Home Notícias Especial 40 ANOS | Falar a linguagem do povão conquistou Moacir

40 ANOS | Falar a linguagem do povão conquistou Moacir

Moacir e Valéria foram o rei a rainha da última festa de N.S. do Rosário

No horário do almoço, depois de uma manhã extenuante carregando caixas de cerveja nas costas, Moacir, hoje com 45 anos, encontrava na leitura uma forma de amenizar a vida dura e alimentar a mente, ávida por um futuro mais promissor. Entre revistas e livros, ele também lia o DIARINHO, cuja linguagem o conquistou. “O jornal fala a língua do povo, com gírias e expressões locais, ao mesmo tempo que dá a notícia. A gente se reconhece ali, sabe o que tava acontendo e se diverte ao mesmo tempo”, relembra.

Moacir é professor de História em duas escolas do bairro Cordeiros e se tornou uma referência do Movimento Negro, em Itajaí. Ele participou da criação do Conselho da Comunidade Negra e da Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial, além dos festejos de N.S. do Rosário, na Paróquia do São João. Ele também foi destaque no DIARINHO em 2014, no Entrevistão, por causa de episódios de racismo no futebol. Mas nada foi conquistado sem muito sacrifício.

Durante 12 anos, o rapaz negro, criado na comunidade do Matadouro, trabalhou em todo tipo de serviço pesado pra ajudar a família de sete irmãos e sonhar com a faculdade. Só que, nos anos 90, ainda não havia uma política de inserção dos mais pobres ao ensino superior e ele também não tinha o perfil pra conseguir financiamento estudantil. “Era preciso ter casa própria e 10 salários mínimos, mas quem tem isso nem precisa de ajuda”.

Enquanto isso, ele trabalhava com descarga de peixe, como entregador de jornal e até limpando esgoto. Finalmente, aos 23 anos, depois de fazer o supletivo de ensino médio no EJA, passou no vestibular da Univali e descobriu a sua verdadeira vocação.

Ensinar a pensar

Durante a faculdade, Moacir mal tinha tempo pra comer. Acordava às 4h30 e só parava às 19h, tomava banho e ia pra Univali. As mensalidades eram pagas sempre com atraso. Dois anos depois, passou no concurso e foi trabalhar no Museu Histórico. Lá conheceu José Bento da Rosa, que se tornou seu mentor. Em 2010, escreveram juntos o livro “Negros em Itajahy”. Nesta época, Moacir já tinha começado a trabalhar como professor.

“Eu sempre digo que foi a História que me escolheu. Era uma disciplina que eu gostava, mas não sabia do sistema de exploração dos trabalhadores e a sucessão de períodos até chegar aqui”, relata. E é por causa do desconhecimento da História que Moacir se preocupa com a onda revisionista que viralizou na internet, onde questionam até se a Terra é redonda.

“Quando um aluno de 10 anos chega com ideias pré-concebidas de um tema que só será abordado no ensino médio, e de uma forma distorcida, agressiva, desrespeitosa, se percebe como é importante disciplinas que ensinem a pensar. Não a pensar como eu, mas refletir sempre baseado em fatos, não em fantasias”, acredita.

Moacir é casado há 29 anos com a artesã Valéria Mendonça, 50, que é cadeirante. Ela teve paralisia infantil aos nove meses. Doenças graves como a de Valéria, que tem tratamento, voltaram a ser uma ameaça justamente por causa das notícias falsas que rolam no whatsapp e demonizam as vacinas. Ou seja, checar de onde veio a informação e se é verdadeira nos sites de busca é prioridade em qualquer ramo do conhecimento.

Para o casal, que sempre militou por justiça social, o jornalismo se tornou ainda mais relevante. “Uma das coisas mais importantes que o DIARINHO faz é dar visibilidade a grupos que não tem vez nem voz. As minorias sempre tiveram no jornal um aliado”, conclui.

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