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Marina Corbetta Benedet

Doutora em psicologia
“Liberar as armas pode gerar riscos, pensando a condição de estresse e ansiedade em que vivemos”
O ataque a escola de Suzano, em São Paulo, completa um mês na semana que vem. Desde que dois ex-alunos, encapuzados e armados, mataram a tiros cinco estudantes e duas professoras, a rotina nas escolas do Brasil nunca mais foi a mesma. Na região, várias denúncias sobre supostas ameaças ganharam as redes sociais e o noticiário. A preocupação com segurança tomou conta pauta do legislativo e do executivo, mas pouco tem se falado sobre as causas da tragédia. Para entender melhor como a sociedade pode agir para brecar essa onda de violência, a jornalista Franciele Marcon entrevistou a psicóloga e professora universitária Marina Corbetta Benedet. Embora não pareça, analisa Marina, o mundo virou sim um lugar melhor para viver. Marina ainda falou dos cuidados que pais e professores devem ter com a internet, redes sociais e com a saúde dos jovens e crianças. Também falou sobre a responsabilidade compartilhada entre pais e professores na educação dos pequenos. As fotos são de Fabrício Pitella.

“Todas as políticas públicas de Educação vêm na perspectiva não de um repasse de conteúdo, mas sim da formação de cidadãos”
DIARINHO – Após o massacre na escola de Suzano, alunos de várias cidades da região foram flagrados com armas em escolas ou com postagens de mensagens ameaçadoras nas redes socoais. Nunca havíamos noticiado casos assim antes do episódio de Suzano. O massacre despertou algo nos alunos? Como explicar esse fato?
Marina: Uma questão interessante de observarmos é que, desde o massacre, a gente vê crescendo as investigações, principalmente no âmbito de grupos que já funcionam na internet e que já existem no Brasil, que chegam até os jovens e que estão vinculados a algumas ações mais violentas. Nós consideramos que não é um fenômeno especificamente de Suzano, é um fenômeno que tem sido observado. A própria polícia vem encaminhando algumas investigações nesse sentido, como um fenômeno que está se esparramando nas redes, pela internet, como uma forma de comunicar algo desses jovens. Como um caminho que estes jovens estão usando para comunicar algumas questões. Efetivamente a gente tem que ter uma atenção redobrada e entender que há um acesso, uma forma de comunicação das pessoas que nos ultrapassa, no tempo e espaço, pensando a internet, e que precisamos estar atentos a ela também.

DIARINHO Que tipo de comportamento deve acender o alerta em professores e coordenadores?
Marina:É importante pensar na escola, principalmente em dois pontos. Um é a mudança efetiva de comportamento, pensando preventivamente. Essa mudança de comportamento, no sentido de alunos com algum tipo de comportamento mais sociável, mais engajados com a escola. Em algum momento eles passam a não ter mais esse comportamento, comprometido e vinculado à educação de maneira geral. Então mudanças de comportamento bruscas e repentinas são ações que nós devemos observar quando no âmbito da escola. E, junto com isso, por outro lado, são aqueles alunos que já demonstram em, certa medida, algum tipo de ressentimento, algum tipo de postura violenta, posicionamentos extremistas em relação a situações que existem no mundo e que devem chamar atenção, para que a gente possa sentar e conversar. Não que toda pessoa que tem comportamento ou um pensamento mais extremista vá cometer um ato como aconteceu em Suzano, mas a gente precisa estar atento. Até porque se há essa perspectiva mais extrema ou essa postura mais extrema é algo que nós precisamos entrar em contato pra dialogar, conversar e ver o que está acontecendo. [Esse comportamento já não deveria ter sido observado em casa?] Hoje nós temos alguns problemas quando pensamos “a educação compete a quem?”. Essa função é uma parceria escola-família. Nós temos que entender que a educação, conforme ela está proposta pela própria Constituição, pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, e as políticas públicas que nós temos de educação, existe a função da escola também de educar. Quando a gente pensa hoje o ensino em período integral e a dinâmica de funcionamento hoje do mundo do trabalho, em que os pais trabalham a maior parte do tempo fora de casa, a função de educação é garantida por lei como compartilhada enquanto responsabilidade. Compete aos pais também fazerem essas observações, mas não exclusivamente como função dos pais. Até porque é função da educação não só ensinar conteúdos, todas as proposições. Todas as políticas públicas de educação vêm na perspectiva que a educação não é um repasse de conteúdo, mas sim a formação de cidadãos. E quando nós pensamos na formação de cidadãos, a gente pensa também a construção da educação partilhada com a família.

DIARINHO – O acesso à internet impulsou comportamentos agressivos ou só possibilitou mais publicidade a este tipo de comportamento?
Marina: Eu trabalho com a perspectiva da internet como sendo também um caminho de educação. Nós precisamos entender que não só a família proporciona educação, não só a escola educa, mas toda a mídia de maneira geral gera processos educativos. Hoje nós temos muito facilmente crianças que aprendem inglês antes de entrar na escola. E elas aprendem onde? Principalmente acessando desenhos infantis que trabalham essa perspectiva, por exemplo. O que a gente tem que entender em relação a violência é que comportamentos violentos são recorrentes na história da humanidade, não tem uma situação que é exclusiva. Recentemente saiu uma pesquisa que mostra que o mundo está um lugar muito melhor pra se viver, por incrível que pareça. A internet também educa. Então, obviamente, se eu tenho um conjunto de informações que me chegam e que mostram maneiras de resolver conflitos ou maneiras de mostrar meu poder sobre os outros pela violência, nós temos mais fatores que contribuem para o aumento da violência. Em contrapartida precisa-se entender que sim, a internet possibilita um acesso muito mais fácil à divulgação de imagens relativas à violência. Mesmo no combate à violência, é engraçado perceber, quando eu estou contestando ou falando contra a violência eu acabo compartilhando imagens, mensagens de violência. Então ela também facilita o acesso no sentido de divulgação de imagens ou temas relacionados à violência. Mas se pensar que ela é um fator que construiu a violência, seria mais no âmbito de também ensinar, do que necessariamente incitar alguém a cometer atos de violência.

DIARINHO- Como medida preventiva algumas escolas têm afastado compulsoriamente alunos com comportamentos suspeitos. Isso resolve o problema? Separar alunos-problemas representa solução definitiva para comportamentos agressivos ou de ódio?
Marina: Está mais do que provado, em diferentes perspectivas da psicologia, que a punição é menos efetiva do que quando nós trabalhamos a perspectiva de uma educação. A educação pode ter estratégia punitivas, mas funciona menos. Nós sabemos disso com diferentes espécies, incluindo a nossa condição humana. Só afastar ou punir esses alunos não é o suficiente. É uma ação necessária, muitas vezes até pensando no cuidado com os demais, mas nós precisamos ter ações que entendam que a violência é uma forma de comunicar alguma coisa. Se o caminho que está sendo usado é esse, é porque outros caminhos de comunicar essa mesma situação, não estão disponíveis para essa pessoa. Precisa abrir espaço para entender e contextualizar essas ações de violência, é necessário que as pessoas se responsabilizem pelos comportamentos violentos, mas não é o suficiente para resolver o problema. Se o fosse, nós não veríamos crescer no Brasil, por exemplo, o número de presos. O presídio não é uma coisa agradável. Se a punição resolvesse, a gente não teria reincidência, que é o que acontece.

DIARINHO – Está em pauta no Congresso a possibilidade de facilitar o acesso a armas à população civil. Qual a sua opinião sobre o tema?
Marina: Em linhas gerais, eu diria que nós temos hoje um mundo que é muito diferente. Nós estamos em condição de maior ansiedade e maior estresse. Quando eu tenho uma população mais ansiosa, mais estressada e que entende que o caminho de resolução das situações que lhe estressam, que geram ansiedade, é a violência, às vezes, a gente incorre no risco de ter resoluções com maior índice de violência do que nós já temos hoje. No âmbito da psicologia existem discussões, mas em linhas gerais nós trabalhamos na perspectiva de que nós queremos construir uma cultura da paz, e é uma preposição que existe no Brasil, e não resolve a gente liberar armas. Nós precisamos de outras estratégias para lidarmos com estresse e a ansiedade. Não tem muitos caminhos de comunicar essas questões, e acabamos usando a violência. Liberar as armas pode gerar risco, pensando a condição real que nós vivemos hoje de estresse e ansiedade. [Por que a gente vive essa condição?] É uma questão que tem vários fatores contribuindo. Tem hoje uma velocidade de mudança. O que se chama de ansiedade? Uma preocupação apreensiva com o que está por vir. Nós temos hoje uma velocidade de mudança muito grande. Essa preocupação acaba sendo muito maior, como as coisas mudam muito rápido, não se sabe como agir em determinadas situações, o que levanta essa preocupação apreensiva. O estresse diz respeito a capacidade de adaptação à mudança. O estresse é positivo, ele é necessário, importante. Como se vive em constante mudança no mundo, acaba estando em constante estado de alerta. O estado de alerta com a preocupação de como vão ser as coisas, aumenta a ansiedade. Daí vale muito entender que estresse, ansiedade, depressão e problemas de sono andam juntos, porque no âmbito neurológico eles respondem aos mesmos processos. Quando tem estado de alerta e estresse é maior a tendência de desenvolver ansiedade, sintomas de depressão e problemas de sono. Como quando tem problema de ansiedade, é maior a tendência de desenvolver estado de estresse, situações clínicas de depressão e problemas de sono.

DIARINHO Em Itajaí, um vereador estuda criar um botão do pânico nas escolas. Em Balneário, a PM fará rondas em frente aos colégios. Essas ações podem evitar um atentado?
Marina: Talvez em um primeiro momento a gente tenha situações que auxiliem. Vale salientar, eu sempre lembro essa questão, que se somente essas ações fossem suficientes nós não teríamos, por exemplo, assaltos a carro forte – algo extremamente vigiado, cuidado e armado. Ainda assim nós temos investidas e cada vez mais violentas. São necessárias algumas ações preventivas, essas ações de imediato talvez sejam a resposta que tenhamos para dar, mas é preciso pensar ações de médio e longo prazo também. Envolve encontrar caminhos no espaço escolar como um espaço interativo de aprendizagem e, principalmente, de habilidade social.

DIARINHO Como técnica da área da psicologia a senhora recomenda alguma política pública para evitar esse tipo de tragédia dentro das escolas?
Marina: A gente tem políticas públicas tanto na área da assistência social, da educação e também na área da saúde. Existem políticas que dão suporte e apoio. Nós temos dificuldade de implementações dessas políticas, seja por falta de recursos financeiros, por questões de recursos profissionais mesmo… Existem políticas de seguridade e de proteção, de trabalho contra a violência, de pessoas que sofrem ou cometem violência. Falta uma implementação mais eficiente. Talvez isso se dê por várias situações que nós vivemos no Brasil, desde mudanças constantes de gestores e governos, até dificuldades de efetivação do que foi pensado pelos profissionais que estão na ponta também.

DIARINHO Estamos vivenciando um grande número de suicídios na região, recentemente houve até o caso de uma criança. Um menino de 11 anos se suicidou supostamente influenciado por um desafio de internet. Qual a sua análise do episódio?
Marina: É difícil, pois não se conhece a situação especifica. Num olhar mais geral e de uma situação mais contextual, nós precisamos lembrar, e isso é uma questão importante, que o acesso às informações, a forma que a gente fala e divulga a questão do suicídio, tem um impacto muito grande na região. Isso é sabido há algum tempo. A questão que nos chama a atenção é o fato de ser uma região com maior qualidade de vida e ainda assim com índices de suicídios muito altos. Isso mostra que está faltando alguma coisa, que não é só um bem-estar e uma questão de qualidade de vida geral. [O que falta?] Uma questão bem primordial, quando a gente olha os dados de quem comete suicídio, a maior parte são pessoas solteiras, descasadas, separadas ou divorciadas, e viúvos. Um aspecto de como lidar com o estar sozinho no mundo. Volta à necessidade de se ter uma rede de apoio, de ter pessoas com quem contar para se sentir menos sozinho no mundo e a necessidade de interação. [E no caso de uma criança?] O que precisa entender na criança é que, como ela tem uma forma de entender o mundo que não compreende todas as possibilidades da análise que a gente tem enquanto adulto, por uma questão de desenvolvimento, ela não sabe com o que ela está lidando. Se vê muito, principalmente, nessa questão ligada à internet, bonecos, brinquedos que falam ações pra fazer. A criança, muitas vezes, não consegue analisar todo o impacto do risco daquilo que está fazendo. Não que ela não entenda que aquilo é legal ou não legal, mas ela não tem a perspectiva do impacto que aquilo pode gerar pra ela e pros outros. Esse aspecto é necessário de termos em conta: a criança tem menos habilidade para entender o risco que aquilo traz. Daí ela faz algo como uma brincadeira e não percebe que essa brincadeira pode gerar um risco ou impacto muito grande. Esse é um olhar diferenciado. O primordial é o acompanhamento dos pais, a abertura ao diálogo, para que a criança se sinta à vontade de conversar com os pais e inclusive sobre aquilo que ela está angustiada, preocupada ou com dúvida.

DIARINHO A senhora faz alguma relação entre suicídio e um maior uso de redes sociais? Há agora uma geração que já nasceu fazendo uso intenso de internet. O que a psicologia já estudou sobre este tema?
Marina: Não há muitos estudos que possam referenciar isso, mas a questão do suicídio é uma questão bem intrigante para nós, tendo em vista que a gente tem, quase sempre, um ideário, um imaginário de porque, quais atos levam ao suicídio, mas não se consegue dar conta do fenômeno como um todo. Isso é interessante com relação aos suicídios porque quando se pensa as redes sociais, nós temos estudos que demonstram que há um tipo de depressão, que está sendo classificada como parte das depressões, que diz que há depressão em função daquilo que a gente vê nas redes sociais, dessa ideia que está todo mundo feliz, todo mundo fazendo alguma coisa da vida e eu não estou ali, não estou fazendo nada disso e isso acaba desencadeando sintomas depressivos. Isso já existe. Estudo que mostre que as redes sociais têm gerado algum impacto no aumento dos casos do suicídio, não tem muita coisa. Porém, sabemos que a forma como é noticiado o suicídio, aí independe se no jornal impresso, na internet ou na TV, isso gera um impacto no índice do suicídio.

DIARINHO Há dados estatísticos que investiguem os casos de suicídio considerando as condições econômicas de cada grupo? Há algum grupo com casos mais numerosos?
Marina: Temos algumas informações: temos pouquíssima diferença entre homens e mulheres. O índice varia pouco entre homens e mulheres, mas não temos em relação a uma classe social, a uma condição socioeconômica. É mais comum pessoas que cometem suicídio terem o ensino fundamental incompleto. São pessoas que têm menor nível de instrução. Menos anos de estudo. Um viés que se olha bastante: o fato de a pessoa ter menos estudo, faz com que ela não enxergue outras possiblidades para lidar com algumas situações de vida. Obviamente, a gente não relaciona a questão de tempo de estudo, mas uma questão social, de vínculos e rede de apoio que é necessário olhar também. Em uma relação socioeconômica não, porque se tem a questão do tempo de estudo, tem pessoas que tem uma condição socioeconômica elevada mesmo tendo pouco tempo de estudo, então não temos dados que correlacionem a uma relação socioeconômica, mas sim da quantidade de anos de estudo e até que série frequentou.

DIARINHO Qual o caminho para uma pessoa que passa pela depressão ou por algum tipo de sofrimento emocional buscar ajuda através da rede pública?
Marina: Importante salientar um aspecto: quando a gente fala de depressão, por exemplo, e tende a relacionar ao suicídio, os casos onde algum transtorno psicológico associado ao suicídio são menores do que os casos onde o suicídio é cometido sem nenhum transtorno. Isso é importante quando se pensa em políticas públicas para a prevenção do suicídio. Nem sempre se está relacionado a um caso de transtorno mental e psicológico. Quando se fala de rede de apoio, com políticas que existam em espaço de atendimento, Itajaí conta com a rede CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), e ele oferece o mais variado tipo de atendimento. Tem CAPS específico para transtornos mentais e específicos para criança e adolescentes, específicos para usuários de álcool e drogas. Há médicos, psicólogo, terapeuta ocupacional nessa rede. Também tem nas unidades básicas de saúde, a equipe do NAS, que dá apoio. A estratégia da família, que conta com psicólogos que podem colaborar no atendimento. A Univali, por exemplo, conta com a clínica de psicologia, que presta atendimento comunitário e gratuito. [Quando a pessoa deve procurar ajuda?] Eu brinco muito com as pessoas: “ajuda o psicólogo a te ajudar”. Não espera chegar em um quadro muito complicado. As pessoas têm a ideia: “eu vou procurar um psicólogo se eu sou doente, se sou louco ou se eu tiver algum problema”. O trabalho do psicólogo é trabalhar a função de ensinar você a se perceber, como você é, como você funciona, como lida como algumas coisas. A função primeira é você estar sentindo algum tipo de desconforto, mal estar, e não conseguir encontrar resposta nas pessoas que estão ao seu redor, em um amigo, pai, mãe. Se tem algum mal estar, alguma situação que você não está tendo a resposta que encaixe, que faça sentido, procure um psicólogo. Antes que se torne um problema mais sério. Procure um profissional que fica mais fácil agir preventivamente.

“A gente precisa abrir espaço para entender e contextualizar essas ações de violência, é necessário que as pessoas se responsabilizem pelos comportamentos violentos, mas não é o suficiente para resolver o problema”

NOME: Marina Corbetta Benedet
NATURAL: Joinville
IDADE: 36 anos
ESTADO CIVIL: união estável
FORMAÇÃO: Graduação em Psicologia pela Universidade do Vale do Itajaí (2004), especialização em Psicopedagogia Escolar e Clínica pela Universidade da Região de Joinville (Univille) e Instituto Superior de Educação e Pós-Graduação (ISEPG), mestrado (2007) e Doutorado (2013) em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina.
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: Trabalhou na prevenção de violências sexuais contra crianças e adolescentes; psicóloga da rede municipal de saúde de Balneário Camboriú; professora da Avantis e Unifebe. Professora do curso de Psicologia, Fisioterapia e Nutrição da Univali. Faz atendimento clínico em consultório particular.

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