Home Notícias Entrevistão Charlie Flesch

Charlie Flesch

Velejador que faz expedições à Antártica

NOME: Charlie Flesch
NATURAL: São Paulo (SP)
IDADE: 43 anos
ESTADO CIVIL: solteiro
FILHOS: não
FORMAÇÃO: Biólogo; percussão popular e intérprete de tradução simultânea
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: há 25 anos lidera grupos na natureza, desempenhando papéis como skipper, educador, palestrante, guia e mergulhador. Entre as expedições participou de trabalhos científicos pela costa brasileira e fez parte da Expedição Oriente, a terceira volta ao mundo da Família Schurmann; trabalhou como mergulhador em Fernando de Noronha, Mar Vermelho (Egito) e Polinésia. No momento faz expedições levando interessados para a Antártica a bordo do veleiro Fernande.

Charlie Flesch fala com paixão da Antártica – o continente mais frio, mais seco, com a maior média de altitude e o maior índice de ventos fortes do planeta. Os olhos brilham, o sorriso aparece. As histórias vão fluindo. Aos 43 anos, Charlie conseguiu alcançar muito do que sonhou aos 14 anos: seguir os passos de Jacques Cousteau. A inspiração foi mudando de nome durante as velejadas e daí vieram os navegadores Amyr Klink, Vilfredo Schürmann, Henk Boersma. Atualmente, Charlie soma em milhas navegadas o equivalente a mais de uma volta ao mundo, a maior parte delas nos mares gelados e desafiadores do sul. Nessa Entrevista à jornalista Franciele Marcon, Charlie fala do fascínio pelos mares gelados, da navegação, dos desafios de se manter no mar e do seu trabalho que é levar pessoas comuns, a bordo do seu veleiro Fernande, à Antártica. Ao capitão cabe fazer dessa uma experiência segura e inesquecível. As fotos são de Fabrício Pitella.

DIARINHO – Desde quando você veleja e quando surgiu o sonho de ir para a Antártica?
Charle: Eu comecei a velejar faz pouco mais de oito anos. Eu já tinha um encantamento com o mar desde criança por assistir Jacques Cousteau na televisão. O pessoal da minha geração, tenho 43 anos, sabe quem foi Jacques Cousteau e eu percebo nas palestras que eu faço que o pessoal mais jovem nunca ouviu falar dele. Tem gente que não ouviu falar do Amyr Klink também, que é o meu maior ídolo vivo. Minha primeira profissão já foi como mergulhador. Aos 14 anos, sabendo que aquilo era o que eu queria fazer da vida, tudo se clareou na minha mente. E eu segui essa carreira de biólogo, de mergulhador, mas quando eu tinha 35 anos, eu ainda com esse sonho de navegar o mundo. Eu ainda não sabia navegar. Aí uma vez um senhorzinho ficou indignado: como assim não sabia velejar, se o sonho é dar a volta ao mundo de veleiro. E pra mim era tão óbvio que eu não sabia, eu não conhecia ninguém, não tinha pai rico, não tinha amigo que velejasse. Não tinha acesso direto e simples ao mundo da vela. Fui estudar um pouco de vela lendo livros, praticando, alugando um veleirinho na represa de São Paulo. Já fui parar junto com os veleiros que vão pra Antártica e fui bater na porta procurando uma vaga. Hoje eu tenho até vergonha de pensar que fiz isso. Mas pela ousadia, acabei indo parar num centro de velejadores de altíssima qualidade. E fui pra Antártica, virei meio que pupilo de um grande mestre da Antártica [Henk Boersma] e ele que falou: “você tem que ter seu barco, você tem que seguir seu caminho”.

DIARINHO – Quando foi ao continente gelado pela primeira vez? E como foi a decisão de ter o próprio barco para levar pessoas “comuns” para lá?
Charlie: Eu tive na Antártica a primeira vez em 2015. No verão de 2011 pra 2012, eu tinha seis meses de iniciozinho de vela, sabia muito pouquinho, e fui pra Ushuaia tentar a sorte. Eu tinha lido num livro do Amyr Klink, que os veleiros que vão para Antártica partem de Ushuaia, e desde criança também já tinha me encantado pela Antártica. Eu tive que fazer um trabalho de geografia pra escola sobre os continentes. E meu grupo ia apresentar sobre a Antártica. Eu nunca tinha ouvido falar sobre aquilo. Então compramos um livrinho, fui com meu pai na livraria. Lembro até hoje do livrinho. E comprei aquele livro, comecei a ler e me encantei. Aos 12 anos eu via que as ondas eram enormes, o frio era enorme, mas tinham os pinguins, as baleias, os icebergs. E aquilo sempre me perseguiu. Durante a faculdade de biologia procurei os projetos que iam para Antártica, mas não me encantaram. As coisas que tinham que fazer pra chegar lá. Eu falei “deve ter uma outra forma de conseguir chegar”. Ao ler essa história do Amyr Klink, em 2011, eu fui para Ushuaia bater na porta, achando que, quem sabe, desse sorte suficiente. Eu fui tentando, mas eu não sabia que era tão duro navegar até lá, que era tão difícil. Que você para ser um marinheiro, para ser uma pessoa que de fato é recebida a bordo pra poder participar, tem que ter um conhecimento profundo já de navegação, de vela, ter casca grossa, saber o que fazer, ter um domínio muito forte. [Quais são as dificuldades?] A dificuldade é o potencialmente tempestuoso. Muita gente já ouviu falar do famoso mar do Drake. O [estreito] de Drake é esse pedaço do mar que liga o sul da América do Sul à península Antártica. E as pessoas têm um certo medo, tem uma áurea sobre esse Drake. As pessoas acham que é tempestade e furação o tempo inteiro. Não é verdade. E no 1/3 das vezes que eu tive na Antártica, nesses cruzamentos do Drake, foram em condições de calmaria. Mas se a tempestade vem, ela vem muito forte. A gente tem que estar preparado pra isso. Embora tenha previsão do tempo, a gente escolha muito bem o momento de partir, mas é uma previsão. Pode estar errada. Mas ela costuma ser muito boa. Só que se a coisa vem dura, e em algum momento vai vir, a gente tem que saber o que fazer. E se vem ventos de 50 nós… O máximo até hoje que eu já peguei foram 80 nós, é bastante forte mesmo. É mais do que furacão. Esses furacões do Caribe. Mas são condições muito pontuais. O barco aguenta, mas a gente tem que saber mandar no barco.

“A moeda corrente a bordo é milhas, milhas navegadas”

DIARINHO – Qual a diferença entre navegar em mares tropicais para se aventurar aos mares gelados do sul? Quando você se sentiu preparado?
Charlie: Eu vou confessar pra você que eu só me senti um capitão de verdade, preparado para comandar um barco, na volta da minha terceira viagem como comandante do barco para Antártica. Eu tinha ido três vezes para Antártica como marinheiro. Voltando à pergunta anterior. Eu acabei indo pra Antártica porque eu conheci o Henk Boersma, que é meu padrinho, um holandês que já fez mais de 60 viagens para Antártica. Um dos que mais foi, que tem mais experiência lá. [Como foi atuar como imediato do Henk? O que aprendeu com ele?] Eu aprendi a ter olhar de albatroz. Quando a gente navega, especialmente do Uruguai pro sul, já é uma área do planeta, uma faixa de latitude que os ventos já começam a ser mais fortes. E quanto mais a gente desce, mais forte e mais frio fica. E essa região é o reino dos albatrozes. Os albatrozes são as aves mais cascas-grossas do planeta. E eles ficam felizes, é a impressão que a gente tem, ao atribuir sentimento aos animais, é que eles ficam felizes nas tempestades. Quando está uma calmaria, eles ficam nadandinho na água, boiando, parecem uns patinhos meio entediados. Mas quando entra uma ventania forte mesmo, parece que eles se divertem igual montanha-russa voando pelos ares. Eles chegam perto, a gente tá navegando, e eles conseguem planar contra o vento. Eles vem, vem, vem e olham pra você. Olham nos olhos. E eles têm um olhar impassível. Parece que não tem julgamento, não tem emoção, só olham. E é um olhar de bichos que estão acostumados a enfrentar as tempestades mais fortes, mais terríveis, e eles não se comovem. Isso é o que eu mais aprendi com o Henk. Ele tem olhar de albatroz. Os capitães da Antártica desenvolvem esse olhar de albatroz, que é não se comover, pode estar duro, mas você está sereno, está pensando, tendo que resolver tudo, mas com tranquilidade, serenidade.

DIARINHO – Você comanda o Fernande e vai partir em breve novamente para uma nova expedição à Antártida. Quem vai nessa aventura com você? Como será essa expedição?
Charlie: São duas viagens agendadas para essa temporada que vem, que é o verão agora, início de 2020. Uma das viagens é um curso de campo de fotografia de natureza e na outra viagem é um curso de princípios básicos de ciências da natureza, que é inspirada nos naturalistas antigos. Os cientistas de antigamente, como Charles Darwin, eram naturalistas, eram pessoas que tinham conhecimento geral de muitas coisas. Eles sabiam de biologia, de geografia, de geologia, de história, sabiam um pouco de navegação. A ideia é transmitir um pouco desse conhecimento. Basicamente, a intenção é trazer um cunho de aprendizado para as experiências, não é só ir lá ver, mas é ver, aprender, sentir e ter uma vivência diferente. Essa viagem de fotografia vai ter a liderança do André Dib, que é um fotógrafo brasileiro renomado, muito bom. Eu o chamo de mago da luz, você olha o portfólio dele, são coisas tocantes, como ele é capaz de tirar um sentimento ali das fotos. E a segunda viagem, de ciências da natureza, vai ser conduzida por mim, por conta desse histórico, da formação em ciências e em trabalhos na natureza, com ensino ao ar livre.

DIARINHO – São 21 dias dentro do barco nessa viagem à Antártica. Quem pode ir? Como é a rotina no barco?
Charlie: Esses 21 dias são o que a gente chama de janela. Basicamente, existe um dia de embarque, que não necessariamente é o dia da partida, e existe um dia de final da janela, que não necessariamente é o dia da volta. Eu tenho 21 dias para cumprir a missão de ir até a Antártica, ter uma experiência incrível. A minha maior missão de vida enquanto a bordo desse barco, capitaneando esse barco, é fazer com que essa viagem seja a mais incrível da vida das pessoas que estão ali. Todos os grupos que vem a bordo, se alguém que estiver assistindo já tiver ido a bordo comigo, vai lembrar que eu falo isso para todo e qualquer grupo. “Nós temos uma missão aqui, é fazer desse momento uma coisa inesquecível. Lembrar disso com um sorriso no rosto”. Só que a gente está indo pra Antártica, então assim, se essa viagem não for uma das melhores das nossas vidas, estamos errando aqui muito gravemente. Então tem que todo mundo se esforçar, trabalhar em equipe. E o trabalhar em equipe significa participar dos turnos de navegação. O barco precisa de olhos e ouvidos atentos 24 horas. Eu, como capitão, fico acordado muito tempo, tem gente que acha que eu não durmo. Claro que eu durmo. Mas, enquanto eu não tô dormindo, eu preciso que também as pessoas estejam atentas e saibam reportar qualquer tipo de coisa. Não precisa ter nenhuma experiência com navegação para poder participar. A pessoa vai aos poucos aprendendo. A gente tem tripulação fixa, eu e mais duas pessoas experientes, da minha mais alta confiança, que já estão acostumadas com isso. E o barco é tocado, se todo mundo ficar mareado, se alguma coisa acontecer, nós três levamos o barco, levamos a viagem, mas todo mundo participa. Especialmente quando a gente chega na Antártica, que tem que navegar em meio ao gelo. Existe um gelo grande, os icebergs enormes, a gente capta no radar, isso não é o perigo. E os pequenos a gente atravessa. Mas existem pedaços de gelo do tamanho de um ônibus, por exemplo, que se a gente bater pode ser perigoso para o barco. Mas não ficam muito fora da água, a gente não consegue ver muito longe. Então tem que ter os olhos atentos “na estrada” o tempo inteiro. Toda vez que o barco se desloca de A para B tem pessoas ali. Então se tiver com chuva, com vento, com nevasca, com frio… O barco está se deslocando de A para B, as pessoas vão rotacionar fazendo seus turnos, vão se encasacar, vão se preparar. Elas têm que estar preparadas para somar, para estar junto do barco, para querer aprender. E no fim das contas, eu inicialmente achava que isso era um pouco duro para as pessoas, pra quem não tá acostumado, mas as pessoas amam, elas voltam com a sensação de missão cumprida, um sentimento de vencer incrível. [Qual a idade adequada para fazer a viagem e a média de investimento?] Não existe um limite de idade. O que existe é que as pessoas têm que ser independentes. Então tem gente que pergunta: “posso levar meu filho? Qual a idade mínima?” Não tem idade mínima, o que precisa é que o seu filho seja independente, capaz de ir ao banheiro sozinho, capaz de voltar, de vir, de se juntar, de virar a mesa, de comer, de subir, descer do barco, pro bote, pra terra. Claro que se alguém tem alguma dificuldade a gente ajuda. Mas a pessoa não pode depender de outra pessoa a bordo. Já é um trabalho bem grande cuidar de todos e do barco. [E o custo da viagem?] Os custos são bastante altos dessas viagens. A manutenção do veleiro é enorme. Varia na faixa de oito a nove mil dólares por pessoa.

DIARINHO – Você é biólogo por formação. O que tem observado de transformação nos mares e na fauna marinha durante suas expedições?
Charlie: No caso da Antártica, eu tive lá sete vezes. Eu comecei a ir pra lá cinco anos atrás. E é muito variável. Cada verão é diferente. Tem gente que pergunta qual o melhor mês pra ir. As temporadas variam muito. A gente costuma ir de dezembro a fevereiro, às vezes um pouco antes ou depois. Mas, como é muito variado, às vezes, tem um dezembro que o inverno ainda está perdurando e que começa de verdade mais pra frente o verão. E tem outros dezembros que o verão já entrou. Pra você ter uma ideia, na viagem de janeiro quase não existia escuro, mas na viagem de fevereiro, no final da viagem, já tem oito horas de escuro. No inverno 24 horas de escuro. Então é tão variável que é difícil te dar um padrão. Talvez o Henk, que já tem 30 anos de Antártica, soubesse falar mais sobre essas variações. Mas o que a gente percebe na questão que perguntam sobre o aquecimento global, por exemplo, é que tem lugares que a gente chega na Antártica e que você olha uma ilha. E aí você olha na carta náutica e não tem a ilha. A carta tá errada? Eu tô errado? O que tá acontecendo, eu tô no lugar que eu acho que eu tô? E a gente se dá conta que não tá a ilha na carta porque tava tudo coberto de gelo antes. Quem fez a carta há décadas não sabia que ali tinha uma ilha, só que o gelo foi retrocedendo, retrocedendo, e agora apareceu aquela ilha que não era vista, mas já estava lá. É um sinal, um indício que existe uma perda de gelo na Antártica.

DIARINHO – Itajaí deu largada a iniciativas sustentáveis que fazem parte de uma campanha mundial para brecar a poluição por plástico nos oceanos. O plástico é o principal vilão dos mares?
Charlie: Se vê muito pouco quando navega. Muita gente pergunta, especialmente no Pacífico, do bolsão de lixo que reportam haver no Pacífico. Eu tive a oportunidade de atravessar o Pacífico, do Chile a Nova Zelândia, quando fui tripulante da família Schürmann e a gente não viu. Durante esse caminho não teve o bolsão. Não existiu um testemunho da nossa parte pelo menos. Mas a gente vê nas praias muito lixo. Vê mais no continente do que em alto mar. Eu que mergulho desde criança, eu vejo que nas praias com o uso do recurso excessivo nas cidades, o lixo, a sobrepesca, cada vez tem menos peixe. Todos os lugares que eu vou eu converso com os pescadores e todo mundo fala que está perdendo, que está diminuindo. Que vem os navios enormes de outros países e pescam tudo. Que os filhos já não querem mais seguir nessa arte que é tão dura, tão difícil. Tudo isso vai se perdendo. As águas vão se turvando pela questão dos sedimentos, desmatamentos. Tudo se conflui. Não é um único testemunho. É um conjunto de coisas que eu percebo que sim, existe um problema de lixo, de consumo e de uso excessivo de recursos.

A minha maior missão de vida enquanto a bordo desse barco, capitaneando esse barco, é fazer com que essa viagem seja a mais incrível da vida das pessoas que estão ali”

DIARINHO – A fotografia é um hobby seu. Suas aventuras estão registradas em fotos? Compartilha as experiências nas redes?
Charlie: A gente tem alguns canais de divulgação em mídia social. O nome artístico do projeto é Homo Zarpiens. É uma brincadeira do Homo Sapiens, a espécie humana, tem o Sapiens porque pensa, busca sapiência, o aprendizado com o zarpar. Então é o Homo Zarpiens. É uma espécie diferente de viajante. Tem Facebook, Instagram com esse nome, o site também é Homo Zarpiens. Temos muitas fotos, eu tirei muitas fotos, me desenvolvi bastante nessa questão de fotografia e gosto muito. E também tivemos em duas oportunidades na Antártica com dois profissionais das imagens, um é o Heitor Cavaleiro e o outro é o André Dib.

DIARINHO – As pessoas costumam ter uma visão romantizada dos navegadores, mas velejar exige muito conhecimento técnico também. Como aconselha um jovem que sonha em se aventurar pelos mares do mundo?
Charlie: Eu comecei de uma forma bastante diferente. Eu vejo que o caminho mais comum é a criança pequena ter a oportunidade de ir numa escolinha e vai construindo isso de uma forma muito natural. Pra quem já cresceu e não tem uma entrada como eu não também tive, é buscar dominar o menor barquinho possível. É encontrar o menor possível e dominar esse veleiro. Eu aprendi lendo e praticando. Mas, seja como for, dominar o menor barquinho possível em condições simples. Uma represa, um lugar fechado, abrigado. E dali pra frente ir construindo cada vez mais. Estudar muito, praticar, tirar as habilitações de navegação. Porque elas vão indicar o caminho do conhecimento que você precisa ter. Tirar as habilitações em si, a carteira de habilitação, é fácil. Ainda mais no Brasil, basta fazer a prova. Mas, eu vejo muita gente estudando para passar na prova, não para aprender. Eu recomendo dominar o veleirinho, o menor possível, dominar. Em qualquer condição de vento, direções de vento e tal. Depois, buscar habilitação, mas estudar para conhecer. Aquele conhecimento é importante, não a carteira. A moeda corrente a bordo é milhas, milhas navegadas. Não é papel. Quem se aventura, busca tripular outros barcos. Eu vejo muita gente falar “ah, eu sou arrais”. A graduação são três níveis, arrais, mestre e capitão. Tem gente que fala “ah, eu sou arrais, sou mestre, capitão”. É a primeira coisa que eles falam quando pleiteiam uma vaga. Eu falo, gente, vocês têm que falar de milhas, papel não vale nada. Quantas milhas vocês têm? Aonde vocês navegaram? Em que águas vocês navegaram? Se eu tenho um milhão de milhas, mas navegadas nos trópicos, que é um lugar geralmente mais fácil de navegar, é uma coisa. Se eu tenho menos milhas, mas navegadas em mares tempestuosos, frios, duros, é outra coisa. […] Isso eu aprendi com Vilfredro Schürmman. Ele falava assim: dê o primeiro passo, vá adiante, finja que você está fazendo alguma coisa. Você quer comprar um veleiro? Começa a olhar preço…

Itajaí se firmou como um lugar onde é simples conseguir todos os recursos para deixar o barco em bom estado”

DIARINHO – Você participou de uma expedição com os catarinenses Schürmann. Como foi essa experiência?
Charlie: Quando eu tinha 18 anos completou 10 anos da volta ao mundo deles. Foram também grandes influenciadores, grandes ídolos. E anos depois, quando a gente acabou se conhecendo, eu estava indo pra Antártica já com o Henk. E fiquei sabendo que eles estavam saindo na Expedição Oriente. E eu olhava aquilo e falava: “nossa, seria um sonho poder trabalhar com eles, eu jamais teria chance”. Mas quem sabe a gente se encontra em Ushuaia, eu sabia que eles iam pra Antártica. E a gente se conheceu lá. Eu tinha ido pra Antártica como marinheiro. A gente foi ficando amigo e se deu muito bem. E eles estavam numa fase de ajustes da expedição. E aí eu acabei entrando para tripular e participei do Chile a Nova Zelândia. Fiquei seis meses a bordo. Era um sonho desde que eu li os livros deles. E de repente eu me vejo indo para Polinésia com os Schürmann, com o chefe de mergulho da Expedição Oriente. Isso foi incrível. Estar com eles foi incrível, e eu me sinto hoje parte da família.

DIARINHO – Por que você escolheu preparar o seu barco em estaleiros de Itajaí?
Charlie: A cidade de Itajaí é um polo náutico já há bastante tempo, polo de construção de embarcações grandes. Mas a cidade passou a investir muito na parte dos veleiros também. Quando veio a primeira Volvo Ocean Race, em 2012. A Marina Itajaí também tem cinco ou seis anos. Então juntou a estrutura da cidade de ter esse dom náutico com a estrutura pros veleiros. O Henk foi o primeiro a vir aqui para Itajaí. O primeiro dos Antárticos a vir pra cá. Porque ele queria fazer um trabalho que existia aqui na região. Gostou muito da Marina e começou a recomendar. A Marina estar presente é fundamental. Hoje em dia tem já oito dos veleiros Antárticos que vem pra cá pra fazer suas manutenções. A temporada na Antártica exige muito do barco e tem que estar tinindo, em perfeito estado. Itajaí se firmou como um lugar onde é simple conseguir todos os recursos para deixar o barco em bom estado.

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com