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Presidente do Instituto Espaço Silvestre Lígia Jahn

Talvez você não saiba, mas um dos mais importantes trabalhos de reintrodução de aves silvestres na natureza de todo o Brasil fica em Itajaí. E numa propriedade particular. O que começou com um trabalho voluntário da empresária Lígia Jahn e de algumas amigas, acabou se tornando referência nacional na recuperação e soltura de papagaios-de-peito-roxo. Neste Entrevistão, você vai saber um pouco do trabalho da ONG Instituto Espaço Silvestre e conhecer a história de Lígia, que tinha aves em cativeiro e hoje luta para levar de volta à natureza o que homens e mulheres tiraram de lá. A entrevista foi feita pelo jornalista Sandro Silva. Os cliques são da jornalista Franciele Marcon.

Nome completo: Lígia Filomena Poletto Jahn
Idade: 46
Natural: Curitiba
Estado civil: Casada
Filhos: Não
Formação: Ensino médio
Experiências profissionais e de militância ambiental: Presidente do instituto Espaço Silvestre e atuou 18 anos no mercado fotográfico como editora e importadora de equipamentos.

“Não é saudável para um animal [silvestre] viver em casa. Apesar de parecerem felizes, eles não estão”

“Quando a gente tava trabalhando com as aves percebeu que um dos motivos de ter sido extinta naquele local – e ela estava extinta lá há 25 anos – foi porque as pessoas capturavam para vender como animal de estimação”

“Os papagaios são treinados para que possam reconhecer predadores, buscar alimentos, e para voos”

DIARINHO – Poucas pessoas sabem, mas Itajaí é a base de um dos projetos de reintrodução de aves silvestres na mata nativa mais importantes do Brasil. Pode contar como funciona isso?
Lígia Jahn – O nosso projeto começou em 2010. É o projeto de reintrodução do papagaio-de-peito-roxo no parque Nacional das Araucárias. É o projeto referência de reintrodução de aves no Brasil no momento. O único que foi autorizado dentro de um parque nacional. A gente recebe as aves vindas dos órgãos ambientais, como polícia Ambiental, Fatma, Ibama. E a partir desse momento a gente começa uma criteriosa seleção na parte de veterinária. A gente faz diversos exames de saúde e começa um treinamento para que eles possam voltar à natureza. Os papagaios são treinados para que possam reconhecer predadores, buscar alimentos, voos. E aí, depois, os papagaios que passam por esses testes vão ser soltos no parque Nacional das Araucárias, que fica no Meio Oeste. O parque pega duas cidades. Passos Maia e Ponte Serrada. Os papagaios são soltos na cidade de Passos Maia. Mas eles cruzam, vão até Ponte Serrada, porque são cidades muito próximas. Depois da soltura, a gente faz todo um monitoramento. Um monitoramento mensal. A nossa equipe fica monitorando as aves. Faz educação ambiental com as pessoas da comunidade e também um projeto de geração de renda. E por quê? Quando a gente estava lá trabalhando com as aves percebeu que um dos motivos da extinção naquele local – e ela tava extinta há 25 anos – foi porque as pessoas capturavam para vender como animal de estimação. [Já não havia mais papagaio-de-peito-roxo no parque Nacional das Araucárias?] Naquela região já estava extinto há 25 anos.

DIARINHO – Como é que nasceu a ideia da criação da ONG Espaço Silvestre?
Lígia Jahn – Na verdade, são duas histórias que se misturam. Uma é a do instituto Carijós, que é uma ONG que começou para poder implementar o plano de manejo da estação ecológica de Carijós, que fica em Florianópolis. Era um grupo de biólogos muito apaixonados e que fez o plano de manejo, o plano de educação ambiental dessa estação ecológica. E quando ela foi assumida pelo ICMBIO [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade], a ONG, na verdade, perdeu a função. Eles fizeram vários outros projetos na grande Florianópolis. Foi uma ONG de grande sucesso. Já desde 89 ela trabalha. E quando a gente conheceu… A gente, eu digo, é o Espaço Silvestre, que era um grupo de amigas que se reuniam para poder tentar fazer com que acontecesse o processo de reintrodução. Eram amigas que voluntariavam no Cetas [Centro de Triagem de Animais Silvestres], em Florianópolis, que é o lugar onde o Ibama coloca o centro de Triagem dos Animais Silvestres. E elas viam que esses animais estavam extintos na mata e estavam lá em cativeiro sem uma destinação adequada. E aí, a Vanessa Kanaan, que é a idealizadora do projeto, começou a buscar uma forma de conseguir fazer a soltura desses animais, de reintroduzi-los na natureza, fazer toda uma pesquisa. E quando ela acabou, conseguiu ter esse projeto pronto, a gente conseguiu o pessoal do instituto Carijós e houve a fusão das duas ONGs. O grupo informal Espaço Silvestre se uniu ao instituto Carijós. A reintrodução, a primeira, foi em 2010.

DIARINHO – A primeira reintrodução do pagapaio-de-peito-roxo no Parque Nacional das Araucárias, no meio oeste catarinense, foi há sete anos. Quantas aves já voltaram à natureza?
Lígia Jahn – São 113 aves. E a gente já teve registros de filhotes nascidos lá. [Quantos?] Na verdade, a gente não tem ao certo porque muitos papagaios se embrenham mata adentro e você não consegue ver. Mas já houve registros. Dois filhotes foram resgatados e a gente já viu mais dois filhotes, acompanhamos os pais e os viu. Mas teve registros de ovos também. Então é difícil precisar o número de filhotes que já nasceram.

DIARINHO – Essas aves que são reintroduzidas têm algum equipamento eletrônico para o monitoramento ou esse monitoramento é feito visualmente?
Lígia Jahn – De várias formas. Elas, sim, têm, além do microchip, anilhas e um rádio-colar, que a gente consegue monitorá-los com uma antena. Agora a nossa equipe vai ficar três meses consecutivos observando, porque acabou de fazer uma nova soltura, há 15 dias. Então é por audição e também por visualização. Mas acho que a forma mais efetiva de monitoramento é o ‘cidadão cientista’. Quem são os ‘cidadãos cientistas’? São as pessoas que moram no entorno do parque e que aceitam participar e sempre que visualizam o papagaio, acabam entrando em contato e dizendo as condições. Se os papagaios começam a se aproximar de uma propriedade, essas pessoas são treinadas, recebem uma câmera, e a gente vai lá todo mês buscar esses dados. As pessoas são treinadas a coletar os dados.

DIARINHO – Há então o apoio da comunidade que mora na área de amortecimento do parque ou há quem torça o nariz para esse projeto? Como é esse relacionamento com a população local?
Lígia Jahn – Vou te dizer que quando fui buscar um trabalho voluntário, eu escolhi trabalhar com animais porque é onde eu tinha mais empatia. Eu não pensava que iria me apaixonar por pessoas. E realmente eu me apaixonei pelas pessoas que moram no entorno do parque, porque é incrível como elas abraçaram a ideia. De repente, um animal que estava extinto lá, há 25 anos, hoje em dia é um dos símbolos da cidade, né!? A população local votou na logo do parque e eles escolheram o papagaio-de-peito-roxo para estar na logo do parque. De tanto que eles abraçaram essa ideia. Por isso, uma das melhores formas de monitoramento é o ‘cidadão cientista’. As crianças são muito engajadas. As prefeituras abraçaram a ideia. Todos os ônibus escolares, os carros de saúde têm a campanha estampada. Não tem do que reclamar. Foi uma receptividade muito grande.

DIARINHO – Registro de caça ou tráfico de animais tem havido no parque?
Lígia Jahn – Sim. No local tem registro de caça. Mas lá a caça que acontece é a caça ao javali, que é um animal exótico e que tem muito. Na verdade se perdeu o controle, né? A população está fora do controle. Mas, com relação ao papagaio, eu não vejo mais as pessoas do local fazendo algum mal para o papagaio. Já ocorreu caso de um papagaio que foi retirado. Um papagaio do projeto. Isso no primeiro ano, na primeira soltura. E foi levado para o Rio Grande e a gente conseguiu recuperar esse papagaio. Mas da população local, não. Talvez alguma pessoa que venha de fora, pode ser que faça mal. Mas eu vejo que a população local não só abraçou a ideia, como começou a entender que não é o papel do papagaio estar dentro de casa como animal doméstico. Tanto que a gente, todo ano antes de começar a coletar um grupo para soltura, faz uma campanha de entrega voluntária. E no último ano, já, teve 16 papagaios entregues voluntariamente pela população. É bom até dizer que quem entrega voluntariamente não tem nenhuma punição, não recebe multa. Mas se essa pessoa for pega com um animal ilegal, ela tem uma multa de até R$ 10 mil, conforme a situação. [E também há o fato do crime ambiental?] Sim, é crime.

DIARINHO – Até algum tempo, era comum ver papagaios e araras sendo criados como animais domésticos. Hoje muitas pessoas ainda têm essas aves em casa e algumas até as tratam como membros da família. Há quem critique isso e até faça denúncia ao Ibama. É saudável, para o papagaio que está há mais de 20 anos com uma família, por exemplo, retirá-lo desse ambiente e confiná-lo num zoológico ou outro espaço? Essa ave pode voltar à vida silvestre?
Lígia Jahn – Sim, consegue. A gente já reabilitou um papagaio que tava há mais de 25 anos com uma família e que foi reabilitado, foi solto e ficou bem no parque. Se adaptou à nova vida. E eu vou te dizer, agora, um pouco da minha história pessoal. Porque parece que a gente é coooontra [ressaltou a palavra] as pessoas que têm animais em cativeiro. Eu comecei a entrar nesse trabalho porque eu tinha uma arara que eu mantinha em cativeiro. Uma arara legalizada. E quando eu chamei um veterinário especializado em vida silvestre pra me ensinar como eu deveria fazer o trato, a primeira coisa que ele falou foi assim: “Lígia, princípio básico de uma ave é voar. Não adianta você deixar ela solta se você poda as peninhas dela. Ela precisa do exercício do voar até para manter a saúde em dia, para não ter atrofia de músculos e tudo o mais. Então é melhor você botar num viveiro grande do que deixar solta com essas peninhas podadas”. Isso é uma coisa mais comum, né!? A maioria dos papagaios que a gente recebe vem com as penas podadas. A alimentação que eu dava não era correta. Porque eu dava sempre muito girassol. Às vezes as pessoas dão pão, também. Dão bolacha, café. Isso não faz parte da dieta da ave. Até o girassol pode dar, mas ele é muito gorduroso. O papagaio, na natureza, come flor, come fruta, come folha, come semente. E, às vezes, até alguns minerais que a gente não sabe. Então, além de tudo, eu fazia a alimentação errada. E eu achava que ela era muito feliz, porque vivia sempre comigo, no meu ombro e era muito carinhosa. Ela trocava muito carinho e foi onde ele me explicou que a biologia de todos os psitacídeos, da arara, do papagaio, é que eles vivem em bando e eles têm sempre um parceiro. E que na falta de um parceiro – e isso é tão forte na biologia deles – eles buscam um humano como parceiro. Mas eles vivem frustrados, porque humano não consegue fazer os comportamentos que eles esperam de um parceiro, que é regurgitar um no bico do outro, é catar as peninhas e tudo o mais. Uma série de comportamentos. Então é um animal que vive frustrado. Então eu fiquei tão impactada, porque eu não tinha percebido aquilo até então. Apesar, de agora, parecer óbvio, por gostar de arara eu mantinha uma como minha “escrava”, para me fazer feliz. [Ligia se emociona]. Eu fiquei tão impactada com isso, porque, quando eu me dei conta que era uma maldade, na verdade, o que eu tava fazendo, vi que eu não sabia… Achei que eu a tratava como uma “rainha”. Aí que eu comecei a me voluntariar, comecei a trabalhar. Tinha um mantenedor de fauna e comecei a ajudar o Ibama. Comecei recebendo animais e quando conheci esse projeto, que foi quando eu conheci a Vanessa, porque eu recebi alguns papagaios-de-peito-roxo, e eu pude ver a soltura de papagaios que eu tinha em cativeiros, aí olhei e disse: “Nossa! Isso sim é que é bacana!”. A arara que eu tinha, depois que ela acasalou num viveiro com um macho, nunca mais ela chegou perto de mim. Aí que eu pude ver que ela não era feliz. Eu tinha completa convicção que ela era super bem tratada e tudo o mais. Então não é saudável pra um animal viver em casa. Apesar de parecer que são felizes, eles não estão felizes. A gente nem sequer dá a alimentação correta. Eles precisam ter um parceiro que seja da mesma espécie. Eu não tinha me dado conta disso. Que é a mesma coisa que viver numa prisão, isolada da sua família.

DIARINHO – Você preside, como voluntária, a ONG Espaço Silvestre, que fica em sua propriedade, no bairro Fazenda, em Itajaí. Como é que sua família vê essa entrega da sua parte para um projeto como esse?
Lígia Jahn – A minha família teve que se entregar junto. Porque realmente a ONG está na minha casa porque não tem verba pra ter uma sede própria. A gente até tá buscando, porque o ideal seria uma sede em Florianópolis, porque facilitaria. A maior parte da equipe técnica mora em Florianópolis. Mas a família teve que abraçar a ideia junto. Eles toparam quando eu falei que ia começar esse trabalho. Todo mundo foi parceiro. Topou. E todo mundo acorda junto, porque tem um despertador bom às seis da manhã [risadas], que é quando as aves começam a gritar. Eles sempre estão ajudando. Então, realmente, para começar um trabalho assim não é só a pessoa que tem que topar. A família tem que fazer parte também.

DIARINHO – Além do papapaio-de-peito-roxo, que outras aves há no refúgio do Instituto Espaço Silvestre? Todas elas são preparadas para voltar à natureza?
Lígia Jahn – Na verdade, antes eu tinha outras aves. Mas depois que virei presidente do Espaço Silvestre eu abri mão do trabalho como mantenedora de fauna para me dedicar a esse projeto, que é uma coisa mais ampla, né? Porque trabalha pessoas, trabalha a comunidade local. Então, hoje em dia são só papagaios-de-peito-roxo. Mas acabamos de soltar 30 aves e já temos 50 aves em cativeiro. [Todos papagaios-de-peito-roxo?] Todos papagaios-de-peito-roxo. E, sim, tem algumas aves que não conseguem ser recuperadas. Aí o que é que a gente tem feito? A gente tem feito uma parceria com zoológicos para encaminhar essas aves que não podem ser soltas pra que fiquem no zoológico, pra que possam procriar nos zoológicos, e recebermos as aves dos zoológicos que podem ser soltas e reabilitadas. O zoológico de Curitiba já mandou filhote na soltura passada. Nessa soltura o Parque das Aves, o zoológico de Brusque e o zoológico de Balneário Camboriú, o zoo Cyro Gevaerd, também enviaram animais. [As aves que não podem ser soltas, é pelo motivo de terem alguma lesão ou algo assim?] A maioria por problemas de voo. Muitas vezes as pessoas tiram o filhote da natureza e dão alimentação muito incorreta. Então, às vezes, eles têm má formação óssea, aí são tortinhos, têm problemas e não conseguem nunca voar. Então, não tem condições.

DIARINHO – Há um movimento muito forte da bancada ruralista no Congresso Nacional para tentar diminuir áreas de parques nacionais. Vocês, do Instituto Espaço Silvestre, chegaram a temer pela redução da área do parque Nacional das Araucárias? O que você acha dessa tentativa de diminuir áreas de preservação natural?
Lígia Jahn – Vou dar a minha opinião pessoal. Acho uma coisa muito burra. Até porque pra que haja uma boa produção no meio rural, também tem que ter a natureza preservada. Tudo é equilíbrio. Tudo é uma cadeia. Então, na hora que você termina a natureza, também você vai encerrando as fontes de água e a agricultura também vai por uma mau caminho. Eu acredito que lá no Parque das Araucárias não tinha essa ameaça. Até porque é um parque que tá começando a ser implantado, né? Ele foi demarcado, mas só foram indenizadas duas pequenas áreas até agora. É muito recente. São só sete anos que existe o parque. Então, aí vai começar a ser indenizado. Não acredito que lá fosse uma ameaça. Mas acho que se precisa entender que uma coisa faz parte da outra. Não adianta destruir a natureza e pensar que você vai ter uma produção melhor ou maior. É uma coisa de muito curto prazo, né!?

DIARINHO – O que você diria para quem mantém em casa um pássaro silvestre?
Lígia Jahn – Que faça a entrega voluntária aos órgãos ambientais. Eles vão tentar encaminhar a projetos de soltura. Nem todas as aves têm projetos de soltura. E, se puder ajudar os projetos de conservação, não só o nosso, mas outros projetos…. Por exemplo, agora recebemos 50 animais que precisam fazer uma série de exames médicos, e não tem as verbas ainda. Estamos batalhando. A gente não quer dizer não e não receber um animal que foi entregue. Mas a pessoa que tem em casa, entenda que não é bom, que não é saudável. Faça a entrega voluntária, se for ilegal. Se for um animal legalizado, que seja o último. Que não volte a ter. Não tem como um bicho silvestre ser feliz preso, e digo isso por experiência própria. Eu vi com a minha arara. Eu achava que todos os comportamentos que ela tinha eram naturais. Mas ela era um humano estereotipado. Ela tentava imitar o comportamento humano. Que as pessoas não tenham aves em casa. Nem aves, nem outros animais silvestres.

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