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Educador José Pacheco

“O Brasil tem gênios que 
o Brasil não conhece”

“Ao contrário do que a ‘Escola sem Partido’ pretende, a escola deve ter todos os partidos”

“[…] O educador nunca é otimista, ele é esperançoso. Porque o otimismo é da natureza do tempo, enquanto a esperança é da natureza da eternidade…”

José Pacheco, 66 anos, por muitos é considerado um gigante. Educador europeu respeitado, uma das vozes mais ouvidas na Educação em todo o mundo por sua trajetória de implantação e consolidação da revolucionária Escola da Ponte, Pacheco é sobretudo discreto, e faz jus à percepção que se tem de que por vezes, grandes nomes de determinadas área do conhecimento humano parecem nem perceber sua real dimensão. Após 40 anos do projeto ímpar de empoderamento a professores e principalmente estudantes vivido em Portugal, Pacheco prefere não falar muito sobre a Escola da Ponte, mas enaltecer as qualidades de projetos educacionais autônomos desenvolvidos ou acompanhados por ele ao longo do mundo, e em especial, no Brasil. Especialista em leitura e escrita, mestre em Ciências da Educação, José Pacheco implantou e administrou seu jeito de fazer a educação desde 1976 a 2004 até sua aposentadoria. Há 16 anos passou a orientar projetos para estímulo da Educação brasileira, e surpreende ao demonstrar o quanto conhece nossa realidade educacional, social e política. Lista com desenvoltura teóricos da educação brasileira que, lamentavelmente segundo ele, seguem desconhecidos dos próprios educadores do país. Integrante do Instituto Paulo Freire, no Brasil, e desde abril de 2011 colaborando no Projeto Âncora em Cotia (SP), que persegue a mesma gestão democrática da Escola da Ponte, Pacheco dedicou minutos de seu tempo ao jornalista Juvan de Souza, horas antes da palestra que promoveu em Barra Velha. As fotos são de Lallo Bocchino.

Nome: José Pacheco
Profissão: Educador
Idade: 66 anos
Natural: Porto, Portugal
Atuação Profissional:
Especialista em leitura e escrita, mestre em Ciências da Educação, idealizador da Escola da Ponte, projeto educacional revolucionário de Portugal

DIARINHO – Professor, o método revolucionário da Escola da Ponte, que sobremaneira transfere autonomia ao estudante e independência ao educador, ele não tem sofrido agora, na era da internet ou da chamada ‘pós-verdade’, em virtude do chamado excesso de informação ou da informação falsa e contraditória?

Professor José Pacheco – A Escola da Ponte tem 41 anos de existência. Quando ela começou, ninguém ouvia falar de novas tecnologias. Tínhamos a máquina de escrever, e um pouco mais. Hoje é realmente bem mais difícil. Mas na Ponte, como nos projetos que acompanho no Brasil, nos preocupamos em gerar nos jovens o senso crítico. Quando eles empreendem um projeto e constroem seus roteiros de estudo, o professor vai acompanhar essa descoberta, e desenvolver neles processos complexos de pensamento. O pensar sobre o pensar. Eu explico. Quando um jovem ou criança cai na internet, ele fica rodeado de uma diversidade de informação da era da pós-verdade, E aí nos preocupamos que eles saibam partir da pergunta que formularam, para extrair da internet ou do livro a informação pertinente. Selecionar; depois de selecionar, o ensinamos a analisar; depois fazer a crítica, para ver se esse conteúdo se identifica com a sua busca. E então buscar outras fontes para comparar. Avaliar a informação colhida e ver se ela é pertinente. [Uma checagem de fontes consistente…] Exatamente. Ele vai perceber que há diferenças na informação. E quando ele passa para o processo complexo seguinte, que é o síntese, ele vai por em palavras suas a informação colhida. Mas não basta. Ele tem de durante essa síntese, elaborar uma comunicação. E nesse ato, fazer com que essa informação fique útil à comunidade. Isso é legitimar a verdade da informação. Ou resolve o problema, ou então, houve uma perda de rumo na pesquisa.

DIARINHO – Pelo que o senhor conhece do Brasil e sua Educação, já há por aqui ensaios de projetos mesmo que minimamente inspirados na experiência da Escola da Ponte? Nos parece que para a Educação brasileira, por exemplo, passar a adotar essa experiência de vocês, em Portugal, seria uma ruptura abrupta demais.

José Pacheco – É uma ruptura de paradigmas. Mas no Brasil há mais de 200 projetos inspirados na Escola da Ponte, que eu conheça. E haverá muitos outros que não conheço. E esses projetos são de excelência acadêmica com inclusão social. O Brasil tem uma legislação que permite efetivamente que surjam esses protótipos de uma nova educação. E quando o Brasil vai ao hemisfério norte colher objetos para implantar no Brasil, o Brasil incorre na chamada “síndrome de vira-latas”, como falou Nelson Rodrigues – aquilo que eu conheço há 16 anos no Brasil é suficiente para poder afirmar que a melhor educação do mundo está na América do Sul; os melhores teóricos estão na América do Sul. Eu conheço dezenas de países. A Escola da Ponte obrigou-me a uma diáspora permanente, viajo há décadas. E quando meses atrás estava na Europa, apresentando projetos brasileiros, a Finlândia, que é considerada referência, calou-se, porque o melhor dos projetos que lá estava é brasileiro: o Projeto Âncora, inspirado na Ponte. Mas foi o sétimo que desenvolvemos no Brasil. Fui a sete cidades diferentes, todas elas escolas com professores extraordinários, que conseguiram passar de uma situação de analfabetismo, de evasão escolar, que são problemas críticos da educação brasileira, para uma escola onde todos aprendem, são felizes, não há qualquer resquício de indisciplina. E toda a produção de cultura e conhecimento está a serviço da comunidade. [Ainda é comum se confundir a disciplina com o autoritarismo, não é?] É. E costumo dizer que a indisciplina é a filha predileta do autoritarismo pesado com a permissividade. Como diria alguém: ‘diz-se das águas do rio que são violentas, mas nada se diz das margens que o comprimem’. A questão é essa. Quando o movimento disciplinar é elaborado somente pelo professor, sem qualquer participação do aluno; quando os combinados são impostos, quando a violência simbólica atravessa todo o ambiente escolar, então aí há a reação. Hoje já não é como 50 anos, quando comecei; havia respeito pela instituição escolar, porque era lá que as pessoas encontravam um diploma. Hoje um diploma não vale nada. E as escolas são habitadas por gente que vem de culturas que não tem nada a ver com aquela cultura da escola. Essa escola do Projeto Âncora, por incrível que pareça, está situada entre as três favelas mais violentas da periferia de São Paulo. Não há um caso de indisciplina. Não há vigilância, catraca, não há cerca elétrica. E só tem alunos das classes D, E e F. Nem classe C tem. A maioria é negra, com pais presos, assassinados, com ambientes culturais muito diferentes do que a escola dá. O que aconteceu não foi milagre. Foi aquilo que os próprios teóricos brasileiros já anunciam há décadas. Quando se perguntam aos professores brasileiros se conhecem Lauro de Oliveira Lima, é muito raro. E esse é um nome que posso colocar ao lado de Paulo Freire. Só que Paulo Freire nunca entrou nas escolas brasileiras. Vi outro dia uma ilustração: “Paulo Freire fora das escolas brasileiras”. Mas ele nunca entrou! Onde está a pedagogia freireana nas escolas? Não está. O que está nas escolas é modelo importado. Por isso digo que não quero “Escolas da Ponte” no Brasil. Não quero. [O senhor quer então que o Brasil crie modelos próprios…] Sim, e tudo aquilo em que eu participo tem como referência autores brasileiros. Claro, sem prescindir de Piaget, Vigotsky, etc. Eu tenho um Anísio da Silveira, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Anísio da Silveira, Fernandes Azevedo, Maria Neusa, é tanta gente boa no Brasil.

DIARINHO – O senhor cita nomes como Florestan Fernandes e Paulo Freire. No entanto, estes são educadores posicionados à esquerda do espectro político-ideológico. Na sua visão, a proposta de Florestan ou Freire ainda é atual? Ela transcende num mundo pós-queda do muro de Berlim e mesmo na era das redes sociais?

José Pacheco – O que sei é que a educação para a cidadania, que tanto se reclama, ela não existe. Independente da posição política, religiosa, ela que tem que ser respeitada. Eu trabalhei também com escolas brasileiras de classe A. Filhos de empresários e banqueiros. Eu não distingo estudantes. Crianças e jovens são bonitos independente de posição social. Mas penso que em qualquer projeto há ideologia. Ao contrário do que a “Escola sem Partido” pretende, a escola deve ter todos os partidos. Convívio organizado. [A neutralidade é um grande mito, não é?] A neutralidade não existe. Quando a pessoa diz que não gosta de política, ela está a fazer política, essa visão é algo que lhe impuseram inconscientemente. E aquilo que me preocupa é situar os projetos nesse espectro esquerda/direita. Tenho muitos amigos no Brasil, e entre amigos que se dizem de esquerda vejo atitudes que são muito mais de direita do que de esquerda. Não entendo. É uma confusão muito grande. Eu ainda não conheço o Brasil a cabo destes 16 anos. Estou tentando entender.

DIARINHO – Como o senhor avalia as mudanças na base nacional comum curricular no Brasil, a reforma do ensino médio, que em tese, pretende dar um pouco mais de autonomia ao aluno? O senhor tem acompanhado esse panorama brasileiro?

José Pacheco – Acompanho muito, estou em Brasília. Trabalhei com os ex-ministros Renato Janine e Aloísio Mercadante. Fui convidado para grupos de trabalho, fiz estudos sobre indicadores de boa qualidade na educação. O que eu penso, é que contrariamente ao que tem acontecido, que é quase uma unanimidade a posição contra a medida provisória do ensino médio. Quer a medida provisória, quer a base nacional curricular comum estão fora da lei. Fora da lei. Não constituem inovação, são oposições à própria lei. Mas aquilo que mais me surpreende é que tendo tantos e tão bons inspiradores teóricos, as pessoas continuam a fazer política pública de educação segundo um velho modelo do século 19. É esse modelo que nós temos, criado na França militar, na França dos conventos, na Revolução Industrial, com fundamentação filosófica no século 17. Não faz sentido nenhum no século 21. Mas quando leio na proposta curricular nacional, que no oitavo ano, o aluno tem que aprender determinadas produções, eu pergunto: “mas oitavo ano?”. Mas o artigo 23º da lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional diz que as escolas podem realizar trabalhos por anos, ciclos, classes, nível ou outra medida qualquer. Então se essa lei for aprovada só se pode trabalhar por ano. Conflitua. Mais ainda: o artigo 205, da Constituição, consagra que o direito à educação é de todos os brasileiros, todos. Já o artigo 4º da LDB diz que a educação é dever do Estado. Pergunto: o modo como ministério desenvolve política pública garante o acesso de todos? Não. Três milhões são analfabetos. Os índices de proficiência são miseráveis. E o que fazem se não aumentam essas políticas públicas? Medidas provisórias! Terá o direito o Ministério da Educação o direito de continuar dessa forma? Estou falando de ética, que falta na política brasileira. Não pode continuar trabalhando desse modo. E não estou a falar de pedagogia, e sim de lei, de ética.

DIARINHO – Um dos maiores problemas hoje no Brasil é a gestão escolar. Um país como o nosso, continental, com vários Brasis dentro dele, enfrenta os problemas mais variados, com um deles se sobressaindo: a violência. Seja a violência interna, de alunos contra professores, seja a externa, em áreas dominadas pelo tráfico, por exemplo, onde balas perdidas e tiroteios refletem diretamente não só na gestão, mas na unidade de ensino como um todo. O que fazer para melhorar a gestão escolar no País?

José Pacheco – A Constituição de um país diverso é para aplicação em todo o país. E ela indica o rumo da lei de Diretrizes e Bases, porque tem por trás valores e ideia de sociedade. A LDB, no artigo 15º, diz que deve se considerar a escola com graus progressivos de autonomia pedagógica, administrativa e financeira. Esse artigo nunca foi regulamentado. Mas quando o plano nacional de educação foi há três anos aprovado, estabelece que no prazo máximo de um ano, os Municípios, Estados, Distrito Federal, devem criar condições do exercício de gestão na prática. Quantos municípios e estados publicaram suas leis? Raríssimos. Tudo aquilo tem a ver com autonomia. Há uma estrutura hierárquica na escola. Voltando à Ponte, ela é uma escola da rede pública. Muita gente pensa que ela é particular. Ela é a única escola do mundo autônoma; é a melhor escola do país, é a mais barata. No Brasil, dos sete projetos que já acompanhei, são escolas mais baratas, o custo por aluno/ano é muito menor do que nas restantes, tem IDEB próximo do 10, porque são autônomas. Mas as escolas convencionais enviam para as suas secretarias das prefeituras ou do Estado, propostas de termos de autonomia da unidade, e aí nem resposta recebem. Então estamos numa situação bem sui generis. Temos uma lei que prevê autonomia, um plano nacional de educação que é transcrito em parte nos municipais, que requer uma gestão democrática, mas ela não existe. Eu fui diretor, fui prefeito da minha cidade, eu sei muito bem as dificuldades que as secretarias de educação encontram. O que eu vejo aqui é que realmente o diretor de escola pode fundamentar seu projeto político-pedagógico, mas se alguém de cima entender que ele fez algo com o que esse alguém não concorda, ele tem de cumprir. Tem dever de obediência hierárquica. Onde está a autonomia? Quantos professores são colocados por vereadores, é uma coisa louca isso! Não Um professor não ensina aquilo que diz; ele transmite aquilo que é. Se o professor não é autônomo, ele não vai transmitir autonomia.

DIARINHO – Falando de formação dos professores: qual rumo o senhor pensa que seria o melhor para o Brasil tomar, a fim de ter professores melhor capacitados? E como conseguir isso num prazo médio de tempo?

José Pacheco – Fui formador de professores, diretor de centros de formação, fiz uma dissertação de mestrado sobre formação de professores. Três regras simples para a formação dos professores: a primeira é o chamado conceito de isomorfismo da educação, que está em todas as teses de doutorado sobre educação. Palavra que tem do latim – “iso”, igual, a mesma, “morfos”, forma, a “mesma forma”. De maneira que todos entendam, o modo como o professor aprende vai ser o modo como o professor ensina. Segunda grande regra: quando se pensa que os professores não sabem alfabetizar, o que se faz? Vai se dar formação aos professores. Considera-se que o professor é objeto de formação, mas não é isso. O professor tem que ser considerado na sua dignidade profissional como sujeito de autoformação; toda formação do século 21 é autoformação. Tem que estar numa equipe, ser considerado sujeito e não objeto. Terceira regra, mais difícil de se perceber: quando se forma o professor, debita-se no professor o conjunto de matérias. Não adianta nada. Podem vir o Piaget, o Vigotski. Mas esse professor vai para sala de aula, o Piaget não está lá e o Vigotski fugiu (risos). O professor está entregue a si próprio, reproduzindo o modelo que lhe colocaram. E precisa pensar um pouco. São os desafios, as dificuldades de ensinagem. Não há dificuldades de aprendizagem, mas de ensinagem dos professores. É perante o desafio que ele vai procurar na informação, quer venha do livro, da internet, de uma pessoa, uma contribuição teórica. Porque não há prática sem teoria. Vai juntar essa condição teórica com a dificuldade mas também com os saberes que ele tem, para construir uma práxis.

DIARINHO – O senhor caminho naturalmente para a penúltima pergunta, ainda sobre formação de professores: aqui no Brasil, estuda-se e norteia-se muito na formação com base em Vigotski e Piaget. Mas outros teóricos importantes são praticamente desconhecidos – só para citar dois, Johann Henrich Pestalozzi e Comenius. Como popularizar o pensamento de mais educadores e pensadores, a fim de consolidar mais essa formação profissional?

José Pacheco – Piaget e Vigostki não eram professores, Piaget era zoólogo. Nunca foi professor. [Já Pestalozzi teve uma experiência direta com alunos, crianças, não é?] Sim, embora trabalhasse diretamente com os órfãos. Vamos pensar nisto: Pestalozzi entrou no Brasil no início do século 20 através de um senhor chamado Eurípedes Barsanulfo, de Sacramento, MG [do Colégio Allan Kardec, de Sacramento]. Aquilo era exatamente Pestalozzi, misturado com outros. Naquela época não havia livros de educação, não havia nada, era 1907. Nesse colégio mineiro não havia aula, não havia turma, nada disso. Pela primeira vez, um negro foi professor, pela primeira vez, uma mulher foi professora. Faziam astronomia à noite, teatro, educação integral, percursos na natureza para fazer pesquisa… em 1907! Isso 90 anos antes da primeira comunidade de aprendizagem de letras na Inglaterra. Eu tenho ido muito a Sacramento, MG, falo com a sobrinha neta de Eurípedes. Pena que não haja um museu para ele. Quando nós falamos de Maria Onilda e seus colégios vocacionais; quando nós olhamos para o trabalho de Anísio da Silveira… É importante conhecer Piaget e Vigotski, mas é mais importante conhecer o Lauro de Oliveira Lima do que traduzir o Piaget. Ver a obra de Anísio da Silveira, do que traduzir outros. [Aqui no Paraná houve a obra educacional do professor Ney Lobo, que introduziu uma pequena cidade administrativa para seus alunos…] Eu conheço. O Brasil tem gênios. Tem gênios que o Brasil não conhece. E eu tenho um livro feito com 25 desses gênios que dei a conhecer ao Brasil. Sou um portuguesinho que não entende nada de Brasil, mas que se disponibilizou a fazer uma garimpagem em bibliotecas. Não foi preciso mais do que isso.

DIARINHO – Como o Brasil avançará na Educação num momento de “Escola sem Partido”, em que vive uma onda conservadora em que setores ideológicos e religiosos retrógrados avançam contra a própria liberdade do professor em sala de aula, contestando os Direitos Humanos, os direitos das minorias, as lutas sociais? Nos parecer ser um momento triste em nível mundial…

José Pacheco – É cíclico. E nós temos que considerar que não estamos na História. Estamos na ‘proto-história’ da humanidade. Nem na pré-história estamos. Se algum antropólogo, algum etnógrafo, fizer daqui por mil anos a história deste tempo, vai considerar que estamos na proto-história. O homem ainda precisa de tribunais, prisões, guerras, para impor a sua verdade. É sinal praticamente da barbárie. E todos esses movimentos de direita têm a ver com uma característica que o Brasil tem em relação a outros países da América Latina: todos eles passaram da monarquia para a república; o Brasil não. Passou da monarquia para o império. E continua no império. Possui pequenos flashes de democracia. [Casa grande e senzala perduram então…] Exatamente. Está aí o ranço da escravatura, do nepotismo, de tudo aquilo que fez o império. Então eu não posso exigir mais… o que eu posso fazer? A minha parte. A nossa parte. Na educação, eu penso que em duas gerações, tudo muda. Mais ainda, em Brasília, o meu maior diálogo é com gente do Escola sem Partido. Eu quero dialogar, porque me coloco numa posição não neutral, porque não há ninguém neutro, mas numa posição de compreensão. Eu sei porque é eles reivindicam o que reivindicam. Porque há pessoas que fazem doutrinação na escola. Isso não é possível. Confundem doutrinação com o debate do senso crítico, a discussão aberta e plural. Fui convidado por uma das pessoas mais relevantes da Escola sem Partido para fazer a proposta educacional para sua candidatura a governador. E vou fazê-la! Com absoluto respeito. Tenho amigos da extrema esquerda à extrema direita. Claro que eu não vou com o Jair Bolsonaro. Quem faz apologia à tortura não merece. Mas sou capaz de lhe escutar. Eu estava numa reunião com 2.100 professores e subitamente houve uma discussão depois da eleição da Dilma Rousseff. Um era contra a Dilma, o outro era contra a Marina, contra Aécio… O evento era sobre educação para a cidadania. Perguntei aqueles 2.100 professores: “colega, não quero saber qual é a chapa que tu escolhestes, mas algum é capaz de dizer a proposta de seu candidato no campo da educação?”. Sabe aquele silêncio? Aí perguntei: porque é que votaram? Eu tenho um grande apreço pela educação brasileira, mas há um grande déficit democrático, cidadão, e é na escola que se aprende.

DIARINHO – O senhor como educador e humanista, fala em melhoria na educação daqui a duas gerações. A sua posição portanto, apesar desse cenário, é otimista?
José Pacheco – Não, não sou otimista, o educador nunca é otimista, ele é esperançoso. Porque o otimismo é da natureza do tempo, enquanto a esperança é da natureza da eternidade…

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