade

Especial para o DIARINHO
Renata Rosa

A ideia é lançar o livro de forma virtual também

Navegantes tem muita história, mas ainda é um município jovem. Por isso, há um esforço permanente em adquirir autonomia e ser dono do próprio destino. Neste sentido, foi lançado em 2017 o livro “Memória Navegante”, uma coletânea de 14 textos sobre aspectos culturais da cidade, organizada pela ilustradora Kaká Moreira e a museóloga Angela Peyerl, com patrocínio da Fundação Cultural.

Entre os temas abordados estão o patrimônio material e imaterial, a identidade urbana, a Festa do Divino, os molhes, os jogos de capoeira, os grupos de teatro e dança e a história dos bairros São Paulo e São Pedro. O livro parte da premissa que os moradores podem ser os autores de sua própria história, numa construção coletiva.

“Como não temos uma historiografia do município, as publicações e referências bibliográficas são muito escassas. A ideia era fazer um livro que servisse de apoio para professores e alunos”, explicou Angela, que é especialista em História e Cidade pela Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc).

Angela conta que para elaborar o livro foram feitas oficinas com os professores de história da rede municipal e, depois, oficinas e palestras para os alunos da rede municipal sobre patrimônio cultural. “Em alguns bairros, especialmente no São Paulo e Gravatá, os alunos entrevistaram moradores, que fizeram relatos, mostrando a importância da história oral,” acrescentou.

A museóloga chama a atenção para o risco de perda das referências locais no atual momento de pandemia, numa sociedade cada vez mais virtual. “A gente está vivendo em um mundo em transformação. É muito importante reconhecer e se entender dentro deste mundo. Entender nossa história, as mudanças que a cidade passou e de que forma a gente está encarando estas mudanças”, acredita.

Para Angela, o registro dos usos e costumes, manter viva a memória da cidade é vital, ainda mais porque Navegantes ainda não tem o seu próprio museu e arquivo histórico, onde os registros ficam salvaguardados. A cidade era um bairro de Itajaí até 1962. “Entender Navegantes também é entender Itajaí e como se formou a cidade para pensar na conformação urbana e histórica. É muito importante saber daqui a 20, 30, 100 anos como a gente vivia e como a gente vive hoje. O que vamos deixar, qual é o nosso legado”, reitera.

Os textos de Sofia sobre o bairro Pontal estão disponíveis, também, em www.diarinho.com.br

 

Artista de Floripa acha seu lugar no mundo na calmaria entre o rio Itajaí-Açu e o mar

Sofia encontrou no jornal uma forma de adaptar seu projeto vencedor da Funarte

olhar estrangeiro capta detalhes que passam despercebidos pela população local, envolvida em suas rotinas, afazeres, costumes. Mas se o jornalismo bebe na fonte do extraordinário, a arte se enamora da beleza pueril do cotidiano, que atraiu o olhar afiado e sensível da artista Sofia Brito, 31 anos, moradora de Navegantes há três anos. Em julho, ela publicou uma série de textos no DIARINHO chamado “29 ruas”, projeto vencedor da Funarte, em que descreve a geografia peculiar do bairro São Pedro, entre o mar e o rio Itajaí-Açu.

“O projeto estuda minha relação com o entorno. Eu tento responder o que é o Pontal e o que é ser do Pontal. Eu me interesso pelas questões locais, pela vida do presente, pela dinâmica do cotidiano, a relação entre o local e o global, entre o presente e o histórico”, explica.

Sofia conta que, a princípio, o projeto era baseado em registro fotográfico e a interação com os moradores, mas aí veio a pandemia e ela teve que buscar alternativas sem perder a essência. Foi aí que os destinos de Sofia e o DIARINHO se cruzaram. “O jornal tem essa relação contextual com a cidade. É popular, de bastante alcance e abrange o litoral norte catarinense, circular impresso e também na versão on line, então, chega em todo mundo”, pontua.

Para ela, a linguagem do jornal também aproxima os leitores, por isso se constituiu num suporte ideal para executar o projeto e, através dele, construir relações com o bairro que mora, identificando limites e possibilidades. A geografia do lugar levou a artista a estudar outros ramos do conhecimento para entender como se dá o processo de produção da cidade. Suas principais estratégias são a observação, a assimilação e a escuta.

Para Sofia, o bairro São Pedro é muito vivo, com um forte senso de comunidade e união. Com muita gente circulando na rua, bicicletas, bares, criançada brincando de pipa, igrejas, pescadores artesanais. Por isso, a chegada da pandemia atingiu o bairro em cheio e mudou sua dinâmica. “Não que as pessoas deixaram seus hábitos, mas este é um lugar de constantes encontros e a pandemia trabalha na ordem do afastamento e isolamento. E o bairro não é isolado, ele é um estuário que carrega uma história muito profunda entre as pessoas e a localidade, dentro deste complexo portuário, que gera fluxos e contrafluxos”, explica.

Sofia é de Floripa, cidade conhecida pelos prédios suntuosos na Beira Mar e resorts em Jurerê Internacional, mas também pelas inúmeras comunidades nativas espalhadas pelo interior da ilha. Mas sua vivência na capital não passa nem por uma coisa nem pela outra, e por isso ela se apaixonou pelo Pontal.

“Gosto muito daqui, sinto que vivi aqui a vida toda. Uma sensação curiosa de chegar num território completamente novo e te parecer completamente íntimo. Em Floripa, sou de um bairro dormitório no continente, de classe trabalhadora, que passa o dia todo fora, boa parte empenhada no deslocamento pela cidade, então nunca tive uma relação intensa com a comunidade”, justificou.

A artista veio para Navegantes trabalhar nos cursos livres da fundação cultural, e de lá pra cá, outras oportunidades surgiram. Inclusive o projeto, que nunca esteve em seu radar até começar a prestar atenção nos processos de adaptação da imigrante que encontra seu lugar no mundo, longe de suas referências. “Eu não pensava em pesquisar sobre o bairro, a pesquisa veio de uma necessidade de entender o local para saber qual é o meu lugar neste espaço, como eu me localizo nesse território”, ressalta.

Nas fotografias que acompanham o texto, a artista optou em fazer um recorte passando por quatro ruas que dividem o bairro, o que resultou em quatro textos. “Um dos textos fala sobre isso, sobre a construção de um lar. Que elementos surgem desse processo de deslocamento, de migração, de pertencimento. Aqui é um bairro que tem muito migrante e eu sou um deles. Vim para trabalhar, estou até hoje e não tenho planos de sair daqui”.

Para ela, o mais valioso em sua pesquisa foi se abrir ao outro, realmente ouvir o que ele tem a dizer. E não se importou com a curiosidade dos locais por ser “forasteira”, sempre se sentiu acolhida. “No Pontal, quando chega alguém de fora, as pessoas querem saber quem tu és, o que tu fazes, como veio parar ali, eles querem uma justificativa.  É natural esta curiosidade, querer entender a chegada de um estranho. E nesse processo eu também tenho vontade de saber, de aprender. A gente vai conversando e  construindo uma relação e isso é muito bonito. Quando a gente realmente se abre para escutar o que as pessoas têm a dizer, surgem personagens e histórias incríveis”, revela.

 

Educadora uniu Boi de Mamão e Carnaval para ensinar valores às crianças através da arte popular

O grupo ganhou um prêmio nacional em 2009 de incentivo à arte popular

Uma das tradições que marcam a história do bairro São Pedro é o boi-de-mamão, um folguedo praticado em todo país, e que ganhou destaque em 2008, quando a Fundação Palmares lançou o edital Humberto Maracanã de estímulo à arte popular. O projeto da pedagoga Maria Olívia Baltazar foi selecionado para revitalizar a brincadeira e fazer inclusão social através da arte. Mestre Humberto era mestre de bumba meu boi do Maranhão e o ministro Gilberto Gil tinha uma política de eliminar noções de alta e baixa cultura e promover os saberes populares.

Olivia conta que a relação de sua família com o boi de mamão vem desde os tempos em que seu pai, que faleceu em 1975, fazia o personagem cavalinho. O boi de mamão tem 18 personagens e mais a Bernunça. Sua mãe, dona Josefa, não queria deixar a tradição morrer de jeito nenhum. “Toda a vida crescemos com aquela cobrança da mãe para que a gente desenvolvesse um projeto. Então, ela pegou um dinheirinho da pensão de um salário mínimo e deu pra gente comprar o material e fazer os bonecos”, lembra Olívia.

Depois do incentivo maternal, a conquista do edital nacional deu um novo impulso para que, em 2009, o grupo Grupo Folclórico Boi-de-Mamão Estrelinha do Mar se profissionalizasse e ganhasse respaldo no município e estado. Mais de 40 crianças participavam do projeto em esquema de rodízio. “Depois do prêmio federal, ganhei duas vezes em nível municipal, o que foi muito importante para fazer uma estrutura do boneco leve para as crianças. A gente se apresentava nos municípios vizinhos, nas festas, escolas e em Gaspar. Todo ano tinha uma festa caipira da terceira idade,” relata.

O grupo tem o mesmo nome do bloco de Carnaval porque o irmão de Olívia, Carlos Alberto Emílio, o Calinho, tinha tomado para si a responsabilidade de levantar o Carnaval no bairro em 2001, depois da morte do fundador, seu Leca. “O Estrelinha do Mar é o bloco mais antigo de Navegantes e quando o Calinho retomou já tinha o intuito de fazer um trabalho social,” revela.

Para isso, a casa de Olívia se transformou numa espécie de barracão de escola de samba, onde ela ensinava as crianças no contraturno escolar a pintar e montar o boneco, costurar o figurino, ensinar as canções e com a ajuda do amigo Caueh, tocar os instrumentos. E também envolvia as mães, especialmente as gestantes, ensinando a fazer crochê, tricô e bordado para o enxoval do bebês. “O Estrelinha tem essa história de trabalho voluntário e social bem desenvolvido e o boi de mamão alavancou isso”, enfatiza.

O entusiasmo de Olívia era tão grande que o boi de mamão se tornou o tema de seu TCC na faculdade. Não só porque manteve as tradições de família, como fez a diferença na vida de muitas crianças, que entravam aos seis anos e saíam aos 14. “As crianças que participaram do projeto hoje são pessoas bem sucedidas. Acho que conseguimos realizar o legado de meu pai e passamos para a nova geração”, acredita.

 

Nova geração se une para não deixar o samba morrer

Caueh

Se depender dos amigos Gesiel e Caueh, o espírito dos antigos carnavais voltará a reinar nas vielas do bairro São Pedro, assim que aglomerações voltem a ser possíveis. Gesiel é dono do bar Galera’s, que se tornou um point cultural ao promover eventos e resgatar tradições como a festa junina no inverno, e no verão, o bloco que colocou 150 pessoas no último sábado de Carnaval. O bloco é formado por amigos e entusiastas do batuque das escolas de samba.

“A medida que o movimento do bar cresceu, sempre pintava aquele papo que o Carnaval tinha se descaracterizado, então resolvemos montar o bloco para resgatar os bons tempos, quando o bairro tinha os blocos Estrelinha do Mar e o Lambarulho. Daí criamos uma charanga e um grupo para pensar os próximos carnavais”, justificou Gesiel. O samba-enredo já está pronto.

Caueh, 36 anos, fez parte do bloco Estrelinha do Mar desde 1989, quando estreou na ala das crianças, aos nove anos, tocando chocalho. Em 1990, o fundador Leca faleceu, e sua mãe tomou à frente do bloco em 1994. Mas, três anos depois, o bloco foi novamente desativado. Até que Calinho, tio de Caueh, retomou o projeto em 2001 com o intuito de unir arte, educação e inclusão social. “Ele tomou o bloco do zero, sem instrumento, nem nada. Daí a gente montou uns surdos com material compensado, bem arcaico mesmo, sem afinação, com pele de nylon, mas tocamos mesmo assim”, relembra.

Ele conta que sempre foi apaixonado por percussão, principalmente depois que leu o livro “Batuque carioca”, dos mestres Odilon Costa e Guilherme Gonçalves. Caueh chegou a cursar o conservatório de música de Itajaí em 2006, mas por causa de viagens a serviço, deu uma parada. Na época, ele conheceu o Zeca do Cavaco, famoso compositor de samba-enredo de São Paulo, campeão várias vezes pela Vai Vai. Foi aí que o interesse cresceu e, por uma dessas coincidências da vida, acabou casando com uma carioca que também ama Carnaval.

O projeto da dupla é promover uma oficina de bateria para as crianças do bairro em outubro, como Caueh faz desde 2018, para que a paixão pelo batuque contagie as crianças. Eles dizem que apesar de não morarem mais no bairro São Pedro, amam a simplicidade do local, a hospitalidade, as famílias com as cadeiras na frente de casa conversando, aquele clima de interior. “O bairro preserva o hábito de vizinho ajudar vizinho, é um bairro muito solidário, lá ninguém passa fome. O Pontal é o famoso rio à beira mar”, disse Caueh.

 

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