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Jailton Francisco

Pedreiro, artista, ativista pela mobilidade
A calçada é a 
rua do pedestre
Pedreiro, artista plástico, ativista pela mobilidade de pedestres e pessoas com deficiência física. O cadeirante Jailton Francisco não para, é uma daquelas pessoas inquietas. O autor dos bonecos gigantes que dão um toque todo especial no Carnaval de rua, já saiu no tapa com político, já foi atacado por comerciante com um balde de água e até já se estranhou e depois virou parceiro da molecada que solta pipa com cerol, mesmo não curtindo o uso das linhas cortantes. Sua última façanha foi construir e botar pra voar uma pipa gigante que é a réplica do 14 Bis, de Santos Dumont, com 2,3 metros de envergadura. Ao jornalista Sandro Silva, essa figura polêmica da periferia de Itajaí conta um pouco dessas histórias inusitadas e ensina que, para mudar o mundo, é preciso um bom tanto de ação prática e boas doses de sensibilidade social. Os cliques são de Fabrício Pitella.

“O prefeito foi dar entrevista e eu fui e botei o cartaz do lado. Aí o Zé do Codetran veio, me segurou. Eu quis me soltar dele e ele me chutou. Aí quando ele me chutou, não deu outra né? Eu dei com o cartaz na cabeça dele”
DIARINHO – Você é um dos ativistas pela mobilidade mais polêmico de Itajaí. Já saiu no tapa com político, já foi ameaçado e até já levou um balde de água de um comerciante. Conte pra gente um pouco dessas histórias da sua militância pela mobilidade.
Jailton Francisco – A polêmica, o que dá a maior bronca do pessoal, é que eu insisto, eu insisto. Assim, tem problema numa calçada, um carro que estaciona em cima de uma calçada, ali por exemplo onde foi jogado um balde de água em mim, é do lado de uma escola. As crianças atravessam a faixa de pedestre e na hora de passar na frente do comércio elas têm que pegar a rua, dividir espaço com os carros, porque tem um carro em cima da calçada. Aí eu vou, converso com o comerciante, converso com o pessoal que estacionou o carro… insisto uma, duas vezes. Eles não fazem? Eu vou na prefeitura, em órgão público, eu corro atrás. Enquanto eu não conseguir resolver aquele problema, eu não descanso. Eu gostaria de poder chegar na minha cama, botar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo, mas tem coisas que eu não consigo me conformar. [Essa situação do comerciante que deixava os carros dos clientes estacionarem em cima da calçada, você conseguiu resolver?] Conseguimos resolver com muita luta. Com muita insistência. [Mas antes ou depois de você ser atacado com um balde de água?] Não, depois. Antes disso já teve muita conversa. Conversei várias vezes, fui na prefeitura, fui em tudo quanto é lugar que poderia tentar resolver e não deu nada. Voltei ali, tava batendo foto pra postar, jogaram um balde de água em mim. Acho que ali foi o erro dele. Porque aquela foto de repente eu ia postar e ia ficar só no meu Facebook. Não ia dar grande visualização a foto. Mas como ele jogou aquele balde de água em mim, deu mais de 10 mil visualizações, mais de 10 mil em pouco tempo. Na verdade aquilo ajudou na causa. A falta de respeito dele, a falta de consideração com as pessoas e até a falta de respeito comigo acho que ajudou. [Depois disso a prefeitura fez a exigência para a readequação?] Foi assim, ele rebaixou o meio fio, transformou a calçada em estacionamento. Aí a prefeitura obrigou: ou ele fazia o recuo ou iam levantar o meio fio novamente na altura. Aí, pra ele não perder o estacionamento, fez tudo certinho. Agora os carros estacionam ali de lado, sobrou a guia dos cegos, sobrou espaço pra todo mundo passar. O estacionamento ficou melhor do que antes, porque hoje passa pedestre e tem espaço pro carro. Poxa, acho que a cidade tem que ter espaço pro carro, mas tem que ter espaço pras pessoas. E a calçada, na verdade, é a rua do pedestre.

DIARINHO – E como é que foi aquela história em que você brigou com o ex-vereadores e ex-chefe da Codetran, José Alvercino?
Jailton – Essa história foi da praça em frente ao Melvin Jones. Eu fiz um cartaz agradecendo a construção da praça. Esse cartaz eu peguei uma foto que a gente tinha antiga da praça que a gente tinha construído com a comunidade, que foi destruída pelo Jandir Belini [ex-prefeito]. Ele destruiu a praça. Nós construímos essa praça onde era um depósito de lixo. Eu tinha uma Kombi de frete. Encostei ela na frente da escola porque o meu ponto de frete era na frente da escola. Aí as crianças ficavam ali comigo, debaixo de um pé de árvore. Um dia fui fazer um frete, eu consegui, eu ganhei dois balanços e eu instalei ali debaixo do pé de árvore. E as crianças começaram a brincar nesses balanços, começaram a me ajudar a limpar. A comunidade começou a vir. Começaram a fazer mais brinquedos. Fizemos vários brinquedos. Fizemos um teatro de fantoches. Fizemos uma mesa bem grande onde tinha uma oficina, pra gente ensinar as crianças. Ali foi onde eu comecei a fazer arte. Até então eu não sabia fazer nada. E ali, pra poder ensinar as crianças, eu aprendi com elas, onde eu aprendi a esculpir. [Que ano foi isso?] Isso em 2006, 2004. Então, aí nós construímos essa praça na frente da escola. Só que era um terreno público onde era um lixão, onde era um depósito de lixo. Aí a prefeitura arrancou a praça dizendo que era um espaço público, que a gente não podia invadir aquele espaço. Mas como, se era um espaço público? Se era um depósito de lixo, por que não poderia ser uma praça? Aí o ex-prefeito destruiu a praça porque disse que esse terreno era pra doar pro Lions Clube, porque tinha que ser feita a sede do Lions Clube, que não poderia ser construída aquela praça. Aí derrubaram, destruíram a praça feita pela comunidade. Aí nós fizemos vários protestos reivindicando que fosse construída essa praça novamente. Foi pedido pra governador, pra prefeito, pra vereador. Até para o próprio presidente Lula, quando ele esteve em Itajaí, eu pedi a construção dessa praça. O Volnei [Morastoni, prefeito atual e que na época também era prefeito] conseguiu. Aí o Volnei venceu a eleição e o prefeito fez um projeto no PAC [Programa de Aceleração de Crescimento, do governo Lula] pra gente conseguir essa praça. Era um projeto de reurbanização de favela. Onde era favela poderia ser construída uma praça. Aí a gente tinha espaço para construir a praça e a gente tinha espaço para fazer a reurbanização de favela, que era o ribeirão da Murta. Aí tirava as famílias do ribeirão da Murta e colocava em outro lugar e tinha verba pra construir a praça. No dia da inauguração dessa praça, eu fui com um cartaz com as fotos das crianças brincando na praça e as fotos das matérias do DIARINHO, dos protestos que nós fizemos. Foram três ou quatro protestos. Peguei esse cartaz, pendurei numa parede que tinha lá e fiquei quietinho no dia da inauguração. E aí passava as crianças e diziam: “olha ali, nós ali”. Depois de nove anos a comunidade começou a se ver. Crianças que na época eram pequenas começaram a se ver ali. Aquilo incomodou o Zé da Codetran, o seu Tarcízio Zanelato. Aí tentaram arrancar o meu cartaz. Eu fui quietinho. Foram lá e mandaram um fiscal do Codetran arrancar o meu cartaz. Quando ele arrancou, eu fui correndo, arranquei o cartaz da mão dele e consegui o cartaz. Me provocaram, né? Deviam ter me deixado ali quietinho. Opa, quiseram tirar o cartaz, então agora não vai ficar assim. Segurei o cartaz na mão e na hora que o prefeito foi dar entrevista, eu “puf!”, botei o cartaz do lado. Aí o pessoal que tava filmando botou de lado. Eu disse: “poxa, e agora o que eu vou fazer?”. Na hora da entrevista ao vivo, no jornal ao vivo, o prefeito foi dar entrevista e eu fui e botei o cartaz do lado. Aí o Zé do Codetran veio, me segurou. Eu quis me soltar e ele me chutou. Aí quando ele me chutou, não deu outra né? Eu dei com o cartaz na cabeça dele! Dobrei e dei na cabeça dele. Se enfiou um guarda no meio pra separar nós dois. Eu consegui dar mais umas pancadas. E aí machuquei ele e deu no que deu. E a praça tá ali. O prefeito disse que não ia construir porque tinha que ser a sede do Lions Clube e hoje, graças a Deus, é a maior praça do município. Nós temos ali a maior praça do município, mas, infelizmente, abandonada, sem vida. [Hoje não tem nenhum projeto funcionando ali?] Hoje não tem nenhum projeto. Foi uma grande luta, conseguimos a maior praça do município e até hoje tá abandonada. Eu sonho que um dia tivesse vida, arte, cultura, esporte organizado. […].

DIARINHO – Há cerca de oito anos você acompanhou a reportagem do DIARINHO que andou pelas ruas do centro de Itajaí numa cadeira de rodas, cumprindo algumas tarefas comuns para um cidadão: ir ao banco, comprar roupa, ir na universidade, ir ao cinema, andar pelas calçadas do centro, pegar ônibus. E foi um martírio cumprir essas tarefas. De lá pra cá o que é que mudou na acessibilidade da cidade em favor dos cadeirantes?
Jailton – Acredito assim, cada vez que a gente faz um movimento, que a gente chama a atenção, alguma coisa muda. Não o todo. Mas sempre muda, sempre tem um resultado. Teve bastante mudança. Houve mais rampas, nos bancos hoje até tem caixas eletrônicos mais baixos pra gente conseguir visualizar legal. Teve mudanças. Poucas, mas sempre vale a pena. Nunca é em vão. Se fosse uma coisa mais forte, se batesse mais, se conseguiria mais. (…)

DIARINHO – Você ficou paraplégico trabalhando numa obra. Mesmo depois do acidente você continuou com a profissão de pedreiro. Como é que consegue, numa cadeira de rodas, fazer uma casa ou levantar um muro, por exemplo?
Jailton – É estranho. Às vezes nem eu acredito. Quando eu me acidentei, fazia uns sete meses que eu tava na cadeira de rodas, eu sentava na frente da casa da minha mãe e ficava olhando um pé de manga. Eu dizia assim, ó: “Será que eu consigo subir esse pé de manga? Será que eu consigo?”. Fiquei uns três, quatro meses pensando isso. E aí, como é que eu vou saber se eu consigo subir um pé de manga se eu não tentar? Eu fui ali e me agarrei no pé de manga e quando eu vi eu tava lá em cima. Eu digo, cara, mas por que eu fiquei tanto tempo esperando pra saber se eu consigo ou se eu não consigo? E aí me perguntei: “Será que eu consigo levantar tijolo? É a minha profissão, será que consigo?”. Ia fazer um ano mais ou menos que eu tava na cadeira de rodas, fui na construção de um amigo meu e pedi: “deixa eu ver se consigo levantar tijolo?”. “Não, Jailton, bota a massa aí e te vira”, ele disse. O servente botou tijolo, botou os coxins em cima e eu comecei. Paredinha, paredinha, paredinha, paredinha, paredinha, paredinha e foi. Eu levantava oito fiadas de tijolo quando eu andava. E aí levantei oito fiadas. [Na cadeira?] Na cadeira, oito fiadas. “Caramba, cara, fiz rapidinho a parede, certinha, legal”. Eu digo e agora, só consigo oito fiadas mas quando eu andava eu fazia o andaime e subia. “O, pega o cavalete lá, bota o cavalete, põe quatro tábuas de largura, um metro de largura, bota tijolo em cima, bota as coisas, bota a massa”, pedi. Peguei, me agarrei, subi, mandei botar a cadeira pra cima e tava lá um paredão. “Caramba! Eu consigo levantar tijolo! Será que eu consigo amarrar ferro? Será que eu consigo botar um piso? Será…?” Com esse será eu vou ver se consigo. Eu só consigo se eu tentar. Muitas vezes eu insisto nas coisas, na mobilidade e tudo e pergunto: “Pô, será que eu consigo?”. E consegui. Eu construí uma casa. Eu faço as coisas. Eu gosto de desafio. “Tu não consegues Jailton…”. “Eu não consigo? Vamos ver!” Às vezes é mais difícil. Eu tenho que dar um contorno maior, uma volta maior, fazer de uma forma diferente. Mas eu consigo chegar lá.

DIARINHO – Há alguns anos você tem sido o responsável por construir os bonecos gigantes do Carnaval de rua de Itajaí. Quais personagens aqui da cidade você já reproduziu e como aprendeu essa arte, que não é muito comum no sul do Brasil?
Jailton – Essa arte eu aprendi, na verdade, com as crianças na praça que a gente construiu. As crianças ali brincando e tinha que ensinar uma atividade. Aí eu peguei uma argila e tentei começar a fazer alguma coisa com as crianças. De repente, quando eu vi eu conseguia fazer. “Poxa, como eu consigo fazer, se eu não sabia?”. Eu tinha 32 anos, 33 anos. Ali eu aprendi com as crianças. Aí o Jean Reinert [professor, com mestrado em acessibilidade e mobilidade] teve aqui em casa, que é cadeirante também, e disse: “Jailton, teve um amigo meu, professor Pedro, da Univali, foi lá pra Olinda e tá empolgado com os bonecos gigantes; ele fez a Maricota [personagem do folguedo de boi-de-mamão]; tô com ideia de fazer o Seu Cueca, o Buti e o Curru; será que tu consegues fazer?”. Eu disse: “Pô, Jean, não sei cara”. Cheguei lá, eles já tavam com um pedaço de isopor meio fuçado. Aí tinha a foto do Seu Cueca e o isopor. E agora, né cara? Será que eu consigo fazer esse isopor? Comecei a pegar e raspar. Olhando pra foto e raspando. Olhando, olhando… e aí a minha orelha começou a esquentar, eu concentrado e depois de umas duas horas fuçando, quando olhei, comecei a ver o Seu Cueca e o pessoal todo me olhando. “Égua, Jailton, o que é que é isso?”, disseram. Levou ao todo umas três, quatro horas que fiquei ali com eles e olhei e fiz o Seu Cueca. [O nosso folclorista principal, o Seu Arnoldo Cueca, foi sua primeira obra de bonecos, então?] O Seu Arnoldo Cueca. Aí assim começou a surgir. Surgiu do nada. É isso que digo pra ti, o desafio. “Será que tu consegues, Jailton? Vamos tentar?”. Na verdade a gente não sabe do que é capaz. A gente não sabe do que é capaz. [Além do Seu Cueca, você fez quem mais?] Fiz o Seu Cueca, fiz o Buti, que era o jogador das praias, fiz a Margarete que morava ali na frente da igreja Matriz, que diziam que era a Margarete da Janela, fiz o poeta Bento Nascimento… Esqueci da maioria, mas fiz bastante bonecos. Fiz o Toni Cunha, fiz o professor Acyr, fiz a dona Trude, do bar… [O Michel Curru foi você também?] Fiz o Curru. Acho que foi em torno de 12, 13 bonecos.

DIARINHO – Você também foi um dos idealizadores do pipódromo, que é um espaço informal para a criançada soltar pipa aqui na região do “Brejo”, em Cordeiros, que é um grande terreno nos fundos do colégio Melvin Jones. Como é que nasceu esse projeto? Chegou a ter apoio da prefeitura?
Jailton – A gente teve um apoio. Embora não fui eu, assim, o idealizador desse projeto. Tinha um terreno baldio atrás do Melvin Jones que, na verdade, era um depósito de lixo. Aí fiz a reivindicação, fiz uns videozinhos, postei na internet, cobrando o prefeito que limpasse aquele espaço que era um depósito de lixo pra ficar legal para a comunidade. As pessoas sempre colocavam lixo, só que aí o sub-prefeito, o vereador Lamin, que é um cara corajoso e de pulso firme, ele limpou o terreno e botou o fiscal pra cuidar. Uma coisa é só limpar e fiscalizar, outra coisa é tu estares fiscalizando e cuidando. O fiscal ficou três meses ali, dia e noite. Ninguém jogava mais lixo e a gurizada começou a soltar pipa no local. Aí quando não tinha mais fiscal ali, quem começou a fiscalizar era a gurizada da pipa. Mas eles soltavam pipa e tavam fazendo guerrinha e começou a cair as pipas dentro da creche. Aí a gurizada começava a correr em cima da creche, quebrava a creche, começava a invadir e era aquela bagunça. Aí eu andei postando no Facebook alguma coisa sobre pipa, dizendo que a guerra de pipa mata, cria discórdia. Sobre isso aí. Aí a gurizada da pipa que soltava ali ficou cabreira comigo. “Ô, Jailton, tu ao invés de tá criticando, por que é que não vem ajudar, pô? Por que é que não vem ajudar?”. Eu digo, poxa, e agora, né cara? Um desafio pra mim, vieram me cutucar: “por que tu não vens ajudar?”… Caramba! Aí a diretora da escola veio conversar comigo: “Jailton, o que é que nós podemos fazer pra acabar com essa pipa?”. Não tem como acabar, poxa. Antes a gurizada soltava pipa na rua, na estrada. Aí de repente tão soltando aqui dentro, num local mais seguro. Então vamos tentar organizar. Aí arrumei uma tinta e escrevi bem grande no muro da escola: “É expressamente proibido subir no muro ou invadir”. Por incrível que pareça, a gurizada parou de pular o muro da escola. Mas continuava a soltar pipa. Quando o vento tava contrário, pra lá, eles cortavam a pipa e a linha da pipa passava bem no meio da rua. Fui ali e conversei com eles. Aí nós arrumamos umas escoras grandes de eucalipto, passamos dos dois lados da rua. Passamos arame em cima, dos dois lados, e passamos no meio. Ficou um lugar seguro pra motociclistas, que é pra linha que fosse cortada ali não tem o perigo de machucar ninguém. E simplesmente ficou um local seguro. A gurizada não pulava mais o muro da escola, não tinha mais perigo de machucar ninguém com cerol. Aquilo que eles pediram: “Jailton, porque ao invés de criticar tu não vens ajudar”, eu fui lá, me envolvi com eles e a gente conseguiu se organizar. [E quando foi isso?] Foi esse ano, agora, recente. Só que agora fizeram mais uma lei municipal sobre a linha de cerol. Ficou mais rígido, né? Tem uma multa grande pra quem for pego soltando pipa com cerol ou vendendo a linha. E quem soltava pipa ali não era pouca gente não. Era 200, 300 crianças. É difícil tu veres um evento que dá tantas pessoas. E aquilo ali, a comunidade, as pessoas tavam em peso. Vinha gente de fora, de outra cidade, soltar pipa. E simplesmente, agora, não soltam mais pipas ali. Tão com medo de soltar pipa e vir a polícia e prender todo mundo. (…) Voltou o pessoal todo a soltar pipa no meio da estrada. Seria mais certo, assim, não proibir e nem ser tão rígido. Mas ir nas escolas, educar, falar que o cerol é perigoso, mostrar pessoas acidentadas, com cenas bem fortes mesmo, bruscas, que é pra assustar realmente e se envolver e mostrar como dá pra soltar pipa de uma forma segura. Não precisa ter cerol. Ou, se tiver cerol, se fizer uma guerra de cerol, num local fechado, num local onde não tenha perigo de machucar ninguém, como era aqui. Acho que não resolveu essa lei do cerol. Acho que proibir a gente não vai conseguir combater. Mais vale como fiz, ir ali, se envolver junto, tentar organizar, do que dizer “ó, é proibido, acabou-se” e lavar as mãos.

DIARINHO – Semana passada você fabricou uma pipa gigante, que era uma réplica do 14 Bis, que era o primeiro avião do brasileiro Santos Dumont. O equipamento voou. Como é que você conseguiu o projeto para que o 14 Bis planasse e fez com quais materiais?
Jailton – O projeto foi de uma foto do DIARINHO, de 2006. Eu tinha essa foto guardada comigo. Eu já fiz esse avião na época. Há tempos eu queria fazer, porque eu faço muita caixeta [Pipas em forma de cubo], faço qualquer tipo de pipa. Eu via que o 14 Bis, ele era várias caixetas acopladas uma na outra. Aí vi essa foto no DIARINHO e digo: “Caramba, eu consigo fazer”. E daquela foto eu consegui fazer o primeiro. Lá em 2006. Aí eu fiz esse avião e ficou igualzinho. Mas o avião não subia, não subia. Nós ficamos três meses correndo com esse avião prum lado e pro outro e esse avião não subia, não subia. Um dia eu tava indignado e disse prum amigo meu, o Cristiano, que hoje em dia é falecido e que não queria mais puxar: “O Cris, é a última vez, peraí, vou amarrar aqui atrás, cara, e tu sai correndo por esse brejão aí a fora, se quebrar que se dane”. Pra minha surpresa, eu amarrei atrás e na hora em que ele puxou, “puf!”, o avião subiu. O avião subiu cara! [Você não sabia até então que o 14 Bis voava ao contrários dos aviões de hoje?] Não, cara. Pra mim, o meu avião voava errado. “Pô, o meu avião voou errado”. Aí, quando eu comecei a me ligar na foto e vi que tinha um burro puxando e tava puxando o avião de ré. Aí, pesquisando na internet, eu vi que o meu avião não voava errado, que o meu avião voava certo. [Então você não usou um projeto com cálculos, indicações de proporção, nada? Fez só no olho?] No olho, né? Dá de ver, pela foto, que ele é de medidas iguais, né? [Esse da semana passada é igual ao outro?] É igual ao outro. [E o material?] O material é bambu, linha, agulha pra costurar o tecido, um tecido de nylon, pra ficar levinho. Não sei, mas acho que deu umas 70, 80 varetinhas. Pra mais de 800 nós. Vai muita linha pra botar no esquadro, pra tá alinhando. [Levou quanto tempo?] Levei uns 15 dias trabalhando. Não descansei enquanto não deixei aquele avião pronto. Não direto, mas umas três, quatro horas, todo dia eu trabalhava nele. […]

“Cada vez que a gente faz um movimento, que a gente chama a atenção, alguma coisa muda”

Nome completo: Jailton Francisco
Idade: 47 anos
Nasceu em: Itajaí
Estado civil: Casado
Filhos: Uma filha e quatro netos
Formação: Primeiro grau
Experiências profissionais: Pedreiro, artista plástico, costureiro e ativista social em prol da mobilidade de pedestres e pessoas com deficiência física. Responsável pela construção dos bonecos gigantes do carnaval de rua de Itajaí e de bustos em carros alegóricos

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