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Márcia Vieira

Professora de química

NOME: Márcia Gilmara Marian Vieira
NATURAL: Lages
IDADE: 45 anos
ESTADO CIVIL: Casada
FILHOS: dois
FORMAÇÃO: Graduada como Bacharel em Química pela Fundação Universidade Regional de Blumenau, mestre em Química Orgânica pela Universidade Federal de Santa Catarina e doutora em Química Orgânica pela Universidade Federal de Santa Catarina
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: professora da disciplina de Química NID Ea Universidade do Vale do Itajaí; coordenadora do projeto de Extensão Educação para Transformação: Meio Ambiente, Saúde e Gênero, professora no curso de Pós-doutorado em Agroecologia e Paisagismo, fundadora e membro do Fórum Catarinense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos.

 Você sabe identificar um produto geneticamente modificado, os famosos transgênicos? Sabe quanto há de agrotóxico no que consome? Gostaria de comer alimentos mais naturais, orgânicos, mas acha os valores ainda caros para o seu orçamento? O Entrevistão desta semana foi atrás de respostas para essas e outras questões, esclarecendo a fundo o tema dos agrotóxicos e alimentos geneticamente modificados. À jornalista Franciele Marcon, a professora universitária e membro do Fórum Catarinense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos, Márcia Gilmara Marian Vieira, explicou porque o que está na nossa mesa interfere diretamente na saúde. As fotos são de Fabrício Pitella.

DIARINHO – Quais os males e os riscos que os agrotóxicos e transgênicos trazem à saúde? Qual a diferença entre eles?
Márcia: Vamos começar pensando nos transgênicos. O que são? Sementes preparadas em laboratório e que têm uma modificação genética. Essas sementes, quando são preparadas, são associadas para serem utilizadas com os agrotóxicos. Uma coisa está associada a outra. Quando eles plantam, e hoje no Brasil são utilizadas sementes transgênicas de milho e de soja, e quando utilizam para a plantação da soja, ela não vai conseguir o cultivo com bom êxito se não tiver a presença do agrotóxico. Então é uma coisa associada. Exatamente por isso, a mesma indústria que produz a semente já produz o agrotóxico. Por isso caminham juntas. E as duas são extremamente perigosas à saúde. Se você cultivar semente transgênica e não utilizar agrotóxico, você não vai ter um bom cultivo. A ideia é que você aumente a produção com o transgênico e dessa maneira já se consegue vender o “pacote inteiro”. Então vendendo a semente transgênica mais o agrotóxico.

DIARINHO – A gente nem percebe, na maioria das vezes, o quanto consome de transgênicos. Como saber o que se está comendo?
Márcia: Isso é uma discussão que já vem ao longo do tempo. Na verdade, teve uma discussão bastante grande de a indústria poder tirar o símbolo de transgênicos dos alimentos que apresentavam. Eles queriam excluir isso e não dar direito ao consumidor de saber o que estava comprando. Ma as pessoas estão querendo ter o direito de fazer essa escolha. Poder chegar nas grandes redes de supermercados e saber o que é transgênico, o que não é transgênico, isso através do símbolo nas embalagens. Então tem um símbolo “T” nos alimentos geneticamente modificados. A gente percebe que algumas pessoas nem sabem o que é isso. [Quais são os males que trazem à saúde?] Na verdade, o que eu penso, é que o que trazem de males mesmo são serem usados com os agrotóxicos… Já que eles são cultivados na presença de agrotóxicos, que são produtos extremamente contaminantes e perigosos tanto pro ambiente quanto pra saúde.

Tem vários estudos comprovando a relação direta da saúde com a utilização de agrotóxicos”

DIARINHO – Como se alimentar de maneira mais natural, se na agricultura convencional há tantos agrotóxicos e alimentos geneticamente modificados?
Márcia: Hoje essa escolha está bem complicada. É uma situação que eu vejo que está difícil. Por que? Mais ou menos na metade do século passado eles começaram a introduzir essa ideia da Revolução Verde, que era esse pacote tecnológico. Porque a agricultura existe há mais de 10 mil anos. E há 60 anos que começaram a introduzir essa questão do agrotóxico, antes não existia agricultura com agrotóxico. Começou essa questão de que os agricultores que não utilizavam esse “pacote tecnológico” eram agricultores que não estavam atualizados, que não estavam querendo ter uma produção de acordo com o incentivo que estava acontecendo naquele momento. A partir desse momento que começaram a fazer esse incentivo, inclusive os agricultores familiares começaram com essa produção intensiva de agrotóxicos. Quando você pergunta qual é a possibilidade, a possibilidade é a gente buscar exatamente a produção orgânica, que foi deixada de lado. Produção orgânica é uma coisa que existia desde sempre, durante a vida inteira. A outra, a “agricultura moderna”, na verdade, de moderna não tem nada… Mas ensinaram os agricultores a plantar e cultivar os alimentos dessa maneira [com sementes transgênicas] e foram deixando de lado aquela agricultura que era conhecida pelos ancestrais. Então a gente tem que estar resgatando e buscando políticas que incentivem esse tipo de agricultura. Porque as políticas públicas hoje incentivam as agriculturas chamadas “convencionais”, aquelas que utilizam o agrotóxico.

DIARNHO – O Brasil consome 20% dos agrotóxicos comercializados no mundo e essa quantidade vem crescendo. Qual o trabalho do Fórum Catarinense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos (FCCIAT) para tentar frear o consumo de agrotóxicos e transgênicos?
Márcia: O Brasil hoje é considerado o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. É uma questão muito alarmante, muito perigosa. O papel do Fórum é tentar, como o próprio nome já diz, combater essa questão dos agrotóxicos e dos transgênicos. Tanto de um quanto do outro. De que maneira? Tentando criar políticas que possam estar incentivando exatamente o cultivo da produção orgânica. Principalmente nessa questão de Agroecologia. Porque Agroecologia não é só pensar em não utilizar os agrotóxicos, mas é uma questão de justiça social. Ela vai estar cuidando da terra, da biodiversidade, do ser humano. Tem outras questões associadas. O fórum defende muito essa perspectiva.

DIARINHO – Cerca de 1/3 dos agrotóxicos usados na produção de alimentos no Brasil não são autorizados na Europa. Como se explica essa permissividade do Brasil?
Márcia: Essa é outra questão que se vem discutindo. Se já foram banidos na Europa, porque no Brasil ainda estão sendo utilizados? A gente fica pensando: “será que o organismo dos brasileiros é tão mais resistente do que os dos europeus e de pessoas de outros países?”. Ontem [terça-feira], ainda estava lendo um artigo que falava que só um dos agrotóxicos, por exemplo, é utilizado cinco mil vezes mais aqui no país. O limite permitido, por exemplo, na água, de um dos agrotóxicos, que é um dos mais utilizados, o glifosato. Glifosato é 40% desse agrotóxico que é utilizado nessa agricultura convencional. É super intensa a utilização. E o limite permitido na água para o consumo humano, que a gente toma todo dia, é cinco mil vezes maior do que o permitido na União Europeia. De que maneira a gente vai justificar uma coisa dessas? Será que somos tão mais resistentes? A gente não consegue explicar… Realmente, acho que tem que rever esses limites tanto para os alimentos quanto para água de consumo humano entre outros compartimentos ambientais.

Agroecologia não é só pensar em não utilizar agrotóxicos, mas é uma questão de justiça social. Ela vai cuidar da terra, da biodiversidade, do ser humano.”

DIARINHO – O câncer seria a doença mais relacionada ao uso desenfreado dos agrotóxicos?
Márcia: Existem muitos estudos mostrando que tem uma relação bastante grande. A professora Raquel Rigotto, que ajudou a escrever o Dossiê Abrasco [Os impactos dos Agrotóxicos na Saúde], hoje é uma referência para pesquisadores dessa área. Ela fez um estudo em regiões que têm um grande consumo de agrotóxicos, que é a região do agronegócio. E ela conseguiu observar que o índice de câncer nas pessoas que utilizam, naquela população, aumenta em 30% quando comparado à população que não tem a utilização intensa de agrotóxicos. Mas é claro que não é só o câncer, não. Existem muitos outros, que a gente chama de efeitos crônicos, e são efeitos que são observados. Como neurotoxicológicos, a depressão, por exemplo, está diretamente relacionada. Já foram feitos estudos científicos provando que a questão do suicídio está diretamente relacionada a utilização do agrotóxico. Não que seja exclusivamente, mas também foram feitos estudos e provado que quem utiliza agrotóxicos, principalmente naqueles momentos de pico, existe um aumento de 30% de suicídios nos agricultores. Isso é uma questão bastante grave. Pensar que chega numa situação dessas que acaba atingindo as famílias de maneira geral. Suicídio, câncer, depressão, são disruptores endócrinos, atingem a reprodução humana. São muitos fatores. Disritmia cardíaca. Tem vários estudos hoje comprovando uma relação direta da saúde com a utilização de agrotóxicos. Tem que deixar bem claro: existem então esses sintomas agudos e os crônicos. Agudos são aqueles que acontecem de imediato, os agricultores utilizando agrotóxicos podem sentir tonturas, dores de cabeça, vômitos, diarreias, sintomas que são repentinos e rápidos. Mas, aqueles que mais me preocupam, e me preocupam há muito tempo, são os efeitos silenciosos. Todo dia tu tomas a água que tem a presença de agrotóxicos. Muitos agrotóxicos são bioacumulados no organismo. Quanto mais velho você fica, mais a quantidade vai aumentando dentro do organismo e mais efeitos nocivos vão gerando. Isso é bastante preocupante. Hoje tem muitos pesquisadores, tanto nacionais quanto internacionais, estudando essa parte de saúde.

DIARINHO – Uma saída para manter uma alimentação mais saudável é o consumo dos produtos orgânicos. Mas por que eles ainda são tão caros no Brasil?
Márcia: Eu acho que isso é um mito, no meu ponto de vista. O que a gente tem que procurar são feiras locais e incentivar a produção da região. O nosso projeto, da Univali, que é esse projeto de extensão Educação para Transformação, incentiva as mulheres agricultoras aqui do munícipio de Itajaí a produzirem orgânicos. Elas fazem feira uma vez por mês dentro da universidade, que é a Feira de Economia Solidária. Ali você vai encontrar produtos orgânicos, produtos sem agrotóxicos. Onde eles são caros? Exatamente nas grandes redes de supermercados. As pessoas não sabem ainda onde buscar. Claro que, em grandes redes de supermercados, vai pagar o alface a R$ 7, nas feiras, diretamente com agricultores, você vai pagar R$ 2. Dentro da universidade a gente tenta multiplicar isso e disseminar para as pessoas buscarem diretamente no agricultor ou buscarem nas feiras locais. E incentivar cada vez a produção, porque se tiver cada vez mais demanda, vai se conseguir produzir mais e teremos um maior incentivo na produção de orgânicos.

DIARINHO – O governo de Santa Catarina anunciou que os agrotóxicos terão a isenção de Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias (ICMS) mantida até 31 de dezembro de 2019. Depois dessa data, a tributação será de acordo com a toxicidade do produto. Os mais tóxicos vão pagar mais. Como você avalia essa medida?
Márcia: Nós, que somos membros do Fórum, estamos bastante felizes com essa decisão que o governo do Estado teve. Santa Catarina está, na verdade, avançando dentro dessa perspectiva, e o governo está enxergando dessa maneira. Pra gente é super importante. Quando se pensa que os agrotóxicos tinham isenção de impostos, isso significa que estávamos incentivando a utilizar cada vez mais. E se classificou de uma maneira que os mais tóxicos vão pagar mais, e já vai ter uma iniciativa diferente. Pelo menos não vão ser isentos. É um grande avanço para o estado de Santa Catarina.

DIARINHO – Santa Catarina será assim o primeiro estado do país a instituir a “tributação verde”, prática que diminui os incentivos fiscais de produtos causadores de danos ao meio ambiente e à saúde. A lógica é onerar o que prejudica o meio ambiente e o que faz mal às pessoas e desonerar produtos essenciais para o cidadão. Na prática, isso vai ajudar na saúde alimentar do catarinense?
Márcia: Não tenho dúvida nenhuma a respeito disso. A partir do momento que tem um alimento com qualidade na nossa mesa, consequentemente vai ter mais saúde. Hoje, por exemplo, nessa questão do câncer, os médicos que trabalham nessa linha, já indicam para as pessoas utilizarem orgânicos. Então, porque eles estão associando isso? Sabe-se que alimentos de qualidade trazem saúde. Esse é o caminho.

DIARINHO – Há formas alternativas de produção sem agrotóxico, como as que utilizam baixo carbono. Há sistema de plantio direto de hortaliças (SPDH), voltado para diminuir o uso de fertilizantes. A Epagri é uma difusora e pesquisadora dessa tecnologia, e há casos de diminuir em mais de 90% o uso de insumos químicos sintéticos só com o manejo de espécies, de solo e de plantio direto. Essas alternativas são utilizadas na prática pelos agricultores catarinenses?
Márcia: Eu ainda tenho um pouco de dúvida, pelo que eu tenho acompanhado. Eu quero acreditar que esse tem que ser o caminho. Porque são instituições que têm pesquisadores que tem bastante conhecimento. O importante é que não façam pesquisa só dentro da instituição. Mas levem isso às famílias de agricultores. No projeto que eu observo, quando a gente ensina, eles aplicam. Se isso for um dos meios encontrados para disseminar a agroecologia, eu tenho certeza que vai se conseguir fazer mudanças.

 

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