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Bituca é problemão para o meio ambiente

O “lançamento de bitucas” é esporte que polui, contribui com enchentes e incêndios florestais. Ilha de Porto Belo quer acabar com elas

Melissa Bergonsi, Especial para o DIARINHO

Um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado no ano passado, comprovou que o tabagismo não afeta somente a saúde da população mundial, mas é também um grande vilão para o meio ambiente, um silencioso agente poluidor do solo, das águas e do ar que respiramos.
Segundo dados dos especialistas da OMS, dos 15 bilhões de cigarros vendidos diariamente no planeta, 10 bilhões acabam no meio ambiente. É como pensar que apenas uma bituca, a cada três, é descartada corretamente. As outras duas vão envenenar a atmosfera, o solo, mares e rios com as mais de sete mil substâncias químicas tóxicas, entre elas nicotina, arsênico e metais pesados que possuem.
Para tentar visualizar o que isso significa, basta pensar em montanhas de bitucas de cigarro que podem pesar entre 340 e 680 milhões de quilos surgindo para reformular a paisagem terrestre todos os anos.
Como cada bituquinha lançada no meio ambiente como “esporte” por muitos fumantes demora até cinco anos para se decompor, já dá para imaginar a quantidade de substâncias tóxicas que o solo fica absorvendo durante essa meia década.
Na tentativa de conter esse problema, a ilha de Porto Belo lançou um programa contra as bitucas de cigarro. Em apenas três semanas, mais de 2.600 unidades foram recolhidas nas 20 bituqueiras espalhadas pelo local, na areia da praia, trilhas e mata.
“Infelizmente, muitos fumantes têm a mania de cavar um buraco na areia e enterrar, outros simplesmente praticam o triste esporte do lançamento de bitucas. Com o programa queremos contar essa poluição na ilha, mas também queremos conscientizar essas pessoas dos males que causa ao meio ambiente”, explicou o administrador do local, Alexandre Stodieck.
Para isso, garçons, monitores e atendentes passaram por um treinamento para explicar aos visitantes a importância do descarte correto dos resíduos do cigarro.
Segundo Stodieck, em menos de um mês já dá para perceber que os fumantes têm se sensibilizado. Das 2,6 mil bitucas recolhidas, 1.885 estavam descartadas nas bituqueiras. As outras 832 foram encontradas na areia da praia. “Muitas dessas na areia acabam vindo de outras praias, trazidas pela maré. O que muita gente se esquece é que ao enterrar ou ao simplesmente jogar na areia, a maré sobe, leva a bituca para o mar e isso causa um problema sério para a fauna marinha. As tartarugas, por exemplo, ingerem a bituca e morrem intoxicadas ou então engasgadas”, disse Alexandre.
Além das 20 bituqueiras e materiais de conscientização nas mesas e cadeiras do local, a equipe de limpeza também foi orientada a fazer o recolhimento durante todo o dia, seja durante a varrição, seja enquanto caminham pelo local. “Estamos sempre de olho, orientando e recolhendo. Mas, infelizmente ainda encontramos vários restos de cigarro jogados no chão, ao lado das lixeiras. Falta muita consciência ainda. É triste porque a pessoa pensa apenas em como se livrar daquele problema naquele momento. Não pensa que o problema será muito maior no futuro, já é muito maior”, contou Miller Jorge Tavares, 38 anos, que trabalha na equipe de manutenção da ilha. Depois de recolhidas, as bitucas são contadas e armazenadas para aulas de educação ambiental.
Segundo o estudo da Organização Mundial da Saúde, de tudo o que é recolhido nas varrições e limpezas de áreas urbanas e litorâneas, a OMS acredita que de 30 a 40% sejam apenas de resíduos do cigarro. Por isso, os fumantes adeptos do esporte “lançamento de bituca” deveriam ter consciência de que, além de ser um dos principais agentes poluidores do meio ambiente, são também culpados por enchentes urbanas ao colaborar para o entupimento de bueiros e galerias. Esse “esporte” é também responsável por grandes incêndios florestais como os que aconteciam na ilha, durante a década de 1990.

Todo dia, Dulce encontra “de tudo” na areia da praia
Todos os dias, a aposentada e apaixonada pelo vôlei, Dulce J. dos Santos, 63 anos, tenta limpar milimetricamente os cerca de 16 metros quadrados de areia que usa para jogar com amigos e turistas na praia Central de Balneário Camboriú. Ela faz isso há 12 anos, duas vezes por dia, principalmente no verão.
No curto espaço de tempo entre a manhã e o fim da tarde, sempre recolhe cerca de duas dezenas de bitucas de cigarro, além de palitos de dente, de pirulitos, cacos de vidro, tampas de garrafa pet, canudos e suas embalagens. “Sou fumante, mas sou consciente. Eu brigo com alguém quando vejo jogar a bituca ou qualquer lixo na areia. Eu vou juntando aos montes, acho tanta coisa que nem sei contar”, disse.
Quando os amigos que dividem a quadra de areia chegam cedo, ajudam Dulce na limpeza. Mas quase ninguém de fora se oferece para colaborar quando a vê sozinha catando o lixo espalhado ou enterrado na areia. “Tem uns senhores que moram aqui, que sempre me parabenizam. Mas é raro ver alguém que não é amigo querer ajudar, mas na hora que o jogo começa a rolar, todo mundo quer participar”, conta.
Além de ajudar com o meio ambiente, Dulce sentiu na pele que é necessário limpar a areia para que possa jogar com o mínimo de segurança. Ela lembra que já sofreu com um palito de dente (que não viu na hora da coleta) cravado no seu pé durante um jogo. “A gente se joga no chão, cai com o joelho, com o corpo todo e é um perigo”, conta.
Se durante o ano a limpeza é necessária, no período de festas de final de ano é obrigatória. “Na virada do ano, temos que ficar mais atentos ainda com os cacos de vidro, mas também temos os palitos de dente e ainda os de pirulito que são de um plástico duro e que encontramos aos montes aqui. Infelizmente, é um perigo para o meio ambiente e um perigo para todos os que frequentam aqui. Depois, essas pessoas querem reclamar da limpeza ou dos efeitos no meio ambiente”, falou..

“As gerações futuras vão nos condenar”, falam especialsitas
A preocupação da administração da ilha de Porto Belo com o microlixo vem desde 2002, quando proibiu as garrafas de vidro no local. Cinco anos depois, em 2007, foi a vez de banir a venda de cigarros.
A ilha também pôs fim às embalagens plásticas dos canudos. “Foi difícil, foi um desconforto inicial para os que vinham para cá, mas todos entenderam. O fato é que a bituca é apenas um dos microlixos, temos muito mais, e o plástico é um grande vilão do meio ambiente”, disse o gerente do local Arão Francisco Mafra Filho.
Foi depois da visita do oceanógrafo americano Charles Moore, que em 1997 descobriu a ilha de lixo plástico existente no Oceano Pacífico, que a administração da ilha de Porto Belo teve a ideia de fazer um cerco maior ao microlixo e dar ênfase às bitucas de cigarro.
“É tão óbvio o alerta que ele faz. Temos que nos atentar que não é só a pet de dois litros que polui, é a tampinha dela, o palito de sorvete, de pirulito”, disse o administrador do local, Alexandre Stodieck, que também é sócio do empreendimento.
Na luta contra o microlixo, outra proibição imposta na ilha são as bexigas. Segundo ele, era bastante comum crianças chegarem com balões que os pais compravam em Porto Belo, mas depois que estouravam, a borracha ficava jogada na areia. “A maré sobe, leva isso para o mar e as tartarugas e aves marinhas são as vítimas. Por isso, aqui, essas bisnagas de balão não descem mais”, avisou.
O professor Jules Soto, curador do Ecomuseu da Univali localizado na ilha de Porto Belo, explica que os vilões não são apenas as peças plásticas que vemos “íntegras” quando compramos ou as descartamos. “A questão está que ninguém vê como o plástico vai ficando em partículas cada vez menores ao longo de 500, mil anos. Nesse período, o impacto sobre a fauna e flora marinha são enormes”, disse.
O professor chama a atenção, por exemplo para as ilhas de plástico encontradas no Oceano Pacífico. Segundo ele, elas também se tornam um habitat seja para plantas, seja para animais marinhos, o que torna complexo o recolhimento desse lixo. “Há previsões de que até 2030 nós vamos nos encontrar vivendo no meio do plástico. Não podemos gerar tanto resíduo assim, as gerações futuras vão nos condenar por saber o que aconteceria e não ter feito nada”, finalizou.

Turistas reclamam de aumento de mosquitos e pombos
As amigas Cristina Chevalier, 56, e Cláudia Imaguire, 54, são de Curitiba e frequentam Balneário no verão há quase 30 anos. As duas estavam aproveitando o fim de tarde na praia Central, no sábado, e reclamaram do aumento de pombos e mosquitos na areia da praia. “Já está incomodando mais que em outros anos, algumas vezes temos que nos mudar de local na areia”, revela Cristina.
Na opinião das duas amigas, a limpeza dos lixos maiores melhorou consideravelmente neste ano, mas agora falta uma atenção maior com o microlixo. “Não só da prefeitura, mas das pessoas que não têm consciência para colocar uma tampinha de garrafa na lixeira”, disse Cláudia.
A sugestão para o poder público, segundo elas, é fazer uma intensa campanha nos hotéis, pousadas e restaurantes para atingir os turistas que ainda não têm consciência ambiental.
A empresária Claudia Imaguire conta que uma de suas filhas está morando em Balneário, mas se nega a ir para a praia. “Ela prefere sair daqui e ir para a Praia Brava, em Itajaí, porque não gosta da sujeira que as pessoas fazem na areia”, revela.
As duas, que são de Curitiba, uma das cidades brasileiras referência pela limpeza das ruas e parques, atribuem o sucesso da capital paranaense à cultura que se criou de amor à cidade e cuidado com o meio ambiente. “A gente foi educado para isso e tem orgulho de cuidar do descarte do lixo, por isso às vezes a gente se incomoda ao ver como muitas pessoas ainda precisam se atentar para isso”.

franciele
Formada em Jornalismo pela Univali, com MBA em Gestão Editorial. fran@diarinho.com.br
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