Home Notícias Especial A difícil contabilidade dos resultados

A difícil contabilidade dos resultados

Itajaí e mais duas paradas da Volvo são as queridinhas dos velejadores e profissionais da regata pelo envolvimento da cidade

Na primeira reportagem desta série, se disse que estar entre os únicos 12 portos do mundo inteiro em que uma das mais importantes e desafiadoras regatas faz escala, era um privilégio. Durante a semana, em Auckland, ao conversar com membros de várias das equipes, esse privilégio ficou ainda mais exclusivo: há unanimidade em classificar, como as paradas com maior e melhor participação popular, apenas três.
Os três portos que enchem os participantes de emoção, gravando nas memórias dos que já passaram por ali a vontade de voltar e criando nos novatos o desejo de ver como é são, apenas, Alicante, na Espanha, Auckland, na Nova Zelândia e… Itajaí, Santa Catarina, Brasil.
Os caras (e as gurias) dão a volta ao mundo, param em 12 stopovers especialmente preparados, são muito bem recebidos em todas mas, ao comentar, nunca esquecem de citar Itajaí (nome pronunciado das mais diversas formas, conforme a língua nativa do tripulante). Isso, sem dúvida, tem que ser contabilizado como um bom resultado. Afinal, durante muitos anos o Brasil era conhecido apenas pelo Rio de Janeiro, Salvador e, até certo ponto, Amazonas. Agora, no mundo da vela, que é um universo que movimenta muito dinheiro e tem milhões de aficcionados em todos os países, Itajaí é mencionada com naturalidade.
Com os barcos no mar, a comitiva de bagrões da cidade, que foi a Auckland, também está a caminho de Itajaí (via área, claro). O grande problema dessas visitas a algum lugar legal, que faz brotar tantas ideias e mostra tanta coisa sendo bem feita e dando certo, é ter, ao voltar, um choque de realidade.
O prefeito Volnei Morastoni está certo ao relacionar a Volvo Ocean Race (VOR) com, por exemplo, a preocupação com a limpeza das águas. Com os barcos atracados na Vila da Regata, uma das primeiras coisas que a gente olha é pra água em que eles flutuam. Se ali tiver uma pequena garrafinha plástica boiando, isso salta aos olhos com maior intensidade do que os próprios barcões com seus 22 metros de comprimentos, mastro de 30 metros e 12 toneladas de peso total. Quando a gente vê um mergulhador mexendo em alguma coisa num dos estabilizadores, abaixo da linha dágua, antes até de pensar “o que será que ele está fazendo?”, pensa: será que essa água não tá poluída?
O pequeno índice de coleta e tratamento de esgoto, na maioria das cidades litorâneas, é um gigantesco obstáculo para que se concretize o tal “potencial náutico” que cidades como Itajaí possuem. Problemão que não se resolve em pouco tempo. Nem tendo muito dinheiro. O que não é o caso: não sobra nem tempo, nem dinheiro.
Soma-se a isso o elenco de problemas que os críticos da VOR em Santa Catarina sempre levantam. Parte desses problema são apenas “problemas” criados por críticos de facebook. Mas parte é real, concreta, que os administradores sabem que existem e sabem que, mais dia, menos dia, terão que encarar.

Retorno positivo
O retorno do dinheiro público investido na VOR em Itajaí, segundo os levantamentos oficiais, foi positivo. Portanto, aquela preocupação de que o dinheiro “fará falta na Saúde” parece parcialmente resolvida: o tesouro recuperou o investimento, até com alguma folga. Se não investiu na Saúde, ou na Educação, é outra questão. E, para a iniciativa privada (não só para os organizadores, mas para uma extensa rede de comércio e serviços na região), até agora os indicadores e pesquisas mostram que o agito movimenta, de fato, as caixas registradoras (ou as maquininhas de cartão).
O que normalmente acontece é que o dia-a-dia acaba sufocando, com suas preocupações imediatas, os planos, ideias e enorme vontade de fazer coisas legais que pululavam nas cabeças dos bagrões quando eles olhavam, embevecidos, para as marinas de Auckland, lotadas de barcos de todos os tamanhos, para as ruas limpas de Auckland e suas estradas bem pavimentadas, para o museu marítimo de Auckland, com seus barcos históricos preservados, para o transporte público sobre rodas, trilhos e águas de Auckland, eficiente e pontual, para as estruturas de eventos, capazes de abrigar, sem muito custo adicional, regatonas e regatinhas…
A crítica mais fácil de rebater é aquela que tenta reduzir a regatona a “apenas sete barcos de um empreendimento privado”. Quem fala isso nunca prestou atenção, de fato, nas Olimpíadas e nos esportes de alto rendimento. Não conhece a história do esporte e o que representa em progresso humano, até para a medicina, ter uns malucos que resolvem testar os limites da resistência do corpo e da mente. E certamente ignora a tecnologia náutica que esses barcos testam e desenvolvem ao enfrentar tantas condições diferentes de vento e mar em poucos dias.
Se, ao olhar para aqueles barcos atracados em Itajaí só virmos alguns barcos a vela, sem nada de especial, então, de fato, qualquer investimento feito para que eles dessem uma paradinha aqui, deve parecer exagerado. E se acharmos que a influência da passagem desses navegadores destemidos e suas máquinas voadoras termina assim que eles partem para outro porto, é claro que a atenção que recebem pode soar exagerada. Mas, assim que se examina, sob qualquer aspecto, os barcos e os feitos das suas tripulações, percebe-se que são, de fato, extraordinários.
E, se algumas das várias ideias sugeridas por essa passagem forem levada à prática e se esse envolvimento com a VOR tiver servido para plantar, na consciência dos administradores municipais e dos envolvidos com a coisa pública a preocupação de que é preciso começar da base, transformando as cidades em locais saudáveis de convivência, com águas limpas, transporte público eficiente e educação de qualidade, tal e qual no país que eles acabaram de visitar, a contabilidade dos retornos do investimento de dinheiro e esforço na parada da regatona estará mais completa.

Auckland vista da marina onde estava instalada a vila da Regata

franciele
Formada em Jornalismo pela Univali, com MBA em Gestão Editorial. fran@diarinho.com.br
Compartilhe:

Deixe uma resposta

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com