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Enfermeiros narram rotina dura e estressante na pandemia

Jornada prolongada de trabalho, envolvimento com a dor de pacientes de Covid-19 e o medo de contagiar os familiares estão entre as maiores dificuldades

Karla Quint
quentinhas@diarinho.com.br

Uso de equipamentos de segurança e as regras de higienização são itens essencias na prevenção da doença

alta taxa de transmissibilidade do coronavírus coloca em risco permanente os profissionais da saúde que estão na linha de frente do combate ao coronavírus. São profissionais que têm vivido sob uma rotina dura de trabalho e com  muito estresse psicológico. Para contar mais sobre o dia a dia desses heróis anônimos, o DIARINHO ouviu o relato de quatro enfermeiros que atuam na região.

Há um número crescente de infectados na área da saúde, entre médicos e enfermeiros. Em Itajaí e região, são 27 profissionais da saúde já confirmados com a doença.

Jaci Simão Boing, o Simão, 39 anos, é enfermeiro da Unidade de Pronto Atendimento que funciona junto ao Centro Integrado de Saúde,  o CIS do bairro São Vicente. Ele trabalha na assistência de enfermagem há 21 anos e nunca tinha passado por nada parecido na vida profissional. “Já passei por surtos de dengue, H1N1, mas nunca uma situação como essa provocada pelo coronavírus”, compara.

Ele também já trabalhou na Unidade de Terapia Intensiva atuando junto a pessoas com tuberculose, mas nunca adoeceu. Simão afirma que essa situação é diferente pela alta taxa de transmissibilidade do coronavírus.

A avaliação de Simão é compartilhada com a do colega  Mateus Antunes Pereira, 35 anos, que trabalha como enfermeiro na mesma UPA. “O que muda na nossa rotina de enfrentamento e cuidados é o quanto o coronavírus é contagioso”, analisa.

Para a enfermeira Michele Karine Spengler, 39 anos, que atua no Centro de Triagem Covid-19 e é formada há 15 anos, esta situação é a mais desafiadora de toda a sua carreira profissional.

A rotina da enfermeira Silvana Coratto, 34 anos, também tem sido bem diferente. Ela trabalha no CIS no turno  da noite e no Hospital Marieta Konder Bornhausen no período da manhã. Para se proteger, Silvana se atenta  às medidas protetivas possíveis: usa todos os EPIs fornecidos pelas unidades de saúde, faz a higienização das mãos, toma cuidado redobrado na manipulação dos pacientes e faz o uso permanente de máscara até mesmo quando está fora do ambiente do trabalho.

Operação higienização para ir pra casa

Mateus deixa o filho com os avós para evitar o risco de contágio

O enfermeiro Simão troca a roupa completa, até o sapato, que nunca é o mesmo que usa no dia a dia,  quando chegado trabalho. Essa prática  foi estabelecida antes mesmo do Covid-19, conforme orientações antigas do ministério da Saúde. Seus novos acessórios de trabalho são a touca,  máscara e o avental. Simão usa óculos, e tem que usar outros óculos de proteção por cima, o que gera um cuidado a mais, já que quando embaça as lentes ele precisa usar as mãos para limpá-las.

Michele, que mora com a mãe e a filha em Blumenau, deu início ao trabalho em Itajaí no dia 23 de março. No início, ela fazia o trajeto de Blumenau a Itajaí diariamente, mas a preocupação com a saúde da família fez com que ela optasse por viver em Itajaí neste momento.

Com a ajuda de colegas, conseguiu um lugar para ficar de segunda a sexta-feira, uma residência cedida por uma senhora, na qual ela não precisa pagar aluguel. Aos sábados de noite ela visita a família, mas sem dispensar todos os cuidados preventivos. “Pelo menos consigo estar um pouco ao lado da minha mãe e filha, mesmo que não esteja podendo abraçar ou beijar as duas,” explica.

Já para entrar na casa de Silvana, quem abre a porta é o marido, que está em home office há mais de seis semanas. Isso ajuda com que ela não encoste  nas maçanetas até que consiga lavar as mãos. O calçado é deixado para o lado de fora, a roupa retirada e colocada dentro de uma caixa com tampa. Tudo que chega da rua à casa de Silvana é higienizado com água, sabão e água sanitária.

Mateus também toma todos os cuidados ao chegar em casa. Um deles tem sido o distanciamento da família, principalmente do filho de seis anos, que está sendo cuidado pelos avós. “Desde que as aulas foram interrompidas só vejo ele uma ou duas vezes por semana, sem manter contato físico”, narra.

Risco de contágio assusta

Os profissionais da saúde citam a rapidez com que o coronavírus é transmitido. Todos são unânimes em dizer que o maior medo é contaminar a própria família. Mesmo usando todos os equipamentos de segurança, Michele diz que o medo é um sentimento permanente.

Simão, que tem um menino de 13 anos e uma menina de oito anos, toma banho na UPA no fim do turno de trabalho. Ao chegar em casa tira os sapatos na entrada. Quando chega vai direto para a lavanderia ou o banheiro, para um segundo banho em um intervalo de meia hora. Só depois é que ele entra em contato com a família.

“A nossa família é muito afetuosa e agora dá medo de abraçar,” conta.

Simão está alongando o turno de trabalho para que todos os pacientes tenham assistência completa, e isso faz com que ele esteja mais tempo fora de casa. Dia desses, a filha abraçou o pai e perguntou: “De novo, pai? Não quero que você vá!” Nos 17 primeiros dias de abril Simão dormiu apenas seis noites em casa.

Suporte emocional

Silvana tem feito sessões de terapia e de Reiki

A maneira que Silvana encontrou para conviver com o medo em meio à pandemia, foram as sessões de terapia com a sua psicóloga. O Reiki e as orações também são aliados importantes. O medo de ser contaminada continua, mas Silvana sente-se mais fortalecida para aguentar a dureza da rotina.

Já para Mateus, o medo de adoecer é maior pela rapidez de contágio e e capacidade da Covid-19 causar complicações mais graves.

Estresse psicológico

Michele tem medo de transmitir o vírus pra família

Os casos de coronavírus levam os profissionais, também, a estresses psicológicos. Simão, por exemplo, não consegue esquecer do último paciente que testou positivo para a doença.  Enquanto estava na ambulância o paciente olhou ao enfermeiro e perguntou: “Mas não é Covid-19, né?”. Hoje o paciente está  internado na UTI.

Para Michele, a situação é nova e os profissionais precisam lidar diariamente com a própria insegurança e também com os medos dos pacientes. “O psicológico fica abalado, pois tem ainda o medo de transmitir o vírus pra família. Tem o luto pela perda de colegas, a necessidade de adaptação a novas rotinas. Além do isolamento social que dificulta o conforto a alguém que esteja doente. Tudo nos abala psicologicamente. O futuro é incerto neste momento”, analisa  Michele.

Silvana diz que o momento mais difícil foi no início da pandemia. Silvana lembra que a empatia com os pacientes também gera uma responsabilidade: o lugar do outro é também o lugar dela como profissional da saúde.

“Para quem está na linha de frente, além das regras de isolamento, é preciso atuar para controlar a doença. Tem sido complicado para todos nós, com regras que não estávamos acostumados”, resume o enfermeiro Mateus. O que tem ajudado o profissional a amenizar esse momento de dificuldade é o foco no trabalho, pois são os profissionais da saúde que fazem toda a diferença no bem-estar dos pacientes e na batalha contra a pandemia.

“É difícil falar a um familiar que não vai poder ver o corpo”

Simão narra a dificuldade de contar a um familiar sobre a morte de um ente querido

O primeiro caso confirmado de uma morte causada pela doença em Itajaí foi um dos dias mais difíceis para Simão. Ele considera uma tarefa árdua avisar os familiares de uma vítima fatal de Covid-19. “Um paciente morre de parada cardíaca, e às vezes só conseguiremos saber se ele morreu mesmo de coronavírus quando já estiver enterrado. Difícil você ter que falar que a família não vai poder ver o corpo e viver o luto, porque desconfiamos que seja coronavírus, mas não podemos nem afirmar”, desabafa.

Para Michele o dia mais difícil da pandemia foi voltar pra casa e encontrar sua mãe e a filha a esperando depois do plantão. “Acho que não me perdoaria se contaminasse elas”, confessa.

A mãe  de Michele tem doença obstrutiva pulmonar crônica e já teve câncer de mama e de bexiga.

Não é uma gripezinha, lembram os profissionais

A flexibilização de atividades econômicas pelo governo do Estado de Santa Catarina gerou uma quebra do isolamento social. Os profissionais compartilham de certo sentimento de impotência e tristeza.

“No início dava uma angústia, uma certa raiva, dá muita tristeza na gente. Acho que há  pessoas egoístas. Nesse discurso de ‘gripezinha’,  vão acabar transmitindo para alguém que está em grupo de risco e que pode morrer. A vontade é de parar um por um e dizer para ir pra casa”, desabafa Simão. Ele também aponta para o fato de que quanto mais efetivo é o isolamento social, menos efetivo ele parece ser, pois há menos doentes no hospital justamente pelo isolamento. Simão afirma que o país só não enfrenta uma situação ainda pior, justamente por ter iniciado a quarentena.

Michele compartilha do mesmo sentimento. “Me sinto desrespeitada quando vejo as pessoas quebrando o isolamento e não levando a sério”, comenta. Da mesma maneira, sente-se Silvana, que não entende como as pessoas não estão levando a sério a pandemia, mesmo após todas as notícias sobre os números de casos e as complicações. Ela relembra que as idas a bares, shoppings e festas aumenta a disseminação do vírus, que gera mais casos positivos e, consequentemente, mais mortes.

A esperança de Mateus é que as pessoas reconheçam os efeitos da pandemia e que sejam conscientes sobre a responsabilidade de cada um em manter as medidas preventivas.

Já para Silvana, uma ida ao supermercado quase a fez desmoronar. Ela foi evitada por uma amiga por estar trabalhando na área da saúde, a partir disso que buscou terapia, Reiki e se agarrou às orações. “Fiquei péssima, senti na pele a indiferença, sendo que estava na linha de frente ajudando as pessoas”, conta.

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