Home Notícias Especial BC 55 anos | Vida de Bairro: As transformações de Balneário na visão dos moradores mais antigos

BC 55 anos | Vida de Bairro: As transformações de Balneário na visão dos moradores mais antigos

Conheça quem mora onde os turistas passam as férias

Até o início dos anos 80, a maioria da população de Balneário Camboriú vivia perto da praia, mas com o crescimento vertiginoso da atividade turística, e graças ao planejamento dos primeiros prefeitos, a cidade se expandiu, possibilitando a habitação onde nos primórdios era zona rural, como o bairro das Nações. E quem morava nas praias mais selvagens sabia que a proximidade da natureza tinha o custo de não ter quase nenhuma infraestrutura.
Foi o caso do jornalista e historiador Nildo Teixeira de Melo, 58 anos, mais conhecido como Bola. Há 30 anos, ele escolheu a praia de Estaleiro para viver, depois que casou na Igrejinha da Barra, sabendo que não tinha água encanada ou rua calçada. Ele havia morado no centro com seu pai quando veio de Blumenau, após a morte da mãe. E mesmo que precisasse passar o dia cobrindo as tretas políticas e policiais para os jornais que trabalhou, ou atuando como assessor de governo, sabia que no retorno para casa só iria encontrar paz e tranquilidade.
Bola conta que apesar de ter se formado em história, trabalhou a vida inteira como jornalista, com exceção de duas biografias que escreveu como ‘ghost writer’, sobre a trajetória do construtor Klaus Fisher e do delegado Edson Forneroli. Sua estreia como repórter foi na sucursal do Jornal de Santa Catarina aos 22 anos, quando retornou de uma viagem a Califórnia e tinha ficado amigo de um veterano da guerra. Sua entrada no mundo das notícias foi com o tema “Não queremos um novo Vietnã”, pois os EUA ameaçavam invadir a Nicarágua.
No “Santa”, ele ficou cinco anos, quando cobriu eventos memoráveis como a criação da praia do Pinho como um paraíso de nudismo. “Foi uma reportagem inventada pela Revista Manchete, que criou toda uma cena com garotas de programa. O povo acabou indo na onda e até a classe política, que se reuniu num evento no Marambaia, em 1986, se disse a favor de tornar o Pinho uma praia oficial de nudismo”, revela.
Mas, quando ainda era polêmico, Bola conta que um delegado gostava de fazer flagrantes na praia e trazer a galera pelada de camburão, inclusive um promotor de justiça. “Ele disse que as mulheres poderiam se vestir, mas os homens iam ficar de toalha pra aprender”, se diverte.
Bola também foi o criador do jornal Página 3 com Marlize Schneider e colunista do DIARINHO por seis anos. Também foi editor da Revista Photos por 15 anos e assessor nas duas vezes que Leonel Pavan foi prefeito. Agora, ele encara o desafio de reconstituir a saga dos empreendedores que transformaram a cidade, desde a abertura do primeiro hotel (Jacó), em 1928, até os anos 2000. E para isso, conta com a ajuda e memória de moradoras dasantigas, como a professora aposentada Marlene Rosa Cardoso de Monte, 82 anos.

Casal testemunhou a abertura das grandes avenidas

Poucas pessoas viveram tão intensamente a transformação da provinciana Balneário Camboriú numa metrópole cheia de arranha-céus como o casal Marlene e Dario Monte, 84. Casados há 62 anos, a trajetória de vida na região começou quando Marlene saiu de Araranguá aos 13 anos, onde já dava aula para uma turma multisseriada, numa época em que só havia o ensino primário. Depois de passar por Sombrio, veio morar em Camboriú em meados dos anos 50, onde trabalhou muitos anos no fórum, antes da emancipação.
Aos 25 anos, em 1972, Marlene foi diretora da Escola Médici, a primeira do bairro das Nações, que homenageava o general que era presidente na época, uma escolha polêmica, já que Higino Pio, o primeiro prefeito da cidade, tinha sido assassinado pelo regime militar três anos antes. “Comecei com quatro salas e foi um trabalho árduo convencer as pessoas que colocavam os filhos na escola dos Pioneiros a estudar perto de casa. No final já tinha 400 alunos”, recorda.
Dona Marlene, que só tinha o curso Normal, conseguiu se formar em Geografia, na primeira turma da Fepevi, atual Univali, quando as aulas eram ministradas na escola estadual Nilton Kucker, no bairro da Vila, em Itajaí. Ela também lecionou no bairro da Barra, em Itapema, em Navegantes e foi secretária da escola estadual João Goulart, batizada com o nome do presidente que tinha casa em Balneário e foi deposto pelo golpe militar.
Já seu Dario não só testemunhou as transformações, como botou a mão na massa, trabalhando como mestre de obras da prefeitura entre os anos de 1973 e 1977, quando foi aberta a Terceira avenida, durante o mandato de Gilberto Américo Meirinho. “Ele era um homem de visão. Muitas das coisas que vemos se tornando realidade agora, como a estrada do Ariribá para a BR-101, já estava nos planos dele, assim como a canalização da água da chuva nos bairros e o alargamento das ruas de seis para oito metros”, contou.
Seu Dario conta que, nos anos 70, a rua, onde hoje passa a Terceira avenida, não tinha um traçado certo, e as casas, muitas vezes, estavam no meio do caminho. “A gente tinha que ir de trator tirar a casa e colocar para o canto. Deu muita briga”, relembra. Quando não trabalhava na prefeitura, Dario era contratado pra comandar obras da construção civil, não só em Balneário, como em Itajaí e Itapema. Outro prefeito com quem Dario trabalhou foi Alberto César Ghislandi, que se destacou pela reforma e abertura de novas escolas nos anos 80.

Bairro da Barra tomou impulso com equipamentos de lazer

Nos anos 90, a comunidade da Barra, marco histórico do município, vivia um impasse. Os moradores só tinham duas opções – a pesca artesanal ou extração de pedra, e ambas as atividades passavam por uma severa crise. A extração de pedra passou a ser proibida por causa da depredação ambiental e a pesca era incipiente para alimentar as famílias e dar perspectiva de futuro às novas gerações. As coisas começaram a mudar com a instalação de equipamentos de lazer na vizinha Barra Sul, como o Parque Unipraias.
“Eu ainda cheguei a trabalhar na pesca de siri com minha mãe, e de camarão com meu pai, mas você sabe como é a pesca artesanal. Tem dia que o mar está bom, tem dia que não, era muito incerto”, relembra Luis Eduardo Santana, 41 anos, que hoje trabalha como marinheiro na Marina Tedesco. Ele conta que quando os moradores foram impedidos de extrair pedra, a prefeitura queria remanejá-los para uma área em Camboriú, mas a distância e a concorrência dificultavam. “Era um local de difícil acesso, lá nos Macacos, ficava inviável”, justifica.
Eduardo começou a trabalhar na Marina há 11 anos, e depois acabou trazendo dois irmãos e dois sobrinhos. Eles precisaram aprender a lidar com as embarcações e tirar carteira na Capitania dos Portos, restabelecendo a autoestima perdida com os anos de incertezas. “Hoje temos um rendimento que me permite, em breve, pagar uma faculdade para a minha filha, coisa que não pude fazer. Dos cinco irmãos, só uma tem ensino superior, e só conseguiu depois de adulta, já eu fiz supletivo”, relata.
O marinheiro descende de uma família tradicional de pescadores. Seu avô, Olegário de Jesus, foi pioneiro na construção de barcos e canoas de um só tronco. O pai, seu Hélio, tem 72 anos e continua firme na pesca. Eduarado, que é diretor da associação comunitário, conta que o centro do bairro ficou mais atrativo com a revitalização da Praça do Pescador, onde ocorre feirinhas de artesanato nos fins de semana, e a Festa do Pescador, que teve sua 32ª edição no último dia 6. É lá no alto que fica a Capela de Santo Amaro, construída na época que o bairro era a sede da freguesia e se chamava Arraial do Bom Sucesso. Nos primórdios, a capela foi chamada de Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso e foi construída pelos escravos com pedra e óleo de baleia.
Outra mudança ocorreu com a construção da passarela que facilitou a vida dos pedestres e ciclistas que trabalham no centro. “Antes havia uma barquinha para a travessia. Para nós era precário, mas os turistas adoravam”, revela. A expectativa dos moradores, agora, é pela abertura do Mercado Público, que deve atrair turistas e gerar empregos. Segundo o prefeito Fabrício Oliveira, o projeto já foi licitado.

Viver na avenida Atlântica é exercício de paciência no verão

Quem também conheceu o bairro das Nações em seus primórdios foi o servidor público Valter Nitz, 55 anos. Ele conta que o pai, Arthur, depois de ter um restaurante e um snooker, entrou para o ramo imobiliário e se tornou corretor de imóveis. Em 1977, cinco anos após trazer a família do Paraná, comprou alguns milhares de metros quadrados nos altos da rua Itália, com a intenção de virar fazendeiro. “Eu era adolescente e nós íamos lá nos fins de semana para ajudar o pai a cuidar de alguns porcos e uma vaquinha, mas não deu muito certo, os animais acabavam morrendo e ele desistiu” relata.
Mesmo com a dificuldade de chegar lá em cima, Arthur fez muitas melhorias e arborizou a propriedade, além de construir duas lagoas. Era tanta terra que desmembrou em 10 lotes e ainda restaram mais de 2 mil m² para transformar a fazenda numa casa de campo que o filho aproveita para fazer churrasco nos fins de semana e chamar os amigos para ouvir rock ‘n roll, trilha sonora dos tempos em que era habitué do Baturité, na Barra Sul. Valter mora na avenida Atlântica e se queixa da dificuldade crescente de se locomover. “Parece que a cidade vai explodir! No verão nem dá pra sair de casa, um dia seremos expulsos de lá”, lastima.

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