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Heloísa Schürmann

Escritora e ativista ambiental

Nome completo: Heloisa Schurmann
Idade: Não informada
Natural: Rio de Janeiro (RJ)
Estado civil: casada
Filhos e netos: 4 filhos (Wilhelm, David, Pierre e Kat) e cinco netos (Emmanuel, Sebastian, Kian, Guilherme e Chloe)
Formação: Pedagoga
Experiências profissionais: Navegadora com experiência de três voltas ao mundo, professora, escritora com cinco livros publicados e ativista ambiental.

Você vai considerá-la uma navegadora e aventureira. Ela não rejeita esses títulos, mas inclui mais dois: contadora de histórias e ativista ambiental. A mãezona (sim, ela também se considera uma) da famosa família Schürmann chega ao seu quinto livro, desta vez trazendo o relato de uma das mais incríveis circum-navegações que já participou: a reprodução da controversa rota do navegador chinês Zheng He. Em “Expedição Oriente”, Heloísa Schürmann conta não apenas a aventura de rodar o mundo pela terceira vez num barco à vela, como também narra os episódios e os lugares mágicos que ela e os colegas de tripulação visitaram durante a viagem de mais de dois anos. A entrevista, concedida ao jornalista Sandro Silva, tem fotos de Fabrício Pitella.

DIARINHO – Você está em seu quinto livro. De 2010, quando lançou “10 anos ao mar”, pra cá, o que mudou na escritora Heloísa Schürmann? Que diferenças de estilos e conteúdos há nessa mais recente obra, a “Expedição Oriente”, além do relato de uma viagem magnífica como essa?
Heloísa Schürmann – O que mudou nesses últimos livros e, principalmente, nesse livro, é que eu tive acesso a um material muito rico de histórias, acontecimentos e de momentos nessa viagem. Mudou o perfil da viagem, porque na primeira eu viajei com a família, com os filhos, na segunda viagem eu velejei com a Kat [Filha adotiva do casal Schürmann, falecida aos 13 anos, em 2006] e nessa viagem foi diferente porque eu tinha tripulantes de idades, personalidades e nacionalidades diferentes. Então, mudou muito o perfil. E os lugares que a gente visitou não foram nem na primeira nem na segunda viagem. Essa foi uma viagem totalmente de inovação. [E tudo isso relatado com detalhes no livro?] Tudo isso relatado com detalhes, com histórias e com fotos também.

DIARINHO – “Expedição Oriente” foi a terceira volta ao mundo feita pela família Schürmann. Foram três anos de preparação e mais de dois anos de viagem. Além dos três anos de espaço entre a chegada em Itajaí e o lançamento do livro. O que entrou de fatos, episódios e relatos e o que ficou de fora na obra que relata essa aventura?
Heloísa– O que entrou de fato para contar as histórias foi o relato dos lugares e dos fatos que aconteceram. Por exemplo, foi a primeira vez que a gente foi para a Antártica. A Antártica representou, pra mim, uma descoberta. Na realidade eu não queria ir na Antártica. Eu sou carioca, gosto de pé na areia, de lugar quente. E todo mundo falava “como é que você não quer ir na Antártica?”. Sentir frio, pra mim, era um obstáculo. E chegar na Antártica, pra mim, foi assim uma descoberta, um mundo totalmente novo. Então, esse relato, pra mim é um relato muito importante. Chegar na China, também. Nós demoramos vários anos pesquisando a história dos navegadores chineses e entrar naquele rio de Xangai, com mais de 800 embarcações, e sermos recebidos na cidade de Xangai. Era o primeiro veleiro brasileiro que chegava na cidade. Então, pra nós foi uma surpresa. Nós não estávamos esperando. E descobrir toda essa cultura da China que, realmente, pra mim foi uma novidade em relação ao grande navegador que nós estávamos seguindo os passos, que era o Zheng He. Então, tudo isso são fatos, são histórias. E o que ficou de fora, foram muitas manobras de vela. Porque, por incrível que pareça, quem navega, levanta vela, baixa vela, dá um bordo, são ações repetitivas. Então eu fui cortando um pouco, a não ser as grandes e importantes manobras de vela.

DIARINHO – A circum-navegação chinesa pela qual vocês se basearam para fazer a rota dessa aventura, ela teria acontecido uns 100 anos das grandes navegações portuguesas e espanholas. No livro, você faz alguma referência à circum-navegação de Zheng He?
Heloísa– Sim. Faço uma referência, conto a história e falo, depois, os detalhes da história, a construção dos navios. Quando nós chegamos lá na China, em Nanquim, fomos visitar o estaleiro de onde foram construídos esses grandes veleiros. E hoje há uma cultura toda nova das crianças em reconhecer o Zheng He como grande navegador. Então eu conto isso. O que me espantou muito foi chegar no museu, que tem peças belíssimas, e de repente aparecer um grupo de 200, 300 criancinhas, todas curiosas para conhecer a história da navegação deles. [Vocês chegaram a conhecer os veleiros de juncos originais?] Sim, nós vimos os veleiros de junco. Eles passavam pela gente. Mas não dava pra gente conhecer, visitar. Nós visitamos um grande veleiro, que é uma réplica e está num parque. Aí a gente visitou e é como se entrasse na história. É visitar e voltar ao tempo.

Itajaí representa, pra gente, um porto seguro. […] Então, Itajaí se tornou realmente nosso porto de saída e de chegada”

DIARINHO – Qual foi o ponto alto nessa viagem de circum-navegação e que você ressaltou no livro?
Heloísa– Olha, como eu falei, pra mim foi a Antártica, mas também a parte da gente chegar à China. Mas um dos episódios que muito impactou e eu até escolhi para escrever no livro, foi visitar os orangotangos em Bornéu. Os orangotangos que viviam na selva de uma maneira toda natural. Milhares, milhões deles. Hoje estão sendo dizimados, mas de uma maneira e uma velocidade muito rápida. E tem um parque que traz os orangotangos que foram levados pra circos, pra shows. As pessoas matavam a mãe e levavam o orangotango para ser seu animal de estimação. Principalmente os chineses, o pessoal das Filipinas. Mas, de repente, o orangotango cresce e se torna um animal de 300 quilos, e eles não têm como alimentá-lo e esse parque recebe os orangotangos. Nós fomos visitar esse abrigo e a gente não pode tocar nos animais. Tem que manter uma certa distância. E eu vinha voltando, por uma passarela, e um orangotango, o Mário, que tinha sido domesticado, ele estava assim, do lado. E aí nós passamos, junto com os dois netos que estavam conosco, e, de repente, sentei para observar o orangotango. E, assim, rapidinho ele pegou e ficou do meu lado. E eu lembrava: “Não tocar! Não tocar! Não tocar!”. Na hora, ele pegou a minha mão e fez um carinho. E, não obstante, ele botou no coração e me olhava. Nem pensar em falar, nem pensar em respirar, porque aquele momento foi muito mágico. Depois ele botou a minha mão de volta e pulou para a árvore. E fiquei, assim, parada. Olhei para os meus dois netos e disse: “O que vocês viram agora é um momento mágico. E tá no livro.

DIARINHO – Diferente da primeira volta ao mundo, há quase 20 anos, nesta grande aventura até a China os Schürmann viajaram com tripulantes que não eram da família. As vantagens e desvantagens de ficar mais de dois anos dentro de um barco com estranhos, bem como algum possível episódio de estresse, por exemplo, são contatos na obra ou ficaram de fora?
Heloísa– Não. Elas são contadas, pois são a realidade. Tempestades, calmarias, piratas não são o nosso maior desafio. Nosso maior desafio é justamente viver nesse espaço pequeno em oito pessoas. No início, depois da Antártica, eu era a única mulher no meio de sete homens. Então, você precisa aprender a lidar, você precisa conversar, resolver os conflitos. Existem os conflitos e você precisa aprender a resolver esses conflitos para você ter uma harmonia. Tripulantes da família? Nós já nos conhecemos um ao outro, já sabemos nosso espaço até onde chega. Mas tripulantes que não são da família a gente tem que ir aprendendo ao longo do tempo. E eu conto isso, chamo no capítulo ‘Os tripulantes que são meus filhos’. Eles não gostaram, mas é porque os sentia como meus filhos. O abrigar, dar um conselho, cuidar… pra mim, sempre foi que os tripulantes passassem a ser parte da família. E eles também se sentiram parte da família, eu acredito. [Então Heloísa Schürmann também teve um papel de mãezona nessa viagem?] Também um papel de mãezona [Risos]. É porque é normal você cuidar, ter um cuidado com os seus tripulantes. Pode ser um papel de paizão, que seja o Vilfredo [Vilfredo Schürmann, comandante da expedição e marido de Heloísa], mas eu de mãezona.

DIARINHO – Parte da educação dos seus filhos e da convivência cotidiana com eles, quando ainda eram crianças, foi dentro de um barco e em mares estrangeiros. Na “Expedição Oriente” a família volta a viajar, mas agora todos adultos. Essa é uma convivência mais fácil ou mais difícil entre pais de filhos?
Heloísa– Olha, nós tínhamos a bordo nosso filho, o Wilhelm, que passou 10 anos no mar e relativamente foi uma convivência muito fácil, porque o Wilhelm é uma pessoa que também é de viver no mar, de gostar dessa experiência. É nosso filho e sempre tivemos um bom relacionamento. Tivemos o nosso neto, que tinha 23 anos e que também tinha muito aprendizado pela frente. Lógico, tivemos várias brigas e discussões, que é normal numa família. Mas os tripulantes, como falei, eles acabaram se tornando uma família. Muitas vezes as pessoas acham que é às mil maravilhas, mas experimenta botar a sua família num quarto, fechar com chave e dizer assim: “Nós vamos ficar aqui, sem poder sair, por 15 dias”. E era o tempo que a gente fazia as travessias, de 12 dias, 15 dias, sem poder sair. Vilfredo não podia tomar a sua cervejinha. Nenhum tripulante podia. E nem eu podia sair para dar uma voltinha. Então a gente tinha que aprender a conviver ali. Não é fácil, viu!? Mas a gente é obrigada a ir apreendendo. [E isso tudo, claro, também está no livro…] Tá! Tá no livro, tá tudo no livro.

Um dos episódios que muito impactou e eu até escolhi para escrever no livro, foi visitar os orangotangos em Bornéu”

DIARINHO – Estamos numa época em que muita gente, inclusive políticos, está depreciando as lutas pela preservação ambiental. E uma dessas lutas é pela diminuição de plástico, um dos principais poluentes dos mares. A família Schürmann, em suas navegações, chegou a se deparar com as famosas “ilhas de plásticos” nos oceanos? Como você, aventureira, navegadora, pedagoga e escritora, encara essa situação dos plásticos?
Heloísa– Acrescenta aí: Ativista ambiental! Porque, hoje, eu estou na briga e na luta contra o plástico. E, assim, bem ativa. Recentemente voltei, este mês, ainda, de um congresso em Amsterdã [Capital do Reino dos Países Baixos, na Europa] onde 15 cientistas apresentaram trabalhos sobre o efeito do plástico no ser humano. O plástico existe, mas o microplástico, que vai se quebrando, hoje virou alimento dos peixes. Então, na cadeia alimentar, os peixes estão comendo os plásticos e quem consome os peixes somos nós. Então, acabamos consumindo o plástico dos peixes. Tinha cientista que estuda o impacto do plástico no ser humano desde 1972. Eu fiquei muito impactada. Tinha pesquisadores do Japão, dos Estados Unidos, do mundo inteiro. Nós estamos preocupados com aquele plástico que as baleias comem, os golfinhos comem, que as tartarugas comem, com os canudos, mas o microplástico, aquele que vai se desmanchando, esse tem repesentado o maior impacto na gente. Costumo dizer que me preocupo com as baleias, com os golfinhos, com os animais, mas uma outra preocupação hoje somos nós, porque eu tenho filhos, tenho netos. Então, o que vai acontecer daqui para o futuro? Plásticos, nessas ilhas que nós passamos, nós vimos quantidades enormes de plástico. São cinco ilhas de plástico pelos oceanos no mundo. E uma delas, no oceano Pacífico, é que leva o plástico para as ilhas maravilhosas que têm águas azuis. São ilhas maravilhosas, daquelas que você diz “nossa, eu queria parar aqui e não ir embora”. São desabitadas, mas as praias estão completamente cobertas de plástico.

DIARINHO – Treze anos após a partida da querida Kat, ela continua sendo homenageada e dá nome, inclusive, ao veleiro da família. Essa é uma forma de continuar levando Kat simbolicamente com vocês?
Heloísa– Não só é uma forma de estar levando Kat simbolicamente conosco, mas também é uma forma de que Kat leva a gente pelos mares do mundo. [Ela continua então sendo uma presença forte entre os Schürmann?] Muito, muito. Em tudo o que a gente vê, que a gente faz, a gente sente a presença dela. Ela está no livro, presente. Tem a história dela e de quando a gente chegou na Nova Zelândia e nós fomos visitar o lugar onde ela repousa. Conto a história dela e tem inclusive fotos no livro que mostram que a gente foi. E toda a tripulação prestou homenagem a ela.

Acrescenta aí: Ativista ambiental! Porque, hoje, eu estou na briga e na luta contra o plástico. E, assim, bem ativa.”

DIARINHO – Itajaí continua sendo porto de partida e de chegada de muitas aventuras de vocês. Qual motivo os faz manter essa escolha?
Heloísa– Porque Itajaí representa, pra gente, um porto seguro. Quando nós saímos para a viagem, para várias viagens, a gente sente que é um lugar que a gente pode voltar. Nós somos recebidos muito bem e ficou a nossa casa. Apesar de que somos de Florianópolis, Itajaí acabou se tornando o nosso porto do coração. Então a gente vem pra cá e é bem recebido. É assim, todo mundo nos acolhe muito bem. Além disso, a infraestrutura de veleiros, para os barcos, é fundamental para que a gente possa fazer manutenção. Então, Itajaí se tornou realmente nosso porto de saída e de chegada.

DIARINHO – Para a gente concluir essa entrevista, você pode revelar qual será o próximo projeto de aventura da família Schürmann?
Heloísa– Nós estamos trabalhando com a ONU Meio Ambiente, num projeto internacional que se chama Mares Limpos. Uma ação de limpeza de praia, de conscientização, principalmente, para manter nossos mares limpos. E o mar e os oceanos têm sido nossa estrada, têm nos levado para todos os lugares do mundo. A gente sempre agradece pelos lugares que nós passamos, pelas culturas, pelas pessoas. Chegou a hora de nós fazermos alguma coisa pelos oceanos que tão pedindo socorro. Literalmente tem que diminuir o número de plástico, tem que fazer mais limpeza. Então nós vamos partir em setembro de 2020 para um projeto, um movimento que se chama Voz dos Oceanos. Costumo dizer que todos nós podemos ser a voz dos oceanos. Nós vamos sair em setembro, na costa do Brasil e por vários países. Vai durar dois anos. Um projeto com a Onu, com a Plastic Sou Fundation [ONG com sede na Holanda], que é uma entidade da Europa que está nos apoiando também. Vamos passar por diversos lugares. O problema do plástico, todo mundo sabe, existe, mas quais as soluções que estão sendo encontradas? Nós vamos ser plataformas, também, para levar cientistas para fazer as pesquisas in loco. E vamos fazer, inclusive, na maior ilha que tem poluição, que é Nova Iorque, e depois nós voltamos pelo Caribe e vamos terminar em 2022 na Nova Zelândia, que é o país que agrega o maior cuidado com o meio ambiente que existe no planeta.

DIARINHO – Obrigado, Heloísa, pela entrevista ao DIARINHO…
Heloísa– De nada! Ah! E posso falar uma coisa? [Claro]. Sejam, vocês também, a voz dos oceanos. Ajudem a manter limpos os nossos oceanos. Evitem o plástico.

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