Home Notícias Especial Coleção rara conta a história através de moedas, selos e postais

Coleção rara conta a história através de moedas, selos e postais

Carlos Alberto Costa Guêrios viaja o país dando palestras e mostrando as peças que adquiriu em leilões mundo afora

Em plena era digital, em que o papel perde espaço a cada dia para cartões magnéticos e o meio virtual, resiste em Itajaí um tesouro histórico digno dos filmes de Indiana Jones. Na ficção, o personagem de Harrison Ford se aventura pelos cantos mais remotos do mundo atrás de raridades de povos antigos, como o cálice sagrado. Por aqui, o caçador de raridades é o bancário aposentado Carlos Alberto Costa Guêrios, 71 anos.
Descendente de libaneses, Carlos se orgulha de uma coleção multifacetada, que toma conta de seu escritório lotado de estantes com cerca de 3500 livros, e pastas exclusivas para mais de duas mil moedas, 700 cheques e cédulas de vários países, centenas de cartões postais ingleses e selos, documentos raros sobre a história do Brasil e dicionários do século 19. Além de pesquisa sobre famílias descendentes de sírio-libaneses.
A coleção mais valiosa é a de moedas. Dentre as mais representativas estão duas: uma moeda feita de liga de ouro e prata do ano 600 aC, encontrada na cidade de Lydia, atual Turquia, considerada a mais antiga já encontrada. “Ela foi adquirida há uns 20 anos num leilão em Nova Iorque, graças a um amigo que estava lá e sabia do meu interesse”, relata. E uma moeda de prata, de cerca de dois mil anos, que circulava em Jerusalém na época de Jesus.
Batizada de “moeda da traição de Cristo”, ela é do mesmo modelo que o apóstolo Judas Iscariotes recebeu para dedurar o filho de Deus para os oficiais romanos. Ela foi comprada em 1999.

Coleção começou 
aos 15 anos
Essas e outras raridades vão estar expostas num shopping de Minas Gerais na semana que vem. Por causa do alto valor das peças, Carlos conta que é preciso fazer um seguro, razão pela qual é difícil fazer exposições com uma frequência maior. Além das exposições e palestras que dá pelo país, ele frequenta encontros estaduais que acontecem anualmente em Timbó e Florianópolis, e em São Paulo, onde chega a reunir 10 mil pessoas. “É lá que os colecionadores se encontram, vendem e trocam objetos, documentos, os eventos chegam a durar uma semana e vem gente do Brasil todo”, complementa.
A vontade de colecionar raridades surgiu ainda na adolescência, quando Carlos estudava no ginásio São José, em Porto União, e ouvia interessado palestras sobre numismática e filatelia. Ele foi inspirado também pelo avô libanês, que havia lhe deixado algum material da viagem que fez a bordo de um navio inglês no fim do século 19, fugindo de guerras, em direção ao Brasil. A partir daí, Carlos decidiu fazer do hobby quase uma missão para resguardar a memória de um passado que, se não for valorizado, corre o risco de ser esquecido.

50 famílias sírio-libanesas fizeram a vida em Itajaí

Carlos Alberto também fez o resgate histórico de outras famílias que vieram para Itajaí, depois de sofrer as consequências da decadência do Império Otomano, atual Turquia, pré-Primeira Guerra. Os conflitos destruíram casas, monumentos, igrejas, mas não a determinação de um povo disposto a cruzar o oceano para encontrar um oásis do outro lado do mundo.
“A maioria dos imigrantes libaneses trabalhava no comércio. Meu avô era mascate, ou seja, viajava no lombo do cavalo vendendo tecidos e utensílios. Aqui, casou com uma moça do Maranhão e deu início a nossa família”, conta. Carlos veio para Itajaí em 1985 por transferência do banco em que atuou por 22 anos, o BESC.
Para descobrir outras famílias libanesas, Carlos buscou informações em revistas, jornais, arquivo público e foi em casas particulares buscar fotografias e boas histórias. Um dos imigrantes mais conhecidos se tornou nome de uma avenida famosa na cidade: Abrahão João Francisco (Contorno Sul). Ele foi advogado e vereador.
Outro libanês que fez história em Itajaí foi Camilo Nicolau Mussi, proprietário da Casa Esmeralda, que vendia chapéus, perfumes, tecidos e toda sorte de botões, fitas e canutilhos para famílias ávidas por vestir as mocinhas dos anos 40 e 50 com encanto e glamour. A loja ficava na rua Hercílio Luz e atraía gente de toda a região pela qualidade dos produtos, principalmente tecidos usados para fazer elegantes vestidos de noiva e debutantes.
Além de famílias peixeiras, Carlos também pesquisou sobre os imigrantes sírio-libaneses espalhados pelo Brasil. Ele revela que a maior colônia fica em Bauru, seguida de São Paulo, onde construíram um dos melhores hospitais do Brasil, em 1965. Em Santa Catarina, a maior parte dos imigrantes está em Florianópolis. Um dos representantes mais conhecidos é o ex-governador e atual deputado federal Esperidião Amin Helou Filho.

Banco Inco chegou a ter 105 agências no Brasil
Trabalhar no sistema bancário por 22 anos deu a Carlos a oportunidade de conhecer muitas pessoas influentes de Itajaí. Um dos setores que mais lhe chamou a atenção foi o de serrarias. A cidade portuária era um entreposto da madeira que descia o rio, pelo Vale do Itajaí, e era vendida para todo o mundo, além de abastecer mais de 100 serrarias e madeireiras que abundavam por aqui. “O auge foi entre as décadas de 40 e 70. Mas como na época não faziam reflorestamento, o setor acabou minguando”, relata.
Carlos também se empenhou em resgatar a história do Banco Inco, cuja matriz ficava entre as ruas Hercílio Luz e Felipe Schmidt, no centro, atual Bradesco. O banco atuou de 1940 a 1966 e chegou a ter 105 agências, sendo a primeira filial em Brusque, onde a família Renaux vivia. “O primeiro endereço, porém, foi na rua Pedro Ferreira. Genésio Miranda Lins, o diretor (que dá nome à praça da Beira-Rio), morava em cima e o banco funcionava embaixo”, revela. Carlos vendeu o material de pesquisa à prefeitura de Itajaí, na época do Arnaldo Schimitt.
Como o bancário trabalhou nos anos 80, fim do período militar e início da redemocratização, testemunhou a inflação corroer a economia e as notas perderem zeros e se multiplicarem. Na terra de cruzeiros, cruzados e cruzados novos, Carlos guardava um exemplar de cada, e ia atrás de cédulas e cheques de outros países. Sua coleção chega a 700 exemplares de bancos dos EUA, Inglaterra e suas colônias. A Rainha Elizabeth, que bateu o recorde de permanência no trono da Rainha Vitória, figura, nas várias fases de sua longa existência, em notas das Ilhas Maurício, Gibraltar, Santa Helena, Trinidad e Tobago e Belize.
Entre os cheques, os mais curiosos são os que revelam que alguns dos presidentes mais icônicos dos EUA também foram banqueiros, como George Washington (hoje na nota de um dólar) e Abraham Lincoln, a cara da nota de cinco dólares. Carlos também tem um cheque do Brazil Bank, que não é o Banco do Brasil, mas um banco aberto nos o século 19.

Cartões postais centenários revelam mudança tecnológica
Outra coleção que é um dos orgulhos de Carlos Alberto é o de cartões postais do Reino Unido. São mais de quatro mil exemplares, divididos em 14 álbuns. Nos postais é possível acompanhar a evolução tecnológica, principalmente dos meios de locomoção, já que o casario histórico foi preservado. Em fins do século 19, haviam carroças e charretes. No início do século 20 aparecem os primeiros veículos com motor e bondes elétricos, além de protótipos dos tradicionais ônibus vermelhos de dois andares da terra da Rainha Elizabeth.
O bancário aposentado também é fascinado pelo Império Romano e a Grécia Antiga. Ele arquivou reportagens, trechos de livros e imagens dos vários imperadores e raridades como o token, moeda com o brasão de família, sinal máximo do poder e riqueza. Um dos token é da Escócia, de 1602. Carlos também tem uma medalha de chumbo de 1805 por ocasião da Batalha de Trafalgar, que dá nome a praça mais conhecida de Londres. Carlos também adquiriu uma moeda de Cleópatra VII, Rainha do Egito, do ano 30 aC. “Sempre quis ter uma moeda de cada país e sempre a mais antiga”, esclareceu e disse que algumas são réplicas.
Outro orgulho é um fóssil de mais de 500 milhões de anos descoberto na Argentina e dicionários de Portugal e China do século 19, além de documentos que contam a história do Brasil, como a circular de 1868, assinada pelo Barão de Mauá. Toda esta coleção deslumbrou o cônsul britânico Michael Delaney, que mora em Floripa, e visitou o acervo no ano passado. “Ele disse desconhecer tanto material sobre o Reino Unido fora dos museus”, garantiu.

franciele
Formada em Jornalismo pela Univali, com MBA em Gestão Editorial. fran@diarinho.com.br
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