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Artista Lucas David

Mais de 40 anos de experiência em palcos e bastidores de São Paulo e Santa Catarina. Ator, diretor, bailarino, coreógrafo, figurinista, carnavalesco. Aos 60 anos, Lucas David continua em cena e fazendo história no mundo da arte catarinense. E melhor, bem pertinho da gente. Além das direções e atuações em espetáculos pelo estado e fora dele, mantém em Penha uma casa de artes alternativa, onde forma atores e apresenta peças a preços populares. Muitos desses espetáculos com forte crítica social, mas sem perder a poesia jamais. Ao jornalista Sandro Silva, Lucas David contou um pouco de seu trabalho (tanto o convencional quanto o underground), comentou sobre a reação conservadora que prejudica a arte e os artistas, falou da importância do trabalho com jovens de periferia, lembrou da relação com o parque Beto Carrero World e, claro, deixou dicas sábias a jovens atores e bailarinos. Os cliques são de Lalo Bocchino.

Nome completo: José Luiz dos Santos
Idade: 60 anos
Natural de: Franca/SP
Estado civil: Solteiro
Filhos: Não os têm
Formação: Pedagogia e cursos de dança e teatro
Experiências profissionais: Ator e diretor de teatro, bailarino, coreógrafo, figurinista, carnavalesco, mágico, dublador

“A arte é livre; transgressora por natureza”

“Está havendo uma regressão intelectual, política. Coisas que a gente vivenciava 30, 40 anos atrás, hoje parecem totalmente cerceadas”

“Eu vejo o Carnaval como uma grande ópera, uma ópera popular, onde você pode trabalhar com o sagrado, o profano e o político”

DIARINHO – Apesar de manter trabalhos de teatro e dança em Joinville e São Paulo, você resolveu montar no Gravatá, em Penha, uma casa de artes com cursos para a comunidade e espetáculos a preços muito populares, que não passam de R$ 20. Como funciona essa iniciativa, quem a mantém e por que justamente em Penha montar essa casa de artes?
Lucas David – Eu trabalhei no Parque (Beto Carrero World) e houve um momento que percebi a carência de formação de pessoas, de profissionais nessa área. Então, como eu precisava de um espaço para poder criar e recriar, eu achei interessante que a gente tivesse esse espaço. Comprei esse terreno e hoje a gente vive com muita doação, das produções, daquilo que eu faço e de um grupo de amigos que acreditam nisso, que fazem teatro e dança comigo e estão ali apoiando. Nós não temos no momento nenhum apoio oficial. É tudo fruto da nossa batalha do dia a dia. [Vocês fazem apenas cursos no espaço? O que acontece lá?] Sim, nós fazemos cursos, fazemos oficinas. Ali temos um ateliê que a gente pode produzir figurinos, cenários, adereços de cena. Tem grupos que vão pra lá e ficam ali internados conosco. A gente pode dirigir espetáculo, fazer a parte da dramaturgia e eles saem dali com o espetáculo pronto. [E a comunidade pode procurar o espaço?] Sem dúvida! A comunidade deve procurar. Apesar da gente estar lá há mais de 20 anos, muita gente não sabe que a gente existe.

DIARINHO – No circuito teatral da região os espetáculos custam na faixa de R$ 50 a R$ 70. Você cobra não mais que R$ 20 por bons espetáculos. Como consegue?
Lucas David – Olha, é uma coisa bem bacana. Eu tenho que agradecer muito, por exemplo, para o grupo Armação, que é de Florianópolis. Aliás, o mais antigo de Santa Catarina. Agradecer companhias como a de Sandra Baron, como o Lamparina, de Jaraguá do Sul, algumas pessoas de Joinville. Porque essas pessoas também veem a nossa batalha e vem exatamente espontaneamente para fazer os espetáculos e ajudar o movimento da arte em si e para poder ajudar o espaço. Senão a gente não conseguiria.

DIARINHO – As peças que você dirige costumam trazer uma forte crítica social. Foi o caso da releitura que fez recentemente do Auto da Barca do Inferno, uma obra de 1517 que denunciava a hipocrisia e a corrupção em Portugal e que você relacionou com a situação do Brasil. Numa época atual em que a TV e os programas que se limitam ao entretenimento pelo entretenimento são a porta de entrada de muitos artistas, o teatro ainda vale como fomentador de reflexão de problemas sociais e culturais?
Lucas David – Eu acho que sem dúvida e isso se torna muito importante. Porque o teatro é uma ação artesanal, ao vivo, onde a plateia está participando. Pra gente chegar até o momento da apresentação, existe um estudo, um preparo, todo um tempo de dedicação para isso. E a arte em si ajuda as pessoas a refletirem, a ser tornarem seres mais críticos e também a descobrir que pode ser criativo para a sua própria vida.

DIARINHO – Sua experiência como professor de dança e teatro com crianças e adolescentes em situação de risco em Navegantes ou de periferias como o bairro Iririú, em Joinville, mostraram que realmente a arte pode fazer a diferença na vida desses jovens ou essa é uma luta inglória, que na prática tem poucos resultados?
Lucas David – Acho que é extremamente importante. Costumo dizer uma frase: A arte salva!. Salvou a mim e salva todas as outras pessoas. Porque você descobre uma forma poética de refletir sobre a vida e recriar a sua vida. Você não precisa ser vítima. Você pode ser guerreiro e se tornar um herói. Antes desses trabalhos, eu, bem jovem, já fazia um trabalho em São Paulo, na Febem e em algumas prisões. Eu acho que a arte é extremamente importante e necessária para o ser humano em geral. [Como é que esse público que vive à margem da sociedade, que paga um preço por viver num país de grandes desigualdades sociais reage quando um ator chega pela primeira vez para apresentar esse universo da arte, diferente do cotidiano dele?] Há um estranhamento. Esse estranhamento é sempre positivo. Primeiro que eles têm um contato com algo completamente novo. Muitas vezes a gente vai lá e recria um trabalho sobre a vida deles mesmos. Aquilo que antes viam como uma coisa normal e cotidiana, você começa a mostrar que pode ser mudada, pode ser melhorada desde que eles sejam agentes transformadores. Acho que a arte precisa provocar, inquietar, fazer com que as pessoas tomem uma atitude. É bem bacana o resultado.

DIARINHO – Você foi por dois anos (2007 e 2008) o figurinista da escola de Samba Coloninha, de Florianópolis, e também carnavalesco (2012) da escola de samba Michel Curru, de Itajaí. O Carnaval continua sendo um espaço de arte popular onde as camadas mais pobres podem extravasar e também fazem sua crítica social ou virou apenas um grande evento midiático e com interesses mais econômicos do que culturais?
Lucas David – Infelizmente, acho que o final da sua pergunta tem toda a razão. Eu vejo o Carnaval como uma grande ópera, uma ópera popular, onde você pode trabalhar com o sagrado, o profano e político junto, na mesma mostra ali, do samba-enredo, que é a dramaturgia do espetáculo. Mas estamos num momento em que as pessoas estão desencorajadas ou então escapando pelas laterais, na dependência de que alguma pessoa, alguma instituição ou uma prefeitura vá ajudar nessa construção. E isso não acontece. Acho que é necessário ter uma injeção de ânimo do carnavalesco e da comunidade em si para se expor na avenida. O Carnaval é sagrado e é profano. As pessoas precisam desse espaço para poder refletir e levar suas histórias para a avenida. Eu gosto muito de Carnaval. Lamentavelmente, hoje, a gente só vê um grande espetáculo. O trabalho da comunidade, em si, não está acontecendo ou então não aparece. [O que está provocando esse retrocesso do Carnaval como cultura popular, que mostra as mazelas e que também brinca com elas?] Eu acho que virou um produto. Um produto que você vende pro turista. Pelo capitalismo, as pessoas querem ter um lucro nisso. Acho que é meio complicado fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Mas é necessário que se faça nos dias de hoje. Acho que tudo isso está acontecendo e fazendo com que a gente deixe de fazer bons carnavais.

DIARINHO – Há o crescimento de uma onda muito conservadora no Brasil e os artistas têm sido algumas das vítimas principais desse movimento conservador. Você, que já tem mais de 40 anos nos palcos, qual o seu olhar sobre essa situação?
Lucas David – Olha, eu acho de certa forma assustador. Está havendo uma regressão intelectual, política. Coisas que a gente vivenciava 30, 40 anos atrás, hoje elas parecem totalmente cerceadas. As pessoas com um olhar mais de maldade do que de crítica, nos impedem ou não respeitam a poética da criatividade. [Pode dar um exemplo?] Recentemente teve esse problema no MAM, com um artista fazendo uma performance. Acho que as pessoas estão cerceadas e ao mesmo tempo censurando mais com maldade, com medo da liberdade e talvez incapacitadas de ver as coisas como elas são, com poesia. A arte é livre. Ela é transgressora por natureza. Não é possível fazer arte se eu não tiver a possibilidade de transgredir poeticamente. [O nu artístico, como aquela performance no MAM e que gerou polêmica nacional, não é uma novidade na arte brasileira?] O nu artístico não é novidade em lugar nenhum. Se você ver desde a Grécia antiga ou no Renascentismo, a nudez é bela. O corpo humano é belo, em qualquer forma, em qualquer idade. Não vejo nisso um problema. Acho que o problema está nos olhos de quem vê e que, às vezes, não consegue entender. Ligando isso ao Carnaval, uma das descrições mais lindas e poéticas que eu vi foi o Joãozinho Trinta fazendo a fonte da Cinelândia no Carnaval ‘Banquete dos Mendigos’, inspirado na ópera dos ‘Três vinténs’. Era uma negra linda, fazendo a deusa, por ela caindo a água e as crianças de rua tomavam banho. Isso é extremamente poético. Naquela época foi muito legal. Hoje eu não sei como as pessoas veriam.

DIARINHO – Durante 10 anos você trabalhou no parque Beto Carrero World. Atuou como coreógrafo, figurinista, preparador de elenco, mágico, diretor do corpo de baile e coordenador do ateliê de produção de shows. A relação que Beto Carrero tinha com os artistas era de respeito e reconhecimento ou havia exploração sobre os artistas? Mudou alguma coisa com a morte de Beto Carrero?
Lucas David – Bom, na época em que trabalhei no parque, eu e os outros artistas acho que a gente tinha um espírito mais romântico. O Beto Carrero era uma pessoa muito sedutora, mas era um empresário. Ele visava o lucro daquilo que ele tava investindo. Nós fazíamos magia na questão da própria sobrevivência do parque. A gente conheceu aquilo quando as ruas nem calçadas estavam. A gente acreditava. Fazia parte daquele sonho. A realidade do Beto Carrero, eu vejo que ele tinha uma visão de que aquilo era uma empresa e traria bons lucros. Não vejo o Beto como um artista. Até acho que de repente éramos artistas um tanto quanto iludidos por esse romantismo. [Mas havia uma relação de exploração sobre os artistas?] Olha, trabalhei no parque no momento em que não existia registro [na carteira de trabalho], não existiam salários, não existia um profissional reconhecido. Acho que agora a empresa é mais empresa e talvez obedeça algumas regras trabalhistas do país. Na época isso não acontecia.

DIARINHO – Há 33 anos você participou da comissão organizadora do 2° Festival de Dança de Joinville. Naquela época já imaginava que o festival ia crescer a ponto de ser uma referência internacional? O festival se mantém fiel aos seus principais objetivos, que é o de popularizar a dança?
Lucas David – Não sei se ele se mantém fiel a isso. Na época nós tínhamos uma visão também romântica de que a arte pudesse vir a agregar, unir e desenvolver o ser humano e a própria arte em si. Hoje vejo que o festival de Dança está em função do turismo. Nós não temos em Joinville nenhum edital que favoreça a produção de dança. Nenhum mantido pela prefeitura ou muito menos mantido pelo instituto Bolshoi. [Isso durante o ano, fora do período do festival de Dança?] Isso. Durante o ano, fora do festival, você não vê trabalho. Você não tem um edital de apoio à produção de dança em Joinville. O que acontece no mês do festival, que é julho, você tem ali 70%, 80% de produção que vem de fora. Dentro de Joinville nós temos escolas que estão ali lutando por seus espaços. Também uma outra coisa que eu sempre questionei foi o festival ser uma competição. Acho que já temos guerra demais, competição demais. Acho que deveria servir para agregar, unir e ajudar. Existem mostras de arte que envolvem teatro, dança, música em diversos lugares do mundo. Acredito que nós precisamos desse tipo de troca e não de alguém lutando e pagando para ver se é melhor do que o outro.

DIARINHO – Você chegou a fazer dublagem de filmes estrangeiros. Como foi essa história?
Lucas David –É curioso e é muito interessante. Até mesmo porque eu tenho uma certa inibição com a minha imagem, com a minha voz. Trabalhei num estúdio que na época se chamava Sildo Som e Imagem. E ele fazia dublagem de filmes e fazia também novelas de rádio. Pude participar disso e foi uma experiência muito boa. Porque, como ator, você ser dirigido só através da sua voz, tendo uma pessoa que fica ali dizendo “ó, é mais grave, é mais isso…” Foi uma experiência muito bacana. Eu gosto muito de cinema e então foi uma maneira de estudar tecnicamente essa questão da produção de cinema. Acho muito legal. O dublador é um profissional. Eu não segui carreira. Quis estar em outro lugar, quis estar no palco. Estar colaborando com o palco, para mim, era mais vital. Mas para mim era uma experiência muito bacana, divertida. Mas exigia muito da gente. [Dublagem é arte?] Eu acredito que sim. Existem muitas questões do tipo: ‘isso é arte, aquilo não é arte’. Os gregos denominavam arte quando você, insatisfeito com aquela realidade, recriava em cima daquilo. Por isso, quando nós éramos crianças, os nossos pais diziam “para de fazer arte, criança”. Porque a gente tava fazendo alguma coisa que não era convencional. Acho que a arte é isso, quando você consegue pensar poeticamente numa transformação.

DIARINHO – O que é mais importante para um ator ou bailarino, os holofotes ou o palco?
Lucas David – Eu acho que é o que ele pretende fazer com isso. Porque se ele tem uma consciência enquanto artista, enquanto um instrumento muito importante da sociedade, ele vai estar fazendo bem seja na rua, com holofote ou não, seja num palco italiano, seja numa arena. Acho que ter essa consciência da importância do exercício da arte seria o mais importante. Nós não podemos acreditar que todo mundo é artista. Temos por aí muitos egos inflamados que realmente precisam de holofote e luz Led.

DIARINHO – Esta semana você participou do Natal da Sacada, um grande e tradicional evento do clube Harmonia Lyra, de Joinville, com espetáculo gratuito e apoiado pela prefeitura da cidade. Nessa relação da arte com o poder público, não há sempre o risco dos artistas e suas obras virarem reféns do que querem e pensam administradores e políticos?
Lucas David – Acredito que sim. Mas vivemos num país que é muito difícil você viver de arte. Eu nunca abandonei nem me distanciei da arte. Essa é uma maneira de você também estar lá, no poder público, e fazer um pouco daquilo que você pensa. Eu, particularmente, acho que o Natal é visto mais como um instrumento do capitalismo do que realmente uma coisa de fraternidade. Mas o trabalho que a gente fez ali envolve atores, músicos, cantores. Participam conosco 85 crianças de um orfanato. Então existe também uma humanidade. Acho que o poder público tem obrigação, sim, de favorecer que isso aconteça.

DIARINHO – Você tem mais de 40 anos de carreira como artista. É ator, diretor, bailarino, coreógrafo, figurinista. Qual a dica e o conselho carinhoso que você deixa para o ator ou para o bailarino que começa a encarar a vida artística?
Lucas David – Primeiro que perceba se é isso mesmo o que quer da vida. Porque não é fácil. Agora, se ele deseja isso, se ele sente uma necessidade muito grande, acho que ele é muito bem-vindo e acho que ele deve abrir a mente e o coração. Porque a gente está sempre aprendendo. Buscar, trocar com as pessoas, experimentar. A arte é vivencial. Artista não pode ficar só na teoria. Tem que pesquisar também e botar isso em prática. A gente faz arte e aprende arte fazendo arte. [Se ganha dinheiro fazendo arte?] Sim, é possível ganhar, sim. Se você, principalmente, souber administrar. Quando as pessoas chegam lá na LD Casa das Artes vão ver que nós temos dinheiro no banco. Mas nós vamos ter 250 figurinos, você vai ter 30 spotes, você vai ver máquina de fumaça, muitas cortinas. Isso é poder, é dinheiro empregado. A gente consegue viajar pra apresentar. Acredito que sim. Por exemplo, todos os atores que estão trabalhando conosco nesse evento do Harmonia Lyra estão ganhando um cachê. Está legal. [Então é possível sobreviver da arte…] É possível. Talvez você não fique milionário, como outros já ficaram, mas é possível, sim.

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Um comentário em “Artista Lucas David

  • 06/06/2018 em 01:03
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    Fui bailarino na Movimentus in actus cenicus, escola de dança e teatro Lucas David. (Perdoem-me se escrevi errado).
    Participei de três festivais de dança de Joinville e fui premiado com segundo lugar por Joana Dark, contemporâneo Júnior II em grupo e como bailarino revelação do ano. Só tenho a agradecer por tudo que o Lucas me ensinou e por ter me dado bolsa integral pra fazer qualquer aula gratuitamente. Isso tudo aconteceu há uns trinta anos, foram cinco anos intensos. Fiz clássico, jazz, teatro, contemporâneo, circo, desfilei em escola de samba, etc. Obrigado por tudo Lucas, fosse amigo e mestre e me acolhia como um pai.

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