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Fábrica da GDC tem licença ambiental cancelada

Os 35 funcionários estão parados, mas por enquanto recebendo salários

Queixa de mau cheiro persiste nos últimos anos

 

Uma briga que se estende desde 2016 e afeta diretamente a economia de Itajaí, teve um novo episódio no último dia 20 de janeiro. O IMA (Instituto do Meio ambiente de Santa Catarina) cancelou a licença ambiental de operação (LAO) da BFP (Bioprodutos de Pescados). A empresa é um braço da GDC e atua na produção de farinhas e gordura através do beneficiamento de resíduos de pescado – e foi acusada de causar mau cheiro na pacata localidade desde o primeiro dia de funcionamento.
A batalha entre moradores do bairro Arraial dos Cunhas, local onde a BFP está instalada, e a empresa foi motivada pela recorrente reclamação da população sobre o mau cheiro. De acordo com o IMA, o cancelamento da licença ambiental também foi motivada pela empresa não ter conseguido atender as exigências do licenciamento.
De acordo com o órgão ambiental, a BFP enviou um plano de testes no dia 28 de janeiro. O plano consiste em uma série de propostas para buscar soluções para o mau cheiro. Caso seja atestado que o novo plano é capaz de contemplar um controle ambiental eficiente, é possível emitir uma nova licença ambiental. Técnicos e analistas do IMA analisarão a viabilidade da proposta, mas até lá, a fábrica não pode funcionar.
Os 35 funcionários da ão podem trabalhar no local. Por enquanto, eles continuam recebendo salários, pois a empresa tem expectativa de reverter a situação.
Entenda o caso
Em fevereiro de 2017, teve início a batalha entre a empresa e os moradores, que alegam mal estar e dificuldade de ficar em casa com a fedentina que a fábrica em funcionamento exala. Uma reunião entre moradores, vereadores, representantes da prefeitura e a empresa terminou com a promessa da empresa de que faria ajustes para brecar o mau cheiro. Desde então, a fábrica chegou a ser fechada e interditada diversas vezes. Também foi criado o grupo de whatsapp “Monitoramento BFP” para que os moradores se comunicassem a respeito do problema que afeta a saúde da comunidade.
Cerca de três meses depois, em maio de 2017, moradores alegaram que o problema não foi resolvido e o Ministério Público entrou na história. Foram ajuizadas duas ações contra a BFP exigindo a regulamentação da licença ambiental e a responsabilização criminal da empresa. As ações foram feitas com base em mais de 140 denúncias dos moradores que reclamavam que o mau cheiro impedia, inclusive, a realização de refeições, além de causar náuseas e tontura.
Alguns meses depois, em outubro, o problema persistia e a fábrica chegou a ser fechada pela Fatma (Fundação do Meio Ambiente) nome anterior do IMA. O fechamento aconteceu depois que fiscais estiveram no local e confirmaram o mau cheiro na região.

Longa batalha judicial
Na época, foi constatado que a ão havia cumprido acordos que foram firmados na justiça após a intervenção do MP. A empresa se defendeu dizendo que o odor havia sido causado por um “incidente operacional”, alegando vazamento de um tambor.
Em janeiro de 2019, quando a unidade de Arraial dos Cunhas estava novamente fechada, o Tribunal de Justiça entrou em ação e suspendeu a decisão da justiça de Itajaí. Apesar da retomada das atividades na unidade, a fábrica ainda não tinha concluído as obras para filtrar os gases que provocam o mau cheiro.
Após uma nova reunião com moradores e vereadores, em fevereiro de 2019, a empresa se comprometeu a ser mais transparente e prometeu que a partir do mês seguinte um novo equipamento entraria em funcionamento para resolver o problema.

Equipamento parou de funcionar
Os dias de trégua entre moradores e a empresa não duraram muito. As reclamações de mau cheiro persistiram e, no mês de junho de 2019, a fábrica foi novamente fechada pelo IMA.
Dessa vez, os fiscais foram até o local e constataram que o equipamento implantado pela empresa para acabar com o fedor de peixe podre não estava funcionado. A BFP alegou que não percebeu que o equipamento tinha parado de funcionar e garantiu que havia seguido todas as especificações exigidas pelo órgão ambiental.
Depois de quase 50 dias de paralisação, em agosto de 2019, a fábrica retomou as atividades. A decisão foi baseada em um novo plano de testes que atenderia as exigências dos órgãos ambientais de Santa Catarina.
Pouco tempo depois, em outubro, a BFP realizou novos testes e os enviou ao IMA para que fosse atestada a eficiência da fábrica e as atividades pudessem seguir normalmente. A empresa ainda afirmou ter solicitado ao IMA uma nova rodada de testes e melhorias. Também disse que comparada com outras indústrias brasileiras é a que emite o menor índice de odores.
Mas, no final de janeiro de 2020, um novo episódio na longa disputa travada entre IMA, moradores e BFP aconteceu. Houve uma nova paralisação e a empresa teve que descartar os materiais utilizados como matéria prima para seu produto em aterros sanitários. No dia 20 de janeiro, sob a alegação de que o lavador de gases instalado para reduzir o mau cheiro estava funcionando de maneira incorreta, a licença ambiental da empresa foi cancelada.

IMA afirma que nenhum equipamento atesta a poluição melhor do que o nariz

Empresa alega que faz todos os testes necessários

A BFP afirma ter investido mais de R$ 2 milhões em um lavador de gases para impedir o mau cheiro e também ter arcado com um custo de R$ 350 mil nos últimos testes realizados pela empresa. Além disso, afirma ser a única unidade em Santa Catarina a ter certificação GMP+B2 na área de reciclagem de resíduos de pescado, atestando que a empresa atende todos os requisitos e condições para assegurar um alimento seguro.
A empresa também alega estar melhorando a situação para os moradores da região e evoluindo em relação aos últimos testes. Por fim, afirma que a licença foi cassada sem que existam critérios de adequação de odores em Santa Catarina. O único estado que estabeleceu este critério é o Paraná e a BFP afirma que atende o que é solicitado no local.
Por outro lado, o gerente de Desenvolvimento Ambiental de Itajaí do IMA, Alexandre Motta, acredita que a melhor forma de medir o nível de odores é feita pelo nariz humano. Ele conta que o que determina o nível dos odores é o ‘júri móvel’, um grupo formado por pessoas que ‘calibram’ o nariz cheirando um produto e fazendo observações por escrito.
“Até existem alguns equipamentos eletrônicos, mas a percepção da máquina não alcança a mesma eficiência do nariz humano. O equipamento não consegue captar o componente químico que dá a característica do odor”, afirmou.
Empresa diz que 
poluição será pior

Trinta e cinco funcionários estão parados

A BFP afirma que com o fechamento da fábrica, o impacto econômico e ambiental na região de Itajaí será grande. Estima-se que a empresa deixará de processar 130 toneladas de resíduos de peixe por dia. Em vez de serem transformados em bioproteína, o material, altamente poluente, deve ser descartado em aterros sanitários.
Já na esfera econômica, a BFP calcula que a decisão pode atingir diretamente o emprego de 35 pessoas que trabalham na fábrica e deixar de movimentar mais de R$ 8 milhões por ano, em compras junto aos fornecedores, que são empresas de Itajaí e região.
Você sabe como é feita a farinha de peixe?


De acordo com a Associação Brasileira de Reciclagem Animal (ABRA), para fazer farinha de peixe são usadas as partes dos peixes impróprias para o consumo humano. Seja por questões ligadas a hábitos alimentares ou culturais da população ou, por questões sanitárias, segundo critérios do Sistema de Inspeção Federal (SIF).
Essas partes são utilizadas na produção de farinhas, rações, gorduras, hemoderivados e gelatinas. A entidade afirma que ao processar de forma adequada os resíduos, toneladas de dejetos são aproveitados e evitam mais dano ao meio ambiente. De acordo com a ABRA, existem mais de três mil lixões e aterros sanitários espalhados pelo Brasil, e estima-se que, sem o aproveitamento desses resíduos, este número aumentaria em 30%.

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