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Ana Paula Majcher

Psicóloga, especialista em maternagem

Nome completo: Ana Paula Majcher
Idade: 31 anos
Natural: Jaraguá do Sul
Estado civil: Divorciada
Filhos: Dois
Formação: Graduação em Psicologia, com especialização em Terapia Cognitiva Comportamental
Experiências profissionais: atua com psicoterapia desde 2011, inicialmente com atendimento infantil e atualmente focada no atendimento adulto na área de família e maternidade. Palestrante e idealizadora do instagram @gestandoeaprendendo, que ajuda mulheres a passar pelos desafios da maternidade

Sim, a maternidade tem um lado “B”. Um lado que não é agradável, não é fácil e que pode ser muito angustiante. É sobre esse tema, ainda considerado tabu e que pode, inclusive, levar a quadros de depressão pós-parto, que a psicóloga Ana Paula Majcher se debruça em seu cotidiano profissional. Criadora da conta ‘Gestando e aprendendo’ no Instagram, que ajuda mulheres a passar de forma mais leve pelo que chama de maternagem, Ana Paula também organiza grupos de apoio, promove psicoterapias e dá palestras sobre o tema. Nesse Entrevistão feito pelo jornalista Sandro Silva, a psicóloga explica os aspectos clínicos da depressão pós-parto, fala das dificuldades da maternidade e revela as dificuldades que enfrentou como filha e como mãe que a levaram a se debruçar sobre o tema. Os cliques são de Fabrício Pitella.

“Não quer dizer que se você teve uma depressão pós-parto que você vai ser eternamente um depressiva. Não”
DIARINHO – Numa entrevista recente ao DIARINHO você afirmou que 25% das mulheres brasileiras sofrem de depressão pós-parto. Essa proporção é muito grande. De onde vem essa estatística? E essa proporção é apenas no Brasil ou se repete em outros países?
Ana Paula Mejcher – Essa estatística vem do próprio Ministério da Saúde e ela é brasileira. Fora do Brasil eu não sei informar exatamente a estatística. Mas é muito preocupante. E, claro, tem outras pesquisas, talvez até mais recentes, que falam entre 10 e 20%. Mesmo assim é uma taxa muito alta. Se você for analisar no macro, é muito alta.

DIARINHO – Já estão identificadas as principais razões da depressão pós-parto e a razão da estatística ser tão expressiva?
Ana Paula– Na verdade tem vários fatores que colaboram. Dentre eles os sintomas anteriores, para quem já teve algum tipo de depressão, algum tipo de transtorno psicológico, para pessoas que têm filhos sozinhas e que não têm uma boa rede de apoio, para mães solteiras por conta também da falta da rede apoio. Mas a principal questão, que mais colabora com isso, é a taxa hormonal, que diminui muito e atinge as mães após o nascimento do bebê. Isso acaba acarretando uma depressão pós-parto. [E quais hormônios, em especial, acabam sofrendo essa redução no corpo da mulher?] O estrogênio e a progesterona. Todas as mulheres têm uma queda muito grande desses hormônios após o nascimento do bebê, mas isso, aliado àqueles outros fatores que falamos anteriormente e aliado, principalmente, à privação do sono, pode acarretar em uma depressão pós-parto.

Eu me vi nesse lado “B” de ser mãe e falei: ‘Eu preciso ajudar as pessoas a não passarem por isso ou passar de uma forma mais leve’”

DIARINHO – É possível se prevenir da depressão pós-parto? Se é, seria preciso um tratamento clínico psicológico ou é preciso a intervenção química e tratamento com remédios?

Ana Paula– Na verdade, a gente não tem como garantir em 100% que a mulher não vai ter a depressão pós-parto. Não são apenas as questões psicossociais que influenciam, mas também é uma questão química, orgânica. Porém, existe, sim, alguns fatores que podem ajudar. Por exemplo, a mulher ter uma boa rede de apoio, se já faz algum tipo de acompanhamento psicoterápico, se está preparada para as adversidades que a maternidade vai trazer. Infelizmente, é muito romantizado, que “é tudo maravilhoso”. Então, quando a gente vai com expectativas mais baixas, sabendo que também vai se frustrar, que vai ter uma privação de sono imensa, provavelmente no início, que nem tudo vai sair como se quer, aí já fica um pouquinho mais fácil de encarar. E há chances, até mesmo de diminuir uma possível ocorrência de depressão, porque não fica toda aquela pressão.

DIARINHO – Existe cura para a depressão pós-parto? Essa doença deixa sequelas?
Ana Paula – A depressão pós-parto tem tratamento. O tratamento basicamente é medicamentoso e associado à psicoterapia. Só a medicação resolve? Ela vai resolver os sintomas, mas não vai resolver a causa. Só a psicoterapia resolve? Vai tratar do paciente, vai ajudar, mas vai precisar da medicação, porque também é um problema orgânico. Então precisa das duas formas. E não quer dizer que se você teve uma depressão pós-parto que você vai ser eternamente depressivo. Não. Na hora a pessoa precisa, sim, de ajuda, precisa identificar para saber que está passando por isso, para daí ir atrás de um psiquiatra, que é o profissional que vai fazer essa avaliação e, depois, consequentemente e paralelamente a isso, fazer a psicoterapia.

DIARINHO – E como as pessoas identificam esses sintomas de depressão pós-parto?
Ana Paula– Primeiro é preciso esperar passar alguns dias. O que é que acontece? Entre 15 e 20 dias é bem comum a mulher ficar mais melancólica, mais triste, mais chorona, mais emotiva. Justamente por essa queda vertiginosa de hormônios. Se passados esses 15, 20 dias, a situação for piorando, for se intensificando, a mulher não consegue lidar com as frustrações, a privação de sono está muito difícil, não tem apoio familiar, já não tem muita vontade de ficar com o bebê, às vezes tem pensamentos mais graves como não querer aquela criança, de querer desistir da amamentação ou qualquer outra coisa, aí a família, principalmente, e também essa mulher devem perceber o que está acontecendo e buscar ajuda. O problema, hoje em dia, que vejo como principal, é que com o excesso de romantização, é como se a mulher tivesse essa obrigação de ser extremamente feliz e amar esse bebê desde o primeiro momento e não poder sentir aquelas coisas ruins. Qualquer sentimento como raiva, tristeza, angústia, culpa, medo e insegurança, é como se ela estivesse falhando. Mas ela não está falhando.

DIARINHO – Em abril deste ano a atriz global Samara Felippo fez um desabafo que provocou bastante polêmica nas redes sociais. Ela disse no Instagram que ama as duas filhas, mas não ama ser mãe. A atriz sofreu muitas críticas, mas também apoio. Até que ponto essa pressão social de que a mulher nasceu para ser mãe e que deve se entregar completamente à maternidade sem pensar em si pesa no psicólogo e pode gerar, inclusive, sentimentos de culpa, traumas ou mesmo depressão pós-parto?
Ana Paula– Você vê muitas pacientes no consultório com essa demanda, justamente. Inclusive, algumas até se arrependem de ter se tornado mães por todas as coisas que se perde enquanto vivem a maternidade. Por quê? Porque a pressão social é muito grande. É como se você tivesse que ser mãe e abdicar de toda a sua vida. Mas não! Você pode ser mãe e ao mesmo tempo trabalhar, ao mesmo tempo ter uma boa relação familiar, ao mesmo tempo ter um canto só pra você. Infelizmente, a sociedade cobra demais. Nossa, vira mãe e aí parece que aquela mulher deixa de existir. Só que se essa mulher deixar de existir, a gente vai ter um problema muito sério, porque ela vai perdendo a identidade, daqui a pouco ela já não sabe mais quem ela é, daqui a pouco ela está vivendo só em função da criança e aquilo vai angustiando, vai causando uma culpa muito grande e daqui a pouco ela não sabe nem mais o que gosta de fazer. Tem muitas mães, muitas mães que me relatam isso, sabe? Que amam seus filhos, mas que não amam ser mães. Claro, costuma ser uma escolha. A gente escolhe se tornar mãe, mas mesmo assim é uma questão muito delicada, porque nessa experiência nem tudo é maravilhoso.

Não tem como garantir que a mulher não vai ter a depressão pós-parto. Não são apenas as questões psicossociais que influenciam, mas também é uma questão química, orgânica”

DIARINHO – Uma pesquisa recente mostrou que grande parte da população é contra o aborto, mesmo em caso de estupro e de risco à vida da mãe. A sociedade costuma responsabilizar e culpabilizar a mãe pela gravidez. O filho foi gerado por um homem e uma mulher, mas pouco se fala do abandono parental. À luz da psicologia por que a sociedade responsabiliza unicamente a mulher?
Ana Paula– É como se a mulher fosse santificada. Então, você ser mãe é uma coisa assim maravilhosa, sublime, espetacular. É! Ok! Mas nem pra todo mundo… E por que é que se fala tanto da mãe, quando tantos pais abandonam os filhos? Pros homens isso é normal… Quando é o contrário, eles abrem os olhos desse tamanho, apontam os dedos, julgam e criticam. Isso é muito angustiante, porque ninguém pode ter um filho sozinho, mas geralmente sobra para a mulher ter o filho sozinha. [Então o machismo influencia em toda essa pressão psicológica sofrida pela mulher?] Muito, muito. O conservadorismo, o machismo… É claro, tem também as questões religiosas. A gente sabe que isso também faz parte. A questão não é ser contra ou a favor do aborto. A questão é: aquelas crianças que são “abortadas” [abandonadas] pelos pais, às vezes até pela mãe, e vivem por aí, não tem ninguém que cuida, ninguém que as acolhe… É uma questão muito delicada mesmo para lidar. Não tem certo ou errado.

DIARINHO – Você, além de clinicar, também atua em grupos de conversas e de terapias com mães. Sobre esse outro lado da maternidade, que necessariamente não é tão maravilhoso como se diz, o que as mulheres mais falam, do que mais reclamam, o que mais sofrem?
Ana Paula– Com certeza é com a sobrecarga. Porque a mulher é a responsável pelo lar, a mulher é responsável pelo trabalho, é responsável pelos filhos, pelas tarefas escolares, pelas roupas das crianças, pela alimentação das crianças e do marido. A mulher acaba sofrendo uma sobrecarga muito grande. Muitas vezes, infelizmente, os pais não participam ativamente na vida dos filhos. Então eles acham que “ajudar” acaba sendo o máximo. “Ah! Mas eu ajudo a minha esposa de vez em quando”. “Ah! Mas eu levo os meus filhos de vez em quando na escola”. Mas acaba, infelizmente, sobrando demais. Nesses grupos de apoio e, especialmente, quando se trabalha com esses grupos, o mais interessante e o que mais acontece é ver que uma mãe fala ou traz algum sentimento, alguma angústia, e todas elas passaram por algo muito semelhante ou igual. Então existe aquela questão da empatia, do acolhimento entre o grupo. E mesmo quando elas não concordam, quando elas não acreditam que é exatamente daquela mesma forma, elas acabam acolhendo. E acontece algo assim: “Eu não concordo com você, mas eu te respeito, independente do que você pensa”. (…).

DIARINHO – Há algum grupo especial de mulheres que costuma sofrer mais as pressões psicológicas da sociedade quando o assunto é ser mãe?
Ana Paula– Geralmente é o grupo formado por essas que expõem de verdade o que sentem. Aquelas que falam realmente do lado “B” da maternidade, aquelas que falam “meu Deus, hoje o dia foi pesadíssimo, que vontade de ‘jogar o meu filho pela janela’”. Óbvio que as pessoas, às vezes, interpretam essa expressão com um olhar aterrorizado e tal, mas é só um desabafo. (…) É uma questão de expor que nem tudo são flores e que tem momentos que são difíceis pra caramba. E está tudo bem. Porque a pessoa vai lá, desabava e depois volta à vida normal, à vida que segue.

DIARINHO – Essas mães que assumem que realmente existe um lado “B” da maternidade pertencem a algum grupo socioeconômico específico? É a classe média, são mães das classes trabalhadoras, são mães da extrema miséria, são mães das classes mais abastadas economicamente? Existe um padrão econômico?
Ana Paula– Não, não necessariamente. Acho que é muito mais uma questão pessoal mesmo, de se sentir à vontade, de não dar bola para tanto julgamento. E uma questão bem importante, que acho legal a gente falar aqui, é que quando uma gestante ouve a gente falando desse lado “B”, muitas vezes elas interpretam como se estivéssemos as desencorajando. Na verdade não é nada disso. É justamente o contrário. É para mostrar que, sim, vai ser maravilho, vai ser bom, vai ser gostoso, mas haverá alguns momentos que não vai ser tão maravilhoso assim e que são normais as reações. A gente não vira um ET para passar por isso. (…).

DIARINHO – Santa Catarina e o nosso vizinho Rio Grande do Sul tem uma estatística vergonhosa. São os estados onde há mais violência de homens contra as mulheres. Inclusive são campeões de feminicídios. Há um padrão entre mulheres que sofrem depressão pós-parto e a violência doméstica ou são coisas separadas e que não se influenciam?
Ana Paula– Sem dúvida influencia. O próprio apoio do parceiro é fundamental nesse momento. Imagine, a mulher já está enfrentando tudo aquilo do puerpério, que é aquela fase pós nascimento do filho, do bebê, e ainda tem um parceiro que agride, seja psicologicamente ou fisicamente. Então, com certeza isso colabora para essas estatísticas da depressão pós-parto.

DIARINHO – Há um termo que tem sido bastante usado hoje que é “maternagem”. O que significa maternagem?
Ana Paula– Nada mais é do que a forma que as mães têm de maternar, de criar seus filhos, de educar, de lidar com aquele bebê, com aquela criança. É a forma como cada mãe lida com a sua maternidade. Basicamente é isso. É algo antigo que ganhou um nome mais sofisticado, digamos assim.

DIARINHO – Você criou uma conta no Instagram, que é bastante acessada, que é a ‘Gestando e aprendendo’. Como nasceu a ideia de criar essa conta?
Ana Paula– Costumo dizer que a minha luta diária no ‘Gestando e aprendendo’ é mostrar para as mães que, apesar de tudo, elas podem ter uma maternidade mais leve, alegre e tranquila. E como nasceu é a parte mais interessante disso tudo, porque são dois fatores bem fundamentais na minha vida. Eu fui criada pelo meu pai. Quando eu tinha seis anos os meus pais se separaram, minha mãe chegou a ficar com a gente por um tempo, mas infelizmente ela não tava em condições financeiras ou psicológicas de ficar com a gente. Então acabou, entre aspas, devolvendo a gente pro meu pai. Conforme eu fui crescendo e quando eu me tornei mãe eu fui entendendo esse lado. Porque, por muito tempo, eu não consegui entender porque a minha mãe fez aquilo… Parecia algo terrível. A gente se dá super bem, mas na época, quando eu era criança, imagina a confusão que isso causou na minha mente, né? Aí fui crescendo, fui começando a perceber outras coisas e a entender o lado dela, enfim… Aí me tornei mãe e vi que esse lado não é nem tão maravilhoso nem tão mágico assim. Aí comecei a entender mais ainda, surgiu a empatia. [Você já era psicóloga quando foi mãe e já atuava nessa área da maternagem?] Já era psicóloga, sim. Exclusivamente com a maternagem, não. Eu atendia crianças. Aí depois que eu engravidei eu vi a necessidade de atender as mães. E aí, por conta dessa questão da minha mãe, eu pensei: “Poxa, será que se naquela época ela tivesse tido um acompanhamento psicológico adequado, um tratamento, enfim, será que não teria sido diferente? Eu não sei se teria sido diferente pra ela, mas eu sei que de hoje em diante eu posso fazer algo pelas mães”. Então foi aí que começou a minha luta. E, claro, porque a minha maternidade também foi completamente louca. Tive todas as coisas que jamais pensaria: dois filhos prematuros; o primeiro ficou na UTI alguns dias; quase morri no meu parto; foram duas cesárias de emergência; uma filha teve APLV, que é uma alergia à proteína do leite de vaca e tive que fazer uma dieta especial para poder amamentar; o primeiro filho não consegui amamentar e então me sentia um “lixo”, como se fosse a pior coisa do mundo. E várias críticas também. Familiares que, às vezes, não me apoiavam. Então me vi nesse lado “B” e aí eu falei: “Cara! Eu preciso ajudar as pessoas a não passar por isso ou passar por isso de uma forma mais leve”. Por isso costumo usar as minhas vivências também, além das vivências do consultório. Porque eu sei a dor que as mães sentem. Eu senti muitas dessas dores. Quando a gente vivencia aquilo, torna mais real, mais enfático. [Tem interação no ‘Gestando e aprendendo’? As mulheres falam, expressam o que sentem e passam?] Tem, tem. É bem engraçado que tem alguns posts que a gente coloca e que são bem cabeludos e chego a pensar “será que posto isso, não posto”. E aqueles mais pesados, em que fico com o pezinho atrás, são os que mais têm interação, são os que mais as mães se abrem, contam as histórias delas. Eu recebi muitas mensagens no Direct do Instagram [função que permite trocar mensagens e fotos de forma privada com os seguidores] e é onde chegam os piores relatos. Chega a arrepiar. É mágico ver essa transformação, é mágico ver como a internet, como um meio tão simples pode ajudar. [Você tem contato com seus seguidores?] Sim. Tem muitas pacientes que vêm por ali. Os grupos de apoio sempre são divulgados, que é um grupo de psicoterapia. Às vezes a gente se encontra para tomar um café. Sempre tem alguma coisa que acaba nos unindo. A gente faz áudio e faz outras coisas que acabam tendo também uma participação bem legal. E às vezes é aquela coisa: nem todo mundo pode pagar por uma psicoterapia e, muitas vezes, um post sincero pode ajudar muito uma mãe que está sofrendo ou passando por alguma dificuldade.

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