Home Notícias Entrevistão Evandro “Che”

Evandro “Che”

Fundador e vocalista da banda Tarrafa Elétrica

Nome completo: Evandro Francisco Marquesi ( Evandro Che)
Idade: 39 anos
Natural: Itajaí
Estado civil: Casado
Filhos: 3
Formação: Jornalista
Experiência artística e profissional: Funcionário do Banco do Brasil, fundador, vocalista e compositor da banda Tarrafa Elétrica, atuou como jornalista free lancer, integrou a banda 50g Rock de Peso e o extinto Grupo Jaé – Sonora Arte Popular, parceiro do folclorista itajaiense Arnoldo Cueca em apresentações do folguedo do boi de mamão, integrante do centro Público de Economia Solidária de Itajaí (CePESI).

Tarrafa Elétrica. O nome é quase uma confissão da intenção da banda: valorizar a cultura do litoral catarinense, mas criar uma estética nova, com elementos contemporâneos. Neste Entrevistão, o músico e compositor Evandro Che conta como surgiu a banda mais peixeira de Santa Catarina, fala de projetos como o Cardume e a Mariscada do Seu Arildo e defende a arte como instrumento de militância política e social. A entrevista é assinada pelo jornalista Sandro Silva. Os cliques são de Fabrício Pitella.

O Tarrafa sempre busca fazer pontes. A nossa estrada foi feita sempre através de parcerias, em especial ligadas às causas ambientais e ligadas a várias questões que a gente levanta nas nossas músicas”

DIARINHO – Enquanto muitas bandas apresentam ao mercado um produto que o público está acostumado a ouvir, na tentativa de cair no agrado dos fãs, a Tarrafa Elétrica mistura elementos da música do litoral catarinense com elementos da música moderna, incluindo arranjos ousados e acaba criando uma outra estética musical. De onde nasceu a ideia dessa mistura de elementos tão diferentes? Essa receita tem dado certo?
Evandro Che – (…) A banda surgiu por acaso. De um grupo de amigos, nos corredores da Univali. A gente tinha o Núcleo de Comunicação Popular, formado pela maioria de estudantes de jornalismo. [Isso em 2005?] 2003. A gente pega a data de dezembro de 2004 como a data oficial de fundação, porque foi a nossa primeira apresentação oficial, que foi no Bar do Nelson, lá no Refúgio do Poá, em Penha, na Praia Grande. Eu e o Cassiana Bazana, que fomos os fundadores, nós fazíamos covers naquelas festas de repúblicas de estudantes. (…). Eu tinha umas memórias, umas lembranças. Nasci em Itajaí, mas fui criado muito em Penha. E lá ia com o meu avô, quando era pequeno, na beira da praia, participava da pesca de arrasto. Então tinha toda essa tradição. Alguns tios costumavam também fazer lá para o lado do Mariscal. A gente ia pra lá também. E participava também da malhação de Judas, do Terno de Reis. E tudo aquilo ficou no imaginário, ali, na memória. E quando comecei a entrar na música, meio que por acaso, eu tinha umas memórias, umas lembranças que eu escrevia como exercício, até pela minha formação em jornalismo, que a gente começou a musicar. Tinha um tema que se chamava “Seu Arildo”, que se musicou. Fala do meu avô e o pessoal começava a pedir quando a gente fazia as festas. “Pô, toca aquela música de vocês!”. Aí já tinha uma outra e tal que também tocávamos. Isso incentivou… Até que um dia um amigo deu a ideia: “Vocês têm que ir no palco com uma identidade, uma banda”. Foi o Dicezar, que é um grande amigo. E ele deu a ideia: “Tarrafa Elétrica é um nome legal!”. E ficou. Mas eu não tinha nenhuma ideia dessa significação. Hoje eu sei que esse nome sintetiza bem essa mistura que tu falastes, que é o quê? É a tarrafa, que é um instrumento de raiz, da nossa cultura, da cultura peixeira, do litoral em geral, e o elétrico, que são os elementos contemporâneos. Então, depois quando houve a necessidade de aprofundar musicalmente e buscar uma referência mais forte para o nosso som, de desmistificar aquilo que era colocado inicialmente, que eram alguns rótulos como “os caras fazem som açoriano” ou “os caras fazem um som meio maracatu”, nós paramos para pensar: “Pô! Mas qual que é a nossa? Vamos fazer um som sério? O que é que é? Qual é a nossa identidade?”. O Beto Severino [José Roberto Severino, doutor em história, hoje professor da universidade Federal da Bahia] ele tem um livro interessante que fala dessa maquiagem açoriana. Foi feita em torno de Itajaí uma maquiagem dessa identidade portuguesa, do portuguesinho dançando o “vira” e tal. Aí a gente resolveu ir além, no sentido de colocar outros elementos que eram elementos indígenas, elementos africanos, que fazem, sim, parte da história de Santa Catarina, mas que de certo modo ficam mais na periferia, mais às margens. A partir disso, a gente trouxe essa nossa identidade cultural, com essa miscelânea. Então a força da percussão tá presente, a viola caipira tá presente, por ser um instrumento genuinamente brasileiro, e ao mesmo tempo tem a guitarra, o baixo. Foi uma busca pensada da nossa identidade sonora mesmo.

DIARINHO – Num show recente, em Penha, a apresentação musical foi enriquecida com a “Tartaruga-mamão”, que é uma releitura do folguedo catarinense Boi de Mamão, mas voltado para a ótica da preservação ambiental, da tartaruga, mais especialmente. Quem criou a “Tartaruga-mamão” e teve ideia de incluí-la no show?
Evandro Che – Tem uma parceria há alguns anos com o Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC). O Tarrafa sempre busca fazer pontes. A nossa estrada foi feita através de parcerias, em especial ligadas às causas ambientais e ligadas a várias questões que a gente levanta nas nossas músicas. Quanto ao Tartaruga de Mamão, um dos nossos integrantes, que é o Rodrigo Cavalieri, ele é professor no instituto Federal de Santa Catarina. Ele leciona disciplinas ligadas à pesca. Já tinha uma aproximação através de um evento que se realiza. Aí surgiu essa ideia de fazer uma releitura e utilizar os jovens como uma forma também de repassar essa mensagem para as gerações. A ideia foi pegar as criaturas do nosso folclore, como o boi, a Maricota e a bernunça, e transformar em criaturas marinhas e a partir disso trabalhar a mensagem da conscientização ambiental. Foi muito assertivo. O Rodrigo, inclusive, é quem faz os bonecos. Hoje a gente já tá num processo assim de agenda cheia, sempre se apresentando em escolas. É um projeto que tem o financiamento pelo instituto Federal, mas muitas das ações também são feitas de maneira gratuita. É uma devolutiva para a sociedade. E o que é legal, é assim: a gente poder, através da música, trabalhar a formação dos jovens, estar transformando e também passando essa mensagem de conscientização ambiental, que é muito necessária nos tempos de hoje.

Foi feita em Itajaí uma maquiagem dessa identidade portuguesa, do portuguesinho dançando o “vira”. Aí a gente resolveu ir além, no sentido de colocar elementos indígenas, africanos, que fazem, sim, parte da história de Santa Catarina, mas que de certo modo ficam mais na periferia, mais às margens”

DIARINHO – A Tartaruga de Mamão tem uma característica que é a interação com o público. De onde vem isso?
Evandro Che – Essa característica já é oriunda do Tarrafa, né? Nós tivemos uma escola muito boa, que foi o seu Arnoldo Cueca [Arnoldo Pereira, folclorista itajaiense, falecido em 2017]. O seu Arnoldo Cueca, nós o acompanhamos durante anos. Lá no início do Tarrafa, foi uma das pessoas primordiais na fundamentação da nossa sonoridade, quando se buscava essa identidade. Nós nos encontramos com ele numa apresentação. Os dois haviam sido contratados pela prefeitura de Itajaí para se apresentar. Antes era o tarrafa e depois era a apresentação dele. Aí ele disse: “O, esses rapazi! Mas já fica aí, já fica aí pra fazer uma música comigo”. A gente ficou e acompanhou. De lá a gente ficou anos acompanhando o seu Arnoldo Cueca. Sem dúvida nenhuma é um dos nomes mais importantes da história musical de Itajaí. Embora a gente tenha músicos aí, nossa, excelentes. Mas, na minha opinião, uma pessoa por trabalhar com a cultura popular em si, foi um dos grandes nomes da música em Itajaí. Principalmente, também, como é o caso do Tartaruga de Mamão, utilizar a música com crianças, trabalhando essa proposta de fortalecimento cultural com crianças. Isso a gente tem frutos até hoje. Tem uma parceria, agora, com a neta dele, que é nossa parceira. [A cantora Natália Pereira?] A Natália Pereira, exato. Ela tem um evento que realiza anualmente e que a gente sempre participa. Sempre que pode tá se encontrando. Isso é muito legal, ter um legado que tá indo de gerações e o legado do seu Cueca continua com o Tarrafa, continua com a Natália e a cultura peixeira tá aí.

DIARINHO – Um dos mais recentes projetos do Tarrafa Elétrica é o Cardume, em que a banda interage com os fãs para criar novas músicas. Como é que se dá essa interação? Ela já tem resultados? Vai sair um disco com essa produção colaborativa?
Evandro Che – O Cardume fizemos a partir da ideia de que a gente precisa ter tanto uma devolutiva quanto uma resposta dos fãs. A ideia desse projeto era saber se o caminho era o certo. A gente recebeu esse retorno que, sim, que é esse o diferencial do Tarrafa, de mesclar essa raiz com o contemporâneo. Mas percebeu o seguinte, que podíamos ir adiante, tentar produzir o nosso trabalho junto com eles. Aí, dentro dessa ideia, criou um grupo dentro do Facebook. O nome do grupo foi escolhido com a ajuda do pessoal. Depois disso, a própria composição Cardume surgiu e fomos interagindo com eles sobre qual seria a forma da música, o ritmo que a gente poderia utilizar. Como saiu a lei de incentivo à cultura, a gente submeteu essa ideia do projeto à lei de incentivo e fomos contemplados. Nós lançamos agora, no último dia 20 [de junho], o álbum digital Cardume. [Quantas músicas?] São oito faixas produzidas de maneira colaborativa. Tem a participação de vários artistas: o Cassiano Bazana, que é um dos fundadores da banda, com a viola; temos o GPI, que é o grupo de Percussão de Itajaí; temos o Marquinhos da Lagoa, que é uma conexão com Floripa; temos o Rafael Petry. Enfim, tem todo um povo. Posso ter esquecido alguém. Mas é um trabalho que dá muito prazer, porque além desses músicos, tem os nossos fãs e aquelas pessoas que são amantes da música e trabalham na banda, junto com a gente, na nossa produção.

DIARINHO – Um dos primeiros projetos do Tarrafa Elétrica foi a “Mariscada do Seu Arildo”, que é um momento que aproveita uma proposta gastronômica para divulgar a produção da banda e da cultura local. Esse projeto ainda está sendo tocado? Quando vai ser a próxima edição?
Evandro Che – Bom, nós temos uma música, que é a música seu Arildo, né? Fala do meu avô, que mora na Penha, e fala da culinária peixeira também. Fala do risoto de marisco, fala do caldo de peixe e tudo mais. E essa música que caiu nas graças do pessoal. Tem várias bandas que já fizeram cover. Um tema que deu bastante retorno para o Tarrafa e talvez, até, o Tarrafa tenha surgido através disso. E aí nós resolvemos fazer um evento. Tinha muita gente que pedia: “Pô, quando é que eu vou provar o risoto do seu Arildo?”. Em parceria com o instituto Federal nós já realizamos três edições. A última foi agora, no mês passado, no início do mês de junho, no campus de Itajaí do Instituto Federal de Santa Catarina. Ali a gente realiza sempre oficinas com o objetivo de formação. Tudo de maneira gratuita. Este ano a gente fez com verba reduzida porque não aprovamos projeto, não captamos recursos. Mesmo assim metemos a cara e “vamos lá, tem que fazer, tem que acontecer!”. E foi o evento de maior sucesso. Um público em torno de 500 pessoas. Servimos mais de 450 pratos de maneira gratuita, além das atrações culturais e oficinas. Esse é um projeto que a gente quer levar sempre, todo ano, e quem saber expandir para outras regiões aí do estado. (…).

DIARINHO – Justamente a música “Seu Arildo” ganhou projeção estadual quando em 2005 vocês foram selecionados para a 2ª Mostra de Música Catarinense do SESC e também quando a TV Futura, em mais de uma ocasião, divulgou esse trabalho. “Seu Arildo” é a música ícone do Tarrafa Elétrica ou há outras composições que também tiveram grande alcance de público?
Evandro Che – Tem A Cidade dos Contêineres, que é uma música que tem marca também. Mas é uma música com mais peso. Então ela marca uma identidade rock’n roll. É uma música que a gente fez um clipe. Inclusive com várias figuras do município. Figuras importantes, como o Amaro [professor e ambientalista Amaro César Silva Neto] e a Fátima Vanzuita [Chef de cozinha]. Mas só que a Seu Arildo é a nossa. Vários grupos já fizeram cover, com frequência é solicitada por professores para ser usada nas aulas. O Rafaelo de Góes [músico, poeta e artista plástico itajaiense] ainda há pouco fez umas oficinas e também utilizou essa música. Vários amigos acabam utilizando. E é legal, também, que ela traça um paralelo com a educação, pois fala um pouco da nossa cultura. Isso é muito gratificante.

O que é legal: a gente poder, através da música, trabalhar a formação dos jovens, transformar e também passar essa mensagem de conscientização ambiental”

DIARINHO – O Tarrafa Elétrica assinou a trilha sonora do documentário “Dez Ilhas e Um Mundo”, que rodou no Brasil e Portugal, mostrando as semelhanças e heranças deixadas pelos açorianos em Santa Catarina. Como é que foi a pesquisa para produzir esse trabalho, que acabou rompendo as fronteiras do Brasil?
Evandro Che – A gente teve a felicidade, além da questão ambiental, de ter encontrado várias parceiros nessa caminhada e um deles é a TAC Filmes [produtora itajaiense]. A TAC Filmes foi a idealizadora desse projeto. Ela fez todo o projeto de execução. O Tarrafa Elétrica entrou com a trilha sonora a convite deles. No trabalho de pesquisa, eles foram para os Açores, foram para Portugal. Foi um trabalho muito legal, que abriu portas. Acho que a gente tem em torno de uns 10 trabalhos ligados a audiovisual, em que Tarrafa assina a trilha ou são de produções nossas. Inclusive isso deu origem a um projeto nosso, agora, que é a Sessão Tarrafa. Além do show do Tarrafa, a gente quer leva essa nossa produção audiovisual e também debater essa produção, levando os produtores desse trabalho. Porque a gente vê a necessidade de mostrar esse outro lado da nossa produção para o nosso público.
DIARINHO – A banda está completando 15 anos de estrada e criação. Ela ainda tem a mesma formação inicial ou teve mudanças? Quem permanece e quem entrou depois?
Evandro Che – Atualmente só eu. Sou o único que permanece na banda. Nós já tivemos vários integrantes. Até inclusive na fase inicial não tinha muita pretensão enquanto banda. Era mais o som da galera. (…) Passaram muitos pelo Tarrafa, muitos. [Hoje, quem forma a banda?] Hoje são sete integrantes. Sou eu, na voz. Aí nós temos o Rodrigo Cavaleri, com viola, banjo. O Rodrigo também faz os bonecos. Nós temos o Emmanuel Schmidt, na guitarra. Temos o Lenon César, no baixo. Temos o Ederson Silva, na bateria. Temos o Icó Moronguetá, na percussão. E temos o Marcos Renato, também na percussão. Daí nós temos os nossos volantes também, né? Como é um grupo grande, vários trabalham com música diretamente, nós temos um grupo que são os músicos permanentes, mas a gente tem o Júnior Denker, que é o nosso baterista, o nosso percussionista, quando é necessário. [E quem fazia parte da formação inicial?] Na formação inicial era eu, Cassiano Bazana, Bruno Schmidt, Thomas Bisinger, Cláudio Belli, Dagoberto Coelho, Leandro Pellizzoni e o Vando Jurubeba. Eu acho que era isso.

DIARINHO – O Tarrafa Elétrica tem deixado claro que é uma grupo comprometido com a luta ambiental e com a transformação social. Nesses tempos de relações digitalizadas e pouco humanizadas e nesse contexto de conservadorismo que o Brasil vive, ainda há espaço para a arte militante?
Evandro Che – Esse é o momento em que a arte militante é mais necessária. Ela é um trabalho de resistência. É um trabalho árduo. Principalmente nesse momento em que a cultura, em si, ela é criminalizada, como se fosse algo que não seja do bem. E muito pelo contrário, né? Então, hoje, com esses meios de comunicação instantâneos, surgem “especialistas” em todas as áreas e em vários momentos. “Especialistas” em lei de incentivo à cultura? Nossa! Surgiu um monte. Mas vivenciar isso… (…) Hoje, em Itajaí, principalmente, tu vê várias atividades culturais sendo disponibilizadas de forma gratuita para a população e, às vezes, não tem público. Hoje há uma produção grandiosa. Isso tudo vem por meio do fomento e do incentivo à cultura. É a mesma coisa do incêndio lá do museu, que teve [Incêndio que destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em setembro do ano passado]. Um monte de gente se comoveu. “Meu Deus! Pegou fogo no museu!”. Mudaram foto do perfil, isso e aquilo. E, aí, eu pergunto o seguinte: quantas pessoas de lá pra cá levaram seus filhos num museu? Quantas pessoas? (…) A gente está há quase 15 anos nesse processo. É uma luta árdua pra caramba fazer música autoral. Se você pegar as 10 principais músicas das paradas de sucesso e botar numa única, tu não vai fazer uma letra construtiva, que vai passar uma mensagem. É meio generalizante o que eu tô falando, mas em muitos casos vai acontecer isso em algumas rádios. Então é complicado fazer música autoral. É complicado nesse período meio obscuro da nossa história. Mas é um trabalho de resistência que se torna cada vez mais necessário. Por isso a gente segue firme, utilizando a música como agente de transformação e se unindo a várias pessoas como nós, que acreditam nessa bandeira, que acreditam nessa luta de que a arte-educação é o caminho.

 

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com