Rosalie Knoll

 

Rosalie Kupka Knoll
Coordenadora do Comitê de Enfrentamento ao coronavírus
NATURAL: Florianópolis
IDADE: 63 anos
ESTADO CIVIL: casada; dois filhos e uma neta
FORMAÇÃO: Medicina [UFSC]; pós-graduada em saúde pública, doenças transmissíveis; mestrado em Saúde.
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: ex-secretária de Saúde de Criciúma, ex-secretária de Saúde de Itajaí; ex-diretora da Vigilância Epidemiológica de Itajaí, professora da Univali durante 15 anos, coordenadora do curso de Medicina da Univali por cinco anos. Coordenadora do comitê de Enfrentamento ao Coronavírus de Balneário Camboriú.

Santa Catarina tinha até essa sexta-feira 28 casos confirmados do novo coronavírus. Quatro casos são de moradores de Balneário Camboriú, um confirmado em Itajaí e outro em Navegantes. O estado está paralisado, sem aulas, serviços, trânsito de pessoas, comércio. Só os serviços essenciais são mantidos. Com o confinamento social, surgem dúvidas, incertezas, medo, e é preciso evitar o pânico. Para falar sobre o assunto sob o ponto de vista médico e sanitário, a jornalista Franciele Marcon entrevistou a médica especialista em doenças transmissíveis Rosalie Knoll, que está à frente do comitê de Enfrentamento da Doença em Balnéario Camboriú. As fotos são de Fabrício Pitella.

Não vá visitar idosos. Idosos, não saiam de casa!”

DIARINHO – Em que grau de risco de epidemia estamos no estado e porquê?
Rosalie: Nós estamos já no grau de risco 2 [isso na quinta-feira, quando eram 14 casos confirmados], e é de bastante alerta. O estado de alerta significa o que está acontecendo hoje: de realmente diminuir muito a mobilidade das pessoas para tentar controlar a epidemia, não havendo propagação do vírus na circulação comunitária. Casos de contaminação comunitários são importantes. Significa que não são mais só pessoas que vieram de fora e que estão trazendo o vírus de fora, já temos o vírus circulante nosso aqui.

DIARINHO – SC se adiantou em relação a outros estados e decretou estado de emergência, tentando brecar a contaminação comunitária. Como medir a eficácia dessa decisão drástica?
Rosalie: É uma medida dura. Difícil de tomar, de aceitar. Na verdade, a população tem dificuldade de aceitar. Mas é extremamente necessária. Tem município que nem tinha decretado situação de emergência. A situação de emergência te possibilita adquirir os insumos necessários. Nós estamos nos preparando no estado para ter também casos graves. Então essa situação de emergência possibilita que você compre respirador, aumente o número de leitos de UTI, consiga ter um aparato de controle da epidemia melhor, por isso é decretada a situação de emergência.

DIARINHO – A rapidez no aumento de casos no Brasil, se comparada com o início da pandemia na Itália, se anuncia como mais grave a contaminação por aqui. Podemos prever que haverá mais mortes no Brasil, através dessas medições matemáticas, ou isso é precipitado?
Rosalie: Não, eu acho que é cedo para dizer. Por dois motivos: a nossa epidemia realmente está indo mais acelerada, mas dois motivos nos diferenciam. Nós não temos uma população tão idosa quanto na Itália. A maioria dos casos, 80% mais ou menos, são de pessoas com sintomas brandos. Em torno de 5% são muito graves. E se observar a faixa etária dessas pessoas, a maioria das mortes, os óbitos foram de idosos, de 14 a 18%. Nós já temos uma população de idosos, ela vai crescendo sim porque é o esperado mesmo, mas não tanto quanto na Itália. Eu acho precipitado a gente dizer que vai ter muito óbito aqui. [Balneário Camboriú foi uma das cidades que logo decretou restrições, justamente porque tem uma população idosa na cidade…] Exatamente. Em torno de 20% a 30% da população de Balneário é idosa. Imediatamente ao perceber que estava começando a aumentar o número de suspeitos, não tinha caso confirmado ainda, começaram a bloquear toda atividade em relação a idosos, não tinha mais nenhum encontro e a partir de ontem [quarta-feira] sebloqueou toda a cidade. Já estava se bloqueando, estava se observando, analisando as pessoas. Isso certamente vai minimizar a situação. As pessoas idosas não devem sair de casa.

DIARINHO – Não é saudável que haja pânico social, mas é muito arriscado minimizar riscos. Com seriedade, qual recado que deve ser dado à sociedade nesse exato momento?
Rosalie: Eu, como médica e como pessoa, eu pediria muito que as pessoas se acalmassem. A gente vem conversando com pessoas em casa, trabalhadores de saúde, os trabalhadores de saúde estão assustados. O coronavírus é um vírus que não é pra se desprezar, é um vírus importante que causou um estrago grande na Europa e na Ásia, mas não é uma gripe tão violenta. A gente precisa ter cautela, lavagem das mãos o tempo todo, o álcool em gel perto de nós frequentemente, precisa ter cautela na proximidade com as pessoas, quando mais a gente estiver distante, melhor. Grudadinho um no outro vai ter chance. Não vá visitar os idosos. Idosos, não vão sair de casa. Tem uma situação que se criou um medo coletivo, mas a gente precisa respirar e se acalmar. Porque não vai acontecer uma coisa tão dramática assim. É uma gripe, na verdade, é uma gripe. Precisamos é lembrar dos cuidados mínimos, básicos de higiene. As pessoas não fazem. Lavar a mão é uma coisa que se fazia muito pouco, agora está todo mundo com álcool e água por perto. A história da etiqueta respiratória, cuidar realmente quando espirra. Às vezes, é um espirro por causa do ar-condicionado que está ligado em cima da gente, não é gripe, e já apavora. Eu acho que precisa ter calma. As autoridades precisam ter calma, profissionais de saúde precisam ter calma, porque nós precisamos atender. Não tem como profissional de saúde ficar em casa com medo. Nós somos a linha de frente. Não precisa também correr para o supermercado feito louco e comprar quatro, cinco carrinhos de comida. Não vai acontecer um desabastecimento. Nós estamos numa onda inicial, vamos observar esse mês final de março, até metade de abril, que eu acho que é onde a coisa vai acontecer mais. E vamos observando. Até lá gente já aprendeu que tem que lavar sempre a mão, tem que cuidar da tosse e do espirro, não tem que ficar perto das pessoas, não abraçar e beijar, que nós brasileiros somos beijoqueiros, a gente se abraça quando se encontra. É cuidado que a gente vai ter agora a mais, lembrar disso o tempo todo.

DIARINHO – Houve desembarque de cruzeiro no domingo em Itajaí. Eventos religiosos com aglomero de milhares de pessoas em Balneário Camboriú e Itajaí, também no início de semana. Esses eventos podem ter agravado a situação de contaminação social?
Rosalie: Isso é perigoso! Pessoas vindas de outros países, trazendo vírus de forma assintomática e que caem na nossa rua aqui, e aí começa a circular. Circulam em restaurantes, nos bares. Então isso é arriscado. A mesma coisa o ônibus de turismo. Porque vem uma coisa de fora e você está recebendo uma carga viral do exterior que não tinha aqui.

DIARINHO – Idosos e pessoas com baixa imunidade são mais suscetíveis à doença. Balneário Camboriú tem a característica de ser uma cidade de aposentados. A cidade está mais vulnerável ao novo coronavírus?
Rosalie: Por isso tantas medidas e tão rápido. O prefeito Fabricio, a atitude dele foi elogiável mesmo. Ele é bem firmão, né? E ele fechou tudo! A primeira sensação minha foi: “meu deus, vamos fechar a escola? E as mães, como vão fazer com essas crianças?”. Mas essa medida é bem importante. À medida que você fecha, tranca, você não deixa se propagar o vírus. Só que as pessoas tem que obedecer. Tipo assim: um supermercado lotado de gente é um absurdo, não pode. Em Balneário Camboriú está controlado assim, na farmácia só entra, depende do tamanho da farmácia, mas em rigor só entra de 10 em 10 pessoas. O governo do estado [quinta] disse que só pode entrar metade da capacidade instalada da farmácia de pessoas e supermercado também. E eu espero, eu espero muito que o pessoal, os empresários da área sejam bastantes conscientes e organizem isso para que as pessoas não se aglomerem. É a coisa mais importante que tem hoje. [Como é a contaminação do corona?] O corona é um vírus. O novo corona que se chama, um pouco diferente daqueles que houve lá em 2012 e 2002, em dois ciclos bem restritos lá pra Ásia. Ele é um vírus e ele se propaga através de gotículas, então é denso. Gotícula e águinha. Não é só aerosol. Mas também a gente já está sabendo coisa nova, que ele se propagada, ele fica no ar um determinado tempo. Pouco tempo, muito pouco tempo, só que ele está aqui. Se eu tivesse pessoas ao meu redor e eu tivesse com vírus, isso tem possibilidade de contágio. Claro que também cada um de nós tem uma capacidade de infecção. Posso ter contato com um monte de vírus e bactérias e nunca me infectar com elas, nunca ficar adoecida. Posso até ter tido contato. Então depende muito de cada um. E depende do grau de virulência do vírus, a capacidade de infectar. Se eu tivesse hoje, tivesse ainda bem forte, ele iria contaminar a turma toda em minha volta. Então um metro, um metro e meio de distância, entre as pessoas é saudável. Às vezes a gente costuma falar pertinho, recua, fala mais longe porque é mais seguro.

DIARINHO – Não há testes disponíveis pra testar todos os casos suspeitos de coronavírus. A prioridade tem sido para os casos sintomáticos. Isso não prejudica o controle da doença?
Rosalie: Existe um ideal e existe um possível. O ideal era testar todas as pessoas que tivessem uma infecção respiratória leve, que tivesse epidemiologia. O que hoje é epidemiologia: ter vindo da Europa e Ásia, do exterior, e hoje, eu já disse isso no início da semana ou semana passada, mas hoje eu digo com propriedade. Pessoas oriundas de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, onde são os três pontos de contaminação. São Paulo indiscutivelmente. Também seriam pessoas que a gente precisava vigiar. O ideal seria isso. O possível é estar testando pessoas que relatam viagens, também em São Paulo, se for um sintomático, um sintomático mesmo. Com febre acima de 38, com tosse, um pouquinho de dificuldade respiratória, dor no corpo, mialgia. Essa pessoa é sintomática, essa pessoa vai ser testada. Eu penso que a gente vai chegar no momento que vai testar só os casos mais graves, aquele da dispneia, falta de ar. Eu acho que nós vamos chegar nisso porque a gente não vai ter kit no Brasil o suficiente pra testar todo mundo. O sonho meu, médica que trabalha com isso, é que testasse todo mundo pra eu saber exatamente o “N”, quantas pessoas foram contaminadas com coronavírus. Esse era o sonho. Mas eu acho que não vai ser possível.

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com