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Gen Kelsang Geden

O segundo ensinamento que Buda deu mostrou onde estava a origem dos problemas, que está na nossa própria mente
Monge budista
“Há um progresso enorme na parte de química e remédios interessantes para evitar a depressão, mas está aumentando o número de suicídios”
Ao entrar numa das salas do número 487 da rua Suíça, no bairro das Nações, você encontrará um senhor de seus mais de 60 anos e semblante sereno. Engenheiro de Minas, doutor com formação na França e ex-professor da Unicamp, ele está ali não para fazer consultorias ou para ganhar dinheiro. A tarefa dele é outra, bem mais nobre. É a de levar conforto espiritual para quem o procura. Monge Geden (leia “Guedem”) é um representante da tradição Kadampa, mais conhecida em todo o mundo como “Budismo Moderno”. Por isso, esqueça grandes construções em meio ao silêncio da mata. O templo que Geden coordena fica em um dos mais habitados bairros de Balneário, justamente para levar o budismo ao cotidiano das pessoas. Neste Entrevistão, feito pelo jornalista Sandro Silva, monge Geden fala sobre a Kadampa e toca em assuntos delicados e cada vez mais comuns entre nós: os sofrimentos espirituais e o suicídio. Os cliques são de Fabrício Pitella.

DIARINHO – Há quem diga que o budismo é uma religião e há quem defenda que é filosofia. E há, ainda, os que dizem que simplesmente é um modo de vida. Afinal, o que é o budismo?
Monge Geden – De fato essa pergunta é interessante porque as pessoas olham e ficam sem saber: “E agora?”. Mas depende. No meu caso específico, pra mim, é uma religião, porque eu tenho devoção, eu tenho fé e pratico a ponto de ter me tornado um monge, tomado voto de ordenação. Pra outras pessoas, é um filosofia, um modo de vida. Então ela se interessa pelo budismo, aprende quais são os pontos principais da nossa crença e aí a pessoa pratica como uma filosofia de vida. Então você tem escolha. Não é dogmático a ponto de ter que ser assim ou tem que ser assado. O budismo dá essa ampla variedade de visão. Nós, budistas, por exemplo, rezamos para todos. Não só para os budistas, só pra nossa classe ou coisa parecida. Então nós rezamos para todos, incluindo os animais, pessoas que se suicidam, às pessoas que precisam. É basicamente isso. (…).

DIARINHO – E qual é a essência do budismo?
Monge Geden– A essência do budismo é fé em Buda Shakyamuni [“O sábio do clã Shakya”, uma das referências ao Buda histórico, Siddharta Gautama]. Buda Shakyamuni ele deu as instruções. Primeiro, ele não foi sempre Buda Shakyamuni. Em vidas passadas ele era como nós. Aprendeu, entendeu, compreendeu a própria mente e aí começou a ensinar sobre a nossa própria mente. Então, a essência do budismo é fé em Buda Shakyamuni. Pra ele é a nossa expressão máxima. Tiveram vários budas, mas Buda Shakyamuni veio nesse mundo para dar ensinamentos, se envolver com ensinamentos. Ele veio, nasceu numa família normal, de um rei, e se tornou um príncipe, o príncipe Siddharta. Depois de um certo tempo, ele mesmo tomou os votos e se tornou um monge. Em seguida, alcançou a iluminação.

DIARINHO – O budismo tem várias ramificações. Você pertence a qual delas e no que ela se diferencia de outras correntes do budismo?
Monge Geden– De fato há muitas tradições. Como também, do pouquinho só que eu conheço, no catolicismo tem também várias, como os jesuítas, os franciscanos e outros vários. Então não é surpresa que nós tenhamos várias também. Temos o budismo indiano, o budismo tibetano, o budismo chinês. Aí é uma classificação de acordo com a geografia. Aí também temos o budismo Hinayana e o budismo Mahayana. O Hinayana ele luta para alcançar a libertação, que nós podemos falar mais tarde. E o budismo Mahayana pratica para alcançar a iluminação. Dentro do budismo Mahayana ainda há outras classes, do tipo Vajrayana, onde nós praticamos para que consigamos fazer o caminho rápido da iluminação, ainda nessa vida, praticando o tantra [Técnicas rituais budistas]. Mas também há outras tradições e que depende de onde é o mestre. Buda dava os ensinamentos e os mestres se espalhavam pelo mundo. Então de acordo com os lugares onde os mestres iam indo, aí se criou várias tradições. Mas a essência é mesma: Buda Shakyamuni. [Então o Dalai-lama não é o líder de todos os budistas? É de uma corrente apenas?] Isso, exatamente, boa colocação. Embora ele represente várias tradições, mas não todas. Para alguns ele é a figura máxima, suprema, mas não necessariamente para todos, entende?

DIARINHO – Libertação e iluminação são palavras recorrentes no pensamento budista. O que elas significam?
Monge Geden– Ótimo. Quando Buda deu os ensinamentos, os primeiros eram o seguinte: “Deves conhecer os verdadeiros sofrimentos”. E aí a gente pensa que sofrimentos são esses que estão ocorrendo agora, com as pessoas nos hospitais, as enchentes para tudo quanto é lado, às vezes na China, às vezes aqui. (…). Mas Buda não estava se referindo a esse sofrimento que a gente está comumente habituado. Buda estava se referindo ao sofrimento das vidas futuras. Ou seja, esse monte de sofrimento, esse oceano de sofrimento se repete vida após vida, percebe? Quando ele diz para conhecermos os verdadeiros sofrimentos é entender o sofrimento das vidas futuras. Isso é importante porque a gente percebe o que é que nós temos que fazer aqui agora, que é preparar vidas futuras. Aqui não é um fim em si. O segundo ensinamento de Buda mostrou onde estava a origem dos problemas, que está na nossa própria mente. A mente de raiva, a mente de apego, a mente de competição, a mente de inveja, essas coisas todas que são maneiras distorcidas de viver aflições mentais e que as pessoas sofrem. Então, de onde vem a libertação? Libertação é exatamente o forte desejo que nós podemos desenvolver para alcançar essa dita cuja libertação. Em sânscrito usa-se uma palavra chamada nirvana, que também é bastante conhecida. Nirvana, exatamente, é o sinônimo de libertação. A ideia é você ter uma prática e Buda também tem um ensinamento para alcançar esse estado, esse estado além da dor, que é praticar a disciplina moral, você ser uma pessoa correta, ética, praticar a concentração. Tudo isso para melhorar a concentração e, com a concentração, alcançar estados do nirvana, o estado além da dor. E a iluminação? Quando a pessoa alcança a libertação, ela está livre do sofrimento. Ela entende como perfeitamente a realidade é, que é muito diferente do que a gente conhece, mas ela percebe que os outros continuam a sofrer. As famílias, mães e pais… Então a pessoa percebe que conseguirá ir mais além e aí pratica o quê? Principalmente compaixão. Medita muito, muito e muito em compaixão, evolui espiritualmente e aí tem todas as condições de alcançar a iluminação, o estado de se tornar um buda. Entende? No budismo nós podemos e temos potencial para nos tornar um buda. Aí, alcançar a iluminação e ajudar todos os seres.

DIARINHO – Hoje há um bombardeamento de informações e muita tecnologia de comunicação, mas ao mesmo tempo parece que as pessoas estão mais solitárias e angustiadas. O suicídio, inclusive de crianças e adolescentes, seria um resultado dessa angústia. Como o budismo vê essa característica do mundo moderno e como pode ajudar as pessoas?
Monge Geden– Muito boa a pergunta, porque, de fato, nos últimos tempos nosso planeta, o nosso mundo tem sido transformado muito com os desenvolvimentos tecnológicos e principalmente de comunicação. Todo mundo, criança, adolescente já têm whatsapp e você vê notícias de toda as partes do mundo. E, consequentemente, essa globalização permite hoje que você tenha uma visão do mundo praticamente on line ou com duas, três horas de diferença. Aí, exatamente, nós não estamos preparados para esse acesso maciço de informações. Nem os próprios dirigentes, nem os próprios líderes, que eram para ser líderes. Eles ficam, inclusive, digamos assim, sem tempo para pensar e refletir. Até porque tem poucas pessoas para isso, de tanta mudança que ocorre. Então, o que é que acontece? As pessoas ficam meio abaladas nos seus alicerces, nos seus valores. (…) Então, de fato as pessoas ficam às vezes juntas, cinco, seis membros da família, mas não há um diálogo onde possam trocar informações. (…) Começar a discutir cidadania, para que não haja esses adolescentes que começam a ficar quietos e aí eles começam a ir para a internet, ficar lá quatro, cinco horas. Às vezes, para os pais, o fato de o filho estar quieto quatro, cinco horas ali é como se fosse uma tranquilidade. Mas, de repente, aparece uma notícia ruim do adolescente se suicidar, coisa parecida, e aí coloca em xeque toda a sociedade. Esse lance é altamente preocupante porque ocorre em todos os países. Japão, que teoricamente tem uma educação assim, assim e assado… No Canadá, nos Estados Unidos, aqui no Brasil. As pessoas falam “é aqui que tem mais, aqui é que tem menos”, mas em quase todos os lugares as pessoas não conseguem compreender esse lance do suicídio.

DIARINHO – E como o budismo pode ajudar nisso?
Monge Geden– O budismo pode informar bastante. Principalmente porque as pessoas não entendem esse lance de vidas passadas e vidas futuras. Então, cada um de nós traz uma bagagem, traz o seu karma de vidas passadas. (…) Tentar entender tudo, só no contexto de uma vida, fica difícil explicar porque essa violência, por exemplo, em cima das crianças, abusos na educação, abusos horríveis. Mas isso o budismo vê como? São causas e condições feitas em vidas passadas e que amadurecem aqui e agora. Aí a pessoa é prejudicada ou coisa parecida, mas é o resultado de ações de vidas passadas. Então, esse entendimento ajudaria muito as pessoas a compreender esse aspecto. Aí, claro, por exemplo, uma das principais maneiras de ajudar é aprendendo a meditar. Recentemente, teve uns meninos lá na Tailândia, que passaram por um perigo de vida enorme e com um pouquinho de meditação conseguiram se manter calmos perante o frio, a fome, a sede e conseguiram ganhar muito tempo e conseguiram ser salvos. Então é bacana demonstrar para as pessoas que a meditação não é uma coisinha simples, zen, cor de rosa e que não vai dar resultados. Na medida que você faz boas meditações, aprende a fazer boas meditações, você consegue resolver problemas bem cabeludos. Esses problemas não são externos. Meditação resolve um problema na mente. Nós, que somos budistas, acreditamos no que Buda disse: tudo depende da mente. Então, se a gente consegue regular nossa mente, entender a nossa mente, a gente consegue, externamente, no mundo externo, resolver e se comportar de uma maneira a sofrer menos.

DIARINHO – Na lógica da vida ocidental, no corre-corre cotidiano, há espaço para a meditação?
Monge Geden– Olha, a nossa tradição está se expandindo extremamente rápido no ocidente e, há uns 10, 15 anos, nosso guia espiritual cunhou uma expressão chamada ‘budismo moderno’, que significa exatamente isso, um budismo adaptado a esse tempo de correria. Então, na nossa tradição, para provar isso, nós temos vários templos budistas na Austrália, no Canadá, nos Estados Unidos, na França, que ficam assim na calçada, na rua, no centro. Ou seja, ao invés de optar de ficar com nossos templos budistas em retiros, longe, no alto da montanha, debaixo da ponte, coisa parecida, nós temos um budismo que põe a cara. E pra quê? Para ajudar as pessoas. Então elas têm muito acesso. Inclusive, uma das minhas funções aqui na região é colocar isso aqui, para que as pessoas possam do mesmo jeito em que entram num banco para sacar alguma coisa, possam também entrar e fazer 15 minutos de meditação, 30 minutos. Então é possível.

DIARINHO – A meditação deve ser feita sob orientação?
Monge Geden– Sim e não. O ideal é que tenhamos uma orientação. Claro, depende de cada um se precisa ou não um pouco mais de orientação. Também dá, com leitura, para entender esse processo. Mas é tão importante e tão profundo que seria interessante que as pessoas se interessassem por cursos de meditação e que pudessem inicialmente fazer uma meditação respiratória, uma meditação em amor, uma meditação em compaixão. E aí a gente aprende muito e, em várias circunstâncias, doenças, estresse mental, essa meditação vai ser o remédio. Vai colaborar, inclusive, muito com os outros remédios, os remédios comuns. Porque daí a pessoa vai aceitar as doses, a quimioterapia, a radioterapia. Principalmente, se as pessoas meditarem sobre o problema do suicídio. Se todos nós meditarmos, vai ajudar muito esse lance do suicídio. O que é que acontece? Há um progresso enorme na parte de química e remédios interessantes para evitar a depressão, mas, não obstante, está aumentando o número de suicídios. Então algo a mais tem que ser feito. Se a gente agregar esses tratamentos à meditação vai ajudar muito. O problema principal da pessoa que está em depressão e pensa em suicídio e essas coisas todas é que ela não se abre. São doenças que têm na própria mente e que a própria pessoa não consegue diagnosticar, não consegue ver que está indo para um lado negro da própria vida, da própria mente. Se ela falasse, se abrisse um pouco já seria uma solução enorme, porque começa a resolver cada vez que se compartilha uma informação que está com você, se você se abre, é o começo da solução.

DIARINHO – Em Balneário Camboriú, um vereador tenta obrigar alunos da escola pública a escutarem diariamente trechos da Bíblia. Os críticos desse projeto de lei afirmam que isso desrespeita crianças que vêm de famílias de religiões não cristãs. Como o senhor vê uma proposta como esta?
Monge Geden– É interessante a proposta dele, na fé que ele tem. Mas hoje em dia a gente percebe logo que é inaceitável. (…) Acho que se for ensinar, teria que ter abertura para todas as religiões. Às vezes é difícil, porque você tem várias religiões e a gente não tem tantos professores em cada cidade do Brasil para fazer isso. Acho que forçar não convém. As pessoas deviam achar outros meios, mas não ali na escola. Aqui no Brasil, a gente sabe, também ainda tem bastante escolas que são de origem cristãs, há evangélicas, adventistas. Eventualmente os pais podem ter essa opção, mas acredito que a grande maioria das escolas deve ser laica. As crianças crescem e depois fazem opções. Embora tenham sido obrigadas a aprender uma religião, acabam escolhendo outras opções.

DIARINHO – Depois do ataque terrorista na escola de São Paulo, Santa Catarina registrou vários casos de ameaças de alunos em escolas públicas. Qual a melhor forma de lidar com essa situação que gera medo e dúvidas em todo mundo? Qual a conduta mais adequada das autoridades e também das famílias em relação a essas crianças e adolescentes que têm feito essas ameaças?
Monge Geden– Olha, é uma situação difícil. É uma bolha que tenta espaço. Acho que para neutralizar essa tendência, essa bolha, acho que é preciso em todas as escolas, municípios, as pessoas se conscientizarem e começar, por exemplo, palestras, a formação para os professores terem condições de repassar isso para os alunos. De tal modo que grupos, dentro da escola, na sala de aula, as pessoas consigam conversar com os alunos, dar a palavra para cada um, democraticamente, fazer um debate uma vez por semana. Provavelmente muitos vão dar vazão aos seus pensamentos ou coisa parecida, que têm que ser encarados com respeito. O fato de dar vazão a esses pensamentos que às vezes podem ser radicais, extremos, às vezes esdrúxulos ou coisa parecida, numa sociedade comunicativa como a gente já falou, isso seria extremamente necessário. Isso daria ajuda para acalmar essa onda. Mas não continuar com a escola clássica, fechada, aula disso, aula daquilo. Porque eles se veem mal nesse esquema muito fechadinho. É um tipo de revolução que está ocorrendo. Mas acredito que com bastante informação, para todos os níveis, inclusive para a criançada, que tem uma capacidade maior que a gente imagina, seria muito bom. Esse seria o meu conselho.

Nome completo: Armando Zaupa Remacre
Idade: 64 anos
Local de nascimento: Santiago (RS)
Estado civil: Os monges são celibatários
Filhos: Não os tem
Formação: Graduação em Engenharia de Minas pela Universidade Federal de Ouro Preto, em Minas Gerais, fez Doutorado na École Nationale Supérieure des Mines de Paris, na França.
Experiências profissionais e/ou religiosas: Monge budista da tradição Kadampa, também conhecida como “Budismo Moderno”, ordenado em 2004, mas adepto há mais de 20 anos. Foi professor da Universidade de Campinas na área de geociências, autor de diversas publicações científicas em geoestatística.

Nós, budistas, por exemplo, rezamos para todos

 

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