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Paulinho Ladwig

Sindicalista
“O Brasil perde porque vai ter menos dinheiro em circulação. Vai aumentar a pobreza e aumentarão os conflitos sociais”
Virão tempos de convulsões sociais no Brasil. Ele não duvida. Mas, para o sindicalista Paulinho Ladwig, o momento, mais do que nunca, é de conscientizar a população sobre os males que as reformas Trabalhista e da Previdência vão provocar ao país. Dirigente do sindicato dos Comerciários de Itajaí e região e da federação estadual da categoria, Paulinho fala ao DIARINHO sobre as mudanças que estão por vir e o que se tem feito, na região, para combater a retirada de direitos sociais dos brasileiros. A entrevista foi feita pelo jornalista Sandro Silva e os cliques são de Franciele Marcon.

Nome completo: Paulo Roberto Ladwig
Idade: 52 anos
Natural: Itajaí/SC
Estado civil: Divorciado
Filhos: Três
Formação: Ciências políticas
Experiências profissionais e de militância: Funcionário da Volare, antiga concessionária da Fiat em Itajaí, diretor e presidente do sindicato dos Empregados no Comércio de Itajaí e Região, diretor da federação dos Trabalhadores no Comércio de Santa Catarina, já atuou como dirigente estadual da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

“Na hora em que você tem um exército de mão de obra desempregado e um povo trabalhando, a pressão acaba fazendo com que esse trabalhador que tá lá dentro fique com medo de perder o emprego e o que tá lá fora 
louco para entrar
DIARINHO – O movimento sindical e os movimentos sociais como um todo têm feito duras críticas às propostas de reforma da Previdência, Trabalhista e também do projeto de terceirização, este último já aprovado. Qual desses projetos prejudica mais a classe trabalhadora?
Paulinho Ladwig – Na verdade, todos esses projetos vêm em prejuízo da classe trabalhadora. Mas o que atinge profundamente toda a estrutura dos trabalhadores é a terceirização. Porque joga uma quantidade de trabalhadores na informalidade. Então, isso, é muito prejudicial. A reforma da Previdência, ela é um pouco mais ampla, porque ela não pega somente os trabalhadores formais. Ela pega uma gama de pessoas, como profissionais liberais e os atuais aposentados. A reforma da Previdência causa um prejuízo maior à nação. Não simplesmente à classe trabalhadora. A reforma trabalhista também é uma reforma voltada para, realmente, quem tá na formalidade. Ela vem num desmonte da CLT, num desmonte dos avanços que os trabalhadores tiveram ao longo de muitos anos. Então, todas essas reformas fazem parte de um processo capitalista, de um processo neoliberal, que tem como finalidade tirar direitos dos trabalhadores, tirar aquilo que já tava garantido, para que os trabalhadores tenham que correr atrás de uma nova forma de trabalho e de uma nova forma de organização de disputa no mercado de trabalho.

DIARINHO – Na reforma da Previdência, as pessoas sabem que vão ter que trabalhar muito mais para conseguir se aposentar. Na reforma trabalhista, qual seria um exemplo prático que demonstra que ele pode prejudicar o trabalhador?
Paulinho Ladwig – Na reforma trabalhista, o que tem de pior é o chamado “negociado sobre o legislado”. Por quê? Hoje, você não pode negociar nada abaixo da lei. Hoje, se a lei fala, por exemplo, que o salário mínimo é mil reais, você não pode negociar com um trabalhador um valor abaixo disso. Assim como as férias. Hoje a legislação diz que as férias são de 30 dias. Então ninguém pode negociar abaixo disso. Com essa reforma, vão ser flexibilizadas todas essas relações. Daí, o “negociado sobre o legislado” será uma negociação direta entre o patrão e empregado. E a gente sabe, na prática, como se dão as negociações diretas, o poder de quem dá o emprego e o poder de quem tá precisando do emprego. O grande mal dessa reforma já começa nisso. Então, vai desmantelar todo o sistema de garantia dos trabalhadores, como férias, 13º salário, fundo de garantia. Tudo isso que a gente, o trabalhador, tem assegurado, vai passar a ser negociado num “pé de igualdade”. Mas não existe “pé de igualdade” entre o patrão e o empregado. Você não consegue ter uma relação de igualdade entre o pescoço e a forca. Essa é a grande mazela. E na questão da reforma da Previdência, tem que ficar atento porque as pessoas estão muito preocupadas com a aposentadoria. Lembre que a aposentadoria é um dos itens da reforma da Previdência. A Previdência é um guarda-chuva da seguridade social. Muitas outras questões, como garantia por acidente de trabalho, pensão por morte, tudo isso será transformado. É claro que é a aposentadoria o que toca profundamente os trabalhadores. Mas toda a transformação da assistência social dentro da Previdência é muito maléfica à classe trabalhadora.

DIARINHO – Quem defende as reformas, em especial a trabalhista, diz que o Brasil ficará mais eficiente porque diminuirá a carga de custos para quem contrata. Quem é contra fala do empobrecimento da população e uma volta ao passado, onde eram mínimos os direitos trabalhistas e previdenciários. No que o país perde ou ganha com isso?
Paulinho Ladwig – Com essas reformas, na verdade, quem ganha são os rentistas, as grandes multinacionais e os grandes bancos, que vão aumentar seu lucro com a exploração da mão de obra. É óbvio que na hora em que você tem um exército de mão de obra desempregado e um povo trabalhando, a pressão com essas reformas acaba fazendo com que esse trabalhador que tá lá dentro fique com medo de perder o emprego e o que tá lá fora esteja louco para entrar. Então o que perde o Brasil e o que perdem os trabalhadores? São justamente essas garantias mínimas para que você possa programar suas férias, que você possa no final do ano programar seu 13º, que você tenha seu fundo de garantia para conseguir a casa própria. Tudo isso será desmantelado em nome do quê? Do aumento do lucro do capital. Em nenhum momento se falou que essa retirada de direitos de trabalhadores trará outros tipos de investimentos, de retorno à população. O que acontece é que vai cair novamente nas mãos de quem sempre ganhou dinheiro nesse país, que são os rentistas, os grandes investidores, que não fazem investimentos na produção e, sim, somente ganham juros. Ninguém mexe na questão dos juros dos bancos ou desses grandes rentistas. Quem perde mesmo são os trabalhadores e o Brasil. Vai ter menos dinheiro em circulação, vai aumentar a pobreza e aumentarão os conflitos sociais. Aí, o estado terá que dar mais condições para que a população possa ter acesso à saúde e à educação e não terá condições financeiras de fazer isso.

DIARINHO – O que o movimento sindical e os movimentos sociais estão fazendo por aqui para reagir?
Paulinho Ladwig – No nosso sindicato, por exemplo, já fizemos seminários, a gente já fez panfletagens, alguns movimentos. A ideia principal é você estar orientando o trabalhador. Porque, hoje, esse trabalhador é orientado por uma mídia de direita, uma mídia que quer que essas reformas sejam aprovadas. Uma mídia que quer que isso aconteça no país. Então, pra fazer o contraponto, você tem que estar fazendo essa divulgação, você tem que estar convencendo o trabalhador; conscientizando do direito que vai perder. Então, esse papel o movimento sindical de Itajaí está fazendo. Nós ficamos muito tempo – e foi um erro, eu acho – sem fazer a luta, sem fazer a disputa da consciência do trabalhador. Levar o que realmente tá acontecendo e o que iria acontecer. Nós estamos fazendo esse papel. Estamos tentando conscientizar a população, conscientizar os trabalhadores dos riscos no seu futuro e no de seus filhos e netos.

DIARINHO – Na última manifestação em Itajaí, pouco mais de 100 pessoas estiveram na praça da Matriz. Porque há tão pouca adesão da população, já que as reformas atingirão a maioria das pessoas?
Paulinho Ladwig – Hoje você tem o que o Marx [Karl Marx, filósofo alemão] já chamava de ‘exército de reserva’. Você tem uma quantidade de mão de obra, fora do mercado de trabalho, e você tem uma quantidade de trabalhadores dentro do mercado de trabalho. Esses que estão no mercado de trabalho sabem que podem correr o risco de perder direitos. Mas eles não querem perder o emprego. E o que está fora está esperando a entrada nesse mercado de trabalho. A sociedade, os trabalhadores, ainda estão anestesiados. Nessas reformas existe muita informação e contrainformação. Você mesmo acabou de fazer a pergunta anterior afirmando que tem gente que está dizendo que as reformas são boas. Você vê na televisão os deputados, você vê pessoas dizendo que essas reformas são boas para o Brasil. Isso acaba fazendo com que o trabalhador, com medo de perder o emprego, acabe não querendo se expor. Isso, então, é natural nesse momento. Vai chegar o momento que isso vai mudar. É natural que aos poucos essa reação vá ganhando corpo. Você vê hoje grandes manifestações de trabalhadores nos grandes centros, como São Paulo, Rio, Belo Horizonte. Isso vai crescendo também, durante o processo, nos demais municípios. É natural. O avanço do estado contra os direitos dos trabalhadores, vai fazendo com que os trabalhadores gradualmente adquiram consciência e, aí sim, vão começar a vir pra luta para novamente tentar conquistar esses direitos.

DIARINHO – Você é da CUT e inclusive já foi dirigente estadual desta central. A CUT se mostrou contra o impeachment de Dilma Rousseff (PT) e a Força Sindical, outra grande central brasileira, foi a favor. Agora, com as reformas propostas por Temer, a Força Sindical volta a estar ao lado da CUT. Não é um contrassenso?
Paulinho Ladwig – A Força Sindical, assim como a CUT, são centrais de trabalhadores. Elas são plurais. Dentro delas têm vários sindicatos e várias correntes de pensamentos. A Força Sindical, majoritariamente, realmente defendeu o processo de impeachment da Dilma. Mas muitos sindicatos ligados à Força não fizeram isso. Estavam contrários. Então, como a luta sindical, a luta dos trabalhadores, tem situações pontuais, têm momentos em que a gente caminha junto, como CUT, UGT, Força Sindical. E tem momentos que as centrais sindicais, por objetivos próprios, optam por fazer sua luta isolada, contrariamente às outras centrais. Isso é natural. No mundo funciona assim. As centrais sindicais têm autonomia, são plurais. Aí você vai encontrar diversas manifestações com a CUT e a Força Sindical juntas, em outras somente a CUT e em outras somente a Força. Isso faz parte do jogo.

DIARINHO – Há acusações de que as grandes sindicais negociaram com o governo Temer para que façam uma reação de faz-de-conta às reformas Trabalhista e da Previdência e, como contrapartida, o governo não mexeria no imposto sindical obrigatório, que é aquele que mantém a grande maioria dos sindicatos no país. Isso tem algo de verdade?
Paulinho Ladwig – Pode ser que tenha, sim. Não vou dizer pra você que não. Mas se você pegar a história da CUT, ela nasceu contra o imposto sindical. A luta da CUT sempre foi pelo fim do imposto sindical. Inclusive, há uns dois anos, foi feita uma campanha junto aos trabalhadores, contrária ao imposto sindical. Enquanto outras centrais sempre defenderam e querem o imposto sindical. Eu acredito, sim, que tenham algumas centrais, mas que você não as vê no movimento do dia-a-dia e são centrais grandes, que estão realmente negociando com o governo para que a reforma trabalhista passe mas que se garanta o imposto sindical. Mas a CUT, há que se reconhecer, ela nasceu contra o imposto sindical. Sempre lutou contra o imposto sindical e não está fazendo parte desse bloco que hoje está negociando com esse governo golpista para tirar da reforma a questão do imposto sindical. Até porque nós defendemos que quem tem que sustentar os sindicatos são os trabalhadores. Eles têm que ter consciência da importância do sindicato e poder, com isso, sustentar suas próprias lutas.

DIARINHO – Você, que além de militante sindical também é cientista político, acredita que apenas debates e passeatas vão impedir a aprovação, pelo congresso Nacional, das reformas?
Paulinho Ladwig – Não. Se você pegar a história do mundo, vai ver que as grandes transformações se deram por revoluções. E o Brasil é um país que tem assim umas contradições. Nós somos um dos poucos países do mundo que saem de um regime militar pra um regime democrático sem derramar uma gota de sangue. Essa história de transformações, de passagem, sempre foram muito complexas e de difícil compreensão. Eu acredito que a ideia, nesse momento, é a de conscientização. Para que as pessoas tenham a consciência de que seus direitos estão sendo perdidos e que aquele Congresso que está lá é ilegítimo, não representa os anseios da população e, muito menos, dos trabalhadores. Acredito que vai chegar um ponto que esse povo não vai ter saída. Ele vai estar na rua, vai ter que se organizar e aí talvez, quem sabe, poderemos pensar em uma revolução dos trabalhadores, da sociedade, contra esse estado burguês que está instalado nesse país.

DIARINHO – Há quem fale de grandes conflitos de rua. Você acredita nisso?
Paulinho Ladwig – Com certeza. Isso já está acontecendo. Isso, na verdade, já se dá nos grandes centros. Se você pegar, como citei aqui, São Paulo, Rio, Belo Horizonte, nas grandes capitais, esses conflitos já estão se dando nas ruas. Os trabalhadores estão indo às ruas. Estão se apropriando do seu direito de reivindicar. Isso, automaticamente, vai com o tempo chegando às cidades de médio porte, às cidades menores. Acho que vai haver um momento, acredito, de um levante social. Porque tem uma hora que o trabalhador não vai ter mais nada. Ele perdeu tudo. E na hora em que você perde tudo, você tem a condição de ir pra rua. Nós temos aqui no Brasil e em alguns outros países também, temos uma mídia muito forte. Uma mídia que passa as informações que ela quer, do jeito que ela quer. Mas chega um momento em que esse trabalhador, na hora em que for olhar para a panela e ver que não tem nada, aí sim ele vai perceber que não tem saída. Vai ter que ir pra rua, vai ter que brigar, vai ter que se organizar pra que esse estado realmente olhe pra ele como cidadão e consiga garantir os seus direitos básicos de sobrevivência digna.

DIARINHO – Como é que o cidadão comum, que não seja sindicalizado nem liderança de movimentos sociais, pode se engajar nesse movimento contra as reformas? Quem deve procurar?
Paulinho ladwig – Pode procurar as entidades sindicais. Hoje nós, da CUT, temos um grupo junto com a Força Sindical, com a UGT e várias outras centrais sindicais. No dia 28 nós vamos ter uma manifestação aqui em Itajaí. Nós teremos ações o dia todo, fazendo panfletagem, levando informações. Às 16h haverá uma concentração na igreja Matriz, onde a gente irá fazer uma caminhada. Mas o nosso grande objetivo, na verdade, é a conscientização. É levar informação ao trabalhador! Os trabalhadores e trabalhadoras que queiram ter mais conhecimento sobre a questão das reformas, o que atinge, todo o movimento sindical tem informação, tem informativos, estão fazendo seminários. Nós, ali no sindicato dos Comerciários, fizemos recentemente um seminário sobre a reforma da Previdência. Um seminário muito bom. E agora, dia 4 de maio, nós estaremos realizando no auditório do nosso sindicato o debate sobre a reforma trabalhista. Já aproveito para convidar as pessoas que queiram participar. É gratuito. Terá um grande debate para que a gente possa fazer o quê? Conscientizar! Para que as pessoas saibam, realmente, o que está por trás e quem ganha e quem perde com essas reformas.

“Não existe “pé de igualdade” entre o patrão e o empregado. Você não consegue ter uma relação de igualdade entre o pescoço e a forca”

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