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Nutricionista Thalita Cáceres

A nutricionista Thalita Cáceres dá cursos de culinária. Em especial, para pacientes com câncer. Ensina como se virar na cozinha com os chamados alimentos protetores e como lidar com aqueles que podem causar a doença. E ninguém melhor do que ela para lidar com esse assunto. Não apenas por trabalhar numa clínica de mastologia, mas por fazer parte das estatísticas de milhões de mulheres brasileiras que enfrentaram a doença. Nesse Entrevistão feito pelo jornalista Sandro Silva, Thalita indica os melhores alimentos, dá dicas práticas para quem busca uma boa alimentação e faz um apelo: “As pessoas precisam voltar a ter o hábito de cozinhar”. Os cliques são de Franciele Marcon.

Nome completo: Thalita Cáceres
Idade: 37 anos
Local de Nascimento: Campo Grande (MS)
Estado Civil: Casada.
Filhos: Não.
Formação acadêmica: Nutrição (Univali) com pós-graduação em gastronomia funcional (Famesp).
Experiências profissionais: Ministra cursos de culinária saudável, já deu aulas no Senai e trabalhou com controle de qualidade em hotelaria no Brasil e no exterior. Atualmente realiza atendimento nutricional em uma clínica de mastologia (Núcleo da Mama em Salvador/BA) e trabalha em uma clínica de controle da obesidade (Clínica da Obesidade em Camaçari/BA).

“Um dos principais focos das pesquisas em relação à alimentação que favorece o desenvolvimento de câncer está relacionado ao açúcar, ao excesso de açúcar”

“A genética contribui só com 5% desses fatores de risco. A alimentação, hoje, representa 35% de risco. O cigarro vem em segundo lugar”

“As pessoas precisam voltar a ter o hábito de cozinhar e sentir prazer em fazer isso”

DIARINHO – Muito se fala da relação entre alimentação e câncer. Essa relação existe porque há grupos de alimentos que previnem a doença ou a ocorrência de câncer pode estar ligada diretamente a ingestão de alguns alimentos?
Thalita Cáceres – São as duas coisas. Existem grupos de alimentos que previnem o câncer e, por outro lado, há alguns alimentos que realmente têm comprovação científica que ajudam a desenvolver o câncer. Uma coisa deveria estar intrínseca à outra. Quando a gente consome alimentos que eventualmente tem como fugir mas que causam o câncer, a gente tá ao mesmo tempo consumindo alimentos que protegem o nosso organismo contra os possíveis efeitos nocivos de alguns alimentos.

DIARINHO – Quais alimentos que são perigosos e devem ser evitados? Os embutidos, por exemplo, provocam câncer? Há pesquisas que comprovam que determinados alimentos são realmente cancerígenos?
Thalita – Sim. Existem diversas pesquisas. Não só na questão dos embutidos. Mas hoje um dos principais focos das pesquisas em relação à alimentação que favorece o desenvolvimento de câncer está relacionado ao açúcar, ao excesso de açúcar. E além dos embutidos e do açúcar, a gente tem a questão dos agrotóxicos. E existem vários outros alimentos. Toda vez que os alimentos são muito processados também. A gente tem alguns estudos que comprovam esse efeito de que podem levar ao câncer. Isso tudo é comprovado. A gente vê que a estatística do INCA [Instituto Nacional do Câncer], que surgiu no ano passado, falando dos fatores do risco para o câncer e eles relacionam que a genética contribui só com 5% desses fatores de risco. A alimentação, hoje, ela representa 35% de risco. O cigarro vem em segundo lugar. Então a alimentação é realmente um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento do câncer.

DIARINHO – A ingestão desses alimentos considerados arriscados provoca um tipo de câncer específico ou aumenta a predisposição para qualquer tipo da doença?
Thalita – Alguns alimentos têm relação específica com cânceres específicos. A gente tem alguns alimentos, por exemplo, que têm associação direta com câncer de mama, câncer de esôfago, câncer de colo que a gente fala, que é o câncer no intestino. Então tem alguns que estão relacionados diretamente. Mas de uma forma geral, quando a gente fala de alimentos que deve evitar para prevenir o câncer, a gente fala mesmo de uma forma geral. Porque existem alguns alimentos, como o açúcar, por exemplo, que favorece o aparecimento de diversos tipos de câncer, independentemente do tipo.

DIAZINHO – Além do açúcar ou dos embutidos, existem outros grupos de alimentos que são mais favoráveis ao aparecimento do câncer? Você poderia citar alguns exemplos?
Thalita – A carne vermelha, que é um exemplo clássico. Hoje a gente sugere o consumo máximo de duas vezes na semana. E não só pela carne em si. Mas a técnica que se usa para cozinhar a carne favorece o aparecimento de substâncias, que são formadas em altas temperaturas. Por exemplo, na forma de churrasco, que é o mais comum, combinado com carvão, que também libera uma substância que em contato com a carne gera uma substância cancerígena. Às vezes, nem só o alimento em si, mas a técnica que se usa para cozinhar também pode favorecer. Os alimentos com altos índices de agrotóxicos. Hoje a gente consegue ver facilmente uma lista de alimentos que tenham uma lista de agrotóxicos elevados. Por exemplo, a gente fala muito do tomate, da batata, do pimentão, que são alimentos que têm muito agrotóxicos. Alimentos como a soja ou alimentos de monocultura também. Os alimentos transgênicos também estão entrando nessa lista. Nós temos aí os industrializados, que têm muitos conservantes, corantes artificiais. Esses alimentos também estão nessa lista. Alguns adoçantes artificiais também entram na lista.

DIARINHO – Popularmente se fala que usar o micro-ondas para preparar alimentos pode desencadear o câncer. Isso é mito, fato ou polêmica?
Thalista – Ainda é polêmica. Mas existem estudos que mostram a relação do uso do micro-ondas com o aparecimento do câncer. Mas é uma coisa difícil de comprovar. Assim, qual é a quantidade de vezes que você usa na semana? Quanto você utiliza esse micro-ondas para realmente dizer que existe um efeito? Acredito que nessa questão é melhor a gente indicar: se você tem um micro-ondas em casa e o utiliza para fazer algumas coisas, tente reduzir o máximo possível o consumo de alimentos no micro-ondas. E quando não estiver usando, o deixe desligado da parede para ele não ficar emitindo nenhum tipo de onda. A escolha dos alimentos que a gente usa, mesmo que seja no micro-ondas ou no forno convencional ou na cocção convencional, ela é muito mais importante, talvez, do que o uso do micro-ondas. Então, tentar reduzir ao máximo o uso do micro-ondas é uma sugestão. A gente não vai indicar pra ninguém eliminar o aparelho. É complicado. Só realmente diminuir o uso já seria uma boa estratégia.

DIARINHO – Há comprovação de que os agrotóxicos permitidos no Brasil são cancerígenos? Todos ou alguns deles?
Thalita– Alguns mais do que outros. Hoje tá muito em foco o glifosato, que é um dos principais agrotóxicos utilizados no Brasil. Ele tem uma relação muito direta com o câncer. Especialmente o câncer de mama. Já existem vários estudos que comprovaram essa relação. No Brasil, infelizmente, o uso desses agrotóxicos é muito superior ao que a gente imagina que seria seguro. Se a gente comparar a quantidade de agrotóxicos permitida no Brasil, se comparar com países da Europa, a gente tá muito acima dos limites que esses países utilizam há muito tempo. A gente tá realmente usando um grupo de químicos que têm uma relação muito comprovada com a ocorrência de câncer.

DIARINHO – Numa sociedade industrializada como a nossa, que consome alimentos vegetais de monoculturas, logo de plantações com grande quantidade de adubos químicos, como praticar uma alimentação saudável?
Thalita – Um médico escreveu um livro, que é o livro de cabeceira para muita gente que passou pela doença. É o doutor David Schreiber [Médico e neurocientista cientista francês, autor do livro “Anticâncer — Prevenir e Vencer Usando Nossas Defesas Naturais” que morreu em 2011 vítima de um tumor]. Ele fala muito sobre isso. Ele fala que entre você consumir um alimento que tenha agrotóxico e você não consumir esse alimento de origem vegetal, se sugere que consuma mesmo que saiba que ele tem agrotóxico. A gente sabe que nem sempre é possível escolher um alimento sem agrotóxico ou orgânico ou que não seja transgênico. Mas o consumo de alimentos de origem vegetal deve ser estimulado independente da questão do agrotóxico, porque os fitoquímicos presentes nos alimentos de origem vegetal são muito importantes para o equilíbrio do nosso corpo. Então deixar de consumi-los talvez seja muito mais arriscado do que consumi-los com agrotóxico.

DIARINHO – Os alimentos orgânicos, então, são mais indicados. Mas como consumi-los no cotidiano se o preço é bem mais caro?
Thalita– A questão do preço dos orgânicos é um dos principais fatores limitante do consumo. A gente, sim, deve dar preferência a esses alimentos e eu acredito que à medida que aumenta o consumo o preço, naturalmente, deve cair. Hoje, uma das principais dificuldades dos agricultores para terem um produto orgânico é o selo do orgânico, que é uma questão política. Tirar um selo de orgânico para um produtor é muito caro, e aí ele não consegue. Mas acho que na medida que a gente estimula o consumo desses alimentos, a oferta vai ter que aumentar, a produção vai ter que aumentar e aí acho que a gente consegue ir reduzindo pouco a pouco o preço. É o que eu acredito que possa acontecer. Mas a gente sempre tem que estar estimulando o consumo.

DIARINHO – Você foi paciente de câncer e teria usado alimentos considerados saudáveis no tratamento. Que alimentos as pessoas com câncer devem ingerir com mais frequência?
Thalita– Claro que existem vários tipos de câncer. No meu caso foi câncer de mama. Mas, de uma forma geral, para qualquer tipo de paciente com câncer, é evitar o consumo de açúcares, por exemplo, é evitar o excesso de sal, é evitar as carnes vermelhas e consumir alguns alimentos que são protetores. A gente fala muito do chá verde, do gengibre, da cúrcuma [açafrão], que é um dos alimentos mais estudados na questão do câncer, tanto na prevenção quanto no tratamento. A gente tem as frutas vermelhas, que são riquíssimas em substâncias protetoras. Nós temos todos os alimentos de origem vegetal de modo geral. Ao invés da gente saber qual é o alimento que é melhor, ou qual é o que se deve consumir mais, existe uma dica para os alimentos em geral. Das frutas e verduras, é o seguinte: existem cinco cores básicas, que é o verde, o vermelho, o branco, o amarelo e o roxo. Se a gente conseguir consumir essas cinco cores durante o dia e variando durante todos os dias, a gente garante um aporte de nutrientes e de fitoquímicos para o nosso corpo que vai fazer com que a gente possa resistir no caso do desenvolvimento de uma célula neoplásica [cancerígina]. O nosso organismo vai estar pronto para atacar essa célula neoplásica, para ela não se desenvolver.

DIARINHO – Você poderia dar o exemplo de algumas frutas, legumes e verduras de cada uma dessas cores?
Thalita– Vamos lá. As frutas roxas… quando a gente fala das roxas, também fala do repolho roxo, que é da família das brassicas, que têm função muito importante na proteção do câncer. As uvas vermelhas que também tem o resveratrol, que tem propriedades boas. As próprias frutas vermelhas têm anticianinas, que também são substâncias que são protetoras. [Essas frutas vermelhas que você citou são o quê? Pitanga, morango?] Essas frutas vermelhas a gente chama “berries”, que são a amora, a framboesa, o mirtilo. A gente chama de frutas vermelhas. [O morango?] O próprio morango também. [As amoras silvestres brasileiras entram nessa lista?] Exatamente. A jabuticaba entra nisso. O açaí entra. São frutas que têm substâncias muito protetoras. Quando a gente vem pro verde, a gente traz todas as verduras verde-escuras e todas as verduras que fazem parte da família das brassicas também. A gente entra com o brócolis, com a couve, a rúcula, o agrião, a folha de mostarda. No branco a gente tem o nabo, o repolho branco, que é maravilhoso. Também são da família das brassicas. No amarelo a gente tem o pimentão amarelo. As frutas amarelas, de uma forma geral, também vão ter um papel protetor. Aí, quando a gente vem para o vermelho e tem frutas como o morango, por exemplo, que a gente já tinha falado. Entra um pouquinho na classificação dos berries e se mistura um pouco com o roxo. Mas basicamente eles também têm a mesma função. E ainda no vermelho a gente tem o tomate, que é riquíssimo em licopeno, que é extremamente importante na proteção do câncer de próstata.

DIARINHO – Naquela dúvida inicial, que você falou sobre “consome ou não consome?”, o tomate e o morango seriam duas frutas com grande nível de agrotóxico. Como fazer?
Thalita– Limitar o consumo. Uma coisa é a gente consumir todos os dias. Uma coisa é consumir eventualmente. Dos alimentos que a gente conhece que tenham agrotóxicos, não consumi-los com a casca. A gente minimiza um pouco a ingestão deles. E ao mesmo tempo conseguir equilibrar esses alimentos com outros que tenham um efeito protetor mais potente. Então, se eu estou consumindo um alimento como o morango, que a gente sabe que tem bastante agrotóxico, tentar equilibrar. De repente eu vou fazer uma salada que eu uso o morango, mas eu uso o gengibre, alguma coisa que eu possa estar equilibrando. Colocar bastante folhas verde-escuras na salada e eu coloquei o morango fatiadinho junto para ser consumido. Já o tomate… A forma de consumo do tomate para ativar o licopeno é que ele deve ser cozido. Então, quando mais tempo de cozimento mais ativação a gente tem desse licopeno. E aí combinar com outros alimentos que possam também estar fazendo um efeito protetor.

DIARINHO – Se fala que o limão, por conta de ser um antioxidante forte, ele ajudaria também na prevenção do câncer. Isso tem algum fundamento?
Thalita– Existe uma polêmica com relação ao limão. Na questão da prevenção de câncer, se fala muito mais na casca do limão, que tem algumas substâncias que são protetoras de câncer, mas aquela questão de tomar o limão, que ele ajuda a reduzir o PH do sangue, naquela dieta alcalina, ainda existe um pouquinho de contradição. A gente precisa ter bastante cuidado quando indica essa questão da dieta alcalinizante. A gente sabe que os alimentos alcalinizantes são muito mais favoráveis à proteção do nosso organismo, mas o fato de simplesmente tomar o limão para prevenir câncer talvez não seja o caminho. Escolher alimentos alcalinizantes é uma coisa, mas só tomar o limão achando que vai alcalinizar o sangue, por exemplo, é outra história que não faz muito sentido.

DIARINHO – Também se fala no vinho, como uma bebida cujo consumo ajudaria a prevenir o câncer. Isso também tem fundamento?
Thalita– Tem. Tem fundamento porque na casca das uvas a gente tem o resveratrol, que é um potente antioxidante e também tem fatores de prevenção. Mas a gente tem que ter cuidado, porque o excesso de consumo de álcool também tá associado ao desenvolvimento do câncer. Então, talvez, a melhor forma de se consumir esse resveratrol seria num suco de uva ou na própria uva in natura. A gente sabe que na fermentação da casca da uva é que vai concentrar melhor essa substância. Então o vinho seria indicado por conta disso. Mas o suco de uva também está sendo indicado porque ele também tem uma quantidade muito boa de resveratrol.

DIARINHO – Quais são os tipos de cânceres que mais têm surgido por conta da alimentação inadequada?
Thalita– O câncer de mama é um dos principais. [Por quê?] O câncer de mama ele está muito associado há alguns alimentos que têm agrotóxicos. Já tem comprovação. Existem algumas microtoxinas que se formam e que tem alguma associação com o câncer de mama. A questão do excesso de açúcar, por exemplo, no sangue, também favorece todos os cânceres de mama de forma geral. O câncer de mama é o câncer que mais mata hoje no Brasil. Um dos principais cânceres que são desenvolvidos. Mas em mulheres é o que mais mata. O câncer de estômago, o câncer de fígado… todos os cânceres relacionados ao aparelho digestório, que a gente chama, eles estão muito associados com a alimentação.

DIARINHO – Hoje as pessoas têm uma vida muito corrida. O preparo de alimento tem que ser rápido, portanto se consome muitos alimentos já processados. O que é que você indica para as famílias como mudança de hábito para uma alimentação mais saudável no cotidiano?
Thalita– Comece na escolha dos ingredientes. Hoje a gente sugere a compra de peixes. Escolher peixes que não sejam criados em cativeiro. Peixes de pesca extrativista são as melhores opções. Ter sempre opções de frutas e verduras em todas as refeições do dia a dia. Evitar o consumo de carnes vermelhas. Os ovos, por exemplo, procurar os que sejam orgânicos ou o que a gente chama de ovo caipira, né? Galinha caipira, aquela de quintal, também é uma opção ao frango convencional. Preparar o alimento em casa é muito importante. A gente tem feito vários cursos de culinária com pacientes. Hoje as pessoas têm fugido um pouco da cozinha. A indústria fez um trabalho de ensinar as pessoas que a gente não tem tempo para cozinhar: “Você precisa ser prático! Você precisa ser moderno!”. Mas as pessoas precisam voltar a ter o hábito de cozinhar e sentir prazer em fazer isso. Então, se envolver com os alimentos, saber de onde vem, a origem, como foi preparado, isso é importante para as famílias. Envolver as crianças. Talvez plantar ervas em casa, plantar um tomate, para que as crianças vejam crescer. As crianças se envolvem mais, porque sabem de onde vem o que estão comendo. Isso é importante.

DIARINHO – Para concluir, você gostaria de dar alguma dica?
Thalita– O meu projeto pessoal se chama “Venha para a cozinha”, é um Instagram divulgando os cursos, que é esse convite que a gente faz às pessoas entrarem na cozinha com outros olhos e voltarem a frequentar a cozinha de casa, não só para tomar água. Ter aquele prazer de estar cozinhando, de saber a origem dos alimentos, se relacionar com esses alimentos, é o que a gente tem divulgado, tem falado para as pessoas que é uma forma de realmente prevenir o câncer. E trabalhar o estado mental de uma forma geral, estar sempre em paz, procurar sempre formas de você estar se conectando consigo mesmo, com as outras pessoas. Às vezes, um simples abraço que você dá em alguém já faz um efeito muito bom. Existem substâncias que se formam, por consequência de um abraço, que são protetoras contra vários tipos de doenças. Muito além da alimentação, cuidar do espírito também faz parte.

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