Home Notícias Especial ITAJAÍ 159 ANOS | Despertar o espírito náutico dentro de cada itajaiense é o desafio da ANI

ITAJAÍ 159 ANOS | Despertar o espírito náutico dentro de cada itajaiense é o desafio da ANI

Associação Náutica está resgatando uma cultura aliando cidadania e esporte em quatro projetos desenvolvidos na Beira Rio

Muita gente que costuma caminhar no calçadão da Beira Rio, no bairro Fazenda, não faz ideia do que acontece em um contêiner instalado estrategicamente nas margens do rio, onde funciona a Associação Náutica de Itajaí (ANI), criada por Wilmar Braz. Desde 2003, dezenas de voluntários se revezam para inspirar as novas gerações a serem cidadãos mais cientes de seu papel no mundo. Por ali, já passaram mais de cinco mil crianças e adolescentes atuando em projetos que se desdobram tão organicamente quanto as algas do mar.

O projeto original da ANI foi o “Navegando pela cidadania”, que oferece a estudantes da rede pública municipal a chance de aprender o esporte da vela no contraturno escolar. Depois veio a “Escola de Vela”, o “Barco Escola”, a “Equipe de Rendimento” e o projeto “Paiol”, este último destinado ao público adulto que deseja aprender a construir o próprio barco.

No “Navegando pela cidadania”, 18 escolas selecionam 16 alunos cada, para participar de uma aula por semana, totalizando 188 estudantes. São quatro turmas por dia, com exceção de sexta-feira. Quem coordena este trabalho é Adriana de Lima Luz, 38 anos, especialista em gestão escolar. A professora conta que a mudança nas crianças é evidente, e se torna cada vez mais necessário numa época em que o assédio pode estar dentro de casa.

“Quando éramos crianças, o maior problema era cuidar com o carro, já que vivíamos na rua brincando de bicicleta, bola, corrida. Agora, quando as crianças tem praticamente o mundo todo dentro do celular, é importante dar uma alternativa que mostre que o mundo lá fora também é divertido, e fortalecer sua autoestima e instinto de preservação”, explica.

Neste projeto, que atende o ensino fundamental, a partir de oito anos, no primeiro semestre as crianças aprendem a remar na baleeira. São oito alunos por barco e dois instrutores.  Além da aula prática, eles mantêm um diário de bordo onde fazem pesquisa sobre a preservação ambiental, reciclagem de lixo e a destinação correta de resíduos como a esponja de louça, em parceria com a Univali. “Eles trazem o material de casa para que seja devolvido à indústria, já que não é lixo orgânico ou reciclável”, explica. Resíduos que acabam indo parar no estômago de animais marinhos, como tartarugas, golfinhos, baleias e pinguins.

 

Projeto da ANI revelou talentos  que venceram competições nacionais

Quando Ana Carolina da Silva, hoje com 19 anos, veio participar do projeto “Navegando pela cidadania” através da EB Fernandes Potter, do Espinheiros, não sabia que aquele dia ia mudar a sua vida. Era 2012, ano da primeira edição da regata volta ao mundo, e a cidade estava em festa por receber, pela primeira vez, um evento internacional daquele porte. Ana tinha 12 anos e participou da regata promovida pela Volvo Ocean Race para iniciantes, junto a outras 40 crianças e adolescentes. Foi o despertar de uma vocação.

“Eu fiquei encantada pela vela, por aquele mundo, pelo esporte, tanto que hoje faço a faculdade de Educação Física e quando não estou estudando e treinando, estou sempre aqui para ensinar, limpar e carregar barco, o que tiver que fazer eu faço”, explica. De aluna, Ana se tornou instrutora e no ano passado, criou os projetos “Escola de Vela” e “Equipe de Rendimento” para aqueles talentos que devem continuar desenvolvendo suas habilidades. “É a continuidade do aprendizado com foco na competição”, explicou.

O “Equipe de Rendimento” tem oito atletas, entre 10 e 15 anos, nas classes optmist, laser e dingue. O treino acontece das 13h às 17h. Já a “Escola de Vela’ é para atletas de 6 a 14 anos, e não precisa ser apenas oriundo de escola pública. Ana conta que a diferença entre os dois projetos se deve ao tamanho do barco e do atleta. “O optimist, por exemplo, a pessoa não pode ter mais de 60kg. Já a classe laser exige que o atleta seja mais alto para fazer contrapeso no barco”, diferencia.  A classe dinger foi projetada no Brasil para servir tanto para passeio quanto para competição por ter poucas regulagens.

Daquelas 40 crianças da regata da Volvo em 2012, sobraram Ana e Alexandre Souza Filho, que hoje estuda Engenharia Elétrica. Ele venceu duas vezes a competição catarinense em 2013 e 2014, nas categorias estreante e veterano. Ana também venceu duas vezes e João Vitor Orestes, uma vez.

Este ano, em Ilhabela, Luisa Metzner, de 14 anos, se sagrou campeã nacional na classe optmist e Kayo Eiras, 13 anos, venceu na categoria estreante masculino. Ana também participou da equipe que venceu a regata Jaques Vabre (2013), em Piçarras (2015), em San Isidro, na Argentina, e a regata Volta a Ilha, em Florianópolis, em abril deste ano.

 

Reconhecimento da UNESCO

No segundo semestre, o trabalho evolui para aulas práticas na sede da faculdade de Oceanografia, em Armação do Itapocorói, Penha. Lá, a cada 15 dias, quatro turmas se revezam para atuar como voluntárias no monitoramento de praias, recolhendo animais marinhos mortos e feridos para tratamento no laboratório. Outra ação educativa é o recolhimento de lixo nas margens do rio Itajaí-Açu, que ocorre uma vez ao ano, junto a escoteiros e outros voluntários, promovido pelo Semasa como contrapartida de um ajuste de conduta judicial.

Nesta fase, os estudantes aprendem a manejar o barco à vela, fazer nós e remar como gente grande. O encerramento é feito com uma regata. Este ano, a competição contou com o patrocínio do Criança Esperança e Unesco. Ela conta que cada escola tem liberdade para escolher os estudantes para o projeto. Pode ser pelo bom desempenho ou por inclusão. “Eu, que sempre atuei dentro da sala de aula, percebo a evolução em termos de comunicação interpessoal. Pelo olhar você percebe como eles se soltam e aprendem a trabalhar em grupo, diminuindo a ansiedade”, relata. O projeto também trabalha com deficientes visuais e autistas.

 

O amor à vela independe de idade

O empresário Fabiano Zucco, 46 anos, começou como voluntário e hoje é presidente da ANI, além de estar a frente do projeto Barco Escola, o mais democrático e diversificado dos projetos por abrigar barcos da classe oceânica de diferentes tipos e tamanhos, de 19 a 40 pés. Também não exige que o participante seja jovem ou tenha um perfil atlético. “Pelo contrário, mesmo quem tem algum problema de saúde se beneficia do esporte, como é o caso dos deficientes visuais,” exemplifica.

Fabiano conta que cada barco tem um projeto próprio, que pode ter ênfase na mecânica, marinharia ou educação ambiental. Ele acha que, mais do que ensinar um esporte, a missão é despertar o espírito náutico. “Criamos o projeto para justificar o que já acontecia. Quem conhece a vela ou desiste ou se apaixona e encara, porque é bastante serviço braçal”, revela.

Outra que se desdobra para se doar à causa é Rosane Soares, 29 anos. Ela é instrutora e atua como voluntária na parte de educação ambiental. “Eu cuido dos alunos como se fossem meus filhos. Como dou aulas de inglês e meu horário é flexível, sempre que posso estou aqui ajudando”, garante. Rosane disse que o envolvimento com a ANI a salvou, inclusive, do sedentarismo. “A gente se empolga ao ver a criançada no mar e comecei a correr”, orgulha-se.

Fabiano disse que a entidade pretende abrir ainda mais suas atividades para o público em geral, com aulas de remo e vela de forma recreativa. Um grupo de senhoras foi a primeira a encarar o desafio, ao custo mensal de R$ 150. “Queremos desmistificar a ideia de que o barco à vela é um esporte de elite e ajudar a formar uma identidade preocupada com as questões ambientais e seu papel como cidadãos para uma sociedade melhor”, declarou.

Tanto empenho rendeu frutos em abril deste ano, na primeira edição do Vela Show. A feira de negócio e competição rolou no Centreventos, coloriu as águas do rio com seus barcos leves e deslizantes, e abriu espaço para grandes nomes da vela conhecerem o trabalho da ANI. “Pessoas experientes como Beto Pandiani e Wilfredo Schurmann são essenciais para ter essa troca de experiência e fortalecer a vela em Itajaí”, acredita Fabiano.

 

Projeto Paiol: um barco para chamar de seu

Dez anos depois de fazer de tudo dentro da ANI, Wilson José da Silva, hoje com 52 anos, criou o Projeto Paiol, em 2013. Ele percebeu que muita gente tinha o sonho de ter o próprio barco, mas não achava que era possível. O projeto funciona num galpão na Praia Brava e fabrica sete embarcações por ano, feitas em dupla. E para participar, não é preciso ter conhecimento prévio, apenas ter mais de 18 anos.

São 10 meses de fabricação artesanal, que culmina com o batismo em frente a sede na ANI, na Beira Rio, em dezembro. O tipo de embarcação foi encomendado dos EUA, mas para baratear os custos, Wilson desenvolveu um modelo nacional. “O Iris Rubra é um barco leve, de 60kg, que pode ser guardado na garagem de casa, pois é do tamanho de um carro, e requer uma carreta para transporte. É preciso proteger do sol porque detona o verniz”, avisa.

O barco é de madeira e mede 3,5m porque Wilson escolheu utilizar o sistema métrico. As aulas acontecem duas vezes por semana e custam R$ 500 mensais.

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