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Cartão-postal aberto às visitas em Santa Catarina

Ponte reinaugurada é sinônimo de turismo, celebração para moradores e discussão sobre a mobilidade na capital

Inaugurada em 1926, a ponte foi um dos principais acessos pra ligar a ilha ao continente, que antes só era possível através de transportes aquáticos

Após quase três décadas interditada, a ponte Hercílio Luz, em Florianópolis, foi reaberta ao público no dia 30 de dezembro de 2019. A reinauguração do principal cartão-postal de Santa Catarina parecia improvável após tantos anos de atraso em obras, mas foi palco de celebrações e eventos que duraram até o dia 5 de janeiro deste ano.
Inaugurada em 13 de maio de 1926, a ponte pênsil foi um dos principais acessos que passou a ligar a Ilha de Santa Catarina com a região continental, que antes só era possível através de transportes aquáticos.
Com a sua reabertura, a ponte agora permite o acesso de pedestres, ciclistas, algumas linhas de ônibus e veículos de emergência. Fazendo a travessia de uma ponta a outra, rapidamente é possível chegar do Parque da Luz à região continental e vice-versa.
Na última quinta-feira, Paula Meira, moradora de Florianópolis há 23 anos, estava visitando a ponte Hercílio Luz pela segunda vez, acompanhada de duas irmãs, Layla Hanauer e Suzi Hanauer, que são moram em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Elas estavam a passeio na cidade. “A expectativa de conhecer a ponte era muito grande, porque eu nunca tinha passado aqui. É fantástico, muito fantástico!”, conta Paula, emocionada com a experiência.
Já Felipe Paludetto, que mora na cidade há 27 anos, estava visitando a ponte pela primeira vez. Com o trabalho e a correria do dia a dia, não teve a oportunidade de visitá-la antes. “Eu estou realizado, era um sonho vir aqui. É um presente para todos nós da Ilha, ter ela de volta. A nossa querida Hercílio. Estou muito feliz!”, disse.
A estudante Caroline Rodrigues Rosa mora em Criciúma, mas ficou admirada com a visita à ponte. “Achei muito especial ver que o cartão-postal da cidade está de fato representando a capital. Ficou linda!”.

Quase bilionária
Desde o seu fechamento, em 1991, a estrutura da ponte passou por inúmeras manutenções e reformas. E, apesar de a sua reabertura ser um marco histórico para a capital catarinense, há controvérsias sobre o dinheiro investido para que ela fosse recuperada, cerca de 600 milhões de reais.
O secretário de Estado de Infraestrutura e Mobilidade, Carlos Hassler, afirma que a ponte contém um papel histórico de integração da Ilha ao continente e que a sua reabertura despertou um sentimento de “redenção” nas pessoas. “Primeiro, houve o fechamento e a comunidade assistiu o processo de deterioração e de abandono. E depois, passou-se por um processo muito conturbado na tentativa de recuperar esse patrimônio”, disse.
Em 2005 foi lançado um edital para garantir a sua reforma, dando início às obras em 2006. O prazo máximo para a entrega da restauração estava previsto para 2012, no seu aniversário de 86 anos. Mas isso não aconteceu, e sua reinauguração foi acontecer somente 13 anos depois, em dezembro de 2019.
Para Carlos Hassler, a população absorveu essa reabertura numa dimensão enorme. “No momento em que a recuperação foi chegando ao fim e a estrutura foi entregue para a comunidade, a população absorveu a confirmação da competência para realizar essa reforma”, concluiu.
A visitante Layla defende a reforma da ponte. “Eu sou apaixonada por essa ponte, desde sempre. Dava uma pena vir pra cá e não poder andar aqui (na ponte), não poder usufruir. Isso aqui é história! Não tem como não restaurar, é memória. Se for pensar no lado financeiro, não vai restaurar prédio, igreja, não vai restaurar nada, porque qualquer restauração que se faça é investido uma fortuna. Então, eu acho que foi um bom investimento”, argumenta.
Mas, diferente de Layla, há quem defenda que os valores investidos na reforma poderiam ter sido utilizados para construir outra ponte e contribuir para a melhoria na mobilidade urbana de Florianópolis, que conta com 500 mil habitantes, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas essa não é a opinião de Carlos Hassler. “Quando chegamos, já tínhamos uma obra com dinheiro investido. Ela precisava ser concluída. Então, trabalhamos para isso. Agora é hora de pensar em como explorar esse investimento, que ficou muito bonito!”, concluiu.
Michel Mittmann, secretário de Mobilidade e Planejamento Urbano, explica que pensar em pontes meramente no modelo tradicional, sem dar prioridade aos sistemas de transporte coletivo, pode implicar em aumento de viagens de automóveis, o que estaria gerando novamente modelos rodoviaristas do passado, que contribuíram para o cenário de trânsito que vivem os moradores de Florianópolis. Por isso, acredita que uma quarta ponte poderia ser desnecessária, “Se realmente provar a sua relevância, teria que ser pensada em harmonia com a cidade, integrada à paisagem, respeitando os lugares e as pessoas, rejeitando as supervias e os viadutos impactantes. Se vier, que seja tão bela e humanizada, que seja para as pessoas, como a Hercílio Luz tem se apresentado”, finalizou.

Ponte ficou fechada por 28 anos

Sobre a Hercílio Luz
A inauguração da Ponte Hercílio Luz aconteceu no dia 13 de maio de 1926. Hoje, ela é única. Isso porque não existe mais nenhuma ponte com o seu modelo no mundo. Existiam outras duas, localizadas nos Estados Unidos.
A Silver Bridge desabou em 1967, e acarretou na morte de 46 pessoas. A Fort Steuben Bridge foi demolida em 2012 por apresentar problemas em sua estrutura.
Para atravessar a ponte Hercílio Luz era cobrado um pedágio às pessoas e veículos. Essa cobrança perdurou até 1935. E o seu fechamento foi em 1991.

O que muda na mobilidade
A liberação dos ônibus trafegando na ponte está sendo gradual. Depois da linha Ponte Viva e alguns outros veículos, na quarta-feira passada também foi liberado o transporte escolar e linhas executivas e intermunicipais. Esta semana mais três linhas executivas passarão pela ponte Hercílio Luz.
Michel Mittmann confirma que o processo de implementação do transporte coletivo e outros meios de transporte será gradual. Todas as próximas etapas precisam ser precedidas de uma análise da etapa anterior, para garantir o espaço para adequações, orientação e percepção dos usuários. “Nem todas as linhas de transporte coletivo são adequadas a circular pela Hercílio Luz. Mas somente com as que iremos transferir, em seis meses estaremos atingindo mais de 70 mil pessoas por dia”, explica o secretário.
Os ônibus ficaram 38 anos proibidos de circular sobre a ponte. Mesmo tendo sido interditada por 28 anos, esses veículos já não podiam passar sobre a estrutura por falta de condições necessárias de segurança desde o ano de 1982.

Ponte tem sido usada por todas as tribos: trabalhadores, turistas, ciclistas e agora veículos

Durante os finais de semana, a ponte fica fechada para visitação de ciclistas e pedestres e, por isso, os ônibus não têm permissão para circularem. Ciclistas e pedestres podem passar livremente todos os dias nas plataformas laterais da ponte.
A ciclista Naiara Lima sente mais segurança em realizar o trajeto Ilha e continente pela Hercílio Luz, que está bem iluminada. “Como transporte, ela pode ser bem útil de bicicleta, ainda mais para quem mora naquela região do centro e vai para Beira-Mar do Estreito (e adiante, claro). Por ser bem movimentada de outras pessoas pedalando ou a pé, vejo também a vantagem de ser mais segura, uma vez que a outra opção é a passarela da Pedro Ivo, que de noite pode ficar bem vazia e com falta de iluminação”.


Segundo Carlos Hassler, problemas ainda existem, mas o trânsito já melhorou. “É importante que as pessoas entendam que é o conjunto de pequenas soluções que irá garantir uma boa mobilidade para Florianópolis. A ponte não vem como solução de todos os problemas. Por isso, estão sendo vistos estudos de mobilidade para que a ponte contribua da melhor maneira possível”.
Michel Mittmann afirma que com a ponte aberta muita coisa muda na mobilidade urbana, porque são novos caminhos que pedestres e ciclistas podem usufruir, e principalmente, as possibilidades de um novo modelo sobre o transporte coletivo. “É o nosso maior patrimônio construído, um espaço turístico, cultural e de lazer ímpar. Trata-se de um feito da engenharia na sua construção e na sua recuperação. Com uma gestão adequada de mobilidade, traremos resultados que provarão que o investimento com certeza foi bem aplicado”, finalizou.

 

Linha de transporte gratuita

Para a alegria de turistas e moradores da região, dia 27 de janeiro, o tráfego de veículos foi liberado, somente em dias de semana. A linha de ônibus que leva os passageiros gratuitamente até a ponte é o 1119 (Ponte Viva).
A linha faz a ligação entre o centro da Ilha e a cabeceira da ponte, no Parque da Luz, para estimular o passeio de moradores e turistas.
De acordo com Leandro Walter, conhecido por “Alemão”, que é funcionário do consórcio Fênix, empresa responsável pela operação do transporte coletivo de Floripa, a linha é gratuita por apenas 60 dias e faz duas paradas no lado do continente, “São 60 dias gratuitos, e depois será cobrada uma tarifa, mas também serão acrescentadas mais ruas no itinerário. Enquanto isso, o Ponte Viva está gratuito para a população usar e dar uma passeadinha”, explica.
Os veículos saem da plataforma 5 do Terminal Urbano Cidade de Florianópolis (Tecif), com horários a cada meia hora, das 10h às 19h50, de segunda a sexta-feira. Além de coletivo especial, veículos de emergência (bombeiros e ambulâncias), ciclistas e pedestres também podem atravessar a ponte.

O motorista de ônibus conta que a maior parte das pessoas não desembarca na ponte

Para ajudar na fiscalização, Leandro é instrutor dos usuários. Ele fiscaliza a demanda dos ônibus, e, quando há muita fila de espera para os passageiros, libera dois ônibus no mesmo horário.
Quando menor de idade, Leandro estava acostumado a passar pela Hercílio Luz. Na primeira vez que a linha Ponte Viva passou sobre a ponte, era ele que estava levando os passageiros. “A primeira passagem pela ponte fui eu que dirigi, estavam as autoridades e toda a imprensa. Foi muito emocionante passar lá dirigindo depois de quase 30 anos”, conta.
Os ônibus da linha gratuita estão, na maioria dos horários, lotados. Segundo o motorista Júlio César, a maior parte das pessoas pega o ônibus no Terminal e não desce na ponte para tirar foto, mas visita apenas de dentro do veículo. “Eu acho que o pessoal deveria descer, tirar foto e pegar o próximo ônibus para voltar. Bom mesmo é descer e conhecer a ponte, né. Eu fui a pé, e é muito melhor!”, defende.
Mesmo gostando muito do visual da ponte como pedestre, Júlio também aprecia dirigir sobre a estrutura. Muitos motoristas gostariam de ter assumido a linha Ponte Viva, mas ele foi um dos quatro motoristas escolhidos para a função, que entre os dois turnos revezam a direção de meia em meia hora. Júlio nunca tinha visitado a ponte antes de ser interditada, mas afirma que mesmo que ela balance, não sente medo algum: nem em dias com vento, nem em dias com chuva.

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