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Chagas

Cíntia 
Chagas

“O professor que não se atualiza, é um professor que está fadado ao fracasso”
Professora de português
“Eu não acredito em uma educação sem humor”
Com mais de 140 mil seguidores na rede social Instagram, a professora de português Cíntia Chagas tem cada vez mais conquistado o público jovem. O motivo é explicado nas aulas que têm um diferencial: o humor. A professora ensina português fazendo paródia de funk, sertanejo, pagode e por meio de histórias engraçadas e reais. Mineira de Belo Horizonte, Cíntia chegou a ser destaque nacional por ter feito aulas em plena balada. À jornalista Franciele Marcon, ela explica o porquê da iniciativa. “Tirar o aluno da sala de aula ajuda a fixar o conteúdo.” Na entrevista ao DIARINHO, a professora também explicou porque o brasileiro escreve e interpreta texto tão mal, dá dicas para dominar a língua-mãe e defende uma renovação em sala de aula. As fotos são de Fabrício Pitela.

DIARINHO – A senhora foi demitida de 10 instituições por lecionar português de forma “diferente”. O que assusta no seu método?
Cíntia – O que assustou tem a ver com a alegria, com a algazarra que eu causava. Se você pensar: 200 alunos em uma turma. Eu vou lá e coloco aula de pé, começo a dançar o funk da crase. Pensa bem, o professor que está na turma ao lado pensa: “vou ter que dar aula hoje do lado da sala da Cíntia, ninguém merece”. Onde eu passei eu deixei muita energia, esse é o meu jeito. É inerente, não é forçação de barra. Eu não acredito em uma educação sem humor. Aprender é muito gostoso. O que assustou foi a reação dos professores. E daí quem ficava assustado era o diretor. Ele tinha que coordenar egos. Daí ficava muito difícil a minha relação com os professores. A diretoria tinha que escolher de que lado iria ficar. Arrebentava para o mais fraco. Eu era uma só. [risos].
DIARINHO – Por que a nossa educação é tão conservadora? Embora estejamos em um mundo digital, os professores continuam ensinando de forma analógica. Quais os prós e contras da educação continuar atuando da mesma forma?
Cíntia – Eu acho que há pouco investimento no professor. Por exemplo, “reforma ortográfica”. Ela foi sancionada em 2008 e com certeza vários professores no Brasil, a maioria, não teve acesso a um curso de reforma ortográfica. Pensando nos professores de escolas públicas… Pouco se investe neles. Eles não conseguem dar aulas, porque às vezes falta giz. Como vamos fazer que esse professor alcance excelência no ensino voltado para a internet, se muitas vezes não há cadeira para o aluno se sentar. Número 1: existe a realidade do professor de escola pública, que é uma realidade degradante tanto para ele como para o aluno. E fica bem óbvio. Número 2: os professores de escolas particulares também não recebem tanto investimento assim, não. O professor ganha pouco de modo geral. Então ele trabalha em duas, três escolas. Eu falo que o professor é um bicho que está sempre cansado. Como que esse professor vai ter pegada, esse pique de querer aprender e fazer tudo que aquela instituição está ofertando para ele?! É necessária uma reforma geral. O aluno, hoje, tem um tipo de raciocínio completamente diferente do aluno que eu fui e que você foi. O aluno de hoje consegue ouvir música, ler e atender ao telefone. O que pra gente é impraticável. O professor tem que interagir com o aluno, entender o que esse aluno está falando, o que ele vê. Por exemplo, eu dava muita aula usando musiquinha de axé. Porque antigamente os alunos adoravam axé. Hoje em dia, se você vai a uma festa de formatura ou de 15 anos, não é axé, é funk, sertanejo e pagode. Eu mudei a música. Eu gosto de axé, eles não. A gente tem que acompanhar. O menino usa o Twitter, o menino usa o Instagram, como ele usa? Quem ele segue? Se você não entra no mundo desse menino, ele perde o interesse por você. As matérias já não são aquelas coisas mais lindas do mundo. Hoje nós temos a internet e Netflix, que tira da gente, que abre tantas possibilidades para o aluno, no momento em que ele está à noite em casa, no final de semana, no feriado, que competir com isso é quase que desumano. O professor que não se atualiza, é um professor que está fadado ao fracasso.

DIARINHO – O seu curso de pré-vestibular, hoje, é o mais procurado na capital mineira por estudantes que desejam entrar nas faculdades de medicina. O índice de aprovação chega a 90%. Qual o segredo do sucesso?
Cíntia – O segredo do sucesso é: número 1, essa atualização. O meu segredo mesmo é porque eu não cresci [risos]. A minha mentalidade tem o mesmo nível da mentalidade deles. Eu me comporto muito como uma adolescente dentro de sala. Eu nunca me coloco como “a professora” e tal. Só para exigir ordem. O humor, a ideia de que aquele dia que eu acordei, levantei, fui dar aula, tem que ser melhor. “O que eu posso fazer de melhor hoje?!” É necessário enxergar o aluno como um ser humano, entender o que ele está passando, o que está acontecendo, observar. Não pode entregar um trabalho e ir embora para casa. O aluno é aprovado em medicina não só pela aula que você dá, mas por todo um conjunto relacionado às questões psicológicas, psiquiátricas dele. Nunca se tomou tanta ritalina, nunca se tomou tanto antidepressivo. Eu dou aula há 16 anos e eu acompanho a evolução desses alunos e são alunos completamente diferentes. Se eu desse aula hoje da mesma forma que eu dava há 16 anos, eu não teria sucesso. A pessoa tem que o tempo inteiro interpretar aquele aluno e se adaptar. A modificação é necessária. Ela tem que ser constante na vida desse professor.

DIARINHO – Por que fantasias, músicas, paródias e mudar o local das aulas fazem os alunos fixarem melhor o conteúdo?
Cíntia – Já foi provado, em algumas pesquisas internacionais, que é necessário para o estudante, que ele tem uma espécie de desfocamento durante o aprendizado. Não sei explicar isso tecnicamente falando, mas seria algo do gênero: eu estou aqui ouvindo há cinco minutos o que é sujeito e o que é predicado, de repente, eu quebro a linha de raciocínio dele e conto um caso que tem a ver… Nesse momento que ele sai dessa concentração, volta melhor para o assunto anterior. Você busca o aluno pra você. Eu entendo que fantasiar, que gerar o lúdico, é muito bacana na medida que o aluno é surpreendido, a gente mexe com o emocional dele ao longo da aula. Por exemplo, aula na balada, essa aula foi capa do G1, saiu no Jornal Nacional, no Jornal da Globo, foi muito bacana. Eu dou essa aula na época do Enem, com aluno tentando medicina, estressado, e de repente ele se vê na balada. Luzes, só não tem bebida, óbvio. Por que isso é legal para esse aluno? Porque quebram-se as expectativas, mexe-se com as emoções. Eu faço sorteio, eu faço isso, eu faço aquilo e a aula é muito conteudista. Eles saem com cinco ou seis páginas escritas. Eu acho que é meio que fazer um desconserto na mente deles. [Você pretende fazer isso com os seus stories no Instagram, no seu novo projeto?] Eu fiquei muito triste quando saiu o resultado do Enem, porque os meus alunos estavam tirando 960, 980 e 1000 – isso é maravilhoso. Os meus seguidores, a gente está somando 145 mil, me mandando direct falando que “eu só tirei 600 e tal”. Me deu um estalo e eu pensei: eu posso fazer alguma coisa para modificar a relação dos seguidores com a escrita. Afinal de contas, dominar a gramática é um meio de ascensão social. O que eu fiz: já sei, como a minha maior e melhor ferramenta é o Instagram, eu peguei um recurso que se chama “Melhores amigos”, que é um grupo, como se fosse um grupo de WhatsApp, você adiciona um por um ali, e vou começar a dar aula por ele. Óbvio que não se compara com uma aula no Youtube, com material, mas eu vou sair de dar só dicas para me aprofundar. Eu estou cobrando um valor irrisório, porque para fazer isso eu tive que largar três turmas em Belo Horizonte. É o meu trabalho e estão pagando R$ 49,90 por mês, são seis meses. Um valor acessível e muito aquém do valor que os meus alunos presenciais me pagam.

DIARINHO – O seu primeiro livro, “Sou péssimo em português”, aborda, por meio de histórias hilárias, erros de português que as pessoas mais bem preparadas cometem. Que erros são estes?
Cíntia – O uso do ‘mesmo’, por exemplo. Eu ensino o ‘mesmo’ depois de uma briga que eu tive com um namorado. É tudo real. A gente tinha voltado de um almoço, eu estava discutindo com ele. Aquelas discussões: “tava olhando para não sei quem…seu galinha”. Como se não bastasse essa relação, eu ainda tenho que olhar para essa placa de elevador todos os dias na minha cara. “O que tem a placa?” Ele era procurador, com mestrado, doutorado, pós-doutorado, se achava. “O que tem a placa, gente?” Eu falei, olha aqui: “antes de entrar no elevador, verifique se o ‘mesmo’ se encontra parado neste andar”. ‘Mesmo’ não recupera palavra. Ele: “claro que recupera”, e começou a brigar comigo. Eu professora de português e começou a brigar. A gente subiu, eu tirei a roupa e coloquei um roupão. Ele estava tirando o sapato, o telefone dele tocou e era alguém chamando ele para sair. Eu comecei a brigar, ele disse: “quer saber, você é uma doida, vou te deixar aqui”. Ah, mas ninguém me deixa falando sozinha. Saí correndo atrás dele. Ele entrou em um elevador, eu entrei no outro. Desci. Parei na frente do carro dele, naquela cena típica de filme, abri as mãos assim, me atirei na frente do carro e disse: “daqui você não sai”. Só se você dizer que ‘mesmo’ recupera palavra? Não, ‘mesmo’ recupera oração. Por exemplo: “eu sou uma namorada fiel, esperaria que você fizesse o mesmo”. Daí é a ideia toda sobre a fidelidade. Como ele faria a placa então, rainha da língua portuguesa: “antes de entrar no elevador, verifique se ele, se este, se encontra parado neste andar”. Ele falou tá bom, deu ré e foi embora. O portão fechou e eu fiquei lá embaixo, só de roupão, a espera de um vizinho que abrisse pra que eu pudesse entrar. Daí você me pergunta: mesmo? Eu falo, mesmo! [risos]

DIARINHO – As redes sociais evidenciam que o brasileiro escreve mal e interpreta textos de maneira limitada. Isso se percebe em todas as classes sociais, inclusive entre jovens que estudam em escolas particulares. Por quê?
Cíntia – Eu acho que existe hoje uma rapidez exacerbada em tudo que a gente faz. Ontem [domingo], por exemplo, eu fiz um comentário sobre o português do Bolsonaro. Ele usou mesóclise, eu elogiei na rede social dele, no Instagram dele. Eu coloquei coraçãozinho, era um elogio, tava na cara que era um elogio. E, imediatamente, uma pessoa não leu meu comentário, ela leu o início, que eu coloquei mesóclise em caixa alta, achou que eu estivesse xingando o presidente e começou a me xingar. Eu falei: “querido, eu elogiei, releia o meu comentário, por gentileza” Ou seja, ontem eu fiquei pensando nisso, como as pessoas estão intolerantes e apressadas. A pessoa não chegou até o fim da frase pra entender que era um elogio. Eu acho que, número um, as redes sociais são as grandes responsáveis por isso. Aquele filósofo, Zygmund Bauman, morreu no ano passado, ele falava das relações líquidas – tudo hoje é líquido. Tudo é feito para durar pouco tempo, das embalagens até a foto. Tudo é pra durar pouco… Acho que isso é um fenômeno da contemporaneidade e o português entra nessa. Porque nunca se leu tanto, nunca se escreveu tanto, só que nunca se leu tanto nem se escreveu tanto na internet. Essa rapidez cria uma defasagem de interpretação e de escrita. Apesar de que eu nunca vi ninguém fora do ambiente de internet escrever “vc” ou “pq”. Eu dou aula há 16 anos, corrijo todas as redações dos meus alunos e isso nunca ocorreu. Eu acho que nesse ponto, a pessoa não passa o internetês pro dia a dia. O problema é que de tanto escrever pq, na hora em que ela tiver que escrever mesmo ‘porque’, geralmente ela vai ter dúvida, porque ela não está treinando o ‘porque’ no internetês.

DIARINHO – Como você avalia a criação do novo ensino médio em escolas públicas? Disciplinas como filosofia foram preteridas para priorizar matemática e português. É bom ou ruim?
Cíntia – Eu tenho as minhas ressalvas em relação a essa reforma. Eu acho que falar se é bom ou ruim ainda é cedo, mas eu não consigo ainda entender essa exclusão de disciplinas. Me preocupa muito. Mas eu não gostaria de julgar antes de entender o que de fato vai acontecer, mas se eu tivesse que dar uma opinião agora, a minha opinião é de que é preocupante. Porque pra escola pública que já é tão negligenciada, pode ser negativo. Talvez as escolas particulares saibam fazer um bom proveito disso. Eu tenho muito medo pelas escolas públicas, e eu tenho medo disso acabar aumentando ainda mais a desigualdade educacional.

DIARINHO – Tivemos uma polêmica recente em Santa Catarina, quando uma deputada estadual eleita incitou os alunos a filmarem os professores em sala de aula, para denunciar uma suposta doutrinação ideológica. Como você avalia esse caso?
Cíntia – Primeiro eu tenho que falar de quem eu sou. Eu sou de direita, sou defensora do Bolsonaro, perdi quatro mil seguidores por defender o Bolsonaro. Sou antipetista. Então eu tenho uma tendência conservadora. Essa é minha tendência. Eu acho que filmar o professor em sala de aula é preocupante, porque isso pode tirar toda a liberdade do professor. Por outro lado, eu vejo diariamente doutrinação. E eu estou falando aqui de cursinhos e colégios de elite em Belo Horizonte. O que eu vejo, eu não estou lá, não dou aula lá. Mas meus alunos vêm dos melhores cursinhos, dos melhores colégios da cidade e, semanalmente, eles reclamam comigo das condutas dos professores. É o professor que chama o menino de bolsominion, é o professor que já fala que o afastamento da Dilma foi golpe, sendo que a história ainda nem deu conta disso. Eu usaria a palavra afastamento, não usaria nem impeachment, nem golpe. É professor que vai com camisa do PT, com bottom do PT […]. A gente não pode fazer uma caça às bruxas com os professores, mas também a gente não pode permitir que a sala de aula seja um ambiente em que o professor vai usar o tablado e a audiência cativa do aluno para expor as ideias dele. Isso é até ilegal, na verdade. O professor tem liberdade de ensino e não liberdade de expressão. É óbvio que quando eu ensino, eu me expresso. Não são coisas dissociadas, mas quando a lei fala isso, ela tá falando de um exagero.

DIARINHO – Qual a dica que você deixa para os leitores do DIARINHO que querem falar e escrever em bom português?
Cíntia – Para começar existe uma ilusão. Porque você primeiro aprende a falar, e você aprende que você tem que falar, me dê água, me dá água, me dá água e tal. E quando você vai pro colégio você aprende que não. Que você não pode falar me dá água, porque a gente não inicia frase com pronome oblíquo átono, seria “dê-me água”. Então quando você conhece as regras você imediatamente pensa assim: “Meu Deus, eu não sei escrever. Porque me ensinaram a falar de outro jeito, então português é difícil”. Já no ensino fundamental as pessoas têm essa ilusão de que o português é a coisa mais difícil do mundo. Depois disso, entra o fato sobre o qual nós falamos já, de que as aulas, justamente de português, geralmente serem chatas. Geralmente o professor legal, aquele que todo mundo ama, é o de química, que é mais doidão e tal. O de português, geralmente, é natural que seja um professor mais sério. Outra coisa é a forma como esse professor dá aula, porque, a gente tem que entender que vai competir agora com Netflix, sabe? Então se você vai introduzir Machado de Assis com Dom Casmurro, Shakespeare com Romeu e Julieta, faça um teatro totalmente diferente. Eu fiz uma vez que eu mudei tudo, Romeu não fica com Julieta, o irmão de não sei quem lá era gay, a outra era bonita, mas ficou feia. Eu mudei tudo. Por quê? Porque aí você gera uma paródia, gera uma coisa com o humor. E a dica no dia a dia é ler. E como adquirir hábito de leitura? Eu acho muito simples, antes de dormir, geralmente é o melhor horário pra todo mundo ou no ônibus. A pessoa vai pegar um livro e vai ler 20 páginas. É um compromisso que ela tem, igual escovar os dentes. Todos os dias ela vai ler 20 páginas daquele livro, aconteça o que acontecer. De repente ela vai começar a sentir falta daquilo. Porque, geralmente, quem lê bem, escreve bem, e aí o português começa a ficar mais fácil. E a última dica, obviamente, é me seguir no Instagram @cinthiachagass em que há dicas, vídeos que eu faço na rádio Jovem Pan, em São Paulo….

NOME: Cíntia Chagas
NATURALIDADE: Belo Horizonte
IDADE: 36 anos
ESTADO CIVIL: solteira
FILHOS: sem filhos
FORMAÇÃO: formada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: professora, empresária, escritora, palestrante, radialista e instagramer @cintiachagass

“Dominar a gramática é um meio de ascensão social”

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