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de Fáveri

Entrevistão com Marlene 
de Fáveri

 

Historiadora, escritora, poetisa, pesquisadora de temas como feminismo e gênero e, mesmo que ela pareça não se sentir à vontade com isso, também é figura central de um debate nacional sobre a liberdade de pensamento na educação. A professora Marlene de Fáveri, vítima de ataques do movimento “Escola sem partido” e processada por uma aluna do mestrado da Udesc que se assumiu anti-feminista, conversa com o DIARINHO sobre o crescimento de grupos e propostas que buscam reprimir o debate de temas que ela considera tão caros à vida humana: relações entre homens e mulheres, sexualidade, respeito às diferenças e direitos humanos. A entrevista foi concedida ao jornalista Sandro Silva. Os cliques são de Mariana Vieira.

Nome completo: Marlene de Fáveri.
Idade: 54 anos.
Natural de: Meleiro/SC.
Estado civil: Solteira.
Filhos: Uma filha.
Formação: Ciências Sociais, História, espelizações em Didática do Ensino Superior e em História Social, 
mestrado e doutorado em História.
Experiências profissionais: Extensionista da Acaresc em Navegantes, professora da rede municipal de Itajaí (até 1994), professora do curso de História da 
Univali e atualmente professora do 
mestrado em História da Udesc e pesquisadora de gênero e feminismo. Tem três livros publicados, participação em várias outras publicações, autora de inúmeros artigos científicos e é poetisa.

“Há uma onda conservadora muito grande, que tem se infiltrado em todos os lugares, especialmente nas escolas, com o projeto de amordaçar os professores”

“Não me sinto vítima. Porque vítima são os professores. Vítima são todos os professores e professoras. Vítima é a escola.”

“Vítima é a educação e, principalmente, os jovens”

“Não falar é impedir os jovens e as crianças de terem acesso a diferentes informações. Isso é crime.”

DIARINHO — Vários casos de violência contra professores têm vindo à tona ultimamente. Além daquela situação de Indaial, em que um aluno espancou a professora, em Itajaí recentemente vários pais de alunos agrediram um educador porque ele disse que os pais também eram responsáveis pelas notas baixas dos filhos. Como se explica esse aumento de violência contra professores?
Marlene de Fáveri — Neste momento vivemos num país em que está tudo muito polarizado. Há uma uma onda conservadora muito grande, que tem se infiltrado em todos os lugares e especialmente nas escolas, com o projeto de amordaçar os professores. Ao mesmo tempo, dentro dessa onda conservadora, as pessoas se sentem quase no direito de fazer exigências que antes não eram tão comuns ou que eram poucos visíveis. O comportamento e a conduta dos professores é ao que eles se referem especificamente. [E onde conservadorismo e violência se encontram nessa história?] Conservadorismo e violência andam juntos. Ser conservador é um direito de todos. Você pode ser conservador e defender seu ponto de vista conservador, desde que isso não infrinja o direito dos outros. Esse conservadorismo ao extremo está defendendo, numa sociedade polarizada, pontos de vista muito rígidos. Não aceita a diferença, quer a “neutralidade” e isso provoca, evidentemente, fricções dentro da sociedade e leva aos atos de violência. Tanto que estão acontecendo por aí.

DIARINHO — O profissional da educação que se sentir intimidado recorre a quem? Existe alguma iniciativa que dê suporte aos professores e professoras, tanto de escolas públicas quanto de privadas?
Marlene – Os acontecimentos estão de norte ao sul do país. Em Santa Catarina nós temos vários. São denúncias de professores em sala de aula ou por terem dito alguma palavra, como gênero, por exemplo, que é vista como uma palavra demoníaca hoje, ou falado alguma questão que tenha a ver com direitos humanos. Isso tem sido denunciado, criticado e tal. Os professores têm, sim, todo o respaldo da Constituição. Nós temos, na Constituição Federal o artigo que diz que os professores têm o dever de levantar as questões que apontam para a justiça social, para a diversidade, para o respeito às diferenças, para a ética, para a cidadania. Então o professor está respaldado, primeiro, na Constituição Federal. Segundo, ele deve, imediatamente, nesse caso, procurar o seu sindicato, a direção da sua escola. Chamar testemunhas, se por acaso a sala de aula for invadida: a sala de aula é lugar em que o professor tem o domínimo. Ninguém pode entrar sem ser convidado, autorizado.

DIARINHO — Agora muito se fala no movimento “Escola sem partido”, que inclusive tem apresentado projetos para criar leis municipais que vetem assuntos e controlem o conteúdo das aulas. Você, que esteve em Itajaí participando de um debate sobre o tema, como explica esse movimento? Ele é novo, onde surge, quem o fomenta?
Marlene – O nome “escola sem partido” é mais ou menos recente. Mas a ideia que move essa onda conservadora já tem mais de 10 anos. Começa lá em 2002, 2003. Aprofunda-se em 2012, 2013 e 2014, principalmente, com essa questão da perseguição a professores. Mas não só. Tem uma questão muito maior. Temos um país que viveu um tempo dentro de uma democracia, um governo de esquerda, e isso não é admitido, por exemplo, pelo poder econômico central. Vamos pensar aqui nos Estados Unidos e nos grandes conglomerados econômicos. Eles não admitem que países até então ditos da periferia ou, antes, do terceiro mundo, que tinham uma população que era mais ou menos massa de manobra, de um poder imperialista, digamos assim, que essas pessoas passem a ter direitos. Direito de estudar, direito à educação, à saúde, passem a se informar, a ter opiniões, a ter ideias próprias, a fazer denúncias, a militar. Enfim, isso incomoda sobremaneira a um certo poder. E nesse caso um poder conservador. Essa onda conservadora não é só brasileira. É internacional. E ela vem com toda a força através de políticos, de grupos econômicos, grupos de jovens, inclusive, que compram esse discurso, desavisados. E dá no que está acontecendo hoje.

DIARINHO — O movimento “Escola sem partido” tem um projeto de lei padrão e nele há um artigo que obriga o professor a apresentar o que chamam de “principais versões, teorias, opiniões e perspectivas” quando tratar de um assunto ligado a questões políticas, socioculturais e econômicas. No entanto, em todas as justificativas do projeto atacam o que chamam de “esquerda” e o comunismo. A escola que se diz sem partido ataca uma ideologia específica. É um contrassenso?
Marlene –É um total e absoluto contrasenso. O projeto que foi protocolado e está tramitando na câmara [dos Deputados, em Brasília], também está sendo proposto em um monte de prefeituras e estados. Mas é um absoluto contrasenso. Primeiro, eles querem uma neutralidade ideológica absoluta total e isso não existe. Segundo, acham que não pode falar nada que tenha qualquer conotação política, social, história, filosófica, no sentido de abrir as mentes das crianças. E, no entanto, esse projeto já é a própria ideologia. Porque, na medida em que ele quer minar todos as outras discussões, ele quer impor a sua discussão, que é uma ideologia. Só que essa neutralidade não existe e essa forma com que eles estão apontando, dentro do projeto escola sem partido, já está provado pelo ministro Barroso [Luís Roberto Barroso, ministro do Supremo Tribunal Federal que em março suspendeu por liminar uma lei estadual em Alagoas que criava a “Escola Livre”, similar ao “escola sem partido”], por outros operadores do direito nacional, que é absolutamente inconstitucional. O que essas pessoas, que estão fazendo esse terrorismo junto às escolas – e estão mesmo! — pretendem é amedrontar, provocar um medo nos professores, fazer com que as pessoas não falem mais em ideias, em palavras e propostas que sejam emancipadoras.

DIARINHO — Esse mesmo projeto padrão do “Escola sem partido” também proíbe os educadores de tratarem de assuntos como sexualidade na escola. Por que os defensores desse projeto têm tanto medo desse assunto e que riscos há, na formação de uma criança ou adolescente, ao ser privado de ter informações e debater em sala de aula um tema como sexualidade?
Marlene – Em primeiro lugar, a inconstitucionalidade do “escola sem partido” está justamente em que esse projeto está contra esses temas que são imprescindíveis a uma educação cidadã e a uma educação que aponte para a justiça social. O que fazem é uma grande confusão entre sexo, sexualidade, experiências sexuais e escolhas sexuais. Enfim, misturam tudo num mesmo lugar e não é nada disso. O que nós podemos apontar, com toda a clareza, é que boa parte do que está ali colocado, ou quase tudo, advém de pessoas ligadas a religiões, muitas vezes religiões bastante conservadoras. E não é uma só. São várias religiões que foram montando essa coisa da “escola sem partido”, apontando justamente pros temas mais caros à vivência, a uma experiência democrática, a uma experiência que aponta para a justiça social, que são o gênero, a sexualidade e a religião.

DIARINHO — O que seria essa “ideologia de gênero” que os defensores do “Escola sem partido” atacam com tanta veemência?
Marlene – O que é que é um gênero? O gênero é uma palavra que apareceu no cenário teórico mundial há uns 15, 20 anos, como uma palavra de análise das relações sociais, culturais. Principalmente das relações sociais e de relação de poder. Então, o gênero não é mudar de sexo, não é escolher o sexo. O gênero não é nada disso. Mas, esse grupo, essas pessoas, para poder justificar a sua onda de perseguição às mulheres, diz que o gênero é uma ideologia demoníaca, é uma ideologia que vai estragar as famílias. E gênero não é uma ideologia. Gênero é uma categoria de análise, de perspectiva de análise da história, da antropologia e de diferentes ciências. Ao apontar o gênero e o feminismo como demoníacos ou como destruidores da família, como nocivos às crianças, estão fazendo o quê? Estão revelando um machismo muito grande na sociedade brasileira, uma sociedade que vem há séculos sendo patriarcal, onde imperou e ainda impera um sexismo muito grande. E isso atinge a sexualidade. Nós sabemos que as religiões – e aqui não falo de uma só, falo de várias – têm na sexualidade das pessoas, historicamente, o controle dos seus corpos. Então, se eu pegar por esse ângulo, o projeto “escola sem partido” e aquilo que eles apontam como ideologia de gênero, é o desejo que eles têm de controlar as pessoas, especialmente as mulheres, no que tange à sua sexualidade.

DIARINHO – Várias sociedades, na história humana, foram matriarcais ou tiveram uma relação entre homem e mulher mais equilibradas. Os celtas, na ilha onde hoje é a Inglaterra, no Sul da Ásia, entre alguns povos das Américas. Como é que ficaria o ensino dessa informação histórica para um aluno numa escola mais repressora?
Marlene – Esse é um grande dilema. Como é que você vai explicar, mostrar historicamente, sociedades que foram matriarcais ou tiveram relações amenas no que tange à questões da sociabilidade das pessoas? Ao mostrar que é possível uma sociedade onde homens e mulheres tenham equidade de gênero e mostrar sociedades que tiveram experiências assim, você pode ser chamado à atenção ou pela direção da escola ou pelo pai de uma criança, porque você disse que naquela sociedade as mulheres tinham a supremacia? Então, são coisas absurdas que acontecem hoje e que nós não podemos calar. Tirar essas discussões, eliminar qualquer discussão nesse sentido, significa você podar a possibilidade das crianças fazerem as próprias interpretações e fazerem as próprias análises e compreender o mundo a partir de diferentes perspectivas. Não falar é neutralizar e impedir os jovens e as crianças de terem acesso a diferentes informações. Isso é um crime!

DIARINHO — Há uma outra novidade, que é a criação de “brigadas de segurança” nas escolas. E, assim como o “Escola sem partido”, tem uma certa aceitação social. O Brasil está vivendo o que a Alemanha viveu na década de 30, com o crescimento da repressão, da vigilância e da militarização da juventude? Quais os riscos?
Marlene – Olha só como isso é perigoso. Você impede que as crianças tenham acesso a um conhecimento que seja inclusivo, que seja libertador ou, principalmente, que lhe dê possibilidade de reflexão, que aponte para a justiça social ou para os direitos humanos, impede que esse conhecimento chegue às crianças e. por outro lado, obriga-as a ter atitudes e participar de grupos ou brigadas que são criados com base no controle absoluto de almas e corpos. Então, vivemos num problema muito sério. Se isso continuar dessa forma ou se isso se popularizar mais, o que é que nós vamos ter? Teremos no futuro, daqui a 20, 30 anos, pessoas absolutamente fascistas. Serão pessoas que não vão conseguir respeitar diferenças. Serão pessoas que não vão ter os direitos humanos e os direitos sociais como os mais importantes direitos que nós temos nas nossas vidas. Então, estamos condenando uma juventude ao desconhecimento do que é viver num ambiente de paz, de democracia, de justiça social, respeito aos direitos etc.. E isso é muito perigoso.

DIARINHO — Você orienta alunos de mestrado no campo de estudos sobre gênero. Recentemente esteve no meio de uma polêmica nacional, quando sugeriu a uma aluna, que se manifestava contra essa linha de estudo, que repensasse a participação nas aulas de mestrado. Acabou processada e a aluna, inclusive, participou de um encontro nacional do movimento “Escola sem partido” promovendo denúncias contra você. Isso é resultado também dessa onda de conservadorismo que ressurge no Brasil?
Marlene – Sem dúvida. Dei aula para ela em 2013. História e Relações de Gênero, que é a disciplina que eu ministro no curso de pós-graduação, em nível de mestrado, da Udesc. E ela, à época, acabou fazendo um vídeo muito complicado para mim, para a minha área e publicou esse vídeo. Uma entrevista bastante complicada. E eu abri mão da orientação. Normal. Essa é uma possibilidade dentro da legislação da Udesc. Depois disso não a vi mais. Em 2016 ela abriu um processo contra mim alegando perseguição ideológica, religiosa e por ser anti-feminista e eu feminista, ela por ser cristã e supostamente, segundo ela, eu a perseguia na sua cristandade – o que não tem nenhuma possibilidade. Eu nem sabia que ela tinha uma religião e isso não vem ao caso, é uma opção do orientando. Estou nesse momento fazendo minha defesa a esse processo. Agora em setembro termina, deve sair a sentença de um juiz. Tenho clareza de que não cometi nenhuma daquelas questões que ela me fala. E isso está imbricado absolutamente dentro dessa teia que é esse movimento conservador bastante capilarizado, que se infiltra em todos os lugares. E eu fui uma pessoa marcada, penso assim, para passar por esse dilema. Mas não me sinto vítima. Porque vítimas são os professores. Vítimas são todos os professores e professoras. Vítima é a escola. Vítima é a educação e, principalmente, os jovens que acabam não tendo a oportunidade de refletir em tantas questões importante sobre justiça social e direitos humanos. Então vítimas são todas as pessoas.

DIARINHO – Pesquisa científica na universidade é algo que demanda muita seriedade. Houve honestidade dessa aluna em dizer no começo ou antes de iniciar a orientação com você, que era anti-feminista para começar essa linha de pesquisa? Ou você só foi descobrir isso depois?
Marlene – Se você me perguntar uma palavra para definir tudo isso, eu vou falar desonestidade. Porque foi desonesta comigo. Ela entrou num projeto que apontava para as questões que eu trabalho, o projeto aponta para as perspectivas teórico-metodológicas que eu trabalho, que são contra as violências, que são observar o gênero e o feminismo como importantes nos estudos históricos, e por isso mesmo aceitei orientar. Eu não percebi essas questões. Foi desonesto, no início da nossa orientação, ela fazer isso e não me dizer. Se tivesse dito pra mim, teríamos conversado. Mas ela disse de que forma? Deu uma entrevista para um canal chamado “conexão conservadora” e, nessa entrevista de duas horas, desconta em cima de todas as questões que a gente tinha estudado. Revira tudo. Me constrange enormemente. Me machuca, machuca toda a minha área de conhecimento, meus pares, sendo minha orientanda, minha aluna. Então eu abri mão da minha orientação naquele momento. E foi uma decisão necessária.

DIARINHO — O Estatuto da Criança e do Adolescente especifica em seu artigo 16 que o processo educativo não é de responsabilidade exclusiva da escola, sendo a escola um desses caminhos, assim como igualmente a família e a vida em comunidade. Em tempos de famílias sobrecarregadas, os pais acabam tendo a expectativa de “terceirizar” a educação dos filhos?
Marlene – Parece que o tempo mudou. Mas o tempo não mudou. Nós é que assumimos coisas demais. As famílias estão muito sobrecarregadas mesmo. Então isso é real, há quem deixe para a escola essa tarefa. “Se eu deixo o dia inteiro na escola, pelo menos eu tenho o dia inteiro livre para poder fazer as minhas coisas e tal”. Há pessoas que pensam assim. Eu penso que as pessoas do convívio familiar têm, sim, o dever de apontar os caminhos para a criança. Mas a escola é um lugar importantíssimo. Não se pode tirar da escola o seu papel como lugar de formação. Não diria do caráter, porque daí ficaria muito fechado. Mas formação de experiências desses alunos para que possam se sentir como membros e sujeitos desse mundo, desse lugar, dessas relações sociais. Mas, principalmente, a responsabilidade do respeito ao outro, com a responsabilidade de não agredir o outro por sua cor ou seu gênero ou por sua etnia ou por sua idade ou por usar óculos ou por racismo ou por homofobia.

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