Home Notícias Especial BC 55 anos | Barra Sul: Tedesco redesenhou a paisagem apostando no lazer e inovação

BC 55 anos | Barra Sul: Tedesco redesenhou a paisagem apostando no lazer e inovação

A área mais valorizada da cidade começou com um loteamento, se tornou point da vida noturna e hoje abriga os maiores prédios do Brasil

De todos os lugares que sofreram grandes transformações ao longo das décadas em Balneário, nenhum foi tão drástico quanto a Barra Sul. Até os anos 40, nem estrada havia para chegar na praia vizinha da Barra, o marco histórico da cidade. Setenta anos depois, o local tem o metro quadrado mais caro da city e abriga prédios que desafiam a lei da gravidade. Algo inconcebível até para Normando Tedesco, que em 1948 pousou de monomotor naquela praia agreste por causa de uma pane no motor, e viu ali uma tela em branco para mudar radicalmente o destino da praia de Camboriú, bem antes de se tornar município.
Quem conta a história é o filho Júlio, 71 anos, que vive entre Porto Alegre e Balneário, onde reside a família. Ele conta que o avô Primo Tedesco abriu um negócio em Caçador, em 1935, de beneficiamento de pasta de madeira para a fabricação de papel, que era exportado para os EUA e Europa através do porto de Itajaí. Santa Catarina vivia o ciclo econômico da madeira e o oeste era abundante em araucária. “A distância de Caçador até o litoral é de 360 km, mas como não havia rodovia na época, o transporte podia levar até um dia e meio”, relata.
Normando foi obrigado a fazer um pouso forçado. Impressionado pela beleza do lugar e cansado das constantes viagens, foi investigar de quem eram aquelas terras. Descobriu que pertencia a família Konder Reis, dona da usina de açúcar Adelaide, e de boa parte de Tijucas e Itajaí.
Ele comprou 500 mil m² da terra que ia do Morro da Aguada (onde hoje está o teleférico) até as proximidades da rua 4000, na avenida Atlântica. Com mais dois sócios, aterrou a área alagadiça com areia do fundo do rio e abriu um loteamento para vender aos turistas de ascendência alemã, os primeiros a valorizarem a praia. Um dos compradores mais ilustres foi o ex-presidente da República, João Goulart, que viria a ser derrubado pelo golpe militar de 1964.
“Meu pai conheceu o Jango quando trabalhou para um escritório de advocacia no Rio de Janeiro, do Viriato Vargas, irmão de Getúlio Vargas. E Jango era do mesmo partido, além de ambos serem gaúchos. Quando ele conheceu a praia de Camboriú, se encantou e comprou dois lotes, onde fica hoje o restaurante Lago da Sereia”, revela.

Investimento em lazer multiplicou nos anos 70

Mas o loteamento era apenas o começo de uma longa lista de empreendimentos. Para atender os visitantes num local tão longe do centro, Normando abriu o restaurante Megulas e em 1960, o primeiro investimento de lazer: um mini-golfe. Em 1970, abriu um camping, seguindo uma forte tendência na época de viajar de trailer. “Era quase uma cidade. Tinha supermercado, central elétrica, banheiros, sala de jogos, sinuca, a gente atendia quase três mil pessoas por temporada”, recorda Julio. O camping funcionou até 2005.
Mas, antes disso, a Barra Sul se tornou nacionalmente conhecida pela vida noturna entre meados dos anos 1970 e 1990. No ano em que Normando faleceu, em 1978, eles abriram a primeira boate da área, a Gledson, no auge da disco music, perto do Rancho Baturité, que pertencia a uma família de pescadores. “Aliás, o lote ao lado do rancho, onde foi aberta a boate Baturité, vendemos ao Dimas Campos”, revela.
No final dos anos 70, também era moda andar de patins e a Barra Sul não podia ficar de fora, tanto que Julio abriu um Roller ao lado do Shopping de Verão, que era um grande galpão que comercializava desde roupas, artigos de praia e discos de vinil, até abrigar feiras, congressos e afins. “Também abrimos uma piscina com tobogã, a churrascaria do Zequinha e patrocinávamos competições de motocross. No verão, depois das 21h, nem dava pra chegar aqui tamanho movimento”, recorda.

Município ganhou rodovia e recuperação da Mata Atlântica

Para sanar o problema dos congestionamentos no verão, em 1989, Julio doou para o munício a área onde hoje está a avenida Normando Tedesco, devidamente calçada e urbanizada. E para homenagear o pai, que faleceu aos 69 anos, tratou de realizar um sonho antigo do patriarca: a implantação de um teleférico até a praia de Laranjeiras. E assim nasceu o Parque Unipraias. “A inspiração veio das estações de esqui da Suíça e Alemanha, mas a pesquisa fiz no Japão, onde a tecnologia era mais avançada. O equipamento, porém, veio da Itália”, detalha.
Em sociedade com um empresário de Joinville, o Parque Unipraias foi inaugurado em 1999 e conta, além do teleférico, com trenó de montanha, tirolesa e o parque Floresta Encantada, onde são ministradas palestras de educação ambiental a estudantes de escolas públicas. Estima-se que cerca de 650 mil pessoas já tenham passado pelo parque, que proporcionou também uma mudança de paradigma da cultura extrativista para serviços turísticos.
“Das quase mil vagas, entre empregos diretos e indiretos oferecidos pelo parque e marina, 90% são ocupadas por moradores dos bairros da Barra, Vila Real e Nova Esperança. Muitos eram filhos de pescadores que viviam da extração de pedra, que passou a ser proibida”, relata. Aliás, Júlio afirma que outra preocupação foi recuperar a Mata Atlântica do morro, que tinha sido devastada não só pela retirada de granito, mas também do palmito. A recuperação da escola básica Dona Lili e do Centro Comunitário, ambos no bairro da Barra, foram realizadas pela Marina Tedesco como contrapartida do impacto ambiental.

30 navios transatlânticos esperados para 2020

Já a ideia de construir uma marina veio das viagens que Julio fazia regularmente ao Canadá, onde as filhas estudavam. “Todo dia eu ia passear na marina de Vancouver, que ficava em frente ao prédio onde elas moravam. Fiquei tão encantado que pedi a elas que, depois da formatura, fossem para os EUA pesquisar preços de equipamentos para montarmos uma marina em Balneário Camboriú”, relembra.
Nesta época, no início dos anos 2000, a vida noturna tinha esfriado na Barra Sul e se transferido para a praia Brava, no auge da música eletrônica. Era a hora de se desfazer de mais alguns milhares de metros quadrados para construir a marina. Dos 32 mil m² restantes, Julio vendeu 7 mil m² para a construção civil, onde estão sendo erguidos os arranha-céus. “A marina acabou também por valorizar a área, cujo metro quadrado custava cerca de mil reais e hoje beira os R$ 34 mil”, afirma.
A Marina Tedesco abrigava, inicialmente, 500 barcos, mas, assim como os navios, eles foram ficando cada vez maiores e hoje abriga 460 barcos e iates, de 29 a 40 pés. A última empreitada do empresário foi a construção do atracadouro, inaugurado em 2017, para que Balneário Camboriú entrasse na rota dos transatlânticos. No primeiro verão, a cidade recebeu 18 escalas e para a próxima temporada, estão confirmadas 30 escalas.
É toque de Midas que chama?

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