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André Ricardo da Silva

Professor de Física

NOME: André Ricardo da Silva
NATURALIDADE: Curitiba PR
IDADE: 43 anos
ESTADO CIVIL: casado
FILHOS: dois filhos
FORMAÇÃO: Formado em Matemática pela PUC , do Paraná, e especialista pela Universidade Federal do Paraná
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: professor de física e matemática desde 1994, lecionando no colégio Unificado, colégio de Aplicação da Univali (CAU) e colégio Integral

O professor André Ricardo da Silva, ou simplesmente Belê para os seus alunos, decidiu unir duas paixões: o surfe e a física. Professor de colégios particulares de Itajaí e Balneário Camboriú, além de atuar em cursinhos pré-vestibulares, ele acumula duas décadas em sala de aula ensinando física e matemática para as novas gerações. Este ano ele decidiu levar todo esse conhecimento para a praia com o projeto “Aulas de Física no Mar”. À jornalista Franciele Marcon, o professor explica que enquanto surfa com uma turma reduzida de alunos, vai repassando temas como gravidade, ondulação, e aplicando as leis de Newton na prática. Os exercícios são feitos antes ou depois da sessão de surfe. O objetivo da aula é ter uma conexão direta com o aluno. As vantagens são a interação e a descontração que facilitam a aprendizagem. Belê ainda falou sobre o uso de tecnologia em sala de aula, dos ídolos do esporte e contou alguns causos da vida de professor. As fotos são de Fábio Pitella.

DIARINHO – Você é um surfista que virou professor de física ou um professor de física que surfa nas horas vagas?
André: Eu sou um surfista que virou professor de física. Na verdade, o surfe é hobby. E a docência é profissão. Como profissional eu sou professor, até porque meu nível de surfe não dá pra considerar assim surfista profissional. O meu surfe é uma vez durante a semana e aos finais de semana. Vida corrida não tem tempo de surfar continuamente. Eu sou professor e gosto muito do surfe [O surfe vem desde a adolescência?] Sim. Minha primeira prancha eu ganhei acho que devia ter uns 12 pra 13 anos. Na época em que eu morava no interior do Paraná. Era São Mateus do Sul. Para surfar era, no máximo, duas vezes por ano. Férias de julho e as férias de final de ano. Porque não tinha carro, não tinha carteira, não tinha nada. Quando eu fiz 18 anos fui morar em Curitiba e aí já ficava mais próximo da praia, eu conseguia surfar aos finais de semana. Depois de formado, eu casei e vim pra Balneário Camboriú. Agora eu estou do lado da praia. Daí eu consigo surfar mais.

DIARINHO – Você tem a proposta de uma aula de física prática e alternativa, cuja sala de aula é a praia. A promessa é ensinar as leis de Newton dentro do mar. Como isso funciona?
André: A ideia é levar o aluno pra um ambiente mais descontraído. A Física vai continuar sendo Física tanto na sala de aula quanto na praia. Os conceitos eu posso abordar em qualquer situação. O que talvez gerasse alguma dificuldade na praia fosse a questão de resolução de exercícios. Não tenho lousa, não tenho aonde anotar. Mas isso pode ser feito na areia antes ou depois da atividade do surfe. Então o que a gente tem como ideia, dicas, tirar dúvidas, comentários, isso dá pra fazer enquanto está surfando. E ainda durante a prática do surfe, eu consigo abordar conhecimentos necessários que sejam dúvidas frequentes dos alunos.

DIARINHO – As aulas tem custo? Quem não pode pagar tem alguma chance de participar?
André: Sim, as aulas tem custo. É uma situação tão prazerosa que por mim até nem cobraria, mas como eu tenho que pagar as contas, né… Efetivamente tenho que cobrar alguma coisa, como se fosse uma aula particular. Tem custo. Mas, sim, quem não tem condições dá pra gente encaixar numa turma. [Podes dar exemplos do que tu citas no meio ambiente pra explicar a física…] O surfe é pura transformação de energia. Então o que eu tenho, quando ele está dropando a onda, ele está no alto, ele tem a energia potencial gravitacional, que é a energia relacionada à altura, que seria potencial gravitacional máxima. A medida que ele vai perdendo altura, ele vai ganhando velocidade, então ele vai perdendo energia potencial gravitacional e ganhando em cinética. Quando ele chega na base da onda, ele dá a cavada e faz de novo essa transformação. De cinética pra gravitacional pra poder fazer a manobra. Na verdade, a física está em tudo. Assim como eu abordei agora um exemplo da mecânica, eu poderia falar sobre ondas, que é o que eu estou fazendo, aproveitando as ondas… Tem vários assuntos que podem ser abordados. Claro que vai depender do que o aluno deseja. Por exemplo, se eu tivesse dando uma aula pra revisão pro Enem, que vai acontecer em breve, o tema que mais está sendo cobrado é ondulatória. Aí, no mar, ondulatória, perfeito. Fecha. O outro tema que é muito cobrado é essa transformação de energia que eu citei agora. É muito cobrado transformação de energia e também fecha com as aulas no mar.


A Física vai continuar sendo Física tanto na sala de aula quanto na praia”

DIARINHO – Porque o ambiente da praia pode ajudar o aluno que enfrenta dificuldades pra assimilar o conteúdo em sala de aula?
André: Quem poderia explicar melhor a parte, como eu vou dizer, emocional, é a Dani Firpo, minha coaching. Ela trabalha com essa parte do emocional. Mas o que dá pra garantir é que num ambiente muito mais descontraído é mais fácil de o cara me levar a sério. Por exemplo, se ponho um aluno numa sala de aula com outros trinta e poucos coleguinhas, celular, sei lá, tem inúmeras distrações. Agora, na água, só tem eu e ele. Não tem como se distrair. Então fica mais fácil, acredito eu, num ambiente descontraído. O ambiente da natureza também oportuniza um estado mais relaxado, com menos estresse e ansiedade. Aliar o tema do estudo com algo prazeroso, segundo a neurociência, ajuda na memória de longa duração. A atividade no mar propicia outra forma de estudar física, derrubando muitas crenças e padrões de pensamentos.

DIARINHO – E quem não manja de surfe e nem de física? Pode ir também?
André: Pode, claro. As turmas já são reduzidas, a ideia é trabalhar com um número bem pequeno de alunos, para que eu tenha uma atividade segura. Que eu possa dar assistência, que eu possa ir atrás, que eu possa de repente, se o aluno apresentar alguma dificuldade no surfe… Porque tem alunos que não sabem absolutamente nada de surfe, mas eles querem estar na água, querem aprender. Essa ideia de fazer aula no mar também surgiu por causa disso. Os meus alunos veem minhas fotos de final de semana surfando e eles me convidam. “Pô, professor, vamos fazer um surfe?!.” Eu tenho uns alunos que vem e falam. Eu tenho filhos, e eu surfo com meus filhos. “Pô, professor tu podia me ensinar que nem tu ensina teu filho” e tal. Então, quem não tem habilidade nenhuma pode estar junto. O que a gente faz, pega um ponto da praia que as ondas sejam mais calmas, mais tranquilas, e aí eu até dou umas aulas de surfe também. O foco é dar aula de física, mas se precisar dar umas dicas de surfe também tem.

DIARINHO – São mais de 20 anos lecionando, o que mudou no modo de ensinar e de aprender nessas duas décadas?
André: Ah, a gente aprende muito com o tempo. A própria idade, as próprias tentativas frustradas. Porque as vezes você lança um projeto e acaba não dando certo. A gente vê o que mais ou menos dá certo e o que não dá. Não sei como responder. [E na mecânica de sala de aula, no aprendizado em geral, tu achas que teve muita mudança nessas décadas?] Ah, sim, sempre tem. Mas é que a educação, a aprendizagem é uma via de mão dupla. Então, por exemplo, aconteceu uma situação comigo, até achei estranho, num ano eu fui eleito o melhor professor do colégio, fui homenageado, fui ovacionado. No ano seguinte, eu fui chamado porque os alunos não estavam entendendo direito a matéria e tal. Tinha certo problema de convivência. Daí eu falei, mas como, se é o mesmo professor do ano passado pra esse ano, é a mesma faixa etária, como é que dessa vez está dando problema se o ano passado eu era o melhor da escola? E nesse mesmo ano, mudei um pouco a abordagem, o jeito de falar e no final do ano, novamente, eu estava sendo homenageado como o melhor da escola. Por exemplo, você chega numa turma de uma maneira mais descontraída, eles acham o máximo, “ai que legal”. Você chega na outra turma da mesma forma, eles vão dizer “palhaço, ele veio aqui pra brincar”. Então tem abordagens diferentes para turmas diferentes.

O surfe é pura transformação de energia”

DIARINHO – Hoje os alunos estão conectados às redes sociais e à internet. Isso facilita a possibilidade de pesquisa e de acesso à informação, mas também dispersa e distrai. O aluno do século 21 tem mais vantagens ou desvantagens frente a outras gerações?
André: Eu acho que ele tem mais vantagens, desde que utilize a ferramenta de forma adequada. Por exemplo, eu peço em sala de aula para eles utilizarem o celular como conversor de unidades. Normalmente, o erro mais comum em provas de vestibulares e concursos é usar a unidade no padrão errado. Então eles usam como conversor, o que facilita eles gravarem. Quando vê aquela unidade “peraí, quando chegava aqui o professor pedia pra pegar o celular. Então lembra que tem que transformar”. Assim como eles usam as vezes até para calculadora, para agilizar o processo. Porque a física, ou as questões de física, como posso dizer, entre 30% e 50% é matemática. O conceito é 50% a 70%, o resto é mão à obra. Durante a aula calculadora pra mim agiliza muito o processo, ele não perde tempo fazendo continha. Também ajuda na busca pela informação. Às vezes, você faz um comentário e o aluno “pô, professor, mas eu li em algum lugar que alguém viu que era assim”. Vamos lá e busca a informação no celular. Achamos. Então ele agiliza muito, torna isso muito fácil. Se a ferramenta [a internet] for usada de maneira correta, com certeza o aluno tem muito mais vantagem agora do que antigamente. Agora se for usar a ferramenta pra ficar distraído com Instagram, Facebook, fotinho e bate-papo, é desvantagem. Vejo, por exemplo, meus filhos. Vamos na praia, vamos andar de skate, de bicicleta e tal. “Não, pai, deixa só eu ver um negócio aqui, vou responder, já vou…” Quer dizer, ele está perdendo de estar lá fora, por um bate-papo que ele poderia fazer em outro horário, em outro momento. Às vezes é o que acontece em sala de aula. O professor está lá explicando, o aluno está lá no fundo distraído com celular. “Ah, mas eu não entendi”. Não entendeu porque você não estava me ouvindo. E numa aula na praia não tem como ele não estar conectado em mim. Tem pouquíssimos alunos, eu e ele, fica bem mais fácil.

DIARINHO – Segundo as estatísticas, o brasileiro tem dificuldades para aprender matemática e, consequentemente, ciências exatas. Dá para reparar isso?
André: Eu acredito que sim. Eu digo para meus filhos que eles podem ser bons em qualquer coisa, desde eles treinem, eles pratiquem. A palavra é treino. Não chega nem ser dedicação. Porque se ele se dedicar só aquilo, ele não vai ser bom, ele vai ser ótimo. E se além de ser dedicado, ele tiver um talento pra aquilo, ele não vai ser ótimo, ele vai ser perfeito. Por exemplo, eu gosto muito de nadar, eu nado. Então, eu sou um bom nadador. Se eu nadasse todos os dias eu seria um ótimo nadador. E se eu tivesse um dom, eu seria o Michael Phelps. É uma soma de situações. Se pratica, vai aprender. É prática, a prática faz a perfeição. Se o cara treinar ele fica bom. [Como surgiu certa aversão à matemática?] Olha, essa é uma pergunta que eu não sei responder. No meu caso não existe essa aversão. Eu adoro. Eu acho tão fácil. Eu brinco com meus alunos que filosofia… Na verdade, eu digo, difícil é “fisolofia”, que é como meu filho falava. Difícil é filosofia que você tem vários pontos de vista, várias referências… Às vezes você tem que citar uma referência, às vezes tem que citar outra que é totalmente diferente. Ás vezes o cara pergunta tua opinião, que é outra. E a matemática não. É exata, é aquilo e deu. Eu digo pra eles, só precisa ter dedos, faz as continhas e está resolvido. Então eu não entendo muito o por que da aversão. Claro, eu sei que tem pessoas que tem facilidade pra uma linha ou facilidade pra outra. O cara que tem mais facilidade pra leitura tem menos facilidade pra números. O cara que tem mais facilidade pra números, menos pra leitura. Aversão, esse horror, eu não entendo. Eu acho que quando pequeninhos, na quinta, sexta série, devem ter sofrido algum trauma, alguma coisa assim. Não sei. A física não explica esse tipo de aversão à matemática.

Se a ferramenta [a internet] for usada de maneira correta, com certeza o aluno tem muito mais vantagem agora do que antigamente”

DIARINHO – O desemprego e a informalidade nas relações de trabalho são realidades de um país em crise. Os universitários cursam até cinco anos de faculdade com a expectativa de um futuro estável e promissor na carreira. Quais as profissões que estão mais sendo procuradas pelos seus vestibulandos?

André: Eu estou dando aula num cursinho específico para Medicina. Só tem alunos interessados em Medicina. Nos colégios em que eu atuo, aí é geral, não tem uma demanda maior nessa ou naquela profissão. Até porque os alunos dos colégios particulares onde eu estou, eles têm interesse maior em fazer a própria Univali – que já é aqui. A maioria, é claro. Tem o pessoalzinho que quer fazer Federal, que sair do ninho. A maioria acho que prefere ficar aqui e até sai mais barato pagar faculdade do que que não pagar, mas tem o aluguel, deslocamento, alimentação…

DIARINHO – Atalaia ou Praia Brava? Onde está a onda perfeita em Itajaí?
André: Eu acredito que está na Praia Brava. Mas eu, particularmente, prefiro a onda de Balneário, porque como eu já sou um pouco mais lento e tal. A onda de Balneário, pra mim, é melhorzinha. Até porque vou com crianças e a Praia Brava ela é mais cavada. [E quem são as suas referências no surfe e na educação?] No surfe eu gosto muito, tenho como referência, o Fábio Fabuloso, que agora está em Florianópolis. Gostaria também de citar alguns surfistas locais como Adriano Trinca Ferro, Willian Cardoso e alguns ex-alunos como Matheus Navarro, Guilherme Marques. Na área da educação acho fantástico Mario Sérgio Cortella.

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