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Venda de orgânicos vive boom na região

Antes restrito a feiras, agora sacolões e mercados se rendem a necessidade de oferecer legumes, verduras, frutas e laticínios sem veneno ou antibiótico

Depois das redes de supermercados reservarem um espaço para produtos orgânicos, foi a vez dos sacolões perceberem que a demanda por alimento sem veneno aumenta a cada ano, com a consequente queda gradual no preço, se tornando cada dia mais competitivo. É o caso do proprietário do Direto do Campo, Edson Dimoni, 41 anos, que abriu na semana passada a terceira filial da loja na rua Brusque, no centro, impulsionada pela fama da matriz no São Vicente. Ele também abriu uma loja em Navegantes em 2015, e em Brusque, em 2017.
Na loja do centro é possível encontrar uma boa variedade de hortaliças e legumes na parte refrigerada e fora da refrigeração a banana orgânica que vem do Rio Grande do Sul. No caso da banana branca, a diferença de preço é de pouco mais de um real, e em comparação com outras variedades, chega a custar a metade. “A oferta só não é maior porque para o produtor de orgânico, ainda vale mais a pena vender direto ao consumidor para evitar o custo da revenda. Tipo a manteiga, que na feira custa R$ 8 o pote de 250g, o que é bem competitivo, se vendesse para o atravessador teria que vender a R$ 4 e eles não querem”, justifica.
A família Cechet, da zona rural de Camboriú, é um bom exemplo. Desde 2016, pai, mãe e filha mudaram a forma de produção das hortaliças e passaram a vender direto ao consumidor através das redes sociais. Antes a família usava o sistema hidropônico que, ao contrário do que a maioria pensa, não é isenta de fertilizantes químicos. Atualmente, a família faz entrega para Camboriú e Balneário às terças e sextas-feiras e o excedente é transformado em conservas, geleias e extrato de tomate. A ideia veio da filha Maria Joana, engenheira ambiental. O plantio está em fase de processo de certificação.
Na Univali de Itajaí, há 10 anos também acontece a feira Ecosolidária em frente a Biblioteca Central. O projeto foi criado dentro da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares e envolve de 12 a 20 mulheres da zona rural de Itajaí, que estão em transição da produção convencional para a orgânica. A próxima feira acontece no dia 10 de outubro, quinta-feira, das 9h às 21h. Lá é possível comprar queijos, geleias, hortaliças e legumes, além de trabalhos artesanais. Para fazer esta transição, elas participam de cursos e palestras e colocam os conhecimentos em prática na horta experimental da universidade. Parte dos recursos vem do CNPQ, mas como se refere a custeio, não será atingido pelo corte de verba.

Clientela fiel em Itajaí
Há 20 anos o agricultor Nilton Formagi, 58 anos, segue uma rotina todas as quartas-feiras: carregar a kombi em sua propriedade em Presidente Getúlio, a 150 km de Itajaí, com dezenas de tipos de frutas, legumes, verduras, laticínios, mel, embutidos e doces para vender na feira de produtos orgânicos, na praça do museu Histórico de Itajaí. Ele deixou de usar agrotóxico na plantação depois de 15 anos plantando tabaco. “Eu vi minha mulher na beira da morte três vezes. Ela mal conseguia abrir a mão, nem gosto de lembrar. Foi difícil mudar o jeito de plantar, mas foi a melhor coisa que eu fiz. Hoje me sinto feliz em ver minha mulher recuperada e oferecer um produto que não vai fazer mal a ninguém”, declarou.
Nilton foi um pioneiro na feirinha que tem público certo no centro de Itajaí, faça chuva ou sol. A comerciante Merci Dagnoni, 66 anos, é freguesa assídua. Ela conta que há seis anos notou que a alimentação não estava lhe fazendo bem e a médica ortomolecular lhe recomendou os produtos agrícolas produzidos sem veneno, e de origem animal sem antibióticos ou hormônios. O resultado foi surpreendente.
“Os exames apontaram que eu tinha intolerância a lactose, ao glúten, mas os produtos que consumo aqui nunca me fizeram mal. O desconforto do intestino melhorou uns 80%”, revela. Merci saiu da feira com uma sacola cheia com legumes, frutas e ovos caipira, e nem a tempestade que despencou a desmotivou. “Não consigo mais comer hortaliças, frutas ou ovo que não seja caipira. Se eu comer aqueles morangos de rua é como uma facada no estômago, além de não ter gosto de nada. Não tem volta”, garante.
Há oito anos, Nilton conquistou o selo de certificação de orgânico, que exige uma série de técnicas para que o produto seja 100% natural. Ele é autorizado a comercializar 45 produtos agrícolas, sempre de acordo com a sazonalidade, o que garante sabor intenso e dispensa defensivos para conter as pragas. Quem faz o controle é a própria natureza. “Não se pode tirar todo o mato porque senão o pulgão come a verdura. O bicho maior come o menor”, revela. O adubo é ele mesmo que produz através da compostagem de restos da feira, folhas e esterco, e leva de 90 a 120 dias para ficar pronto.
O agricultor conta que hoje a família trabalha unida, mas nem sempre foi assim. Dois dos quatro filhos foram para Apiúna trabalhar com mecânica de moto, mas depois de tantos calotes, desistiram. E como a demanda por alimento sem veneno aumentou, a produção seguiu o mesmo ritmo, sustentando os agregados, já que são todos casados. “Mas não foi fácil. Só para descontaminar o solo levou dois anos. A gente passou por um período de transição e hoje temos a associação Natureza é Vida com oito produtores. Cada um faz a feira numa cidade diferente”, revela.

SC cria 
Tributação Verde para 
incentivar produção sem veneno

O governador Carlos Moisés (PSL) causou perplexidade ao baixar uma medida provisória a fim de taxar com impostos mais elevados quem usar agrotóxico mais perigoso, uma forma indireta de estimular a produção orgânica. A partir do ano que vem, produtos altamente tóxicos pagarão 17% de ICMS, moderadamente tóxico, 12%, pouco tóxico 4,8% e quem passar a fazer manejo biológico será isento.
O espanto rolou porque a medida vai contra a política de liberação de agrotóxicos do governo federal, que autorizou o registro de 325 agrotóxicos até 18 de setembro, superando o que foi liberado em 2018, 309 substâncias, um recorde histórico. Só para comparar, em 2015 foram liberados 169 agrotóxicos. Além de liberar, o governo federal quer mudar a lei diminuindo a toxidade do veneno através da canetada e aumentar o uso em áreas hoje restritas.
Em entrevista a BBC Brasil, o governador catarinense disse que a tributação mais pesada sobre agrotóxicos não tem nada de ideológico. “Não é para agradar direita ou esquerda, é uma questão de segurança alimentar e saúde pública”, justificou. A entrevista fez parte de uma reportagem, publicada no último dia 17, sobre como o uso abusivo dos agrotóxicos causou uma tragédia ambiental no norte do Estado em janeiro, quando 50 milhões de abelhas apareceram mortas, o que pode inviabilizar a exportação do produto.
O mel contaminado foi descartado, mas a preocupação persiste. Há em curso um lento extermínio de abelhas, responsáveis pela polinização das plantas. Sem a atividade dessas bravas guerreiras, estima-se que 40% da produção mundial de alimentos seja afetada. Assim como nos trabalhadores rurais, o veneno atinge o sistema nervoso, deixando a abelha desorientada e sem saber como voltar à colmeia.

Pesquisa científica garante comida no prato
A Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) já é referência em desenvolvimento de espécies resistentes a pragas e resgate de culturas tradicionais para incentivar o cultivo dos orgânicos e a biodiversidade, ameaçada pela monocultura. Na semana passada, em Doutor Pedrinho, 500 agricultores se reuniram para fazer a troca de sementes crioulas e também tubérculos, que sumiram da mesa do catarinense, como inhame, cará e taiá.
A engenheira agrônoma Adriana Padilha conta que o projeto “Raízes de nossas raízes” nasceu da necessidade da própria sociedade. “A batata doce roxa, por exemplo, bastante valorizada na gastronomia, foi desenvolvida na estação experimental de Ituporanga, e o aipim branco ou amarelo na de Urussanga. Também há procura por Pancs, que não são encontradas nos mercados”, exemplifica. As Pancs são plantas comestíveis não convencionais.
No sul do Estado, 103 famílias plantam banana prata orgânica, o que corresponde a quase metade da produção de Santa Catarina. Eles estão reunidos em três associações e colhem 72,7 mil toneladas por ano. Com isso, deixaram de aplicar 337 toneladas de fertilizante químico e 45 mil litros de agrotóxico. Além disso, por ser mais valorizado, rende mais ao produtor por hectare. A diferença chega a R$ 1,26 milhão a mais por ano.
Na estação experimental de Itajaí também rolam cursos para ensinar os produtores a fazer a transição do convencional para o orgânico. Em março aconteceu na comunidade de São Roque um evento para revelar a importância do policultivo (aipim com melancia) para nutrir a terra e aumentar a produtividade, e o controle de pulgões através de joaninhas.
Em 24 de agosto, rolou em Porto Belo um encontro com 150 agricultores de 30 municípios da Rede Ecovida, que faz certificação orgânica. Na oportunidade foram ministradas palestras, oficinas e a tradicional Feira de Saberes, Sabores e Sementes, mostrando que a agroecologia não é o futuro da produção de alimentos, e sim uma realidade do presente. “O melhor banco de sementes é o solo porque as sementes híbridas não germinam duas vezes. Quem planta a semente ou raiz criola terá alimento sempre”, conclui Adriana.

Aumento no uso de 
veneno se deve a expansão da monocultura
Em maio, a geógrafa da USP, Larissa Bombardi, apresentou um estudo realizado entre 2014 e 2017, em que faz um diagnóstico detalhado sobre o uso do agrotóxico no Brasil em comparação a União Europeia, que desde 2011 tem tomado medidas para diminuir sua utilização. A pesquisa foi apresentada em maio em Berlim e na Escócia e os resultados causaram perplexidade devido ao alto nível de envenenamento, não só dos alimentos, da água potável e da terra, como o impacto na vida dos agricultores.
A pesquisa revela que dois dos venenos contra pragas mais utilizados no Brasil foram banidos da Europa: o Atrazina e Acefato. E que o agrotóxico mais comum, o Glifosato, será banido em 2022. Em 2014, foram usados 195 mil toneladas de Glifosato, que é mais da metade de todo o agrotóxico usado no Brasil. O veneno causa mutação no DNA das células, além de atacar o fígado, necrosar os testículos, provocando a esterilidade e também câncer de mama porque interage com os hormônios. Os estados que mais utilizam são Mato Grosso, seguido de Paraná e São Paulo, justamente onde o plantio de soja é feito em larga escala.
A lei 7802 de 11/07/1989 estabelece que se proíba de registrar agrotóxicos cancerígenos, que deixem resíduos poluentes no ambiente e provoquem distúrbio hormonal. Mas, na contramão do que tem acontecido na Europa, o registro de agrotóxicos só aumenta. Cerca de 35% dos venenos usados no Brasil são proibidos por lá, o que nos leva a questionar por que as vidas brasileiras valem menos.
E não são apenas os tipos de agrotóxicos usados. Um dos venenos mais perigosos, a Atrazina, usada no plantio de abacaxi e milho, é permitido deixar resíduo no Brasil 10 vezes mais na lavoura de café, 20 vezes mais na cana e 200 vezes mais na soja. O Glifosato é ainda mais preocupante. A legislação brasileira permite um resíduo cinco mil vezes maior do que na Europa! Isso porque a média de uso de veneno por hectare na Europa é de 2kg. No Brasil, é de 7kg, sendo que em estados como Paraná e Mato Grosso, chega a 19kg por hectare.
Outro fator é o método para espalhar o veneno. Na Europa, a pulverização através de aviões é proibida porque é mais poluente. Através da chuva, vento, velocidade do jato, as gotículas saem do raio de ação e atingem as casas dos agricultores, mananciais de água e florestas, onde vivem as abelhas, responsáveis pela polinização. O plantio de cana em São Paulo, 60% é feito desta forma, assim como 20% da produção de laranja e 15% da produção de banana.
A principal vítima deste método predatório de produção rural são os trabalhadores. Como vivem no interior, raramente tem assistência médica, por isso o número de casos é subnotificado. Por ano, são cerca de 25 mil casos, mas estima-se que este número seja 50 vezes maior, ou seja, 1 milhão e 250 mil casos não chegam ao conhecimento do ministério da Saúde. O estado campeão em intoxicação é o Paraná, com 3700 casos. Houve 1631 tentativas de suicídios, e 231 com êxito. E por que estes agricultores tiram a vida? Porque a exposição ao veneno enrijece os músculos do pescoço, provoca falta de ar e problemas mentais. Muitos estão com depressão profunda, inclusive crianças, mulheres e adolescentes.

Mais soja para ração e menos produção de alimentos

O plantio de soja pulou de cerca de 18 mil hectares em 2003 para 33 mil hectares em 2016 (79%), e o plantio de cana aumentou 48%. Na mesma medida em que aumenta a soja que é exportada em boa parte para ração animal, diminui o plantio de alimento para consumo humano. Em 13 anos, a área destinada a plantação de feijão diminuiu 31%, a mandioca reduziu em 23% e o trigo, 22%. O mais cruel é que tivemos que importar mais. Em 2015 foram 850 mil toneladas de arroz, 150 mil toneladas de feijão e 6 milhões de toneladas de trigo.
A soja corresponde a 13% da exportação brasileira. Em seguida está o minério de ferro (7,7%), o petróleo (5,44%), o açúcar (4,47%), o frango (3,21%) e a celulose (3%). São matérias-primas de baixo valor, em comparação a importação de manufaturados, como eletrônicos, ou seja, precisamos vender muito para equilibrar a balança comercial. Lembram nas aulas de história, quando o Brasil era colônia de Portugal, e durante séculos só forneceu madeira, açúcar e café?
No Brasil, a exportação de matéria prima empatou com a de manufaturados em 2010, e hoje corresponde a mais da metade das exportações. A principal razão da diminuição de venda de artigos de maior valor é o crescente fechamento de indústrias no país devido a importação de artigos chineses, onde a mão de obra é abundante e barata. A desindustrialização provocou desemprego em massa. Hoje, a China terceiriza para países mais pobres, como Bangladesh, agravando a exploração da mão de obra e causando um verdadeiro caos ambiental, pois o que o que o mundo rico compra e descarta vai em contêineres para os lixões da Ásia.
O estudo revelou também que o aumento do agrotóxico tem relação direta com a concentração de terra. Em 2003, o número de propriedades com mais de mil hectares era 47% do total, em 2015 pulou para 57%, a maioria na Amazônia. O segundo município em rebanho bovino do Brasil é São Félix do Xingu, onde nenhuma propriedade possui escritura. A floresta foi derrubada através da grilagem, um método primitivo de derrubar árvores, queimar, cercar e vender. E onde o trabalho análogo a escravidão corresponde a 75% da mão de obra.
Neste tipo de escravidão moderna, o trabalhador mal tem salário, mas apenas comida e vive sem qualquer higiene, sendo exposto a doenças e baixa expectativa de vida. Quem quiser saber mais pode baixar o Atlas do Agrotóxico grátis, pois a ideia é democratizar o acesso a informação. O estudo está no site www.larissabombardi.blog.br/atlas2017.

 

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