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Desafios reais, boa convivência e ensino da cidadania

Atividade sobrevive à era digital apostando no trabalho em equipe e na aventura da vida real

Quem passou dos 40 anos lembra com nostalgia do “Manoel do escoteiro mirim”, um verdadeiro best-seller da Disney, em que Zezinho, Luisinho e Huguinho curtiam altas aventuras com o tio Donald no acampamento montado por eles mesmos, onde também faziam a própria comida em meio à floresta.
E engana-se quem pensa que a revolução digital diminuiu o entusiasmo dos adeptos do escotismo, que contagiam as novas gerações com um argumento simples: nada substitui a interação real entre pessoas de carne, osso e sentimentos. Mas, para isso, há toda uma estratégia para aprender se divertindo e valorizando a vida ao ar livre.
Itajaí possui quatro grupos de escoteiros: Imaruí (Barra do Rio), Padre Baron (Ressacada), Almirante Tamandaré (Cabeçudas) e Lauro Muller (Fazenda). A semana passada foi intensa para estes grupos em razão da comemoração do Dia do Escoteiro, em 23 de abril.
Eles desenvolveram várias atividades em toda a cidade para divulgar o movimento e práticas que incentivam a autonomia, a cidadania e respeito a valores como honestidade e solidariedade. Em Balneário Camboriú, quem agitou a cidade foi o grupo Leão do Mar, que possui 300 adeptos, e em Navegantes, o Geman (Grupo Escoteiro do Mar).
Para conhecer a rotina de um grupo de escoteiros, o DIARINHO visitou no sábado o grupo Lauro Muller, que tem 35 anos, onde 70 integrantes se dividem em Lobinhos (6 a 10 anos), Escoteiros (10 a 14), Sêniors (14 a 17) e Pioneiros (18 a 21), fora os adultos voluntários que atuam na administração e chefe das “matilhas”. Há um chefe para cada oito integrantes.
São cinco premissas que fundamentam as atividades: cumprir a lei do escotismo e sua promessa, aprender os ensinamentos na prática, aprender a viver em grupo, atuar em atividades atraentes e variadas, de acordo com a idade e desenvolver um projeto pessoal.

O escotismo nasceu de um militar inglês
Os escoteiros aplicam o método criado pelo oficial inglês Baden Powell, em 1907, depois de voltar de uma guerra colonial na África do Sul. Ao perceber que os jovens ingleses estavam sem rumo e sem perspectiva, bolou um método que aliava educação, civismo, atividades físicas e lúdicas para despertar potencialidades e engajar crianças de uma forma prazerosa e dinâmica.
No Brasil, o movimento chegou em 1910 trazido por oficiais que vieram da Europa. Hoje, fazem parte do movimento escoteiro 100 mil pessoas em 1500 grupos, espalhados em 670 cidades brasileiras. Estima-se que em todo mundo este número chegue a 28 milhões de crianças, adolescentes, jovens e adultos, distribuídos em 223 países.

De lobinho a escoteiro: uma evolução de consciência 

Matheus Marcos Jorge, oito anos, é um garoto típico dos novos tempos: adora ficar jogando videogame a tarde toda e quase dorme na escola porque acha as aulas muito chatas. Ele está há poucos meses no grupo e diz que ainda prefere ficar em seu quarto, mas precisa fazer atividades físicas “pra não ficar gordo”. Seu pai é pescador e Matheus ainda não sabe o que fazer no futuro. Por enquanto, não vê muita utilidade em aprender coisas.
Marina Nunes de Ávila, 10 anos, entrou para o grupo há oito meses incentivada pela amiga Laura, filha do vice-presidente, Ricardo José Peres Jesus. Ela conta que sua mãe limita o tempo em frente ao computador e TV, criou uma rotina para leitura diária e incentiva sua veia artística na aula de violão, que as amigas fazem juntas. As duas estão ansiosas para virarem escoteiras. “Nós aprendemos coisas legais como fazer trilha, aprender os nomes de bichos e plantas, diferenciar o que é venenoso, mas como escoteiras vai ter mais aventuras”, acredita.
Nayara Natali Jungles, 12 anos, e Rodrigo Almeida Marcondes de Castro, 14, se conheceram quando eram lobinhos. Ela mora com a avó e entrou com sete anos como uma forma de fazer mais atividades fora de casa. Nayara conta que a mudança para escoteiro é muito divertida porque as atividades ganham em variedade e intensidade, como fazer rapel e tirolesa, sempre acompanhados de um instrutor. Já Rodrigo entrou com 10 anos e chegou a ficar pouco mais de um ano em São Paulo, mas não aguentou de saudade. “Aqui somos uma família”.
Nesta fase da puberdade os interesses mudam. Eles são preparados para os desafios da vida adulta e são estimulados a cuidar não só de si, mas da comunidade e da cidade em que moram. Neste sentido, promovem limpeza da margem de rios, campanhas de valorização da mata ciliar e reflorestamento de encostas para combater os efeitos de enchentes e deslizamento de terra.
Na fase dos sêniors e pioneiros, ajudam a recuperar escolas em mutirão de pintura e conserto de equipamentos e brinquedos.

Uma vez escoteiro, sempre escoteiro
São muitas as histórias de adultos voluntários que foram lobinhos e acabaram retornando ao movimento por causa dos filhos. O presidente Paulo Sérgio Cerzino, 48, entrou para o escotismo em Curitiba em 1979 e veio morar em Itajaí em 2008. Três anos depois, voltou para a ativa para trazer a filha Vitória, de sete anos.
Ricardo José Peres, 43, é caminhoneiro e atuou no movimento dos 13 aos 21 anos. Em 2017, trouxe a filha Laura. Marcelo Enghi, 48, é diretor de métodos educativos e se tornou escoteiro aos 11 anos quando vivia em Sampa, incentivado pelo avô. Ele ficou até os 20 anos e tinha o Manual do Escoteiro Mirim, aquele dos sobrinhos do Pato Donald..
O escoteiro mais velho em atividade é Paulo Machado da Rosa, 86 anos. Ele começou em Laguna, em 1953, com cinco anos. E tem dois irmãos e um neto também no movimento. “A gente se adapta às mudanças sociais, incorporando pessoas de outras culturas, crenças, sexualidades. O importante é acreditar num ser superior e dar valor à vida em grupo para a construção de uma sociedade de respeito e paz”, afirmou o presidente.
Elisa Vieira Florio, 40, é professora, e aderiu ao grupo há três anos, quando tinha um bebê recém-nascido. “Vim acompanhar o trabalho de meu marido Odair, que é chefe dos escoteiros, e dei uma ajuda no setor administrativo. Gostei tanto do ambiente e da possibilidade de ajudar os jovens a fazerem uma sociedade melhor, que nunca mais saí. Hoje tenho uma filha lobinha, a Yasmin, de sete anos, e o pequeno está louco para aderir”, relata.
Elisa diz que o seu amor ao movimento é tão forte que não sabe o que fazer quando rola um feriado prolongado e as atividades são suspensas. “Nas férias, a gente fica inventando reunião para se encontrar”, conta.
Outra que se achou no movimento foi a comerciante Jocelita Slaviero, que começou como mãe do staff e hoje é chefe. “Eu ficava sentada numa pedra observando as crianças até o dia em que me convidaram. Hoje sou voluntária com orgulho”, diz.

Para cada fase da vida, um desafio a ser alcançado
O trabalho desenvolvido com as crianças de 6 a 10 anos é inspirado em “O livro da selva”, de Rudyard Kipling, que conta a história de Mogli, o menino criado pelos lobos. Daí a denominação “Lobinhos”.
Esta fase tem quatro etapas, da ‘pata tenra’ a ‘caçador’. “Neste grupo, os chefes ensinam questões básicas como amarrar os sapatos, lavar o próprio prato, separar o lixo e viver grupo sem gritos ou violência”, conta o presidente Paulo Sérgio Cerzino, 48, farmacêutico.
Os lobinhos também precisam seguir um código de conduta com 10 artigos. “Nesta fase conseguimos identificar as potencialidades das crianças e incentivar a desenvolvê-las, mas sem abandonar as demais habilidades, que precisam ser reforçadas, como a criança que tem mais aptidão para tarefas intelectuais e outra, para atividades físicas”, explica.
Quando a criança muda de nível, para escoteiro, os desafios aumentam. Está na hora de aprender a cozinhar, manter o uniforme limpo, organizar a mochila com os utensílios para atividades, fazer nós, montar barracas, enfim, serem autônomos. “Focamos na formação do caráter e a consciência de que todo ato tem uma consequência. Se um deles esqueceu de trazer panela pro acampamento não vai poder cozinhar, como seria na vida real”, exemplifica Paulo.
Quando se tornam adultos, os sêniors e pioneiros dão suporte às atividades do grupo colocando em práticas as habilidades desenvolvidas. É o caso de Victoria Retzen, 20 anos, que viveu metade de sua existência dentro do movimento e hoje é estudante de Administração.
Sua missão no último sábado foi desenvolver o design da campanha do agasalho. “Apesar da origem militar, o movimento te dá ferramentas e te deixa livre para tomar tuas próprias decisões”, esclarece.

Conheça os grupos da região

Lauro Müller – Itajaí
Atividades: Sábados, a partir das 14h.
Endereço: Rua Videira, 320 – Bairro Fazenda.
Telefone: (47) 99964-2193
E-mail: gelm37@gmail.com
Internet: www.facebook.com/gelauromuller

Imaruí – Itajaí
Atividades: aos sábados, das 14h às 17h
Endereço: R. Arnoldo Lopes Gonzaga, 250 – Barra do Rio.
Telefone: (47) 3349-8958.

Padre Baron – Itajaí
Atividades: aos sábados, das 13h30 às 17h.
Endereço: Rua Vereador Abílio Otavio do Canto, 355 – Ressacada.
Telefone: (47) 99653-8767.
E-mail: administrativo@padrebaron.com.br
Site / Blog: www.gepadrebaron.org.br

Almirante Tamandaré – Itajaí
Atividades: aos sábados, das 9h às 11h30.
Endereço: Rua Maria Flora Caldeira, 219 – Cabeçudas.
Telefone: (47) 3368-4238.
E-mail: gemat.61sc@hotmail.com

Leão do Mar – Balneário Camboriú
Atividades: aos sábados, das 14h às 17h.
Endereço: Rua Angelina, s/nº – ao lado do Parque Raimundo Malta.
Telefone: (47) 99914-1144.
E-mail: gelmar048@hotmail.com
Site / Blog: www.grupoleaodomar.org.br

Escoteiro do Mar – Navegantes
Atividades: aos sábados, das 14h30 às 17h30.
Endereço: Av. José Alcebíades Laurentino, 350 – Escola Neuza Maria Rebello.
Telefone: (47) 99998-6536.
E-mail: jackson@souescoteiro.org.br
Site / Blog: www.grupomarnavegantes.blogspot.com.br

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