Home Notícias Especial BC 55 anos | Século 18: Pesquisador resgata a colonização

BC 55 anos | Século 18: Pesquisador resgata a colonização

Isaque de Borba Corrêa alega que o início do povoado se deu numa sesmaria na Praia Brava e não na Barra

Quando tinha 14 anos, Isaque de Borba Corrêa foi chamado pelo pai Germano para conhecer o conteúdo de um bambu que ele mantinha guardado como um tesouro, e não era pra menos. Dentro havia uma carta de sesmaria, terras distribuídas pelo governo imperial para povoar as terras desertas no século 19, na região entre Itajaí e Camboriú, que na época pertencia a Porto Belo. Pasmo, o rapaz ficou sabendo que descendia de Balthazar Pinto Corrêa, um dos sete pioneiros descrito nos livros da escola. Começou ali sua saga para ir cada vez mais fundo nos primórdios de Balneário através da genealogia da família.
Uma das teorias que contraria a história oficial, descrita em seu livro “Camboriú & Balneário – a história de duas cidades”, é que o berço da civilização na região não teria sido a Barra, e sim a Praia Brava, que ainda não pertencia a Itajaí. Isaque argumenta que na época, a preferência dos colonizadores era por terra fértil, já que a principal atividade econômica era a agricultura.
Ele mostra, através de documentos que encontrou em arquivos públicos, cartórios e bibliotecas de Santa Catarina e até no Rio de Janeiro, que havia mais gente na Brava do que na Barra nos idos de 1833, 16 anos antes da fundação. As terras próximas do mar eram de areia não agricultável e ainda havia o conflito com os nativos, como denunciavam jornais da época.
“Se havia sinais de fumaça próximos à foz do rio Camboriú, denunciando a presença de índios ferozes, desencorajava qualquer um que quisesse morar nas proximidades”, argumenta. Ele diz ainda que o presidente da província, Bernando Dias Costa, em 1846, ofereceu a banda sul do rio para quem quisesse fazer um aldeamento por não ter moradores ali. Acontece que neste ano houve eleições, quando 48 pessoas estavam aptas a votar, portanto, se tratava dos moradores da Brava. Outra prova seria uma carta de Bernardino Antonio da Costa, morador de Tijucas, que queria se instalar na área sul do rio, em 1834, e descreve o local como inabitado.

Balneário Camboriú passou a ter duas datas comemorativas

Isaque relata que o núcleo de colonização foi transferido para a Barra em 1839, mas até 1884, quando Camboriú se emancipou de Itajaí, ainda havia mais gente na Brava, só que o bairro já pertencia a Itajaí desde 1859, quando emancipou-se de Porto Belo. Na ocasião, a divisa estabelecida foi o rio Camboriú, na praia dos Amores. Para o pesquisador, a fronteira deveria ter sido o Morro Cortado. “Não quero mudar a história, só aumentar a abrangência do que era o Distrito de Camboriú antes da formação política e eclesiástica do município”, alega.
Em “Do Arraial do Bonsucesso a Balneário de Camboriú”, Mariana Schlickman conta que a colonização europeia teve início em 1822 com a concessão de sesmarias a sete famílias: José Ignácio Borges, Bernardo Dias da Costa, Manoel Oliveira Gomes, Aurélio Coelho da Rocha, Felix José da Silva, Victorino José Tavares e Balthazar Pinto Corrêa, o antepassado de Isaque.
E que, de acordo com o relatório do presidente da província, em 1855, havia na localidade de “Cambriú” 838 homens, 889 mulheres, 135 escravos e 95 escravas. O arraial teria mudado de nome para Nossa Senhora do Bonsucesso porque a palavra indígena foi considerada pagã quando foi instalada a capela que deu origem oficialmente a freguesia, em 26 de abril de 1849.
A descoberta desta trajetória foi tão relevante, que foi aprovada uma lei em 2019, de autoria do vereador André Meirinho, reconhecendo a data de 1849 como a real fundação de Balneário Camboriú, sendo 20 de julho de 1964 a data da emancipação política. Já a emancipação de Camboriú de Porto Belo ocorreu em 15 de janeiro de 1895.

Bandeirante do mal X bandeirante do bem: a questão indígena

A linhagem “Borba” da genealogia de Isaque vem Silvestre de Borba Coelho, filho de um dos sesmeeiros que ocupou a Brava. Ele nasceu na ilha de São Miguel, de onde veio boa parte dos colonizadores açorianos do litoral catarinense, inclusive para a região de Itapocoroy, marco histórico de Penha. Seu filho, José de Borba Coelho, foi o descendente que mais prosperou. “Ele era muito culto e sua mãe, dona Mariana, poliglota. Ele não só aprendeu os idiomas que a mãe ensinou, como o guarani, daí a se relacionar melhor com os nativos”, conta Isaque.
José ajudou a pacificar as tribos entre Camboriú e Barra Velha em vez de confrontá-las. Ele tinha um engenho de farinha e costumava fornecer gamelas cheias de alimento aos indígenas que vinham a sua casa. Sua bisneta, dona Almira de Borba Corrêa, relatou a Isaque que o bisavô começou a deixar oferendas na beira do caminho para os nativos, como bolos e sacos de milho, batatas e cachos de banana em sinal de paz, o que acabou conquistando a todos, principalmente as crianças. Este respeito e diplomacia com os indígenas ele ensinou aos descendentes, que também aprenderam a língua guarani.
Já do lado paterno, Isaque descreve o trisavô Maurício Pinto Corrêa como um “bandeirante do mal” por causa da truculência com que tratou os nativos. O livro descreve que Maurício desbravou o interior de Camboriú a bala, e numa dessas incursões, foi atingido no joelho por uma flecha envenenada. O ferimento teria causado uma gangrena que quase o matou, numa época em que não havia penicilina. Ele ficou tão mal que chamou o tabelião pra fazer seu testamento, mas sobreviveu e ficou conhecido como “Muriço encarancagado”.
Seu estado debilitado não o impediu de dedicar a vida a se vingar dos “bugres” que o atacaram. Outro bisneto, Teodoro Correa, contou a Isaque que Maurício formou um bando e esperou o mês mais frio do ano, julho, para atacar a tribo, pois no frio os indígenas estariam entocados e seriam mais lentos para reagir. Para chamar a atenção dos nativos, ele teria contratado um tal de Neco Pitiço que subiu numa árvore e imitou o rugido de uma onça. Quando eles saíram, foram mortos a tiros. Já ao cacique, ele dispensou um tratamento especial: o degolou. A cabeça foi colocada dentro de um pote com cachaça e enviada ao governador. A história foi resgatada pela escritora Anna Fuchs.

 

 

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