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Dalmo Vieira Filho

“Como a gente requalifica as áreas centrais? A primeira coisa a fazer é que elas tenham vida”

O arquiteto e urbanista Dalmo Vieira Filho está prestando uma consultoria técnica na revisão do Plano Diretor de Itajaí. Dessa vez, Dalmo não representa o poder público no processo, mas sim o Sindicato da Indústria da Construção Civil dos Municípios da Foz do Rio Itajaí [Sinduscon]. O desafio, segundo ele, é ainda maior, mas o objetivo é o mesmo: refletir o crescimento da cidade e ter gabaritos firmes que permitam segurança a quem pretende investir e também aos moradores. À jornalista Franciele Marcon, Dalmo diz que o momento é de repensar a cidade sob a ótica das pessoas. O urbanista observa que o entendimento de qualidade de vida acabou se invertendo na atualidade. Para muitas pessoas, a “cidade boa de viver” precisa ter “asfalto e ser funcional para os carros”. Quando, na verdade, o conceito de cidade prevê um espaço aconchegante e que permita a convivência entre as pessoas, através de praças, parques, ruas arborizadas e a valorização do pedestre. Desafios urbanísticos explicados por Dalmo nessa entrevista que convida à reflexão sobre a Itajaí que queremos. As fotos são de Fernando Rhenius.

“Eu acho Cabeçudas o bairro mais charmoso de Santa Catarina, e um dos mais interessantes do Brasil”

PERFIL

NOME: Dalmo Vieira Filho
NATURAL: Curitiba (PR)
IDADE: 64 anos
ESTADO CIVIL: casado
FILHOS: quatro
FORMAÇÃO: Arquitetura; especializações na área de proteção e valorização de patrimônios culturais; especializações e cursos de extensão em urbanismo e patrimônio histórico na Alemanha e Portugal
TRAJÉTÓRIA PROFISSIONAL: ex-integrante do Conselho Consultivo do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e do Conselho de Cultura de Santa Catarina, diretor Nacional do IPHAN entre 2006 e 2011, ocupando o cargo de presidente interino; coordenou trabalhos ligados à questões urbanas em todos os estados do Brasil e no Distrito Federal; representante Titular do Ministério da Cultura (MinC) no conselho Nacional de Turismo e do IPo Conama. Ex-secretário do Desenvolvimento Urbano de Florianópolis e ex-Presidente do Instituto do Planejamento Urbano de Florianópolis (IPUF); integrou o conselho de Cultura e Patrimônio de Itajaí, Blumenau, Pomerode, São Francisco do Sul, Laguna, Jaraguá do Sul, Joinville e Florianópolis; consultor de empresas e órgãos públicos; professor da universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

 

 

“Criar no Centro um lugar diferenciado, com charme, que se relacione com a história da cidade, com o rio, interessa aos moradores e empreendedores. A grande questão é estabelecer esse diálogo no nível de entendimento e não de confronto”

 

 

DIARINHO – O senhor foi coordenador do Instituto de Patrimônio Histórico do Brasil durante décadas, mas hoje se dedica à questão do urbanismo. Em que estágio o Brasil se encontra nessa questão do crescimento das cidades versus a preservação do seu patrimônio histórico?
Dalmo: Eu diria que do ponto de vista do urbanismo, o Brasil está atrás da fila. Nós fomos protagonistas do urbanismo mundial e criamos cidades como Belo Horizonte, Goiânia. A última vez que a humanidade criou, em verdadeira grandeza, o sonho da cidade ideal foi no Brasil, com de Brasília. Depois, com esse crescimento explosivo que a gente teve, parece que perdermos as utopias, as ideias, a capacidade de criar. Eu diria que hoje as cidades brasileiras são o maior problema que a gente está deixando de herança para os nossos filhos. [Qual o problema comum das cidades?] Crescimento desmesurado, desvalorização das áreas centrais. As cidades crescem perdendo, digamos, o coração. Há pouco cuidado com o meio ambiente e o patrimônio cultural, noções de qualidade muito estereotipadas, muito simplistas. Os valores universais, os valores atemporais não têm sido considerados. Elas são mais frutos do acaso, coisas que vão se estabelecendo, mais do que de uma concepção, uma razão. Neste caso não pode ser só razão, tem que ter sentimento. Não temos hoje uma receita para as cidades brasileiras do século 21. O que é um dos grandes problemas nacionais.

DIARINHO – Itajaí está prestes a mudar o Plano Diretor. O senhor está prestando uma assessoria ao Sinduscon que é parte interessada nesse processo. Quais as mudanças que estão sendo cogitadas?
Dalmo: É interessante para mim e um enorme desafio participar desse processo, do ponto de vista empresarial. Euestive quase sempre do outro lado do balcão, no setor governamental. O que me anima muito com essa questão. Eu estou de corpo e alma nesse processo. No Brasil, se nós quisermos recuperar o tempo perdido, a gente vai ter que aprender com o que o mundo está fazendo. E nós temos uma tendência de simplificar as coisas. Se critica muito os prédios, mas praticamente todos nós moramos em apartamentos. A gente ainda não percebeu que a cidade linear, a cidade que ocupa todo o território, é praticamente ingovernável. As cidades precisam de centros. Uma das coisas atuais são as compactações. Um reencontro com o empreendedorismo, dentro de regras, e é isso que o plano diretor permite: estabelecer regras legítimas para tirarmos partido do empreendedorismo – que também é tudo que o setor quer. Às vezes eu me pergunto: “será que eu estou trabalhando do outro lado?!”. Não! Eu estou trabalhando exatamente como eu sempre estive. Buscando formas reais, buscando os processos de atualização, de analogias, de desenvolvimento que nós precisamos nas cidades. [A insegurança jurídica não é boa para o município, para o meio ambiente e nem para o empreendedor. O Plano Diretor atual de Itajaí traz essa insegurança?] Praticamente todos os planos diretores têm essa insegurança. Tanto que tem uma judicialização em todos os nossos municípios. A correlação de força atual, com muita presença do ministério público, do judiciário, os planos diretores ganharam relevância. Antes, simplesmente se mudava a lei, quando se contrariava um interesse. Os planos diretores iam para a gaveta. O plano se contentava em estabelecer padrões urbanísticos que, ao longo do tempo, já não tinham correspondência com os desafios e a realidade. Eu acho que hoje a cidade tem, através do Plano Diretor, a possibilidade real de atualizar o pacto de ocupação do seu território. Claro que isso tem que ser feito em relação ao meio ambiente, ao patrimônio, com as identidades locais, com o que as pessoas gostam. Esse é o grande segredo. Ele precisa ser feito e é preciso ultrapassar alguns preconceitos que têm nos colocado nessa posição de ficarmos pra trás na questão do desenvolvimento urbano.

DIARINHO – Novamente surgiu a discussão sobre a verticalização da avenida Beira Rio em Itajaí. Do ponto de vista da comunidade, o que agregaria se a principal avenida de lazer da cidade fosse tomada por prédios?
Dalmo: Eu acho que a vocação da Beira Rio está estabelecida e deve ser cada vez mais fortalecida. Essa ideia de uma área de permanência, com restaurantes, pessoas passeando, é o que vai ser mais importante. A eventual verticalização, e seria um absurdo criar uma espécie de paredão em relação a todo o restante do bairro Fazenda… Por outro lado, manter a arquitetura atual da Beira Rio, que é muito frágil, muito desprovida de qualidade, também não é a saída. Uma das questões emblemáticas de Itajaí, e que move todas as pessoas, é a discussão sobre essa avenida. Eu não venho trabalhar com uma varinha de condão com as respostas prontas. Eu acho que o caminho que está sendo trilhado pela equipe contratada pela prefeitura, de debater a Beira Rio, é certo. Os empresários da construção civil não defendem simplesmente liberar gabaritos e construir paredões na Beira Rio. Ela precisa ser pensada na correlação com o conjunto da cidade e particularmente com o bairro centro e Fazenda. Não tem sentido pensar a Beira Rio fora desse contexto. Assim como não tem sentido, hoje em dia, considerar esse contexto do centro, da Fazenda, sem pensar que ele faz conurbação com Balneário Camboriú. A gente, no fundo, já vive o que podemos chamar da “cidade da Foz”. Navegantes, Itajaí, Balneário Camboriú e Camboriú formam um todo urbano. Não tem mais fronteiras. Os problemas e as soluções também precisam ser pensados dessa maneira global. Senão a gente não vai conseguir criar diretrizes, linhas reais, para fazer dos limões a limonada que precisamos.

DIARINHO – Se critica a forma de ocupação da Praia Brava pela agressiva verticalização dos últimos anos. Como o senhor avalia o desenvolvimento do bairro que hoje tem o metro quadrado mais caro de Itajaí?
Dalmo: Do ponto de vista urbanístico a Praia Brava e a Osvaldo Reis têm tudo para ser uma espécie de centro novo da “cidade da Foz”. Todas as cidades do mundo, em todas as conurbações, vão formando novos arranjos. As cidades vão se reestruturando de uma maneira diferente. Itajaí precisa tomar cuidado para não ser apenas o bairro portuário da cidade da Foz. Eu vejo que a Brava Norte, por exemplo, aquele limite de pavimentos, que foi conseguido judicialmente pelo empreendimento Bravíssima, me parece razoável. Tendo em vista que a Praia Brava está no centro dessa conurbação. Já a Osvaldo Reis precisa ser tratada como uma grande via de articulação entre essas duas cidades principais. Seria um absurdo perder a oportunidade e impor grandes limitações de construção na Osvaldo Reis. Isso frustraria essa conexão e só ampliaria distâncias, faria com que perdesse esse elo. Em função dos problemas cotidianos, a gente tende a acreditar que quanto mais se constrói, maiores são os problemas. Mas o que se verifica, e assim acontece no mundo, é que quando se constrói certo, ajuda a resolver os problemas. Essa é a questão. O crescimento tem sido espontâneo. Alguns lugares como Itajaí, Balneário e Florianópolis continuarão crescendo acima da média populacional, porque são objetos de desejo de populações de outras regiões e, inclusive, de outros lugares do mundo. Nós continuaremos crescendo acima da média nacional. Cada família demanda escola, academia, cursos, lugares de encontro e lazer. Muitas pessoas moram sozinhas, nós precisamos, sem dúvida, a casa do nosso filho, onde vai morar o nosso neto, nós temos que construir. Precisa fazer isso de uma maneira correta. Esse é o grande dilema. Porque seria mais fácil falar “para como está, tá bom assim, já temos problemas demais”…

DIARINHO – O terreno ao lado do Centreventos, no centro de Itajaí, seria o local ideal para uma praça de lazer ou um parque urbano. O local tem vista privilegiada para o rio e dispõe de um grande espaço físico. Fora eventos esporádicos, contudo, aquele espaço fica vetado ao uso do público. Qual seria a sua sugestão para ocupação daquele espaço?
Dalmo: Nós chegamos a refletir sobre aquela área há alguns anos. Eu acho que essa vocação de ser uma grande área, onde as pessoas percorrem, onde há eventos espetaculares como a Volvo Ocean Race, não deve ser perdida. Por outro lado, permanece grande parte do ano em desuso. Nós imaginamos que a área pudesse ser ocupada basicamente por construções dotadas de grandes pilotis – no nível do terreno continuaríamos com a área livre, quase 100% livre, parcialmente construída, mas com o pé direito de sete, oito metros. Teria uma ocupação, um uso sem perder a possibilidade de gerar e receber eventos, de usar o solo como uma grande área de lazer. Nesse aspecto a continuidade da Beira Rio até o limite do porto precisa ser tratada como uma grande via de lazer, de convívio com o rio, que é o elemento geográfico indutor da cidade. Precisamos tirar do papel os parques. A gente estava falando esses dias sobre o parque da Ressacada. O parque da Ressacada foi criado em 1982 e nunca saiu do papel. Será que as pessoas que se intitulam ambientalistas querem criar parques no papel? Ou vamos criar associações, vamos buscar contrapartidas, equilíbrio e fazer com que a nossa população usufrua de áreas verdes?! Desde que se pensou o parque da Ressacada já se passou uma geração e a gente perdeu essa oportunidade de ter um parque.

DIARINHO – Itajaí tem hoje como grande possibilidade de expansão a área rural nas imediações dos acessos a Brusque e Ilhota. Como o plano diretor tratará essas áreas? O que deve ser permitido?
Dalmo: Temos justamente uma oportunidade de crescimento para novas áreas de expansão. Não acho que sejam as únicas. O centro de Itajaí pode crescer mais. Nós precisamos de mais moradias. Domingo no centro de Itajaí é um deserto de pessoas. Mas não é só Itajaí. É em Blumenau, Florianópolis, Pomerode, Indaial, Porto Alegre. É um problema no Brasil, pois desqualificamos as áreas centrais e não fizemos os programas que o mundo inteiro já faz há pelo menos 50 anos. Como se requalifica as áreas centrais? A primeira coisa é fazer com que tenham vida. O que dá vida, o que sustenta, são os moradores. Então, os elementos simbólicos da cidade, a praça, a igreja, o museu, não dá pra deixar ao léu… Moradias em volta fazem com que a padaria, a mercearia, o açougue, tudo funcione. A segurança aumenta. Isso não é uma invenção nossa, é algo que o mundo inteiro faz. Tudo converge para essa coisa que, no fundo eu digo que aprendi: é mais estimulando que coibindo, muitas vezes fazendo o certo, dizendo como fazer, mais do que proibindo, que a gente consegue fazer as coisas.

DIARINHO – O ministério Público quer decretar o conjunto arquitetônico de Cabeçudas patrimônio cultural da cidade e do estado. Esse decreto seria suficiente para preservar a memória do bairro? Qual a sua opinião sobre o assunto?
Dalmo: Não, ele não seria suficiente. Ele pode inclusive prejudicar. É preciso ter muito cuidado. Todo mundo quer preservar a identidade de Cabeçudas. Essa identidade é formada por um conjunto de construções, muitas simbólicas, como o próprio hotel, a igrejinha, algumas casas que compõem o conjunto, aquela relação com a paisagem circundante. Isso deve ser preservado. Eu acho que seria um contrassenso engessar o bairro de Cabeçudas. Ele também precisa de mais atividades. As pessoas precisam ir mais a Cabeçudas. Ele precisa se reposicionar nesse crescimento que está havendo. Eu não sou contrário, a priori, ao tombamento do bairro. O tombamento precisa vir junto com a regulamentação. Mais do que isso: tem que ser resultado de um pacto local, feito com aquela população. Não é eficiente congelar o bairro, submeter a processos demorados, complexos, isso pode piorar a situação. Eu acho Cabeçudas o bairro mais charmoso de Santa Catarina, e um dos mais interessantes do Brasil. Ele tem elementos que devem ser preservados, até porque valorizam as propriedades, mas a maneira de fazer isso deve ser através de um plano cuidadoso, a partir do que possa ocorrer um tombamento ou a colocação dessas regras de preservação no Plano Diretor. [Os tombamentos são muito onerosos para os donos de imóveis?] Quando as regras são estabelecidas antes, desonera muito o processo e tira implicações burocráticas. O fundamental é isso: que o tombamento seja resultado de um pacto e não que se proponha um pacto após o tombamento. [Muitas pessoas temem, também, que Cabeçudas vire uma Praia Brava. É possível Cabeçudas ser verticalizada?] A informação que eu tenho, por incrível que pareça, é que tem 20 e poucos prédios aprovados lá. É realmente urgente tomar uma medida, definir o futuro de Cabeçudas de uma maneira razoável. Eu acho que Cabeçudas não é o lugar indicado para uma verticalização acentuada. É possível edifícios de quatro, seis andares lá nos fundos, meio que já ocultos naquela massa construída. Mais gente moraria lá, isso poderia ser interessante.

DIARINHO – O centro histórico de Itajaí, ano a ano, perde casarões que fizeram parte da história da cidade. O que ainda pode e deve ser preservado? De que forma o poder público poderia interferir ou incentivar a preservação?
Dalmo: Os centros históricos são as almas das cidades. O cerne das identidades das cidades. A gente precisa tratar isso com o máximo de carinho e cuidado. Eu vejo em Itajaí uma série de empreendimentos importantes. É o momento de discutir o futuro com quem está investindo. Criar um lugar diferenciado, com charme, que se relacione com a história da cidade, com o rio, interessa a todos, aos moradores e aos empreendedores. A grande questão é estabelecer esse diálogo no nível de entendimento e não de confronto. Seria o grande desafio. Qualquer noção razoável de futuro que a gente tenha, para a nossa cidade, pressupõe pensar de maneira diferenciada a Hercílio Luz, Pedro Ferreira, a Lauro Muller e a Beira Rio – porque são ruas de todos. Fazem parte das imagens de quando a gente lembra e pensa em Itajaí. Há um enorme potencial para Itajaí dispor, do que a gente pode chamar de centro histórico.

DIARINHO – O senhor idealizou o projeto Borda D´Água, que traria ênfase à ocupação da margem do rio Itajaí-açu. Ele nunca foi levado adiante. O que impediu a viabilidade desse projeto que, inclusive, foi apoiado por diferentes prefeitos da cidade?
Dalmo: A primeira coisa para viabilizar o projeto Borda D´Água era mexer com a estrutura viária, com a mobilidade. Hoje, de uma maneira ou de outra, quem chega de Balneário, tem um certo estímulo para ir pela Beira Rio e não pela Sete de Setembro. A Beira Rio quase não tem sinaleiras, é um caminho mais bonito, mas isso faz que uma área de lazer seja ocupada pela intensidade do tráfego. Pra conseguir fazer com que a Beira Rio fosse uma área de vivência, de costura com a paisagem do rio, a primeira coisa que tinha que fazer, seria mexer com isso. Algumas realidades que a gente detectou não foi possível mexer. Por exemplo, o ferry boat. Não tenho dúvida nenhuma de que o ferry boat, no lugar que está, deveria continuar somente para pedestres e ciclistas. Os automóveis podem andar alguns quilômetros. Ele poderia ser reciclado para uma posição melhor. A perda da Comard. Era uma área pública e pela premissa daquele momento de crescimento do porto não houve tempo de negociação e acabou se cedendo a área para a Marinha. Hoje na região que seria o encontro do Mercado e toda aquela área que está se desenvolvendo com o rio, tem uma grade e um sujeito armado lá dentro. Essas foram as questões pontuais que acabaram fazendo com que o Borda d´água não fosse levado adiante. Ele precisava de umas posições muito firmes em relação a esses pontos para que todo o restante do pensamento pudesse acontecer. Acho que ele influenciou a Marina Itajaí, a configuração da Beira Rio, dos molhes… Várias coisas foram apropriadas, mas o projeto não aconteceu.

DIARINHO – Itajaí sofre com um problema crônico de trânsito. As pessoas se queixam da qualidade do transporte público e cada vez há mais veículos particulares. Itajaí é uma cidade plana e tem cerca de 200 mil habitantes. Qual a sugestão urbanística para resolver o problema dos congestionamentos?
Dalmo: Somos um dos piores países do mundo em mobilidade. Mas até hoje trabalhamos a mobilidade quase que especificamente do ponto de vista do carro particular. A noção é essa. A nossa capital, Florianópolis, é o exemplo quase mundial. Florianópolis, em menos de um século, construiu três pontes. Agora já se fala na quarta. Tem cinco aterros urbanos, viadutos. Qualquer sujeito deve perguntar: “está quase resolvido o problema?” Não está! Há pelo menos 50 anos, o mundo trata mobilidade com ampliação da oferta da infraestrutura urbana. Isso não resolve, pelo contrário, acentua o problema. A cada ano as facilidades criadas vão provocando novas acomodações e o problema só muda de quadra. Ele vai sempre se avolumando. Por isso, muitas vezes, a gente pensa assim: mas a cidade não tem mais como crescer? Primeiro, que crescem. Enquanto as cidades cresceram com populações compatíveis com o século 21, a maneira como usamos a estrutura viária é compatível ainda com o século 19. Basicamente, o nosso avô, o Galdino Vieira, que foi motorista de praça, andava em um automóvel, em uma via, muitas delas com dois sentidos de tráfego. Itajaí tem muito mais binários, muito mais vias de mãos únicas do que Florianópolis, onde todas as vias centrais de bairros continuam sendo usadas como no século 20. A mobilidade pode ser resolvida? Pode! E de uma maneira tecnicamente e relativamente fácil. Mas ela precisaria ter um choque de paradigma: a primeira coisa o pedestre, ciclista e o transporte coletivo. Não há lugar no mundo que resolva a questão da mobilidade sem a racionalização, a reestruturação do sistema de transporte coletivo.

DIARINHO – O senhor sempre defendeu uma ocupação mais humana das cidades, privilegiando as pessoas ao invés dos automóveis. Porque isso ainda é tão difícil de praticar? Itajaí manteve por um ano a iniciativa de fechar nos fins de semana um pequeno trecho da avenida Beira Rio para a prática de esportes e lazer. A Codetran acabou abolindo o projeto alegando que “prejudicou o trânsito”. SP e RJ conseguem fazer projeto grandiosos nesse sentido de brecar ruas para o lazer. O que precisamos para chegar lá?
Dalmo: São iniciativas… A gente deve insistir na direção do que o mundo está fazendo. Talvez o exemplo mais emblemático seja o eixão de Brasília. Fecha para o trânsito aos domingos! São seis ou sete pistas para cada lado, aquele espaço enorme, só para pedestres e ciclistas. A gente precisa começar essa experiência na cidade. O problema é que ao longo do tempo a nossa sociedade foi, até por falta de repertório, assumindo valores: o asfalto e o uso do carro são confundidos com a nossa noção de qualidade de vida. Precisa reaprender a olhar a paisagem, a conviver, a sair do carro. É um aprendizado… Difícil porque nós chegamos quase ao extremo da impessoalidade, da maquinação da cidade. Todo mundo pensa nos problemas funcionais que existem e precisam ser tratados nas cidades. A cidade é um complexo destinado a satisfazer as premissas humanas. É o essencial! Infelizmente, no Brasil, o humanismo e as utopias passaram a ser vistos como coisa de sonhadores e a gente ficou para trás nessa corrida de qualidade de vida. Nosso mestre Jaime Lerner tem uma frase que é: “os arquitetos e urbanistas do século 21 vão viver de consertar as bobagens que os arquitetos e urbanistas do século 20 fizeram”. A gente não vai ter que refazer, mas recriar as formas de usar as cidades. O que valorizamos? O que queremos das cidades e das nossas vidas? A cidade reflete a maneira como imaginamos e projetamos a nossa vida. Uma coisa que a gente precisa fazer é resgatar as utopias.

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