Home Notícias Entrevistão Celso Luiz Dellagiustina, Secretário Municipal de Saúde de Itajaí

Celso Luiz Dellagiustina, Secretário Municipal de Saúde de Itajaí

“Se o CIS funcionar adequadamente, os prontos-socorros do Marieta e Pequeno Anjo serão referências só para a alta complexidade”

“A gente sabe que uma UPA bem resolutiva resolve 97% dos casos”

“A gente acredita que o CIS é a caixa de ressonância da atenção básica. Se nós tivermos muitos atendimentos aqui, sinal de que lá na ponta não estamos sabendo fazer a medicina resolutiva de prevenção à saúde”

Há sete dias, Itajaí inaugurou o tão esperado Centro Integrado de Saúde (CIS) no bairro São Vicente. O local, que foi anunciado como a solução para a demanda de exames de alta complexidade pelo ex-prefeito Jandir Bellini (PP), ganhou nova roupagem no governo Volnei Morastoni (PMDB). Abriga uma UPA, uma ala de especialidades, o PAM (Policlínica Central) e a sede da secretaria municipal de Saúde. Para falar sobre esse novo momento, a jornalista Franciele Marcon conversou com o secretário Celso Luiz Dellagiustina. O secretário acredita que o CIS será a caixa de ressonância da atenção à saúde básica no município. Se houver muito atendimento, será sinal de que há dificuldades nos postinhos de saúde, por exemplo. Anunciou que os mutirões de exames, especialmente para atender a demanda por ressonância magnética, estão chegando ao fim, e que planeja um longo trabalho para não deixar a fila aumentar novamente. Falou também sobre as reclamações de demora no atendimento na UPA de Cordeiros e no PA do São Vicente, dos cortes do governo federal no programa Farmácia Popular; dos altos índices de hanseníase, tuberculose e a cidade, da ameaça do hospital Marieta fechar uma ala do SUS por falta de dinheiro e das denúncias que marcaram o início da sua gestão, como o uso do carro da prefeitura para levá-lo e buscá-lo em casa. Celso não se furtou nem mesmo de comentar o apelido de “forasteiro” que diz que injustamente lhe imputaram.

Nome completo: Celso Luiz Dellagiustina
Idade: 65 anos
Natural: Rio do Sul
Estado civil: Casado
Filhos: Quatro filhos
Formação: Medicina, com especialização em Ortopedia, e Direito, com especialização em Direito Sanitário
Experiências profissionais: Médico ortopedista e advogado com especialização em direito sanitário. Foi vereador pelo MDB, atual PMDB, em Rio do Sul, foi presidente da Câmara de Vereadores da cidade e assumiu a prefeitura em uma eleição indireta. Também foi secretário de Saúde de Rio do Sul, Itapema, Bombinhas e Lontras. Na carreira, tem ainda longa experiência como coordenador da Comissão Intergestores Bipartite (CIB) e membro da Comissão Intergestores Tripartite (CIT), entidades que definem políticas públicas de saúde no Estado e no país. Participou por mais de 10 anos da coordenação do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Santa Catarina (Cosems), é consultor em gestão de saúde pública e membro titular da Câmara Técnica Nacional de Ortopedia e Traumatologia do Ministério da Saúde. Atuou como consultor da Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa de Santa Catarina e atualmente é secretário de Saúde de Itajaí.

DIARINHO – Quais os principais desafios nesse primeiro momento de implantação do CIS? As primeiras queixas falam da dificuldade dos funcionários em usar o sistema de gerenciamento dos prontuários. Faltou treinamento?
Celso: O treinamento existe. Não foi a dificuldade de o funcionário acessar o sistema. Tivemos uma sobrecarga no servidor que alimenta o sistema. Como nós tivemos uma união maior, com o PAM, que não tinha sistema computadorizado e agora tem, nós vamos ter que ter uma solução para resolver esse problema específico. Precisamos aumentar a capacidade do servidor da prefeitura, pois hoje todas as secretarias são alimentadas pelo servidor da prefeitura, ou a secretaria de Saúde terá que arranjar um servidor próprio. As coisas já estão andando melhor. Essa foi uma das razões de anteciparmos a mudança da secretaria de Saúde ao CIS. Estando aqui, estamos de olho nas adequações. A nossa presença aqui [administrativo no CIS] tem dupla finalidade. A primeira para que os serviços melhorem. Para que tenhamos uma maior resolutividade, que tenhamos um melhor atendimento, uma maior humanização e que possamos oferecer serviços de maior qualidade. A segunda proposta é estarmos vendo os problemas que no cotidiano irão surgir. Não resta dúvidas de que em uma unidade de sete mil metros quadrados, fica difícil atingir a perfeição no primeiro dia. Vamos ter que fazer algumas adequações na medida que vamos colocando o CIS em funcionamento. Não se troca, em saúde, pneu com carro parado. Nós temos que trocar com o carro andando. A base, o alicerce, é a atenção básica. Pegamos em um estado de sucateamento, com falta de profissionais, com falta de medicação, com problemas de atendimento, com problemas de distribuição de ficha. A nossa primeira medida foi o fortalecimento da atenção básica, colocando o que chamamos de “acolhimento de demanda espontânea”. Isso significa que todos os pacientes que chegarem às unidades de saúde não irão embora sem serem atendidos. Não há mais distribuição de fichas. Todos serão acolhidos. O acolhimento será feito pela enfermagem e, de acordo com classificação de risco, vulnerabilidade das pessoas, do grau de problema que apresentam, será dirigido à resolução. Essa resolução pode ser o atendimento médico imediato, o encaminhamento a uma unidade mais complexa, um agendamento de consulta mais para a frente. Vão continuar existindo os grupos de Saúde da Estratégia da Família, nós não vamos mudar em nada o projeto. Só vamos fazer com que funcione. A capacidade resolutiva da unidade básica de saúde deveria ser, segundo a literatura, de 80%. Aí temos duas etapas da rede a serem cumpridas: da rede de atenção básica para a rede especializada. Na rede especializada, temos os componentes dos PAs e UPAs – se não forem resolvidas ali, têm que ser resolvidas a nível hospitalar. A gente sabe que uma UPA bem resolutiva, resolve 97% dos casos que procuram atendimento. Isso teoricamente vai ter que desafogar com a abertura do CIS, fazendo funcionar adequadamente o pronto socorro do hospital Marieta e do Pequeno Anjo, que são referências em patologias de alta complexidade. O local onde se faz saúde chama-se unidade básica de saúde.

DIARINHO – Existe uma previsão para que o CIS comece a realizar exames de alta complexidade?
Celso: Temos quatro blocos e as razões deles são bem definidas. Primeiro bloco, onde fica a UPA do PA do São Vicente, fizemos a UPA tipo 3. Para isso tivemos que ampliar os nossos profissionais, porque ela é muito superior em nível de atendimento. Só para vocês terem uma ideia: temos 30 leitos de observação – não são leitos de internação – são de observação de até 24 horas; temos seis escalas médicas de plantão nas 24 horas do dia. Tivemos que contratar mais enfermeiros, mais técnicos de enfermagem para que possamos dar conta pois, nesse início, a demanda deve aumentar. Até porque a população vai tentar provar se realmente o serviço vai funcionar. E estamos atentos. Estamos sistematicamente perambulando pela casa. A gente acredita que o CIS é a caixa de ressonância da atenção básica. Se tivermos muitos atendimentos aqui, sinal de que lá na ponta não estamos sabendo fazer a medicina resolutiva de prevenção à saúde. Em relação a alta complexidade, nós temos as consultas especializadas, que não deixam de ser uma alta complexidade. Todas aqui. Teremos alguns exames, principalmente de cardiologia, esteira, mapa, ultrassonografia. Não instalamos a ressonância magnética e nem a ultrassonografia, primeiro pelo custo, não só do equipamento, mas o operacional. Você não consegue profissional para tocar uma ressonância magnética pelo princípio da contratação dos médicos para as outras atividades. Nós teríamos que aplicar a isonomia a todos, o que inviabilizaria qualquer atividade. Segundo, nós compramos essas duas atividades e também a mamografia, com preços de SUS, mais em conta, na iniciativa privada, do que se fôssemos fazer com os nossos aparelhos. Representa cinco vezes mais alto o custo que nós teríamos com o serviço próprio. Ele geraria uma manutenção e uma necessidade de mão-de-obra muito mais cara. Porque o prestador de serviço pode fazer preço do SUS? Por que faz volume. Aqui nós não teríamos possibilidade de fazer volume, porque nós não podemos, como órgão público, atender o particular ou os convênios.

DIARINHO – O mutirão de especialidades já conseguiu reduzir em que proporções a fila de espera?
Celso: Tínhamos 21 mil consultas e 29 mil exames em espera. Desses já baixamos sete mil exames, mas muitos desses pacientes já resolveram o problema. Tanto que temos previsão de acabar com as ressonâncias magnéticas que contratamos ainda neste mês, junto com a tomografia. Estamos em andamento com outro gargalo, que é a colonoscopia, que está sendo feita no Marieta e temos em andamento as consultas especializadas. Ao todo não posso te afirmar porque muda a cada dia o número de pessoas que são atendidas.

DIARINHO – No início de julho, a prefeitura divulgou os seguintes números: foram realizadas 20 colonoscopias – sendo que a fila de espera tinha 1616; 71 endoscopias realizadas para uma fila de espera de 3770; 647 ressonâncias magnéticas para 3434 pessoas esperando. Como aparecem novas demandas, a fila jamais será zerada?
Celso: A fila da ressonância acabei de te afirmar: acabamos com ela ainda este mês. A da colonoscopia está um pouco atrasada, são duas mil colonoscopias que contratamos com o Marieta, porque o Marieta teve um problema com o equipamento. Por isso, naquele mês foram efetuadas apenas 20, que não foram feitas por eles, mas em Blumenau, que era nosso prestador de serviço. [Como ficam as novas solicitações de exames?] Nós estamos estudando a possibilidade do aumento hoje, já vamos conversar novamente com os prestadores, para que possamos aumentar um pouco a cota oferecida, mesmo com recursos municipais, porque quem deveria bancar essa alta complexidade é o governo federal. Nós vamos aumentar as custas do Fundo Municipal de Saúde e estamos estipulando protocolos clínicos para distribuir nas unidades básicas de saúde. Porque se nós não tivermos resolução e protocolo clínico lá na atenção básica, vamos ter fila novamente.

DIARINHO – Os prontos atendimentos do município, PA São Vicente e UPA Cordeiros, esta semana registaram reclamações de demora e lentidão no atendimento. Por que é tão difícil prestar atendimento dentro de um limite de espera tolerável?
Celso: Temos que ter o poder de convencimento do profissional: ele está lá para atender efetivamente as urgências e emergências. Para tanto ele precisa ter agilidade, não só no atendimento, mas agilidade também em fazer a questão do prontuário eletrônico – que é o único dado que temos para conseguirmos avaliar a capacidade da nossa atenção básica. A segunda questão: ainda assim encontramos resistência por parte de alguns profissionais em poder agilizar esse serviço. Nós não vamos corrigir isso por decreto. Se eu baixar um decreto pedindo para que os profissionais sejam mais ágeis, eles serão mais lentos ainda. Tem que ser na base do convencimento. A população tem que cobrar. A população tem que ser participativa. Mas tem que cobrar não do secretário, mas de quem executa o serviço. A nós cabe fazer as ações e as programações. As execuções são dos funcionários. A comunidade tem que nos ajudar, exigindo que esses serviços sejam mais ágeis.

DIARINHO – Há anos que a saúde de Itajaí sofre com a falta de pediatras e ginecologistas nos postos de saúde. Porque é tão difícil contratar esses profissionais?
Celso: O pediatra é uma especialidade em extinção. Ninguém mais quer fazer. Mesmo porque o pediatra antes do SUS atendia muito em regime hospitalar. Ele era um pediatra hospitalocêntrico, hoje ele é o pediatra que atende no ambulatório. Aí, a escala econômica fala mais alto. A mesma questão com a ginecologia. Temos que entender que o profissional, muitas vezes, é formado em uma universidade particular e vai escolher pelo critério econômico aonde pode ter um melhor rendimento.

DIARINHO – Itajaí segue com altos índices de hanseníase, tuberculose e HIV. No Brasil inteiro houve cortes do governo federal para compra de medicamentos. Vai faltar medicação para esses tratamentos?
Celso: Por enquanto nós estamos ainda conseguindo controlar bastante. Tivemos alguns problemas em relação à sífilis congênita com a entrega da penicilina, que é o tratamento de excelência para a sífilis, tanto da mãe, como do parceiro e da criança. O Ministério da Saúde está procurando regularizar isso. Na última reunião da comissão bipartite, já foi referenciada uma quantidade maior para o município de Itajaí. Eu espero que esse problema se resolva. Em relação a AIDS, ela está em pacto interfederativo. Itajaí é a terceira cidade com maior propagação vertical da AIDS e estamos trabalhando com toda a equipe da vigilância epidemiológica no sentido de baixar esses níveis, inclusive dos portadores, e fazer a aplicação dos testes rápidos – que é muito importante na rede básica, para um diagnóstico precoce.

DIARINHO – O governo Temer anunciou o encerramento do programa Farmácia Popular. Como isso afeta a comunidade itajaiense?
Celso: A Farmácia Popular desativada é aquela em convênio com o município e o Ministério da Saúde. Houve um pequeno corte, de algumas farmácias, que tinham credenciamento a preço popular. Nós ainda temos farmácias que oferecem aqueles oito medicamentos que são gratuitos e o alguns medicamentos a preços mais acessíveis. A obrigação do município é ter a relação básica de medicamentos que temos aqui. Quando assumimos havia falta de 100 medicamentos. Hoje nós estamos praticamente com todos esses medicamentos incluídos nas nossas unidades básicas de saúde. O que está faltando, e o pessoal reclama, são os medicamentos de responsabilidade do governo do estado ou federal. A gente tem recebido ações judiciais de pessoas que deveriam ser atendidas pelo Estado.

DIARINHO – O hospital Marieta está fazendo campanha de arrecadação de dinheiro e anunciou, depois voltou atrás, o fechamento de uma ala de emergência da unidade. A prefeitura de Itajaí liberou mais verbas. O problema está resolvido de forma definitiva ou as contas do hospital ameaçam ainda a ala do SUS?
Celso: A administração do hospital compete às irmãs da Imaculada Conceição. Elas nos mostraram uma situação, um motivo muito simples: recebiam R$ 600 mil de custeio do governo estadual, porque o hospital é estadual. Fizemos várias inserções na secretaria de Saúde e conseguimos fazer com que o governador assinasse o aumento para R$ 1 milhão. Só que está há três meses atrasado. O hospital nos apresenta uma dificuldade imediata e, por determinação do prefeito Volnei, vamos repassar três parcelas. A primeira já repassamos, vamos repassar mais duas parcelas de R$ 400 mil, e enquanto isso estamos questionando o governo estadual para que repasse os recursos ao Marieta. Senão vamos chegar em uma situação de instabilidade administrativa. Agora, as particularidades do Marieta, evidentemente, ficam para a administração dele.

DIARINHO – Itajaí pretende implantar um horto medicinal? Como vai funcionar?
Celso: O programa Farmácia Viva junto com a criação do horto foram apresentados pelo professor Cechinel, da Univali, e nos sensibilizou bastante a proposta. Temos todas as condições de fazer. Precisamos vencer algumas etapas. Em relação à população, não haveria grandes problemas porque na atenção básica a pesquisa nos mostra que, muitas das pessoas que procuram a atenção básica, já fazem o uso de plantas medicinais. Nós temos que fazer um treinamento e a capacitação aos nossos profissionais. Temos duas etapas: capacitar os nossos profissionais e ao mesmo tempo implantar o nosso horto, a nossa Farmácia Viva, que vai ter possibilidade de usar a planta in vivo, in vitro e planta, também com um pequeno laboratório, sendo gradualmente processada até virar medicamento.

DIARINHO – No começo da sua gestão, o senhor respondeu denúncias de uso de um carro oficial que o levaria e buscaria em casa. O senhor ainda faz uso do carro oficial? Onde o senhor reside?
Celso: Eu tenho dito isso inúmeras vezes: por um problema de não poder dirigir, eu fiz uso do carro. Mas eu devolvi todos os recursos, todos os custos da locomoção, ao Fundo Municipal de Saúde. Estou com a consciência bem tranquila e, desde abril, não utilizo mais o carro da prefeitura. A não ser para me locomover quando estou em serviço para a cidade de Itajaí. A minha residência todo mundo sabe: eu moro em Itapema.

DIARINHO- Também houve uma denúncia nas redes sociais de que os carros da secretaria de Saúde são lavados no pátio da secretaria, mas que esse serviço seria cobrado por um terceiro. Isso é verdade?
Celso: No pátio da prefeitura, a empresa terceirizada faz a lavação a seco dos veículos do município. E faz isso sem cobrar qualquer complementação do valor da licitação, do contrato estabelecido através de um processo licitatório.

DIARINHO – Numa disputa interna de poder, há colegas de governo que o chamam de “forasteiro”…
Celso: Eu não me sinto forasteiro em Itajaí. Ao contrário, eu me sinto muito bem. Fui bem acolhido. Aliás, já conhecia Itajaí há muito tempo porque eu estou na região há 15 anos. Já fui secretário de Itapema, já fui secretário de Bombinhas. Já fui consultor da assembleia legislativa e já estive várias vezes aqui para ver problemas do Pequeno Anjo, do Marieta, para ver problemas da atenção básica. Então não me sinto em nada forasteiro. Me sinto competente e capaz para exercer a função para a qual o prefeito Volnei me confiou. Se ele me chamou, me chamou por alguma razão.

 

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