César Cielo

Nome completo: César Augusto Cielo Filho

Idade: 32 anos

Local de Nascimento: Santa Bárbara d’Oeste/SP

Estado Civil: Casado

Filhos: Um

Formação: Ensino superior incompleto em Comércio Exterior, cursado nos Estados Unidos

Trajetória profissional: Recordista dos 50 metros livres na Olimpíada de Pequim, em 2008. Bicampeão mundial dos 50 metros borboleta. Maior medalhista brasileiro em campeonatos mundiais. Integrou as equipes de natação de Piracicaba e do Esporte Clube Pinheiros, de São Paulo, do clube de Regatas Flamengo, no Rio de Janeiro, e do Minas Tênis Clube, de Minas Gerais. É empresário, agenciador de atletas e administrador de um restaurante em São Paulo.

 Cesar Cielo é o maior medalhista do Brasil em campeonatos mundiais. Superou o lendário velejador Robert Scheidt. Também é seu o insuperável recorde olímpico na prova de 50 metros livres. Esse titã do esporte brasileiro está bem pertinho da gente. Padrinho do projeto Nadar, da prefeitura de Itajaí, passa agora a competir por uma equipe da cidade e, afirma, quer muito mais do que ganhar medalhas. Através do esporte, Cesar Cielo pretende ajudar a formar cidadãos. Veja, nesta entrevista ao jornalista Sandro Silva, as opiniões sensíveis, porém firmes do maior nadador brasileiro de todos os tempos. As fotografias são da jornalista Franciele Marcon.

 A competição é o último estágio do esporte. A gente tá falando em formação de pessoas, em formação de cidadãos, do cara aprender a ter disciplina”

DIARINHO – Você tem um currículo que já entrou para a história do esporte brasileiro. Qual foi sua motivação para a vinda a Itajaí que, apesar de ser uma cidade voltada para o mar, não tem até então uma tradição na natação enquanto esporte de rendimento?

Cesar Cielo – A nossa parceria nasceu da ideia de uma coisa maior do que a minha carreira, do que a nossa vaidade de ter um atleta de alto rendimento em Itajaí. A nossa ideia é aumentar a natação, propagar o projeto Nadar por todo o estado de Santa Catarina. Não só na cidade de Itajaí. Então, o que me uniu à cidade de Itajaí foi essa missão, essa ideia de legado, de propagação do esporte como um todo. O alto rendimento é menos que 1% do esporte de verdade, né? O esporte como iniciação, como atividade física, como saúde, como educação é maior. Mas o alto rendimento é importante como um lado de vitrine. O alto rendimento chama a atenção. E hoje o projeto Nadar é o maior projeto de natação do Brasil e agora a gente tá com uma vitrine muito legal para expor isso ao Brasil inteiro. Quem sabe mais pessoas olhem essa iniciativa e possam pensar tanto como atleta a se unir a um outro projeto ou como outra cidade fazer um projeto parecido com esse. A gente tentar contagiar o Brasil inteiro.

DIARINHO – Você é padrinho do Nadar, um projeto de iniciativa da prefeitura que já tem mais de três mil crianças fazendo natação no município. O que difere esse projeto de Itajaí de projetos de grandes clubes pelo Brasil quando o assunto é formar atletas nadadores?

Cesar Cielo – Olha, o daqui, como projeto social, acho que o diferencial é a sustentabilidade, a seriedade do projeto, a honestidade de todo mundo que está à frente. Chega até a ser uma obsessão das pessoas que estão à frente desse projeto em chegar aos 10 mil nadadores, que é a meta do projeto Nadar em Itajaí. O diferencial, pra mim, é ter um visionário, que é o Leandro [Leandro Peixoto, coordenador do projeto Nadar] e pessoas em volta dele que gostam da natação, querem um país melhor, querem um esporte melhor e isso diferencia completamente esse projeto de qualquer outro que conheço no Brasil. Com relação à escolinha e à formação de atletas, aqui é um pacote completo. Agora, com a minha vinda pra cá de fato, o projeto Nadar tem toda as áreas: o alto rendimento de seleção brasileira, a iniciação com a escolinha, natação e hidroginástica para a terceira idade. Tudo o que você imaginar de esporte aquático, de atividade física de saúde, o projeto Nadar está suprindo.

DIARINHO – Quando noticiamos a sua vinda para trabalhar com natação em nosso município, muitos questionaram que não dispomos de uma piscina olímpica municipal. Há apenas uma piscina olímpica na cidade, que é privada e fica bem no interior. Onde você treinará? A infraestrutura do município é adequada para a prática de natação olímpica?

Cesar Cielo – Olha, se eu for bem sincero com você, acho que consigo listar na minha mão quantas estruturas olímpicas eu me sentiria 100% confortável. [No Brasil?] No mundo! Todas as estruturas precisam de um ajuste. É um material que a gente não tem, às vezes é um horário em que você está conflitando com o sócio daquele clube… tem “ene” fatores. Todos os lugares vão ter suas próprias dificuldades. Hoje, aqui em Itajaí, treinar para uma olimpíada não seria um espaço que diria dos sonhos, mas todo lugar tem que ser adequado. A ideia da prefeitura, a ideia do projeto é ter futuramente uma piscina de treinamento, de competição. Para receber competições. Então um passo de cada vez. Hoje a gente tá iniciando uma parceria para tentar aumentar ainda mais o número de participantes dentro do projeto e a gente sabe que vai colher os frutos disso aí dentro de alguns anos. É um projeto macro. Dos três, quatro mil atletas no projeto, talvez lá no alto rendimento tenha dois, três atletas. Esse é o funil do alto rendimento, infelizmente. Vai eliminando com o vestibular, no dia a dia com a monotonia do esporte. Se tiver um atleta aqui na seleção, um dia na olimpíada, que começou aqui em Itajaí, vai ser uma grande vitória.

 “O projeto Nadar é o maior projeto de natação do Brasil e agora a gente tá com uma vitrine muito legal para expor isso ao Brasil inteiro”

DIARINHO – Numa entrevista ao jornalista Felipe Rosa Mendes, do jornal Estado de São Paulo, você afirmou que “a natação no Brasil está muito chata”. O que quis dizer com isso?

César Cielo – Olha, eu vou te responder com outra pergunta: Você acompanhou o Troféu Brasil de Natação este ano? [Não, não acompanhei]. Ninguém acompanhou. Não foi televisionado. Nós temos duas competições, por ano, de alto rendimento no Brasil. Duas! É o Troféu Brasil e o José Finkel. A gente como comunidade conseguiu ter uma competição passando batida. Isso para o público. Estou falando do lado vitrine, de patrocinador, investidor estar olhando e querendo patrocinar, querendo investir na natação. Qual é o retorno? A não ser o fato da pró-atividade de querer ajudar o esporte. Então tem que olhar pelo lado do investidor. O cara tá ajudando o esporte? Tá! Mas ele também quer uma contrapartida. Então a gente fica na dependência do resultado dos atletas. É uma pressão enorme sobre os atletas, desnecessária, por uma política de gestão horrível.  Uma política de gestão muito mal feita. Além de estar chato, tá mal gerido. Precisa pensar em novos formatos, em coisas mais modernas e pensar no futuro. Só está apagando fogo.

DIARINHO – É possível popularizar a natação?

Cesar Cielo – É possível. Itajaí hoje é um exemplo disso. Acho que um dos maiores erros do povo brasileiro, hoje, é pensar em natação ou em qualquer esporte e pensar em competição. A competição é o último estágio do esporte. A gente tá falando em formação de pessoas, formação de cidadãos, do cara aprender a ter disciplina. Se você não treina, não tem resultado. Em nenhum outro lugar do universo você vai aprender isso tanto quanto no esporte. Você não treinou; o seu amiguinho treinou mais? Ele vai ganhar de você! E você vai aprender a lidar com a frustração. Uma vez que você não consegue um resultado legal, você vai ter que aprender a lidar com o nervosismo, com a expectativa sua, a dos seus pais. O esporte amadurece as pessoas. Não conheço nenhuma outra esfera que faça isso desde tão cedo e de uma forma tão coerente com o crescimento das pessoas. Pra mim é assim: o esporte pode transformar o Brasil e rápido. Só que a gente precisar dar condição para isso acontecer.

DIARINHO – Quando você venceu a final dos 50 metros livres, na Olimpíada de Pequim, treinou nos Estados Unidos para chegar a essa conquista histórica. Por que lá? O Brasil não tem condições ou estrutura para formar atletas internacionais de ponta, como você? O que estaria faltando? Onde é preciso atuar para que isso ocorra?

Cesar Cielo – Eu vou dizer, acho que hoje se uma pessoa virar pra mim e perguntar “quer ser campeão olímpico?” e perguntar “onde é melhor treinar?”, eu vou falar que é nos Estados Unidos, sem dúvidas. Você pode ir pra fora, tem condição, tem lugar, tem um treinador que você confia lá? Então tem que ir. Hoje, infelizmente, com relação à natação, a gente deu muitos passos para trás. Infelizmente, os Estados Unidos voltou a ser um nível acima da gente. Por muitos anos, vou te dizer, de 2010 até mais ou menos 2016, até a Olimpíada do Rio, a gente tava equiparado. Um atleta pensaria duas vezes antes de ir para os Estados Unidos. “Pô, mas aqui eu tenho todas as condições, eu tenho mais facilidade aqui”. Pode não ser a estrutura física, a melhor piscina, mas, poxa, tem um médico em quem ele confia, tem um nutricionista que tá rapidinho, a uma ligação de atender, uma fisioterapeuta… Pô, teve uma lesão ele tá rapidinho na fisio. E isso nos Estados Unidos é um pouquinho mais difícil. Mas, infelizmente, hoje, o cenário não é mais assim não. Eu digo pra pessoa: “Cê tem condição de ir? Então vai!”.

O alto rendimento é menos que 1% do esporte de verdade, né? O esporte como iniciação, como atividade física, como saúde, como educação é maior”

DIARINHO – Você não integra mais a confederação Brasileira de Desportos Aquáticos, a CBDA, e tem participado de competições internacionais sem o apoio do comitê Olímpico Brasileiro, o COB. O que aconteceu? Aquelas organizações já “decretaram” sua aposentadoria, mesmo você trazendo medalhas para o país, como foi em dezembro do ano passado no Mundial de Piscinas Curtas na China? Ou foi uma decisão estratégica sua?

Cesar Cielo – Só pra deixar as linhas mais corretas aí. Com relação à CBDA eu sempre fui só atleta federado. Sempre nadei por um clube e esse clube me federava junto à confederação. Nunca fui mais do que isso dentro da confederação. Com relação a essa pergunta, aconteceu um treinamento em janeiro, onde eu me enquadrava nos critérios de convocação e não me convocaram. Então eu falei: “Gente, vocês estão me aposentando!  É isso?” Cansaram de mim, acho. Não sei te dizer [risos]. [Mas em dezembro você teve um podium, um bom resultado na China?] Sim, voltei do Mundial com duas medalhas de bronze e foi ali que me tornei o maior medalhista de campeonatos mundiais do Brasil, em todos os esportes. [Você superou o velejador Robert Schdeit]. O Schdeit tinha 17. Até então a gente estava empatado. Ele ganha de mim em ouro. Ele tem um ouro a mais que eu. Dos 17, ele tem 12 de ouro e eu tenho 11. Mas só de estar empatado com o Schdeit é uma honra. Mas, com relação a isso, infelizmente, são coisas pequenas. Sinceramente, eu provavelmente não participaria desse champion. Eu provavelmente iria pedir dispensa, porque eu tava treinando para uma competição no México. Mas regras são regras, têm que ser seguidas. Precisavam me convocar e eu precisava pedir dispensa. Não era para passar por cima. Então, coisas da nossa política e não é novidade pra ninguém… E, na natação, a coisa tá mais descarada do que nunca.

DIARINHO – O esporte de rendimento é ingrato quando o assunto é a idade do atleta. Para quem pensa em seguir carreira como atleta de rendimento, levando em consideração que as carreiras são relativamente curtas, que lição você passa a esses jovens?

Cesar Cielo – Extraia o máximo que você pode da situação que aparece na sua frente. O máximo! Se é uma bolsa num colégio, talvez valha a pena mudar para uma equipe que pode te oferecer isso. Se você vai ter uma bolsa numa universidade, vá. Você gosta de nadar? Gosta. Mas caso não dê certo, você tem um diploma na sua manga, o seu plano B. Sempre tenha um plano B. Sempre ande com a natação junto com alguma coisa, principalmente no lado acadêmico. Nunca deixe de estudar. Esse é um dos maiores erros que a pessoa pode fazer. Acho que é um erro o esporte, em geral, aqui no Brasil que se acaba cometendo. Muita gente para de estudar para treinar. Não precisa. Eu só prova disso. Quando fui campeão olímpico em 2008 eu estava estudando normalmente na universidade. Tem como estudar e treinar em alto rendimento? Sim! É difícil? É muito difícil! Eu não gostei muito da minha vida nesse período [risos]. Mas esporte de alto rendimento é assim. Você não vai gostar de muita coisa que você vai ter que fazer, mas tem que fazer. Acordar cedo, de manhã, e pular na água fria? Não gosto de fazer isso. Mas tem que fazer. Então, sempre tenha um plano B na manga e aprenda. Esporte de alto rendimento você não tem que gostar, mas tem que fazer.

“Infelizmente, os Estados Unidos voltou a ser um nível acima da gente. Por muitos anos, vou te dizer, de 2010 até mais ou menos 2016, até a olimpíada do Rio, a gente estava equiparado”

DIARINHO – Você veio com a família para Itajaí. Já se adaptou à cidade, ao jeito, à cultura do litoral de Santa Catarina?

Cesar Cielo – Olha, é fácil, né? [risos]. Quando tem uma praia dessas na frente [Cesar Cielo e a família, quando estão na cidade, se hospedam numa pousada à beira-mar da Praia Brava]. Mas estou me adaptando a comida aqui, viu? Eu vou falar, estou comendo como nunca comi antes. O pessoal aqui é bom de garfo. Eu, como atleta, achava que comia bastante, mas vi que aqui tem vários iguais a mim [risos]. Mas tô tendo uma fase muito boa. Estou gostando da cidade, gostando das pessoas. Até agora só tenho elogios a fazer.

DIARINHO – Você se imagina, daqui a alguns anos, como técnico? Ou quando encerrar a carreira deve largar a natação? O que está traçado para seu futuro?

Cesar Cielo – A piscina nunca vai sumir da minha vida. A experiência que tenho, as vivências, são coisas que seria até egoísmo e ingrato com tudo o que fiz abandonar a piscina de uma vez. Então, nem que seja na questão de ajudar essa nova geração, tentar passar o que aconteceu comigo, para ver se aprendem. Pra mim, o importante é estar fazendo algo que me preenche. A piscina ainda me preenche. Eu gosto de estar em volta da piscina. Eu gosto de competitividade. Agora, treinador na borda da piscina eu não sei te dizer. O dia a dia na borda é diferente. Eu imagino trabalhando numa gestão de uma equipe, ali como gestor. Talvez ajudando a montar e a manter o ambiente de treinamento na melhor forma possível. Agora, o treino em si, não sei. Eu imagino dando treino para mim. Acho que ia sair na mão comigo direto. Por enquanto vou te dizer que acho que não [risos]. Mas a gente não sabe dizer o que vai acontecer daqui a cinco, 10 anos, né?

 

 

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