Home Notícias Especial ITAJAÍ 159 ANOS | Marcílio Dias: Clube brilhou nas ondas do rio Itajaí-Açu

ITAJAÍ 159 ANOS | Marcílio Dias: Clube brilhou nas ondas do rio Itajaí-Açu

O remo estava em alta após a Primeira Guerra Mundial e viveu seu auge nos anos 20

O futebol já está tão enraizado na nossa cultura que poucos sabem que o surgimento dos dois times da cidade – Marcílio Dias e Barroso – se deve ao remo, modalidade que teve sua fase áurea nos anos 20. Já repararam que alguns dos grandes times brasileiros têm símbolos náuticos no brasão ou no próprio nome, como o Clube de Regatas do Flamengo e Vasco da Gama? Isso porque no contexto histórico pós Primeira Guerra Mundial, a prática de esportes foi incentivada para formar jovens atléticos e aptos para a luta. E aqui não foi diferente.

Quem foi fundo neste passado náutico do Marcílio Dias foi o jornalista Fernando Alécio, 39 anos, autor do livro “História do Clube Náutico Marcílio Dias”, lançado em 17 de março deste ano, quando o clube comemorou seu centenário. Em 2014, o jornalista já tinha resgatado o histórico campeonato de 1963, quando o time itajaiense se sagrou campeão do campeonato catarinense com o livro “Torneio Luisa Melo”. E a paixão pelo rubro-anil é tão grande, que hoje ele faz parte da diretoria do clube, no setor de Memória e Cultura.

Para recuperar o início da história do Marinheiro, Fernando pesquisou nos arquivos públicos de Itajaí, Blumenau, Brusque, Joinville, Floripa e até Porto Alegre porque o time foi vice-campeão no campeonato sul-brasileiro que rolou na capital gaúcha, em 1962. Ele pesquisou em jornais da época como O Pharol (Itajaí), O Estado (Florianópolis), Correio Paulistano (SP), A República (Florianópolis), O Commercio (RJ) e O Paiz (RJ), que reproduziu o diário de viagem do remador Gaspar da Costa Moraes, que havia sido publicado no jornal local Novidades, numa das passagens mais marcantes do livro.

 

Susto no mar

Em 27 de setembro de 1922, cinco jovens se propuseram a fazer uma viagem até a capital para prestigiar a posse do governador Hercílio Luz em seu segundo mandato. Depois de passar por Porto Belo, a pequena embarcação sofreu com o mau tempo e acabou indo parar na ilha de Anhatomirim, na costa de Desterro, antiga Florianópolis. No dia seguinte, com a melhoria das condições de navegação, os intrépidos tripulantes foram recebidos com honras pelo governador.

 

Briga de torcidas deu origem ao Clube Náutico Almirante Barroso

Apenas dois meses depois da criação do clube, uma briga envolvendo as torcidas de duas jovens que disputavam para serem madrinhas das embarcações acabou dando origem ao arquirrival Barroso. Marieta Demoro e Virgínia Fontes ficaram empatadas com 44 votos cada.  Ambas abdicaram e fizeram uma nova eleição em que Marieta se sagrou vencedora. Mas os partidários de Virgínia não aceitaram o resultado e formaram um outro clube náutico em 11 de maio do mesmo ano. O homenageado foi Almirante Barroso e o clube chegou a acumular quatro títulos catarinenses e o Marcílio, apenas um – em 1925. “Mas nas disputas em Itajaí, Marcílio sempre se dava melhor”, esclarece Fernando, marcilista roxo.

O local das disputas em Itajaí era o rio Itajaí-Açu e a partida rolava num trapiche de madeira nas imediações entre o porto e o ferry boat, na rua Prefeito Paulo Bauer, que na época se chamava São Francisco. A estreia do remo do Marcílio Dias foi em 16 de novembro de 1919, em que ficou em segundo lugar, atrás da equipe Martinelli. A prova foi na capital e quatro dias depois, empolgados com o resultado, a equipe fez uma prova de resistência com destino a Blumenau, sob forte chuva. Tiveram que pernoitar em Gaspar e completaram os 150km em 14 horas. Os caras não eram fracos!

Fernando conta que a decadência do remo como atividade esportiva foi reflexo da ascensão do futebol em todo o Brasil. “A década de 1920 foi o auge do esporte, mas até os anos 40 ela se manteve, inclusive com títulos, como em 1945, quando o Marcílio foi vencedor da regata Animação na capital”. O evento esportivo era uma homenagem aos 10 anos do interventor Nereu Ramos.

 

Fundação

A ideia de criar um clube náutico surgiu de um papo entre os amigos Alyrio Gandra, Gabriel João Collares e Victor Emmanuel Miranda na Praça Vida Ramos, em frente a Igreja Imaculada Conceição, em 1919. Fernando conta que no ano anterior, o governador Felipe Schimidt havia criado um campeonato catarinense de remo e Floripa já contava com duas equipes: o Riachuelo e o Martinelli. A capital também criou o time Aldo Luz e Laguna, o time Almirante Carneiro. Estava na hora de Itajaí também ter o seu representante.

Na hora de batizar o clube, que também contemplava outras modalidades esportivas como o tênis, pensou-se em homenagear Almirante Barroso e Almirante Tamandaré, mas quando Mascarenhas Passos contou a história do herói da Guerra do Paraguai, o gaúcho Marcílio Dias, a escolha foi por unanimidade e aconteceu na Sociedade Guarani, que na época funcionava num belíssimo prédio na rua Manoel Vieira Garção, que foi demolido nos anos 50. As cores azul e vermelho remetiam aos clubes Riachuelo e Martinelli. Mas nem tudo foram flores neste início da saga marcilista.

 

Quem foi Marcílio Dias?

O marinheiro que dá nome não só ao principal time de futebol de Itajaí, mas também a um hospital naval no Rio de Janeiro e uma praça em Florianópolis, nasceu na cidade de Rio Grande (RS). Neto de africanos por parte de mãe e descendente de portugueses por parte de pai, conta o jornal Correio Paulistano, que Marcílio era praticante de capoeira e que teria sido recrutado à força para lutar na Guerra do Paraguai.

Já a Marinha do Brasil tem outra versão, de que a mãe de Marcílio, dona Pulcena, estava desgostosa com o comportamento do filho e teria pedido para encaminhá-lo à escola de Grumetes no Rio de Janeiro, em 1855.

O episódio que lhe custou a vida ocorreria cinco anos depois, quando Marcílio, talvez graças a ginga de capoeirista, enfrentou uma tropa de paraguaios, perdendo até um braço, e, mesmo assim, seguiu lutando até o final, na famosa Batalha Naval do Riachuelo. Guerra vencida pelo Brasil, que praticamente dizimou a população masculina do país vizinho.

 

A face negra de Marcílio Dias e do remo itajaiense

Apesar de afrodescendente, no único retrato conhecido de Marcílio Dias, é difícil perceber sua origem. Assim como Machado de Assis, ele sofreu um processo de branqueamento na cor da pele, na grossura dos lábios e os cabelos desaparecem sob o boné de marinheiro. O curioso é que a própria história se encarregaria de corrigir esta distorção. No mesmo ano da criação do clube Marcílio Dias, foi criado em Itajaí um clube de remo para os negros, aqueles que não podiam frequentar a Sociedade Guarany e também tinham amor pelo esporte da moda.

O Clube Náutico Cruz e Sousa foi criado em 13 de junho de 1919 por Firmino Rosa e Francelino Rafael. A fundação ocorreu na Sociedade 15 de Novembro, na rua Silva, onde depois foi criado o clube Sebastião Lucas, no bairro da Vila Operária. A primeira embarcação, nas cores azul e amarelo, foi chamada de Guaraci, e a madrinha foi a jovem Izaura Procópio. A imprensa da época assim reportou: “Pela primeira vez na história de Santa Catarina, em 21 de abril de 1920, aparecia na raia uma guarnição de gente de cor, coisa nunca antes vista no estado”.

 

De volta às origens

No ano passado, o Marcílio retornou a atividade náutica através de uma parceria com a Associação Náutica e a Fundação Municipal de Esporte e com o apoio do Studio Remo. A madrinha do projeto é a campeã mundial de remo de 2011, Fabiana Beltrame. A ideia é formar uma nova geração de remadores e resgatar a prática do esporte formando crianças e adolescentes nas águas do rio Itajaí-Açú.

Quem se interessou pelo livro “História do Clube Náutico Marcílio Dias”, de Fernando Alécio, está a venda na loja do clube, na avenida Sete de Setembro e custa R$ 25.

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com