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Stefano Flores

Número 1 do ranking brasileiro de padel
“O sul está virando um grande polo do padel. Só iria agregar se tivéssemos quadras públicas”
Os olhos de Stefano Flores brilham ao falar do padel. O número 1 do ranking brasileiro começou a jogar aos 10 anos de idade e há três anos se mantém no topo. Stefano é um dos grandes nomes do esporte na América do Sul, além de ser presença constante na Seleção Brasileira.
Um dia após vencer a etapa de Balneário Camboriú do campeonato Brasileiro de Padel, ao lado do parceiro Julio Julianoti, Stefano foi entrevistado pela jornalista Franciele Marcon. Ele falou da emoção de vencer em casa, com a torcida a favor e jogando em plena praça Almirante Tamandaré. Explicou, também, a rotina de preparo e de treinos para se manter no topo do ranking.
Stefano não deixou de comentar sobre a falta de incentivo aos esportes que não sejam o futebol e reclamou dos cortes nas bolsas esportivas. Falou com entusiasmo da nossa região, que cada vez mais está praticando o padel. Deu dicas para quem quer começar no esporte, e ainda garante: qualquer pessoa, de qualquer idade, pode jogar padel. Para ele, o ano está cheio de desafios e o principal será a etapa brasileira do World Padel Tour que acontece em novembro em São Paulo. As fotos são de Fabrício Pitella.

DIARINHO – Como você começou a jogar a padel? Como foi o começo no esporte?
Stefano Flores: Eu comecei a jogar tênis com quatro anos e a jogar padel com 10. Eu conheci o padel com 10 anos. Eu joguei muito tempo tênis, eu acabei tendo uma lesão no punho que me fez deixar o esporte, quando eu estava tentando o profissional de tênis. Voltei a me dedicar ao padel, que não machucava tanto a minha lesão. Quando eu tinha uns 23 anos, e eu já vinha treinando bastante, resolvi baixar cabeça e trabalhar para fazer parte das seleções e tudo mais. Comecei cedo, mas amadureci tarde. Normalmente, os atletas com 14, 15 anos estão com a cabeça bem formada. Eu tive um período de divisão entre tênis e padel, e até hoje eu adoro jogar tênis, mas o padel é o que comanda o coração.

DIARINHO – O padel tem se popularizado cada vez mais na região com inaugurações de clubes. O que tem ocasionado o maior interesse da comunidade na região?
Stefano: O padel tem um fator que chama muito a atenção: todo tipo de pessoa pode jogar padel. Seja por idade, peso, altura, sexo. Todo mundo pode entrar em uma quadra de padel e brincar. São poucos esportes que podem agregar isso. É um esporte muito familiar, os pais com os filhos, os namorados, é um esporte fácil de se divertir. Em alto rendimento, ele é muito bonito de ver. Quando tu vais pensar em jogos de profissionais, por exemplo, é um esporte que gera emoção para quem assiste. A questão da família faz as pessoas se aproximarem, é um esporte fácil de aprender, de começar e isso também ajuda.

DIARINHO – Você foi campeão da etapa brasileira, que aconteceu no final de semana em Balneário. Qual foi a disputa mais difícil da etapa? Como foi vencer em casa?
Stefano: Sempre tem um gostinho especial quando a gente está aqui, perto dos amigos, da família, e jogando. Ainda mais que foi na praça Almirante Tamandaré e estava muito lindo o evento. Eu fiquei bem emocionado. É sempre especial, não tem como dizer que é igual aos outros lugares. Se a gente consegue um título fora é bom, mas em casa tem um sabor diferente. Foi muito emocionante. [Das duplas tinha alguma mais temida?] Foi a dupla que jogamos a final. A gente treina junto, eu joguei contra o meu sobrinho João Pedro e contra o Matheus Simonatto, que é um grande jogador de Balneário Camboriú. A gente treina junto, eles já me conhecem, a gente joga direto. Um conhece os defeitos do outro e é um jogo bem perigoso sempre. No final é uma alegria, era com quem eu queria estar ali jogando, porque é uma satisfação estar jogando com os meus companheiros, o meu sobrinho. A emoção é maior.

DIARINHO – Temos salários exorbitantes e toda mídia que gira em torno do tênis. No padel, você já consegue viver só do esporte?
Stefano: Aqui no Brasil é bem difícil. Já está tendo retorno financeiro, eu hoje se não trabalhasse com outras coisas, eu poderia viver do padel, mas não faria uma reserva, vamos dizer assim. Já está existindo mais patrocinadores e empresas grandes envolvidas. Quem vive do padel, mora hoje na Europa. Os campeonatos lá têm premiação de 200 mil euros pra cima, tem várias empresas grandes envolvidas, Mercedes, Land Rover, a Tesla – companhia de seguros. Tem muitas marcas lá, a Burger King… Hoje no Brasil está começando esse trabalho e está em desenvolvimento. Todos os esportes no Brasil são um desafio grande, a não ser o futebol. A gente tem uma luta forte para conseguir desenvolver, conquistar o nosso espaço com as empresas, com o governo, nós estamos engatinhando. A parte boa é que está crescendo muito o esporte, as pessoas estão vendo e cabe a nós fazer um trabalho profissional e tentar cada vez mais atrair essas pessoas que podem contribuir.

DIARINHO – O brasileiro tinha uma categoria sub-14. Essa é uma forma de fomentar o esporte? Com essa idade já dá para saber se a criança leva jeito pro padel?
Stefano: A partir de 10 anos. O tênis é um pouco mais cedo. Com quatro a seis anos, tem que começar a jogar. O padel com 10 anos a gente já consegue ir percebendo o talento que a criança tem. Com 10, 12 anos a gente consegue desenvolver e possivelmente transformar em um jogador profissional. [Só tendo esse tipo de categoria dentro de campeonato é o suficiente para fomentar ou precisa de mais apoio? ] Tem que ter escolinhas por todo o Brasil, a gente precisa ter professores com formação para fazer uma boa base de técnica. A criança também tem uma questão lúdica, um jogador profissional entra na quadra pra treinar e aprender. Uma criança entra pra aprender, mas entra pra brincar também. Então tem que ter uma habilidade lúdica, brincar, atrair, fazer gostar de esporte e no meio dessas brincadeiras fazer ela se desenvolver. Precisa de uma formação boa desses profissionais, para desenvolverem um bom trabalho e aumentando o número de crianças praticantes. Está aumentando cada vez mais esse tipo de curso, de treinamento, está começando a ter agora no Brasil, teve uma recentemente na Central Padel, em Itajaí, de formação e monitores. A gente está no caminho. Somos um neném, mas temos passos dados.

DIARINHO – Embora você seja o número 1 do ranking e exista a competição, o padel é diferente dos outros esportes. Busca a amizade, estimular a prática em família. Isso realmente acontece em quadra e fora dela?
Stefano: Na maioria das vezes sim. Quando você está em um ambiente de competição, pode haver um certo conflito, gerado pela dúvida mesmo. Existem bolas que é um milímetro pra fora ou pra dentro, às vezes gera dúvida de interpretação, que pode gerar alguma discussão. Mas esse ponto repete, no mundo profissional temos um juiz que determina se a bola foi boa ou fora, e já acaba o conflito e continua o jogo.

DIARINHO – Balneário teve durante alguns meses uma quadra pra prática de padel na praça Tamandaré, embora houvesse o pedido pela permanência, ela foi retirada. A praça seria o local ideal para a quadra? Há pedidos junto a prefeitura pra manter aulas gratuitas de padel na cidade?
Stefano: Eu acho que ali, pro padel, foi uma excelente oportunidade. Um lugar onde as pessoas veem muito esporte, muita gente começou a jogar por causa dessa quadra. Agradeço à federação Catarinense de Padel por ter conseguido essa conquista e o prefeito de Balneário Camboriú por ter dado essa oportunidade. A decisão de ficar permanentemente, eu já não pensei… Não quero ser egoísta, para mim seria maravilhoso, mas se tu pensares em um contexto de cidade, existem outros esportes. Tem a meninada que anda de skate, tem outras atividades. Acho que é um caso a se estudar. Mas seria uma grande ideia quadras públicas. O sul está virando um grande polo do padel. Eu acho que só iria agregar se tivéssemos quadras públicas.

DIARINHO – Faltam políticas públicas para incentivar esportes considerados mais elitistas, como o padel e tênis?
Stefano. Falta acesso. Às vezes é muito difícil. Há um tempo, tivemos uma recessão na nossa economia, tinha o Bolsa Atleta. Nós, jogadores, temos uma confederação, nós somos todos regulamentados. Nós tínhamos direito a bolsa por esportes não olímpicos. Quando teve essa recessão, simplesmente cortaram essa bolsa, que era uma ajuda importantíssima no nosso orçamento, para seguir a carreira. Eles começam a cortar por lados, que eu não sei se mereceriam… Existem tantos outros que poderiam estar olhando para cortar esse tipo de recurso. É um pouco difícil conseguir a documentação, ter acesso, conseguir que sejas avaliado, o teu currículo e tudo mais, e existe a questão política. Umas pessoas ganham, outras não ganham. Infelizmente, é uma situação que tem que se aprimorar e chegar às pessoas que merecem. Eu não quero nem me colocar como pessoa que merece, mas eu acho que sou um candidato. Por currículo, pelo que já fiz e pelo que eu ainda faço pelo padel. É um campo que eu gostaria que evoluísse. Eu sou patrocinado 100% por empresas privadas. Eu tenho empresa e sei o quanto pago de impostos e tudo mais. Eu sei que para alguns, eu dou retorno financeiro de mídia. Para outros é paixão pura, por gostar de mim ou do esporte, pela amizade. Eles fazem esse esforço pra eu continuar a trilhar o caminho. Agora, se tivesse um apoio do governo ou de outras empresas. A Caixa Econômica patrocina não sei quantos times de futebol. Tem tantas marcas que patrocinam clubes de futebol, porque não direcionam esse valor para outros esportes?! Não só para o padel, mas o tênis vive hoje com esse problema também – é um esporte tradicional, olímpico. Temos o Guga Kuerten que é catarinense, meu ídolo, e se perguntar pra ele, vai ver que ele sempre teve essas dificuldades. É um campo que tem que ser revisado, redesenhado, para brotar novos esportes. A gente não vive só de futebol. Eu gostaria de aproveitar a oportunidade e agradecer às pessoas que encaram comigo esse desafio de levar o esporte profissionalmente. A Vairo, que é a minha marca de raquete e que vem comigo há vários anos. A Promenac Camvel, o Massita e todo a família Werner, que tem mais de 50 anos de história da cidade e sempre estão ao meu lado. A Taroii Investimento e o Trossini que acreditam no meu potencial e seguem me apoiando. A SkyPadel que é uma construtora de quadra de padel, que trouxe da Espanha a marca e vem fazendo um ótimo trabalho. A Brava Pilates que deixa o meu corpo em ordem e equilibrado para poder competir. A Yázigi de Itajaí que vem me apoiando pelo segundo ano, me ensinando inglês para quando eu viajar eu poder passar menos vergonha. A Academia Wave, que faz toda a minha preparação física. A Joma Sports que fornece os tênis, vestimentas. É uma marca forte na Europa e me escolheu para jogador de padel para representar a marca deles.

DIARINHO – Você é o atual número 1 do ranking brasileiro. Como se manter no topo? Por quanto tempo você ainda jogará em alto nível?
Stefano: Eu acho que é paixão. Eu amo o que faço. Eu amo estar envolvido com padel e esporte. Isso me faz ter uma certa disciplina. Saindo da entrevista, eu estou indo para a quadra – eu joguei uma final ontem [domingo]. Tem quadra, tem treinamento, tem disciplina, mas é uma coisa que eu amo fazer. Nem me vejo não fazendo. Quanto tempo vai depender, a gente exige muito do corpo. Hoje eu tenho 34 anos, cuido muito para que eu consiga manter a saúde, como a gente exige muito da musculatura, nossa estrutura é exigida ao máximo. Eu não sei te dizer quanto tempo eu vou conseguir me segurar aí. Por enquanto, eu estou me sentido bem e estou fazendo um preventivo para prolongar a carreira. Se fosse dar um chute, uns três ou quatro anos.

DIARINHO – O que você ainda sonha conquistar?
Stefano: Para esse ano eu tenho uma meta bem ousada. Como os melhores jogadores do mundo ficam na Europa, eu não rodo esse circuito. Eu nunca fiquei lá para jogar. Vai ter, pela primeira vez na história, o Word Padel Tour, o maior circuito do mundo, com a premiação mais alta, que vai ter em São Paulo. Meu sonho é ganhar pelo menos uma rodada da chave principal. Eu tenho um grande parceiro, o Júlio Julianotti, é um dos maiores jogadores da história do Brasil, que eu tenho sorte de ter ao meu lado, desse lado de cá da quadra. Além de outros brasileiros que vivem na Espanha, o Pablo Lima é o melhor jogador do mundo hoje, no meu ponto de vista. Hoje ele está como três, mas é que ele ficou um bom tempo sem jogar, porque o parceiro dele lesionou. Passar essa rodada do Word Padel Tour, em São Paulo, que será o primeiro evento grandioso no Brasil. É para isso que eu estou treinando todos os dias…

DIARINHO – Quem te inspira no padel?
Stefano: O meu parceiro Júlio Julianotti, o Pablo Lima e o parceiro dele, o Fernando Belasteguin, são as pessoas que eu mais me espelho.

DIARINHO – É um casamento jogar em dupla? O parceiro lesionou, pode arrumar outro parceiro ou não pode? Como fica o entrosamento?
Stefano: É muito importante. Tem que ter uma certa paciência, são duas mentes, duas emoções. Tem que trabalhar como um time. Tem que pensar no teu parceiro o tempo inteiro, ao mesmo tempo tem que desenvolver a tua individualidade nos momentos certos. Tem que dar abertura para o teu parceiro fazer o mesmo. A questão de se apoiar também, são duas opiniões. É desafiador! Hoje, no padel, os melhores do mundo, não serão melhores, se não forem bons parceiros. É impossível ganhar um jogo sozinho. Tem que ser, além de um bom jogador, um bom parceiro para o cara que está do lado.

DIARINHO- Qual a dica que você deixa pra quem está começando no esporte?
Stefano: Não perca tempo, contate o local mais próximo, que seja mais fácil. Convide um amigo, se não convidar um amigo, não tem problema. Não se preocupem com materiais, geralmente os clubes fornecem inicialmente, para depois que você aprender um pouquinho, você adquirir os próprios. Eu indico com toda a força porque é esporte agradável, fácil de se divertir, fácil de confraternizar. Depois também é um local aconchegante. Poucos lugares tu tens uma quadra, aqui no sul a gente gosta de um churrasco, e tu vê uma churrasqueira em questão de metros. As quadras são de vidro. Enquanto estamos confraternizando, estamos assistindo os amigos jogarem. Aqui na região tem várias opções, vários profissionais bons e estamos bem servidos para que cada vez mais as pessoas possam começar a jogar padel.

“Tem tantas marcas que patrocinam clubes de futebol, porque não direcionam esse valor para outros esportes?!”
“O padel é o que comanda o coração”

NOME: Stefano Palma Flores
NATURAL: São Miguel d’Oeste
IDADE: 34 anos
ESTADO CIVIL: casado
FILHOS: um
FORMAÇÃO: superior incompleto
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: há três anos é o primeiro do ranking nacional de padel; Vice-campeão Mundial infantil até 12 anos – Buenos aires/argentina | 1995; Campeão Mundial Juvenil até 14 anos – Madrid/Espanha | 1997; Terceiro lugar Mundial Profissional – Calgary/Canadá | 1998; Terceiro lugar Mundial de seleções – Riviera Maya/México | 2010; Campeão sul americano com a seleção Brasileira Principal – La Plata/argentina | 2011; Vice-campeão Mundial de seleções – Riviera Maya/México | 2012; Campeão Brasileiro 1ª etapa – Curitiba | Março/2012; Campeão Brasileiro 2ª etapa – Curitiba | Maio/2014; Campeão sul americano com a seleção Brasileira – Bento Gonçalves/RS | 2015; Campeão catarinense – Tubarão/SC | 2016; Vice-campeão campeonato Gaúcho 1ª etapa – Porto alegre/Rs | 2016; Vice-campeão campeonato Paranaense 1ª etapa – Curitiba/PR | 2016; Convocado para representar o Brasil no Mundial de Pádel em Portugal | 2016 (3º lugar por equipes | semi-final por duplas); Campeão 1ª etapa Paranaense 2017 – Curitiba/PR | 2017; Vice-campeão 1ª etapa Brasileiro 2017 – Fabrice Pastor Cup | 2017; Campeão 1ª etapa Gaúcho 2017 – Porto alegre/RS | 2017; Campeão 2ª etapa Paranaense 2017 – Curitiba/PR | 2017; Campeão 2ª etapa catarinense 2017 – Tubarão/sc | 2017; Campeão 2ª etapa Brasileiro 2017 – Curitiba/PR | 2017; Campeão 3ª etapa catarinense 2017 – Itajaí/SC | 2017; Campeão 3ª etapa Brasileiro 2017 – Joinville/sc | 2017; Campeão 4ª etapa Brasileiro 2017 – Porto alegre/RS | 2017; Campeão 5ª etapa Brasileiro 2017 – Rio Grande/RS | 2017; Vice-campeão aJPP 2000 – são Francisco/argentina | outubro 2017; Vice-campeão Sulamericano – chile | Novembro 2017; Vice-Campeão Primeira Etapa Brasileiro FCP | 2018; Campeão APB – Etapa Balnéario Camboriú | 2018; Campeão APB – Etapa Porto Alegre | 2018; Campeão APB – Etapa Joinville | 2018; Campeão Segunda Etapa Brasileiro Brasileiro | 2018; Campeão AJPP Etapa Alegrete/RS 2018; Bronze Mundial de Pádel – Paraguai | 2018; Campeão da etapa do Brasileiro de Padel em Balneário Camboriú | 2019.

 

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