Home Notícias Especial Já são quatro feminicídios durante a pandemia na região

Já são quatro feminicídios durante a pandemia na região

Os assassinatos de mulheres foram em Navegantes, Balneário Camboriú, Itapema e Camboriú, só de março a junho

SC registrou 21 feminicídios desde o início do ano. Sete foram no período de pandemia e isolamento social

morte da costureira Rosane Vieira, 48 anos, assassinada a golpes de faca pelo marido, L. P., 49, na semana passada, em Navegantes, chocou a família e a comunidade. O caso gerou ainda mais revolta porque o acusado foi liberado essa semana após confessar o crime na delegacia. Mas esse não foi o único feminicídio ocorrido na região durante a pandemia de covid-19. Houve mais três casos, em Balneário Camboriú e Camboriú, em abril, e outro em Itapema, em março. No estado, são sete mortes e 22 tentativas de feminicídio em investigação só nos meses de março a junho.

Segundo dados do estado, as mortes e casos de violência contra a mulher reduziram nesse ano, diante do mesmo período de 2019. Mas isso não quer dizer que as mulheres estão sendo menos vítimas. No país, tanto os feminicídios como casos e denúncias de violência doméstica aumentaram. Conforme o fórum Brasileiro de Segurança Pública, há subnotificação dos casos. A queda na procura pelas delegacias e dificuldades em denunciar devido ao isolamento da pandemia seria um dos motivos.

De janeiro a maio, Santa Catarina registrou 21 feminicídios, dois deles em Itapema (um na pandemia e outro em fevereiro), um Balneário Camboriú e outro em Camboriú. Em 2019, no mesmo período, foram 29 casos, numa queda de 27,5%. Houve ainda 81 tentativas de feminicídios, três delas em Itajaí e um caso cada em Balneário Piçarras, Camboriú, Itapema e Barra Velha.

Os números assustam mais quando abrangem todos os casos de violência doméstica, nos quais as mulheres são as principais vítimas. Os crimes envolvem negligência, abandono, agressão física, psicológica ou sexual e danos morais e patrimoniais.

De acordo com dados do judiciário sobre os casos na pandemia, entre março e maio foram abertos 2736 inquéritos de violência de doméstica no estado, 309 deles em oito cidades da região. De feminicídios, foram sete inquéritos abertos. Após a apuração, eles viram processos judiciais. Atualmente no judiciário são quase 11 mil ações por violência doméstica e outras 134 por feminicídio com processos em andamento.

O relatório também traz o número de pedidos de medidas protetivas atendidos pela justiça, que ajudam a entender a situação das vítimas de violência. Entre março e maio, foram 2134 medidas autorizadas, 225 pra vítimas da região de Itajaí. No ano passado inteiro foram 11.148, com 1344 pedidos na região.

BO permitido pela internet

Devido à pandemia, a polícia Civil de Santa Catarina permitiu, em caráter temporário enquanto persistirem as medidas de prevenção ao coronavírus, o registro de ocorrências pela internet, sejam fatos criminais ou não. A liberação inclui relatos de violência doméstica e crimes contra a mulher, incluindo lesão corporal.

De acordo com a delegada Patrícia Burin, o registro pela internet deveria seguir mesmo após a pandemia, sendo preciso criar também novos canais de comunicação pra garantir a proteção da vítima. Ela defendeu a ideia em debate com especialistas nesse mês sobre a violência na pandemia.

Patrícia destacou que há diferença entre fazer o BO online e ter que ir à delegacia. “Por mais que a gente tente preparar, a delegacia ainda é um ambiente muito inóspito pra mulher”, observa. “O BO [na internet] é narrado em primeira pessoa, você consegue sentir naquela escrita a necessidade real da mulher, do que ela tá vivendo”, compara. Depois do registro, a vítima é chamada pra que polícia possa encaminhar à justiça o pedido de medidas protetivas.

Feminicídios (janeiro a maio)

 

SC – 21

Balneário Camboriú – 1

Camboriú – 1

Itapema – 2

 

Tentativa de feminicídio

SC – 81 

Itajaí – 3

Balneário Piçarras – 1

Camboriú – 1

Itapema – 1

Barra Velha – 1

 

Inquéritos de violência
doméstica:

(março a maio)

SC – 2736

Região – 309

Itajaí – 87

Itapema – 50

Navegantes – 41

Balneário Camboriú – 38

Balneário Piçarras – 38

Camboriú – 26

Porto Belo – 15

Barra Velha – 14

 

Preventiva de pedreiro ainda aguarda decisão da justiça

O pedreiro L. P. confessou o crime ao aparecer na delegacia, na quarta-feira passada, se dizendo arrependido. Ele fugiu de carro após matar Rosane Vieira na sala de costura onde a mulher estava na noite do dia 18, na rua José Silvestre Toledo, bairro São Domingos. “Quero pedir perdão a todos, amigos e família, pelos meus erros. A vida segue pra quem fica. Perdão, perdão”, disse nas redes sociais no dia seguinte ao assassinato.

O delegado pediu a prisão preventiva do pedreiro na segunda-feira, mas como até o depoimento não houve decisão, o acusado foi liberado. Na quinta-feira o ministério Público se manifestou favorável à prisão, denunciando o pedreiro por homicídio e também por tentativa de homicídio contra o enteado. O  menino de 13 anos presenciou o crime e também foi atacado. Em nota na sexta-feira, a vara Criminal de Navegantes informou que ainda não foi dada decisão pelo juiz sobre o recebimento da denúncia e o pedido de prisão preventiva.

Pelas redes sociais, familiares e amigos da vítima pedem justiça. O casal tinha três filhos, dois gêmeos de oito anos e uma menina de cinco, que estão com os tios. A costureira ainda tinha uma filha, que está grávida, e o filho de 13 anos que viu a mãe sendo morta.  O motivo do crime seria a ideia de Rosane de trazer a filha pra morar na mesma casa da família.

Rosane foi morta na frente do filho menor

Vítimas em Itapema, Balneário e Camboríu

Em Itapema, a médica pediatra Lúcia Regina Gomes Mattos Schultz, 59 anos, foi morta pelo marido também dentro de casa, na tarde de 20 de março, na primeira semana após o decreto de emergência do coronavírus no estado. Segundo a polícia Militar, foi preciso arrombar a porta do apartamento no centro da cidade pra encontrar o corpo da vítima.

O marido N. P., 65, fugiu após o crime, mas foi preso em flagrante ao voltar pra casa pra pegar a carteira. Ele relatou às guarnições que agrediu a mulher durante uma discussão, após ter levado um tapa da médica no rosto. Conforme a polícia, a suspeita é que a vítima tenha morrido por esganadura.

Antes da pandemia, outro feminicídio já havia sido registrado em Itapema. Raquel Barreto, 29 anos, foi morta pelo companheiro na quitinete onde morava no bairro Morretes. Ela foi encontrada caída ao lado da cama com uma faca cravada no peito. O assassino foi preso em Bento Gonçalves, numa área rural da serra gaúcha. O crime ocorreu depois de os vizinhos terem ouvido uma gritaria e xingamentos entre o casal. Quando a polícia chegou, o assassino já tinha fugido.

Em Balneário Camboriú, a vítima foi Josi Sousa, de 27 anos, morta a facadas pelo ex-companheiro na rua São Paulo, no bairro dos Estados, na madrugada de 2 de abril. A vítima estava com o namorado. Ele também foi esfaqueado pelo agressor durante a briga, sendo levado em estado grave pro hospital. O autor do crime, J. F., 28 anos, fugiu e está sendo procurado.

O quarto caso de feminicídio na região durante a pandemia foi o da cabeleireira Neiva Mendes, 52 anos, de Camboriú. O crime ocorreu em 7 de abril, na rua Monte Caraíba, no bairro Monte Alegre. A mulher foi morta a tiros pelo marido, de 71 anos, que tirou a própria vida com um tiro na cabeça após o crime. Ele era policial militar e vivia brigando com a esposa. A tragédia se deu depois que a cabeleireira, decidida em deixar a relação, foi até a casa pra pegar seus pertences e tentar ir embora..

Lúcia foi morta
em março

Josi foi vítima de facadas em abril

Neiva também morreu em abril

Convivência com agressor na quarentena limita denúncias, explicam especialistas

Em nota sobre a violência doméstica durante a pandemia, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública destacou que diversos países verificaram o crescimento dos casos a partir do avanço da doença, como na França, Itália, Espanha, Portugal, China e Estados Unidos. “Mensurar essa violência, no entanto, tem se colocado como um desafio na medida em que muitas das mulheres estão confinadas com seu agressor e tem enorme dificuldade de fazer a denúncia em um equipamento público”, destaca o órgão.

Nos primeiros países que enfrentaram a pandemia, como na Itália, o fórum observa que os registros de casos caíram no início do isolamento social, mas as mulheres continuavam sendo vítimas de violência, apenas não estavam conseguindo denunciar pelas limitações da quarentena e por medo do agressor. Após campanhas e novos canais de denúncias, os registros voltaram a crescer.

Dados do fórum apontam que os casos registrados de violência doméstica também caíram entre março e abril no Brasil, mesmo com novas ferramentas online. A queda na procura pelas delegacias ainda puxou pra baixo o número de medidas protetivas dadas pelos tribunais. “A redução destes registros, no entanto, não parece apontar para a redução da violência contra meninas e mulheres”, analisa o órgão.

Isso porque outros dados mostram que os feminicídios cresceram 22,2% no período e que os assassinatos de mulheres, tratados como homicídios e não como crime de gênero, subiram 6%. Na central de denúncias do ministério da Mulher, também houve aumento de 34% nos relatos de casos de violência entre março e abril, diante do mesmo período em 2019.

De acordo com a advogada Adriana Clara Bogo dos Santos, presidente da comissão de Prevenção e Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar da OAB de Itajaí, as restrições da pandemia geraram maior dificuldade pras vítimas registrarem os casos. “Todos as pesquisas feitas apontam para esse fato de subnotificações, razão pela qual houve uma redução”, observa.

Ela confirma a avaliação de outros especialistas pela necessidade de se criar ferramentas alternativas para as denúncias e também pra garantir a proteção das vítimas. Ela lembra que em Santa Catarina já há algumas iniciativas, como canais pelo WhatsApp e campanha Sinal Vermelho, que permite a denúncia ser feita nas farmácias. “Temo que nas localidades mais distantes dos nossos municípios, como áreas rurais, ainda existe dificuldade e desconhecimento de como agir e buscar ajuda”, observa.

Há quase um mês, a secretaria de Saúde do estado lançou orientação pra que os casos de violência doméstica sejam notificados pelo sistema de Vigilâncias de Violências e Acidentes do ministério da Saúde.

Adriana aponta subnotificações como motivo da redução da violência doméstica

Como denunciar e procurar ajuda

Ministério Público:

Canal de denúncias envolvendo a violação de direitos

https://mpsc.mp.br/atendimento-ao-cidadao/denuncie

Delegacias de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso (Dpcami):

http://www.sds.sc.gov.br/index.php/conselhos/cedim/delegacias-de-protecao-a-crianca-ao-adolescente-a-mulher-e-ao-idoso

Defensoria Pública:

As denúncias podem ser feitas online com interligação com o sistema de Justiça

http://www.defensoria.sc.gov.br/index.php/noticias/1701-gapv

Centros de Referência de Apoio às Mulheres (CRM) dos municípios

Aplicativo PenhaS:

Informações sobre as delegacias da mulher e conversa anônima sobre as violências sofridas. 

ISA.bot:

Aliada das mulheres durante a quarentena por coronavírus. Uma robô programada para informar e acolher em casos de violência doméstica ou online https://www.isabot.org

Polícia Civil:

Disque 181 – atendimento para denúncia de crimes e delitos

Delegacia Virtual – www.pc.sc.gov.br

(48) 98844-0011 – WhatsApp

PC Por Elas – grupo de apoio e serviços integrados

Ouvidoria do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos:

Oferta serviços, com indicadores sobre violências com base em levantamentos da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos

https://ouvidoria.mdh.gov.br/portal

Cuidando da Saúde Mental:

Plataformas de atendimento psicológico online gratuitas

Centro de Valorização da Vida (www.cvv.org.br)

Polícia Militar:

Disque 190 – atendimento emergencial em situação de flagrante

Aplicativo PMSC Cidadão – ferramenta de apoio

Ministério da Mulher:

Disque 180 – central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência (24 horas)

Para denúncias, orientação jurídica e encaminhamento para as redes de enfrentamento à violência e apoio à mulher.

Números na justiça

Processos judiciais

em andamento

(Até abril)

Violência doméstica:

SC – 10.946

Região – 1773

Itajaí – 680

Balneário Camboriú – 500

Navegantes – 205

Camboriú – 111

Itapema – 96

Balneário Piçarras – 82

Barra Velha – 63

Porto Belo – 36

 

Medidas protetivas
atendidas:

SC – 2134

Região – 255

Itajaí – 66

Camboriú – 45

Navegantes – 39

Balneário Camboriú – 38

Porto Belo – 26

Balneária Piçarras – 19

Itapema – 13

Barra Velha – 9

 

Fonte: Poder Judiciário de Santa Catarina

 
Compartilhe:

Deixe uma resposta

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com