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Augusto Cury, psiquiatra e escritor


Nome completo: Augusto Jorge Cury
Idade: 59 anos
Local de nascimento: Colina/SP
Estado civil: Casado
Filhos: Três filhas
Formação: Médico psiquiatra, pós-graduado no Centre Medical Marmottan, de Paris, e na PUC de São Paulo, e doutor em Administração de Empresas pela Florida Christian University
Experiências profissionais: Atuou como médico psiquiatra e pesquisador da área, em especial às dinâmicas da emoção. Desenvolveu o que chama de ‘teoria da inteligência multifocal’ e o método ‘freemind’ [mente livre]. É autor de livros de ficção e autoajuda, já vendeu mais de 25 milhões de livros no Brasil e foi publicado em mais de 70 países. Conferencista e empresário, comercializa o projeto educacional ‘Escola da Inteligência’

“Infelizmente, há milhões e milhões de jovens no mundo todo que estão chafurdando na lama do egocentrismo, individualismo e egoísmo”

“[…] Encontre motivos para elogiar, pelo menos de duas a três vezes, os seus alunos, aquele que você considera mais difícil, os seus filhos, mesmo que eles te deem dores de cabeça. Elogie sua esposa e marido. […] Sem gestão da emoção, a educação forma servo e não pensadores.”

“Essa educação cartesiana, racionalista, não ensina os alunos a serem autores de sua própria história. Ela está formando pessoas doentes para uma sociedade doente”

Para muitos um guru. Para outros, um pesquisador que desvenda as potencialidades da mente humana. Há quem o reconheça como grande escritor e há quem ressalte seu lado empresarial. Talvez seja essa característica multifacetada que torne o médico psiquiatra Augusto Cury tão famoso. Ele esteve em Itajaí, palestrou para mais de cinco mil pessoas e dissertou sobre inteligência emocional, o conceito que baliza o ‘Escola da Inteligência’, pacote que apresenta um método educacional vendido à prefeitura de Itajaí por R$ 1,2 milhão. Ao jornalista Sandro Silva, Augusto Cury falou do ‘Escola da Inteligência’, respondeu as críticas sobre a comercialização do método e garantiu que renunciou aos direitos autorais da proposta que ele mesmo chama de “primeiro programa mundial de gestão da emoção para crianças e adolescentes”. Os cliques são de Lalo Bocchino.

DIARINHO – O senhor esteve em Itajaí palestrando para servidores da secretaria de Educação sobre a “Escola da Inteligência”. O que é esse método?
Augusto Cury – Bom, o ‘Escola da Inteligência’ é o primeiro programa mundial de gestão da emoção para crianças e adolescentes. É o primeiro programa de gerenciamento do estresse e que entra dentro da grade curricular com o objetivo de prevenir transtornos emocionais. E é o maior programa em todo o planeta de educação socioemocional. Nós trabalhamos com ferramentas vitais que todos os povos, todas as culturas devem incorporar no processo de formação de mentes brilhantes, no processo de formação de mentes saudáveis, de alunos que sejam líderes de si mesmos, autônomos, gestores da sua própria história e, inclusive, empreendedores. Quais são as ferramentas do programa ‘Escola da Inteligência’ que foram elaboradas ao longo de mais de 25 anos? Número um: pensar antes de reagir. Uma pessoa só é madura se ela é menos instintiva, se ela pensa. Mesmo quando alguém critica, ofende, rejeita ou que sofra bullying. Pensar antes de reagir é vital para que um ser humano, um estudante possa ter uma mente saudável e ser um pensador. Número dois: aprender a se colocar no lugar do outro. Sem aprender a empatia nós não conseguimos desenvolver uma sociedade inteligente. Infelizmente, há milhões e milhões de jovens no mundo todo que estão chafurdando na lama do egocentrismo, individualismo e egoísmo. Claro, os adultos também. Se não aprendermos a nos colocar no lugar do outro, nós não conseguiremos perceber as perdas, as mágoas, as frustrações; vamos julgar muito e abraçar menos. Infelizmente, nós estamos na era da ansiedade, na era da era da irritabilidade, na era do excesso de informação. E o que nós estamos assistindo é que está havendo o desenvolvimento de sociopatia, traço de sociopatia coletiva. Crianças e adolescentes no mundo todo, que não conseguem ser sensíveis, não conseguem dar um ombro para que seus colegas se apoiem, dar a sua capacidade, a sua habilidade para que eles possam escrever capítulos novos em dias tristes. Cada vez mais crianças e adolescentes aprendendo matemática, física, química e biologia e competências técnicas, eles não estão desenvolvendo altruísmo, solidariedade, generosidade e assim por diante. Então, desenvolver a empatia, que é uma das funções mais importantes para prevenir a psicopatia, a sociopatia, é vital. Outra ferramenta importantíssima é filtrar estímulos estressantes. Como nós vamos filtrar estímulos estressantes? Bom, nenhum de nós toma uma água contaminada. Pelo menos não de sã consciência. Você toma água que é mineral ou uma água filtrada ou fervida porque pode conter bactérias e vírus. Mas é quase inacreditável que nós desenvolvemos uma educação mundial cartesiana, racionalista e até irresponsável a respeito em filtrar estímulos estressantes. Os alunos da pré-escola, até à pós-graduação não têm as mínimas habilidades para, por exemplo, quando alguém me ofenda a minha emoção não pode comprar aquilo que não lhe pertence. Quando alguém me rejeita, me critica, quando eu passo por uma crise, eu tenho que transformar o caos em oportunidade criativa. Quando o mundo desaba sobre mim, ao invés de me punir e de punir os outros, eu vou usar toda a angústia, toda a dor para crescer e não para auto me destruir e nem destruir os outros. E essas habilidades não são trabalhadas inclusive nas melhores universidades do mundo, porque essas são racionalistas, cartesianas. No máximo, grandes universidades, como Harvard [Estados Unidos] ensina estudo de casos. Casos que deram certo, empresas que conseguiram superar crises ou se reinventaram ou produziram habilidades para se sustentar num mundo altamente competitivo. Mas nós não ensinamos os nossos filhos e alunos a serem líderes de si mesmos, a filtrar estímulos estressantes, a trabalhar com perdas e frustrações, a gerenciar o seu estresse. Por isso o programa ‘Escola da Inteligência’ vem suprir uma lacuna enorme. Essa educação cartesiana, racionalista, que bombardeia o córtex cerebral com milhões de dados mas não ensina os nossos alunos a serem autores de sua própria história, ela está doente, formando pessoas doentes para uma sociedade doente.

DIARINHO – Os parâmetros curriculares nacionais falam de elementos como solidariedade, respeito às diferenças e formação de cidadãos pensantes e críticos. Mas não dão as técnicas. O método da “Escola da Inteligência” também é prático, dá uma ferramenta ao educador?
Augusto Cury– Você tem toda a razão. Inclusive recentemente na minha palestra esteve o ministro da Educação e também mais recentemente esteve o diretor-geral do Ensino Médio [Do ministério da Educação] e ele me falou: “Nós colocamos nos currículos a educação socioemocional, que nós sabemos que é importante, mas muitos professores estão preocupados porque eles não têm educação socioemocional, então como vão ensinar aos seus alunos?”. Aí eu disse: “Se vocês quiserem, nós temos como ajudar os professores do ensino médio e também do ensino fundamental”. São mais de 400 mil professores. Junto com a polícia Federal e em destaque a academia de Polícia Federal, nós estamos trabalhando o ‘Freemind’ [Expressão da língua inglesa que quer dizer “mente livre”], que é o primeiro programa mundial de gestão de emoção para adultos. E eu disponibilizei gratuitamente o ‘Freemind’ para todos os povos e culturas, não apenas para o Brasil. Na polícia Federal, preocupado com o alto índice de estresse, de ansiedade e também no judiciário, de modo geral, de alto índice de suicídio, os policiais federais vão ter acesso ao ‘Freemind’, o programa chamado ‘mente livre’, que tem ferramentas como essa: aprender a proteger a emoção, a reeditar as janelas da memória, a ter um eu como autor da própria história, desenvolver resiliência e técnicas como duvidar, criticar e determinar, a mesa redonda do eu, onde você vai impugnar cada pensamento perturbador, cada sentimento de culpa, fracasso, fobias.

DIARINHO – O senhor também disponibilizou o ‘Freemind’ para casas que acolhem dependentes químicos. Não era essa a natureza inicial desse método?
Augusto Cury– Exatamente. O ‘Freemind’ também é utilizado em centenas de comunidades terapêuticas não apenas para transtornos emocionais como fobia e ansiedade, mas também o uso de drogas, que é uma verdadeira epidemia na sociedade. Há cerca de oito milhões de pessoas que têm o uso contínuo ou intermitente de drogas. Mas, no Brasil, atingimos de 25 a 30 milhões de pessoas diretamente, através de seus familiares. Nós precisamos de fato ter mecanismos preventivos. Caso contrário, a repressão, que é vital, que é importantíssima, não dá conta da demanda. Porque existe uma equação que eu estou preocupadíssimo e tenho falado em mais de 70 países onde sou publicado. Essa equação é: nunca tivemos uma indústria do lazer tão poderosa como na atualidade, mas nunca tivemos uma geração tão triste, tão ansiosa, com dificuldade de fazer das pequenas coisas um espetáculo aos olhos. Aumentamos em 40% o índice de suicídios entre jovens de 10 a 15 anos e nós precisamos dar ferramentas para que esses adolescentes e esses adultos jovens sejam autores da sua própria história. Ao invés de usar perdas, mágoas, auto-abandono, auto-punição para se destruir, eu vou usar a minha dor para me construir. O meu “eu” tem que ser protagonista. Eu tenho que aprender a não ser escravo do que os outros pensam e falam de mim e nem escravo das minhas angústias. E isso é vital, isso pode ser ensinado. Portanto, não adianta apenas falar contra as drogas, falar contra o suicídio, não adianta apenas fazer outdoor. Nós temos que ensinar de fato os nossos jovens, no mundo todo e não a casuística brasileira, a serem autores de sua própria história.

DIARINHO – Como instituições e ONGs podem ter esse acesso gratuito ao ‘Freemind’?
Augusto Cury– Ótimo! O ‘Freemind’ está disponível, todo o programa, que é um livro auto-aplicável, no ‘Hotel Gestão da Emoção’. É www.hotelgestaodaemocao.com.br. Você pode entrar e acessar todo o programa e aplicar na sua empresa, na sua escola, na sua instituição, na sua família, na sua igreja e assim por diante.

DIARINHO – Pesquisadores em educação fazem uma crítica a métodos educacionais construídos por não educadores e vendidos por empresas como pacotes a escolas privadas e órgãos públicos. Como o senhor responde a essa crítica em relação à ‘Escola da Inteligência’?
Augusto Cury– Em primeiro lugar, eu sou autor da tecnologia e eu renunciei aos direitos autorais do programa ‘Escola da Inteligência’. Reitero que é o primeiro programa mundial de gestão da emoção para crianças e adolescentes. Ele está disponível. Gestão da emoção seria um programa caríssimo quando eu faço para celebridades, por exemplo, para esportistas ou cantores. Mas eu disponibilizei a metodologia e hoje ela tem um custo muito menor que uma consulta médica e custaria centenas de vezes mais caro por pessoa. E renunciei aos direitos autorais. E, além de estar subsidiado em escolas particulares e é mais barato ainda em escolas públicas, porque são apostilas todas desenhadas, trabalhadas, equipes de psicólogos treinando, workshops com os pais, além disso estamos adotando orfanatos do Brasil e o nosso sonho é adotá-los todos para dar gratuitamente o programa escola da inteligência e junto com a academia da polícia Federal nós estamos adotando algumas das escolas mais violentas do país para também dar gratuitamente o programa ‘Escola da Inteligência’.

DIARINHO – O texto mais recente da Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional teve retirado de seu conteúdo palavras como “gênero” e “diversidade”, por exemplo, por pressão da bancada evangélica e sob protesto de educadores e pesquisadores em educação. Para o senhor, que já chegou a ser conferencista numa edição do Congresso Internacional sobre Intolerância e Discriminação, nos Estados Unidos, que consequências decisões como essa podem ter na formação educacional dos brasileiros?
Augusto Cury– Bom, em primeiro lugar o programa é mais grave do que ele se apresenta. Infelizmente, há uma hipersexualização na sociedade. Nós deveríamos aprender e perceber que, acima de sermos masculinos ou femininos ou de uma pessoa ser hetero ou homossexual, nós somos seres humanos. E 95% do nosso tempo nós deveríamos valorizar a humanidade. Por exemplo: sonhar, se inspirar, reeditar janelas da memória, reescrever a nossa história, inclusive trabalhar perdas e frustrações, desenvolver projetos de vida, superar a solidão, a angústia, a ansiedade. São fenômenos estritamente humanos e não estão ligados à sexualidade. Mas, infelizmente, na sociedade toda, no mundo todo, nós hipersexualizamos a humanidade e minimizamos a humanidade. Por isso é que está gerando esse conflito todo das pessoas valorizarem mais a questão sexual do que a humanidade. Então, a minha crítica é mais profunda. Nós deveríamos entender que as crianças, adolescentes e adultos deveriam, para resolver o problema de intolerância, se perceberem como seres humanos, ter paixão pela família humana e não ficar gravitando em cima de seus feudos. Se nós gravitarmos nos feudos sexuais, feudos religiosos, feudos políticos, filosóficos, a nossa espécie vai se tornar cada vez mais inviável.

DIARINHO – O senhor já foi considerado o autor mais lido no Brasil e um dos mais acessados em todo o mundo, com obras em pelo menos 80 países. Seus livros navegam entre ficção e o resultado de suas pesquisas no campo emocional. Ser escritor estava entre suas metas de vida? Como é que se deu esse boom literário?
Augusto Cury – Bom, quero aproveitar e dizer que estou lançando o livro ‘O homem mais feliz da história’. Esse livro mexeu com as raízes da minha mente. ‘O homem mais feliz da história’ fala de um personagem conhecidíssimo, o mais famoso de todos os tempos: Jesus Cristo. Mas o menos conhecido na sua mente. Todas as religiões falharam. Todas. Milhares de religiões que valorizam, admiram Jesus Cristo, falharam por não ter estudado a mente dele sob os ângulos da ciência. E as universidades foram tímidas, toscas, por também não terem investigado, por exemplo, as ferramentas que ele utilizou para trabalhar as habilidades mais importantes para que seus alunos se tornassem autores da sua própria história. Para você ter uma ideia, Pedro era hiperativo, tenso e ansioso. Se fosse um aluno nos dias de hoje, cada professor iria querer vê-lo a quilômetros de distância da sua sala de aula. João, que todos dizem que era generoso, o melhor deles, ele tinha personalidade bipolar. Num momento era tranquilo, sereno; no outro queria eliminar quem não andava com seu mestre. Tomé era paranóico, acreditava em teoria da conspiração, achava que alguém estava falando dele, não confiava na sua própria sombra. Matheus, se estivesse nos dias de hoje, talvez tivesse sido pego pela Lava Jato. E Judas Scariotes é o melhor deles. Da tribo do Zelote, é o mais dosado, o mais sereno e o mais culto. Mas não era transparente. Por isso não conseguia mapear seus fantasmas mentais e reescrever sua própria história. Mas, para espanto das ciências, o homem mais inteligente da história, o homem mais feliz da história, ele conseguiu trabalhar na mente de seus alunos e transformar mentes toscas e rudes em mentes brilhantes. Veja bem, é quase inacreditável. Nós estamos no mundo das startups e dei treinamento inclusive no Vale do Silício. Acabei de dar treinamento há pouco tempo para grandes líderes no Vale do Silício. Estamos desenvolvendo, inclusive, um projeto mundial para diminuir o fosso da educação entre nações ricas e nações pobres através de uma série de cursos. Mas esses homem, Jesus, a criança mais admirada e mais aplaudida nos natais, em todo o mundo, ele conseguiu com uma equipe de 12, que se transformou em 11, fazer a maior startup mundial da educação. Eles só viam peixe e o mar da Galileia, mas conseguiu levá-los a terem uma ambição saudável, a ter o sonho de contribuir com a humanidade. Se você não tiver grandes sonhos, muito provavelmente você será escravo da rotina, viverá nos cárceres cerebrais, no medo do que os outros pensam de você, no medo de correr riscos. E quem vive sem riscos triunfa sem glória. Por isso que ele mudou o traçado da humanidade porque investiu em educação. Temos que ter uma educação emocional, onde todos os dias nós aprendemos a nos colocar no lugar do outro, nós aprendemos a perceber que somos seres humanos imperfeitos, que vivemos com pessoas imperfeitas e que nós temos que aprender a perceber que há um charme em certos defeitos dos outros que são suportáveis. Nós não devemos ter a necessidade neurótica de mudar os outros. Devemos mudar a era dos relacionamentos humanos, era do apontamento de falhas para a era da celebração dos acertos. Por favor, encontre motivos para elogiar, pelo menos de duas a três vezes, os seus alunos, aquele que você considera mais difícil, os seus filhos, mesmo que eles te deem dores de cabeça. Elogie sua esposa e marido. Caso contrário, sem gestão da emoção rico se torna miserável, casais começam seu relacionamento no céu do afeto e terminam no inferno dos aflitos. Sem gestão da emoção, a educação forma servo e não pensadores. Que o homem mais feliz da história possa te ensinar algumas ferramentas vitais. Eu aprendi como psiquiatra e como cientista, embora tenha sido um dos maiores ateus que já pisaram nessa terra.

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