Home Notícias Especial BC 55 anos | 80 anos de praia: Álvaro Silva acompanhou a evolução

BC 55 anos | 80 anos de praia: Álvaro Silva acompanhou a evolução

O vereador, que virou prefeito após a morte de Higino Pio, viveu intensamente a transição da província em meca do turismo

Poucos conhecem melhor a história de Balneário Camboriú do que Álvaro Silva, hoje com 80 anos, que chegou por essas bandas com apenas seis meses. Ele foi comerciante, hoteleiro, fez parte da primeira vereança da cidade após a emancipação, em 1964, e chegou a ser prefeito por cinco meses, após a traumática morte de Higino Pio, nos porões da ditadura militar. “Eu sou o único vivo daquela turma que inaugurou a câmara de vereadores. Eu tinha 24 anos e lutei pela emancipação para que a cidade pudesse se desenvolver, já que a sede em Camboriú não se preocupava com a praia”, justifica.
E como a cidade se desenvolveu! Álvaro conta que durante o mandato de Higino Pio (1964-1969), o governo do Estado estava desenvolvendo um plano diretor para regulamentar a ocupação dos municípios. Em 1967, o governador Ivo Silveira, que tinha casa de praia em Balneário, contratou a empresa francesa Ceretti pra fazer o levantamento topográfico com fotos aéreas e definir onde seriam abertas as avenidas e que bairros seriam residenciais ou comerciais. Na época, nem avenida Atlântica havia. “Foi o Higino que construiu um muro de arrimo para separar a praia e fazer a estrada de chão batido”, revela.
A família de Álvaro chegou a Balneário por influência do tio de sua mãe, empresário da família Malburg, que morava em Itajaí e trabalhava com importação e exportação, no prédio histórico onde hoje fica a Receita Federal, próximo ao ferry boat. “Quando ele soube que tinha gente querendo se desfazer de uma área próxima à praia avisou meus pais para apostarem em Balneário porque aqui tinha muito futuro”, revela.
Nos anos 40, a família de Álvaro vivia da agricultura em Gaspar e não tinha planos de vir para o litoral, mas a dica do tio se mostrou mais do que certeira. A propriedade foi vendida para um irmão e o casal recém-casado veio com o primogênito se instalar entre as avenidas Brasil e Central, onde começaram a vida com um Secos & Molhados, um armazém que vendia de tudo, antes dos grandes mercados.

Hotel Topázio

Com a chegada de mais e mais veranistas alemães, os negócios prosperaram e o empreendimento virou um centro comercial com 12 lojas entre moda feminina (magazine), material de construção e gêneros alimentícios. Na parte de cima, abriram quartos para visitantes. Era o embrião do hotel Topázio, que passou por sucessivas reformas no calçadão da Central, até ser vendido recentemente para uma incorporadora, que promete fazer uma área de lazer nos moldes do Paseo de San Miguel, nos altos da Brasil.
Infelizmente, o pai de Álvaro, Bruno, faleceu repentinamente aos 40 anos, quando ele tinha apenas 12 anos, mas sua mãe Rosinha não esmoreceu e tocou o negócio com a ajuda de dois irmãos que vieram de Gaspar. O hotel Topázio, que a princípio tinha 16 quartos, chegou a ter 53. “No começo dos anos 80, quando os argentinos descobriram a praia, eles faziam reserva com seis meses de antecedência, foi a época em que mais expandimos o negócio”, contou. A família também abriu o primeiro supermercado da cidade, em 1965.
A vontade de entrar para a política surgiu quando Álvaro havia terminado a faculdade de Ciências Econômicas em Curitiba e as discussões sobre a necessidade de desenvolver Balneário se tornaram urgentes. Ele foi eleito vereador aos 24 anos e ficou apenas um mandato. O suficiente para testemunhar grandes transformações na cidade. “A luz elétrica só tinha chegado a cidade em 1951, e a avenida Brasil permaneceu muito tempo apenas como linha de transmissão telegráfica, onde foram instalados os primeiros postes”, revela.

Luta por eleições diretas

Em 1970, o governo militar queria abolir as eleições em Balneário, considerada uma estância, da mesma forma que fez com todas as capitais dos estados e cidades que faziam fronteira com outros países, como Dionísio Cerqueira, na divisa com o Paraguai e a Argentina, tendo como justificativa a segurança nacional. Ivo Silveira, que tinha casa em Balneário, foi o último governador eleito (1966-1971), depois vieram os governadores ‘biônicos’ Colombo Salles, Antônio Carlos Konder Reis e Jorge Bornhausen, todos da ARENA, partido criado após o fim da UDN.
“Eles extinguiram os partidos como o PTB e o PSD, que eu era filiado, e criaram a ARENA, que era dos militares e o MDB para a oposição. E mesmo numa época complicada, conseguimos reverter o decreto, assim como Guarapari, no Espírito Santo”, relembra Álvaro. Bola Teixeira disse que o vereador Nilton Kucker, de Itajaí, foi fundamental nas negociações para que eleições democráticas fossem retomadas. A primeira eleição foi vencida por Armando Ghislandi (ARENA), responsável por calçar a avenida Atlântica.
Álvaro também conta que a avenida do Estado, que depois foi rebatizada com o nome do fundador do DIARINHO, advogado Dalmo Vieira, se chamava assim porque era do governo do Estado. E a avenida Central ligava a rodovia à praia. “Todo veículo que ia para Itajaí ou Florianópolis passava por aqui, a BR-101 só foi inaugurada em 1969”, pontua.

Higino foi morto no último ano de seu mandato

A chegada de Álvaro ao posto de prefeito foi num momento bem turbulento, pois Higino Pio era uma pessoa muito querida pela população, que ficou em choque com sua prisão e morte. Foi ele quem deu início à infraestrutura da cidade, que nem água potável tinha. “A água era privatizada e tínhamos muito problema de abastecimento, a maioria bebia água de ponteira. Em 90 dias de governo, ele implantou o sistema e expandiu a rede”, conta. Higino também regulamentou os loteamentos abertos nos bairros. “Eram grandes glebas de terra sem rua, nem luz ou água. A avenida do Estado também foi pavimentada em seu mandato”, enumera.
O jornalista e historiador Bola Teixeira, que está em fase de pesquisa para um livro sobre Balneário Camboriú, disse que Higino foi pego de surpresa quando chegaram os oficiais para levá-lo por causa de uma denúncia. “Eles nem deixaram ele trocar de roupa. Levaram para a capital e não voltou”, revela. A denúncia tinha partido de um desafeto político da UDN, cuja denúncia a câmara de vereadores já tinha investigado e considerado improcedente.
Após os cinco meses em que Álvaro atuou como prefeito, pois era presidente da câmara, chegou a Balneário Camboriú um interventor nomeado pelos militares, o engenheiro Egon Stein. Era agosto de 1969 e precisavam colocar em prática o plano diretor iniciado por Higino. Egon era presidente da associação de empresários em Blumenau, entidade ligada ao regime militar, e como a maioria dos veranistas tinha origem alemã, sua inserção na sociedade foi pacífica e a atuação bastante elogiada.

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com